Taças

Julho – 1988.

Noite estrelada.

Fui à loja de antiguidade do Sr. Ernesto. Lá, parece que o tempo parou. A sensação começa com o sininho da porta de entrada: ele nos leva no tempo. À primeira vista a impressão que se tem é de uma grande desorganização: objetos e móveis amontoados, mas o todo é bonito.

O próprio Sr. Ernesto parece tão antigo quanto suas antiguidades. Usa óculos minúsculos na ponta do nariz e seu cabelo é de branco amarelado; até seu andar é arrastado, como se o andar o trouxesse ao presente quando o seu mundo é o passado. Acho-o um velhinho carismático.

Seus olhos vivos brilham ao contar uma história ou estória de peças antigas.

Lembro-me que diariamente passava em frente à sua loja, sem ter tempo para entrar. Minha loja de roupas femininas ficava na mesma galeria, e só depois de alguns meses ali instalada é que passei a ir lá. Até então, nunca comprara objetos antigos, apesar de achá-los bonitos ou interessantes, principalmente ao ver um objeto que traz em si um significado e uma história distantes. Sorria ao ouvir minha sócia perguntar o que é que eu via de tão atraente.

No final da tarde, quando eu tinha tempo e disposição, ouvia as histórias de um velhinho, que mais parecia fora do tempo. Era até paradoxo ter uma loja de roupa feminina de vanguarda, com néon colorido e uma clientela adolescente e, algumas lojas depois, um senhor, como dizia minha sócia, e seu museu.

Ao entrar na loja tinha esperança de encontrar meu candelabro restaurado, pois há mais de um mês o deixara ali. Somente hoje fui pegá-lo.

Mas, em vez dele, o que tenho à minha frente são duas taças de bronze.

Conversava com Sr. Ernesto que, em sua grande mesa de madeira, limpava algumas peças e explicava o motivo de o candelabro não estar pronto.

Não sei bem a explicação que ele me deu.

Vagando os olhos pela loja, vi as taças, que pareciam me atrair como um ímã. Não conseguia desviar os olhos delas. Levantei-me e fui para perto daquelas taças, e uma estranha emoção tomou-me quando as toquei. Veio-me a sensação de propriedade... Existe isso?

Nunca me senti assim em relação a um objeto, apesar de já ter ouvido algumas pessoas falarem sobre isso, como sendo uma espécie de fascínio. E confesso que sempre achei ridículo e falta de criatividade um objeto exercer tamanha influência.

Ridículo, falta de criatividade ou fascínio, nada tinha importância, só as taças.

Primeiro, toquei-as nas bordas. Meu coração disparou, assustei-me e retirei a mão. Olhei em volta. O Sr. Ernesto continuava a falar. Pensei na bobagem que sentira e peguei uma delas...Mas que emoção estranha: a sensação de propriedade voltou a assolar-me.

-Quanto custam essas taças, Sr. Ernesto?

Não podia tê-las comprado, mas passei o cheque rápido com medo que a sensatez voltasse.

Não perguntei nada referente a elas, ou ele pode até ter falado sobre o assunto e eu não ter escutado, pois naquele momento todo referencial era dirigido àquelas taças.

E agora, elas estão aqui na minha frente. No suporte está escrita uma data: 1812, e algumas palavras que não dão para ler. Mas elas estão aqui, e isso é tudo. Logo terão um lugar definitivo em casa, farão parte do ambiente, e talvez deixem de ter esse atrativo.



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