Taças

Vivendo aprendendo

 

A noite cai serena, o tempo está lindo.

Há algumas semanas estamos casados.

Espero Igor para jantarmos.

Como estou feliz! Não pensei em adaptar-me tão rapidamente em um lugar. Também, num lugar com este, quem não iria gostar. Excede, vivendo com Igor.

É difícil verbalizar o que este homem é. Ele pré-existe a tudo.

Sorrio, a felicidade muitas vezes deixa a gente meio tonta, rindo à toa.

É um sorriso que cai nos lábios, sem que se perceba.

Dou-me conta de que o tempo passa. Estou na biblioteca, vou para a janela. O céu tem o tom avermelhado.

Mikail poderia, ou até pode, estar registrando este momento. O vermelho está mais intenso, vivo e tende a se alastrar, parecendo tomar conta do céu.

Ouço um cavalo.

É ele!

E vem o sorriso.

A alma coração, pelo sentimento, se alastra, como a cor do céu, o sentimento impera ao ver o amado.

E o entorpecer toma-me.

Colo o rosto à janela para vê-lo melhor.

O cabelo negro ao vento, sua camisa está aberta, ele está sério.

Pára o cavalo.

Olha em volta. Procura-me, pois estou sempre lá embaixo a esperá-lo.

Eleva o rosto.

Detemo-nos um no outro.

E vem o sorriso sereno.

Saio da janela, desço as escadas correndo, abro a porta à frente.

Jogo-me em seus braços, ele me envolve num abraço apertado e beija meus cabelos.

- Estava olhando o céu, já viu colorido mais bonito? Imagino que Mikail deva está pintando, registrando essa maravilha... O que você tem?

Ele me olhava, e desvia o olhar para o céu.

- Fui à cidade, estive com a Condessa...

- Compreendo.

- É, compreendemo-nos, ela é que não nos compreende.

- Você poderia ter facilitado mais, se tivesse ido logo que ela o chamou.

Sinto angustia, baixo os olhos, Igor pega-me pela não para andarmos.

- Ela deve me detestar...

- Não, exatamente, a você. Você é, sim, a concretização de tudo. Ela sempre abominou meu jeito de viver, o modo como vejo e sinto a vida e as pessoas. Você representa a comprovação de tudo para ela. O motivo de eu estar assim é pelo fato de ela não se esforçar para compreender ninguém.

Na sua visão, só existe ela e suas fórmulas fantásticas de uma vida faustosa. Ela não vê; nem se apercebe que não é feliz monopolizando as pessoas, utilizando-as como marionetes. O que ela diz ou deixa de dizer não me afeta, nem me constrange.

O que sinto é um profundo vazio diante de tantas palavras e atos vazios. Cedo você irá conhecê-la, ela deve querer vê-la.

Sinto como um soco no meu estomago; sei que o olho apavorada. Ele sorri e me abraça.

- Não me diga que está com medo! As coisas estão invertidas. Quem deveria temer é a Condessa, não você.

- Como assim?

- Você está à procura de confusão ou discórdia? Você criou alguma situação parcial? Você é responsável por eu amá-la?

Minha mãe, Natasha, quer que todos vivam segundo suas regras. Ela é que vai procurar barulho; tentar fazer as coisas à sua maneira. O que você tem a temer?

- Igor. Ela é sua anya, é uma pessoa...

- O quê? Influente, chantagista, que criou em torno de si uma redoma. Ora Natasha, muito antes de conhecê-la não seguia sua cartilha. Sempre fui livre, dono de mim e dos meus atos. Meus valores vêm de coisas em que acredito. Amo minha terra, procuro compreender com quem convivo, gosto do meu trabalho. E agora!...

Ele abre um sorriso e ri, fico a olhá-lo e indago:

- E agora?

- E agora! Estou com a mulher da minha vida. Estou vivendo contigo, amada.

Tudo que é fixo pode mudar, é mutável.

Exceto você - a sua Presença - isso diz tudo.

Tudo, hoje, pode mudar para mim.

Veja o céu, os pássaros. Se estivesse chovendo ou fosse inverno, mas se estamos juntos.

O que você tem a temer, Natasha? Vou repetir: procuro viver bem com todo mundo, muitas vezes sou duro em algumas coisas, mas procuro compreender as situações; não vou permitir que ninguém invada nossa privacidade. O que temos é sagrado. Sangrado e consagrado.

Tenho minhas responsabilidades com essa gente, com essa terra; sou capaz de mover moinhos por elas. Isso sai de mim, de dentro de mim.

E o nosso caso. Ah! O nosso caso...

Ele, pára de falar, dá uma sonora risada.

- Igor! Continue, nosso caso?

Ele morde os lábios, rindo, e fala.

- É simplesmente amor.

Meus olhos se enchem de lágrimas, e afasto-me dele, que se senta no chão.

- Você precede a tudo. É mágico, o mago.

Tem o dom de iluminar minha vida. O brilho dos seus olhos, quando fala, toca o próprio coração.

Vou para perto do lago, toco a água e falo:

- Você talvez não entenda o que falo, pois é difícil verbalizar quando o que impera é o sentir, e meu coração parece que cresce, parece que me toma. Mas, esse sentimento é palpável, e sai pelos meus poros.

Quando olho nos seus olhos, encontro-me. Nos seus braços estou em casa.

Veja esta água. Você é tão cristalino e limpo quanto ela, eu necessito de água para viver.

Eu necessito de você para viver.

Lá em casa, estava na janela vendo o entardecer, pensando na totalidade da felicidade, sorrindo à toa: é minha alma que está a sorrir.

Quando olho nos seus olhos, o mundo pára, só existimos você e eu.

Você é um Homem encantado, realmente o é. Tudo que toca, faz ou pensa tem - como dizer! - ha um objetivo ou história.

Não sei se você me compreende, nem sei se eu mesma compreendo. Mas um dia compreenderei, tomarei consciência.

É como se a cada segundo unida a você, eu me fortalecesse, me completasse.

Mesmo quando estou sozinha penso em você, eu me enriqueço. Sinto como uma explosão dentro do meu ser, e isso é você... Eu sei que é.

Existe o supremo em tudo, existe esse Ar em tudo, e, a todo momento, sou levada a você. E pergunto-me: sou normal?

Fui ontem, lá fora, ao jardim. Ventava. Vi uma folha cair da árvore, ela dança ao vento, caia suavemente... Aquele momento levou-me a você. Isso me excede.

Olho para ele, olhos negros e falo: - Seus olhos me chamam.

Ele sorrir e fala:

- Sim, chamam! Vem cá. Sente-se no meu colo. Agora abraça-me apertado.

Abraço-o e ele fala:

- Quero sentir você. Senti-la de corpo e alma.

Olha para mim, vida. Você começa a descobrir a força, você já está compactuando com ela. Sinta meu coração. Bate rápido, existe a felicidade em ouvi-la falar.

Seria loucura nossa querer viver todo esse amor?

Quem colocou barreiras em tal sentimento?

É insanidade querer mais e mais estar ligado à pessoa amada?

Insanos são aqueles que reprimem seus sentimentos.

Fantasioso é aquele que não o exprime.

Ilusório é aquele que se esconde da verdade de seus sentimentos. Nos somos livres para nos expressarmos, vivermos, comungarmos.

Quando você tiver consciência dessa força não existirá mais receio como o que sente referente à Condessa.

- Você também tem medo? – pergunto incerta.

- Claro que tenho. O medo nos impulsiona a agir ou retroceder, é uma opção.

Olho para ele e falo.

- Quero fazer-lhe uma pergunta: se naquele dia eu tivesse ido embora, o que aconteceria?

Ele toca meu rosto e responde:

- Meu sentimento continuaria. Iria atrás de você. E, se você não me quisesse, o amor morreria? Não. O amor é livre. O que sinto por você independe até mesmo do que sente por mim. Amo você, este amor existe!

É mais que evidente que o quero partilhado, comungado. Mas se você não me quisesse, o que eu faria? Amo você. Amor que teria que passar de alguma forma; de exprimi-lo, usando esta força de alguma maneira, fosse trabalhando mais.

Quantas tardes, como esta, eu ficava aqui, sentindo essa força e falava ao tempo: eu quero vê-la, eu quero tocá-la. Sentia a força do sentimento por você, fechava os olhos, e te pedia: volte, volte para mim...

É insano? Não, é uma força capaz de tudo. Amo você por ser você.

E, hoje, tudo está ampliado, como você falou, pois existe o comungar.

A noite está chegando... Veja, já aparecem algumas estrelas no céu, você e eu: aqui juntinhos compartilhando, vivendo esse sentimento, nutrindo-nos.

Abre o sorriso e fala: - Vamos tomar um banho no lago!

Ele levanta-me, tira a camisa.

- Igor, alguém pode aparecer.

- Se aparecer alguém e nos vir, irá embora.

Tiro o vestido, com sua ajuda, e corremos para o lago.

Mergulhamos, está fria a água, ele percebe e pergunta: - Posso aquecê-la?

Chego-me a ele. Mostro-lhe nossa casa, as luminárias já estão acesas. Ia falar mas ele beija-me... nossos corpos têm o ritmo das águas do Balaton.

 

 

Não havia mais pensado na Condessa; há uma semana que Igor estivera lá.

Estou atarefada, ajudando Misca para o jantar, Mikail viria com Igor. Mikail é uma pessoa culta e sensível, e que, no mínimo, uma vez por semana vem jantar conosco. É o oposto de Igor, que está sempre aberto ao mundo, falando sempre francamente e por vezes irreverentemente. Igor, mesmo sério, extravasa. Mikail tem uma serenidade inquieta; deve ser o modo do artista. É um querido amigo.

Ouvimos o som de cavalos, olho para Misca e indago:

- Será que já são eles, tão cedo?!

Ela olha-me intrigada e responde: - Não, conheço esse ruído. Espere-me um instante.

Continuo meu trabalho, essa massa é muito trabalhosa. Por que diabos inventei de fazer esses pasteis?!

- Natasha.

Volto-me para Misca e indago: - Quem era Misca?

- A Condessa está na sala, quer falar-lhe.

Solto a massa na mesa, um frio percorre meu ser, sinto um aperto no peito. Misca arruma meus cabelos e lavo as mãos.

- Santo Deus! O que ela quer? Ainda há pouco, pensei nela.

- Conhecê-la, só isso. E você é mais bonita e inteligente que qualquer dama da corte.

- Estou nervosa, Misca. Que diabo! Igor poderia estar aqui. Mas é claro, ela quer ver-me sem a presença dele. Que seja. Como estou?

- Muito bem e bonita, como sempre.

Respiro profundamente e saio da cozinha, indo para sala.

Vejo-a de costas, olhando pela janela. Estatura média, seus cabelos ainda negros, porte elegante, espigada. Está vestida como se fosse a um baile. Minhas mãos estão geladas. Olho meu simples vestido rosa. Penso em Igor, respiro fundo.

- Boa tarde, senhora Condessa!

Ela volta-se, olhando-me de cima para baixo. Sei que faço o mesmo com ela. Não é feia nem bonita, imponente como um carvalho antigo. Não se parece com Igor, só a cor dos cabelos e dos olhos. Sim, seus olhos são penetrantes como os de Igor.

- Aproxime-se. – Seu tom de voz é uma ordem.

Olho-a nos olhos, e vou para mais perto dela.

- Agradavelmente bonita. Não condiz com a imagem que fazia da sua pessoa. Uma beleza fina, nobre e notada. Realmente é muito bonita. Sabe o que me trouxe aqui?

Ainda estou a olhá-la e respondo num impulso natural: - Curiosidade!

Seus olhos parecem querer me fulminar, depois se abrandam, e fala:

- É sempre assim?

- Como, senhora?

- Tão sincera, ou aprendeu com meu filho?

- Sempre o fui.

- Mas você está correta. Estava realmente curiosa em conhecê-la. Por mais que a tenham descrito, você superou a tudo. - ela dá um leve sorriso, e continua.

Algumas pessoas quiseram descrevê-la colocando defeito onde realmente não existe, é evidente que para me agradarem.

- Seria indelicadeza minha perguntar-lhe quem me descreveu?

- Isso não vem ao caso. A descrição do meu filho foi perfeita. Admito que você é muito bonita, tem uma elegância que muitas de nós levaríamos anos estudando, só que...

- Não sou a pessoa certa para seu filho.

- Touché! Não era bem isso que eu ia dizer, mas isso também é o que penso. Posso sentar-me?

Aponto o sofá, deixo-a sentar-se para, depois, acomodar-me.

Vejo Misca na porta da cozinha.

- Veja bem, menina. Agora, acho que pouco importa se você é a escolha certa ou não, vocês já estão casados e eu sou extremamente católica.

Acreditava que ele pudesse casar com Krisztina. Ela seria minha escolha. Sei que seria um casamento aparente. Igor, jamais, se adaptaria à vida na corte, mas seria o ideal para seu futuro. Mesmo sem ele confirmar tal casamento, eu o alimentei. A pobre moça só faz chorar.

Bem, águas passadas não movem moinhos. Queria conhecê-la, vê-la com meus olhos.

E saber o que pensa sobre meu filho.

 

Estranho a pergunta, é dúbia. Como tudo nela parece-me assim: dúbio.

- O que a senhora pensa sobre Igor, senhora Condessa?

Vejo-a sorrir, pela primeira vez.

- Também é inteligente.

Não vim aqui questionar meus pensamentos de mãe, e sim os seus.

Vou modificar a pergunta. O que sente por meu filho?

- Eu o amo, um amor sem limite. Amo-o de tal forma, que respeito o seu amor, senhora Condessa.

Seus olhos crispam, ouço passos. Meu coração se abranda ao vê-lo, ele me olha sereno e fala.

- Quer felicidade maior, chegar em casa e ouvir uma declaração dessas. Boa tarde, Condessa!

Ele se aproxima dela e beija-lhe a testa, senta-se ao meu lado e pega minha mão. Uma segurança infinita invade-me. Ah! Amado, como é bom tê-lo aqui.

- Meu filho, você não me falou que ela é tão inteligente.

- Não?!!! Devo, então, ter esquecido. - seu tom irônico.

Por que a senhora quer saber do sentimento de Natasha, não estou compreendendo bem.

Conheço Igor o suficiente para saber que ele está em seu ponto de irritação.

- Igor, conversávamos a senhora Condessa e eu; é natural que ela esteja preocupada. – contorno.

Novamente ela sorri, sem importar-se com a minha interferência.

- Mês que vem, chegará aqui a Badacsony o Visconde Adolfo.

Igor olha para ela, indagando: - Quando chega?

- Ele ficou de confirmar o dia certo. Mas deve ser lá para o final de maio.

- O que o trará aqui?

- O motivo de sempre. – ela fala arrogante.

- Convencer a todos do autoritarismo austríaco.

Trazer mais uma mensagem lamuriosa do Imperador. Quantas cidades ele irá percorrer desta vez?

- Quer parar com isso, Igor! – vejo-a perder a postura, mas rapidamente retruca.- Ele vem como enviado do Imperador. Iremos recebê-lo como de costume.

- Senhora minha mãe, eu respeito seu amor ao Império Austríaco. O que não é meu caso. Tenho boas relações com Adolfo, se ele vier aqui, como sempre veio, terei imenso prazer em recebê-lo: “Como de costume”. - ele está irônico, seu ar é maroto.

- Conheço-o muito bem, por garantia, irei saber o motivo da vinda dele.

- Ótimo! Faça isso, será bom para todos!

- Assim teremos oportunidade de apresentar sua esposa a todos. O que me diz?

Ela dirige-se a mim.

- A senhora sabe o que faz, Condessa. Será um prazer conhecer pessoas amigas de Igor.

- Se não fosse a circunstância, eu gostaria de conhecê-la melhor.

Posso afirmar-lhe que à primeira vista, nunca encontrei uma pessoa como você, só meu próprio filho.

- Agradeço o valioso elogio. Igor é uma das pessoas que mais admiro.

A senhora aceita um chá? – pergunto-lhe.

- Não, muito agradecida; já cumpri com o que me trouxe. Agora, vou-me embora, tenho algumas pessoas a me esperar. Igor, assim que chegar a resposta de Adolfo eu lhe direi. Seu irmão deve chegar esta semana, e nos trará noticias. Quando irá a cidade? Há alguns papéis para você assinar.

- Papéis? Por que não os trouxe?

- Você pode ir à cidade ver-me, não pode?

Despedimo-nos, e a acompanhamos até a carruagem preta que estava à sua espera.

Respiro normalmente, Igor passa o braço no meu ombro, e entramos em casa, ele perguntando: Tudo bem?

Aceno que sim. Deito a cabeça no seu ombro pensando: como um homem é tão pleno e ciente de si, dos seus valores, tão aberto como o sol de verão. E ter uma mãe tão distante de sua realidade.

Jantamos e rimos muito nessa noite, Mikail estava falante e divertido.

A seriedade chega quando se falava na visita do Visconde, só então, entendo plenamente o que deva ser o motivo da visita. Já devem ter chegado à Áustria noticias sobre as opiniões divergentes de Igor quanto à monopolização da Áustria na Hungria. Isso tem muito peso. Um Conde jovem que, com suas idéias, leva aos húngaros consciência da sua nacionalidade.

Isso me inquieta bastante, sei até onde Igor pode ir, seu sentido de liberdade é tão extenso, seu amor pela Hungria é incontestável. Unindo uma coisa à outra, só Deus sabe o que pode dar.

O que achamos é que o Visconde deve vir a título de conhecer a verdade, e ao meu ver, se ele investigar, a verdade será desvendada pelo próprio Igor.

Os húngaros estão sufocados com o Império, não existe nada em comum, tudo é diferente, da língua aos costumes. É utópico demais querer esta união, donde só uma das partes tira proveito.

A Condessa, devido a sua nacionalidade e seus próprios interesses, é totalmente a favor do Império. Essa junção não é boa.

A alegria da noite foi marcarmos nossa viagem a Tihany. Convidamos Mikail para ir conosco.

Será uma grande surpresa para todos.



A Hungria é um país abençoado.

Tihany não fica distante de Badacsony.

A minha alegria era transbordante.

A estrada estava toda colorida por vários tipos de flores.

A artemísia, florzinha amarela, fazia o sol parecer que está em todo lugar.

Chegamos a Tihany à tarde. É uma cidade maior que Badacsony, fica na península do lago.

Conheci uma linda igreja, uma das mais bonitas que já vi. Seu interior é de madeira talhada, obra de Sebastyen Stulho, do ano de 1770.

Lá estão os restos mortais de Andrei, rei húngaro do século XI.

Os olhos de Igor brilhavam, ao contar a história. Mikail só tinha olhos para obra artística. Artista é artista, em qualquer lugar.

Chegamos ao acampamento quando já era noite.

A surpresa de todos, ao nos ver, foi extremamente tocante e comovente.

Um misto de alegria, de saudade, que nos levou a uma felicidade indescritível.

A primeira noite quase não dormimos de tanto conversar.

Foram dois dias bem vividos.

A família é um ponto de referência, de muito amor em toda extensão.

Hoje, aqui em casa, revendo toda nossa viagem, tenho uma saudade sadia.

Passa-me à lembrança a conversa com anya. Seu sexto sentido foi dirigir-se para Mikail, alertando-me, pois, disse ela, que ele tem muita admiração por mim.

Ela me falou dos cuidados que devo ter por causa dessa admiração.

Não deixá-la tornar-se algo mais profundo, pois admiração calada é ambígua.

Tranqüilizei-a dizendo que ele é um grande amigo.

E ele, realmente, é um grande amigo, que, com certeza, deva ter admiração, talvez não à minha pessoa e, sim, pelo que nós, Igor e eu, vivenciamos.

Quem não teria? Chego a achar graça. A versatilidade em expressar um sentimento deixa-me surpresa: um sentimento, duas vidas, onde, olhos nos olhos, nos falamos... duas vidas unas, sim somos unidade.

Por vezes, são as palavras... São tantas as maneiras, há tanto o que dizer, seja em um toque, ou nas palavras.

Eu, ainda, me detenho perplexa, mediante a grandiosidade do que sinto. Não que seja novo, e sim, a grandiosidade, a potencialidade. É tão intenso, forte e vivo que seguro-me.

Ele não! É solto, despojado, aberto como um dia de sol. Como um pássaro em vôo, sem medo de cair, rumo ao horizonte infinito. E ele me leva nesses vôos, céu afora.

Ontem, refeita da viagem de volta a Tihany, fui buscá-lo nas vinhas, era tardinha, mas nos detivemos ao ver uns homens, ao longe, domando um cavalo.

Sentamo-nos na grama para ver a cena. Ouço-o falar:

- Do que o homem não é capaz? Cedo ou tarde o cavalo irá ceder.

O homem, com uma certa prepotência, subira em seu dorso e talvez cante vitória.

Só que quem cedeu foi o cavalo, foi ele que permitiu.

O que o faz tão receptivo?

Muitas vezes tenho a real impressão e sensação, que ele está muito distante da humanidade.

Aí, então, ele dá sua risada gostosa.