Taças

Unir-se

Avô, está me escutando? Sei que de onde está zela por mim.

O silêncio tem o dom de aproximarmo-nos.

Como o senhor está a me ver?

Pareço trazer a felicidade nas faces, meus olhos têm outro brilho.

Logo estaremos, Igor e eu, casados.

Seria a glória se estivesse aqui para participar...

A verdade é que tenho certeza de que está.

Veja a movimentação em todo acampamento.

É festa! Logo mais, à noitinha, rumaremos para casa de Igor.

É primavera! As guirlandas, repletas de flores, ficaram lindas, quem ficou aqui no acampamento ajudou a fazê-las.

Sabe o que ele fez pela manhã?

Mandou-me flores por Misca, e um bilhete. Acordei com eles a meu lado.

O bilhete dizia: “Amada, mesmo não podendo vê-la posso senti-la”.

As crianças estão eufóricas, Erno beijou-me e perguntou se eu iria ficar aqui.

Uma saudade pressionou meu peito, contrastando com a felicidade que sinto.

O que Igor estará a fazer? Estou a olhar o lago sereno... águas límpidas.

- Ei! O que a noiva está pensando?

Está tudo quase pronto. A casa está linda! E lá fora está quase tudo arrumado.

Viro-me a Belle e pergunto se ela o viu, ela sorrir na afirmativa. Pergunto como ele esta.

- Ele está organizando tudo, há homens com ele. Hoje, não houve trabalho na fábrica.

O padre esteve lá. Sua anya e Misca estão na cozinha, não sei quem está mais ansiosa. Vai ser lindo e eu estou tão feliz!

- Belle, ele está nervoso?

- Não. Seus olhos estão tão brilhantes, têm um sorriso sereno. Ele está alegre e bonito. E você está nervosa?

- Um pouco. Por isso vim para cá, não tinha mais o que fazer. Como está o ferimento?

- Lorna deu uma olhada, está bem. Ei, mocinha, sua roupa está passada. Vou pegar a essência de jasmim para seu banho. Eu e Miriam já planejamos o que faremos nos seus cabelos.

- Já está na hora do banho? - pergunto a Belle.

- Já! Tomar banho ainda com sol. Foi o que Lorna mais me lembrou. Será uma grande festa! Sabe o que ouvi de um dos homens que trabalham com ele? Que tinha certeza de que ele casaria com uma moça simples assim com ele. Seu irmão chegou ontem à noite. Acordou-me para contar a grande noticia, ele gosta muito do Conde, admira-o, mas seu coração está preso de saudade. E quem não está? Vou sentir tanto sua falta... Mas nada de tristeza, vamos a nosso ritual!

Abraço Belle. É uma saudade tão partilhada.

Belle, ajuda-me no banho de essência de jasmim, lava meus cabelos cuidadosamente. Logo, Miriam junta-se a nos, discutiam o que fazer com meus cabelos, enquanto eu os secava com a toalha. Chego a ficar impaciente, a noite logo chegaria.

 

Homem, como estarás se sentindo?

Com o cabelo praticamente seco, elas começam a trabalhar nele.

Ouvimos o barulho dos cavalos.

- Devem ser eles. Puxe um pouco mais Miriam, só essa mecha de cabelos. Onde estão as fitas? Agora, prenda-as, só mais um pouco. Pronto!

Olho-me no espelho; à parte de cima dos cabelos elas prenderam e fizeram uma trança com fitas douradas; o restante está solto. Está bonito; só uma pequena parte presa.

Belle coloca um pequeno arranjo de flores naturais exatamente onde começa a trança, parece uma tiara natural. Agradeço a ambas!

- Agora vista-se, enquanto vou dar uma olhada no Andrei, se é que foi ele quem chegou, e ver se as crianças estão prontas.

Miriam, ajuda-me a trocar de roupa. Minutos depois estou pronta, sem falsa modéstia, acho-me bonita.

- Santa Sofia! Você está linda, Nat. - abraço Miriam, agradecendo.

A porta abre-se, é anya.

- Meu Deus! Como você está linda! Parece uma fada, um ser encantado.

Os olhos de anya se enchem de lágrimas; ela tenta disfarçar mandando Miriam se arrumar e ver se todos estão prontos. Diz que o pai foi se banhar no lago, e, como ela diz, também está nervoso.

- Anya, como Igor está?

Ela sorri.

- Está tranqüilo, conversou com seu pai e seu irmão sobre a possibilidade de ficarmos aqui. Em dezembro, estaremos aqui. Ei, que semblante é esse? Dezembro está próximo, e, quem sabe, seu pai não resolve ficar fixo num lugar. É, talvez, já estamos velhos, seu pai sabe o que fazer, vamos dar tempo ao tempo, não é de agora que ele fala em se fixar, e agora temos um motivo, mas isso requer tempo, pois não somos só nos.

Abracei-a, não há palavras para expressar a falta que farão a mim. Ela se arruma com rapidez. Está bonita; uma mulher bonita, e já faz tempo que não a vejo tão bem trajada, faço o elogio e ela retruca que não é todo dia que se casa uma filha. Ouvimos a batida na porta, é o pai com os olhos arregalados a me olhar.

- Está na hora, as outras carroças irão à frente, estão já a sair. Você está muito bonita, minha filha. Podemos ir?

Minhas mãos ficam úmidas, aceno concordando, chegam Belle e Miriam. Irão conosco.

 

Sento-me junto da janela; a carroça começa a mover-se.

A noite cai, algumas estrelas já enfeitam o céu.

E lá está ela, esplendorosa, um círculo prateado perfeito.

Lua! Faz o amado sentir que estou chegando.

Anya aperta minhas mãos.

- Suas roupas estão naquele baú; no outro, seus livros.

Agradeço, num afago em seu rosto.

Belle dá uma risada, falando que só tenho o pensamento em Igor. Pergunta a anya se acha Igor um homem atraente. Até eu sorrio. A conversa gira em torno dele.

Respiro profundamente ao sentir a carroça parar, Miriam encobre a janela impedindo-me de olhar, Belle repete pela centésima vez o que tenho que fazer.

Estou nervosa.

Minhas mãos tremem. Batem a porta. É o pai.

- Está tudo pronto! As crianças estão aqui na porta, também, prontas. O que estamos esperando?

Não sei quem abre a porta.

Vejo ali fora, vem a emoção!

Arcos de flores por onde eu vou passar.

Em cada arco, tochas de fogo.

As crianças, aos pares, irão à frente. Estão lindas!

Todo nosso grupo forma uma fileira ao lado dos arcos, as mulheres com flores nas mãos.

Olho o céu, a lua...

Volto o olhar para os arcos, as guirlandas de flores, um túnel por onde devo passar.

Sinto as lágrimas, alguém as enxuga, e colocam algo nas minhas mãos. É um buquê de flores.

O pai me dá a mão e desço os degraus.

As crianças, dois, quatro, seis, duas a duas, à minha frente.

Respiro fundo, olho para Belle, sorrio.

Retorno a olhar, no final dos arcos... É ele!

 

- Homem, como estais belo!

Falo para mim mesma, mas Belle ouve e, também, fala baixinho:

- Está mesmo.

Ele em pé, meio de costas em frente a uma mesa com toalha branca.

Ele fala com alguém. Está todo de branco, calças e camisa.

Parece um deus. Seus cabelos, acho que pelo contraste com o branco da roupa, estão mais negros. Conversa com Mikail.

O violino começa a tocar.

Homem, estou aqui.

Ele volta-se, nossos olhos se encontram.

O que eles me dizem?

Eles me chamam. Como um sentimento pode ser tão forte?

O som dos violinos entra por mim.

As crianças começam a andar.

Eu começo a andar.

O perfume das flores me envolve.

Seus olhos e o calor suave que emitem me elevam.

Olho de lado, vejo minha gente.

Olho para frente, o mago, o homem que amo.

Chego devagar a ele, estamos frente a frente.

Mundo mágico, noite de lua, as tochas, o perfume das flores.

Ele à minha frente qual um marco.

Toca minha mão.

- Linda! - sua voz sai lenta.

- Imagina o que estou sentindo? - indago.

Ele responde baixo: - Amor e emoção.

O pai, a nossa frente, começa a cerimônia. Olho à minha direita: Misca, que pisca o olho, e Val; atrás, o medico e uma senhora. Mikail... Sorrio para ele. À esquerda, está anya, Belle, Andrei, nossos olhos se encontram, ele sorri.

Igor aperta minha mão. Estou embevecida como se tivesse tomado vinho.

Ele está concentrado no que o pai fala.

Meu pai pega duas taças. São as taças, minhas taças!

Enche-as de vinho e nos dá. Pego a minha, levo-a aos lábios e me vem o pensamento transmitindo meu sentimento: - estou feliz, amo você.

Com a taça nos lábios vejo a moça: é a mesma! Ela toca as taças. Ela chora, está triste? Não, como eu, também sente amor.

- Repita Natasha!

Olho o pai, sua voz me traz ao presente, repito o que ele fala.

Ele passa para nossa frente com o punhal do avô nas mãos.

Trocamos de taça e novamente bebemos. Ele pega a taça da minha mão e coloca-a na mesa.

Meu pai se aproxima, pega o braço de Igor e faz um corte acima do pulso, logo, pega o meu, sinto o ardor da lamina afiada, jorra um filete de sangue. Junta, depois, o meu pulso com o de Igor. E fala:

- Vosso sangue será um só. Homem e mulher, um só sangue. Nada afastará um do outro, o sangue de um é o do outro. Repitam comigo: Nossos sangues se misturam; nossos corpos se unem. O sangue é vital, somos um do outro, enquanto houver vida.

Igor acrescenta: - E na eternidade.

Eu o repito, olhando-o dentro dos olhos:

- E na eternidade...

Meu pai me abraça, afunda o rosto nos meus cabelos. Ele chora, vem anya, Belle, Andrei, Misca, o doutor... Procuro Igor, mas não o vejo. São tantas pessoas a falar comigo que me desnorteio. Alguém me puxa pelo braço.

- Igor!

Beijo-lhe a face, ele me envolve num abraço quente.

- Casados, ciganamente, para eternidade, Sr. Conde! - Ele me aperta mais.

- Posso cumprimentar os noivos.

- Padre Pal, Natasha!

- É um prazer, padre. Que surpresa boa, não sabia que o senhor era franciscano!

Entro com o pai na casa de Igor.

A sala está repleta de arranjos de flores e bem iluminada. A cerimônia é simples e rápida, acompanho toda ela.

Igor coloca um anel no meu dedo, e o padre fala.

- E eu os declaro marido e mulher.

Igor volta-se a mim com os olhos brilhantes, eleva-me e beija meus lábios.

- Amada é para sempre!

Fala alto, e todos sorriem. O padre nos cumprimenta, e todos que estão na sala.

 

Lá fora, já se ouvem os violinos.

Olho a casa, está linda. Aqui será meu lar.

Não vejo Misca e vou à cozinha procurá-la. Encontro-a num canto chorando.

- Pareço uma velha boba, não é?

- Claro que não. Dê-me um abraço.

Ela me abraça e diz o quanto está feliz, por ser ele, para ela, como um filho.

- O que se passa aqui? Está chorando, Misca? Seria impossível, pois todos já estariam aqui com o som do seu choro.

Sua voz, meus sentidos despertam, Misca o abraça.

- Estava procurando-a, Nat.- é meu irmão.

- Andrei! Não consegui falar com você direto.

Ele me beija e eu o envolvo num abraço. E me fala que estão todos lá fora, para começar a dança, pega-me pela mão. Vamos para o pátio, as fogueiras estão acesas. Uma enorme mesa foi colocada num canto repleta de comida; ao lado, vários barris de vinho.

- Sabe dançar nossa dança, Igor?

Igor diz que não, Andrei diz, que irá dançar comigo e que ele observe, porque, depois, me entregará a ele. É nosso costume nas festas de casamento.

Andrei puxa-me para perto dos violinos, forma-se um círculo ao nosso redor.

Começa o som dos seis violinos, o pai também está a tocar uma viola.

Andrei, parado, em pé, me esperando. Rodeio-o, lentamente, bato com o pé no chão e bato palma: é o chamado. Ele dá um sorriso e pergunta:

- Está pronta?

- Prontíssima.

Começamos a dançar. E já no final da nossa dança, Andrei olha-me carinhosamente e pergunta:

- Posso rodá-la?

- À vontade, senhor.

Ele me eleva e roda-me no ar, depois joga-me para cima, aparando-me pela cintura.

O som das palmas, vejo Igor sorrir, Andrei chama-o com a cabeça, e lá vem ele. Andrei passa minha mão para Igor, que balança a cabeça.

- Não vou conseguir.

Aí fala alto.

- Senhores e senhoras o que vão assistir é um grande evento, peço-lhes paciência, principalmente a você, Natasha. Se acaso venha cair, doutor, socorra-me, pelo amor da Pai!

Todos riram, ele tem sempre uma saída e está sempre à vontade em qualquer situação, fala-me baixo: - Faço tudo que você mandar. Ajude-me.

- Siga meus movimentos.

- Impossível, você mexe demais seu corpo, e seus quadris. - fico corada.

- Observe o movimento, e deixe a musica o envolver.

Recomeçam a tocar.

Rodeio em torno dele, bato o pé, ele também bate, bato palma e ele também.

O que ele está a fazer? Ronda-me, parece uma busca...E um achar-se, quem busca ou acha-se, eu não sei? Seus olhos estão fixos nos meus. Abaixo-me um pouco para ele pegar minha mão. E o que ele faz? Agacha-se mais. Vejo-o pular para mim e me eleva, roda-me no ar, e ao descer junta seu corpo ao meu e beija minha boca. Coro até a alma.

- Não era bem assim

- Fica sendo.

Ouvimos os assobios.

- Veja como estou corada. Você me tira de tempo.

- Eu sei, e isso não é bom?

Várias pessoas se juntam a nós, Andrei pergunta que inovação era essa.

Alguns começam a dançar.

- Quer vinho, Vida?

- Sim.

Ele leva-me à mesa e serve-me de vinho. Mostro a Igor Misca e Val: anya e Andrei lhes ensinam a dança.

- Conde!

- Doutor Lajos. Natasha esta é a esposa de nosso doutor.

- É um prazer conhecê-la, senhora.

- O prazer é meu, Condessa.

O tom gelado chega a minha alma, aperto a mão da senhora, vejo a ironia nos seus olhos. Neste instante, chega Mikail.

- Natasha, você dança divinamente, não posso dizer o mesmo do seu parceiro.

Igor ri e bate no ombro de Mikail.

O doutor despede-se e diz que seu filho caçula está adoentado. Dá-me um aperto de mão caloroso, nos felicitando; o da sua esposa é totalmente diferente.

Chego-me a Igor, enquanto os vejo partir. Ele coloca o braço na minha cintura, percebe meu constrangimento.

- Você está muito bem, Mikail.

Falo, olhando seus trajes, ele está bonito, vestindo-se de preto, contrasta com o loiro dos cabelos e os olhos azuis.

- Não me diga que o intimidei Mikail?

- Tenha certeza. - Responde Igor.

Juntam-se a nos Miriam e o padre, que elogia a festa e a comida. Igor enche o copo do padre com mais vinho. Eu aperto seu braço.

- Deixa, assim, o sermão de amanhã, ele fala menos.

O padre ri até engasgar-se.

Anya, ao longe, chama-me. Peço licença e vou até ela, que se dirige para a carroça. Lá dentro, ela me diz que já mandou meus baús subir para o quarto, e que pela manhã partiriam rumo a Tihany. Ao ver minha tristeza, ela afirma que, na volta de Tihany, passarão um tempo conosco.

- Chamei-a aqui para falarmos disso. Sei o quanto você sentirá nossa falta, mas agora você é casada e tem uma vida pela frente...

- Quanto tempo passarão em Tihany?- a interrompo, na visível saudade.

- Se a feira for boa, passaremos o suficiente para vendermos uma boa quantidade de peças. Quero que aprenda a ter paciência. Paciência, Natasha, é algo que você terá que aprender. Não adianta argumentar, você simplesmente não é paciente. E terá que aprender. Agora me abrace e vamos lá para fora.

 

Saímos, o vento suave da primavera levanta meus cabelos, busco Igor com os olhos.

E lá está ele, olhando-me, ergue o copo e toma vinho.

Sigo em sua direção, ele se encosta à mesa a me esperar.

- Demorei-me?

- O suficiente para sentir sua falta.

Puxa-me pela cintura, nossos corpos se tocam e ele fala a meu ouvido: - Quero amá-la.

Ponho a mão na sua boca, tampando-a.

- Quer que alguém o ouça?

- Sou seu esposo, não é natural querer amá-la.

- Igor comporte-se!

- Impossível, com você por perto.

Abraça-me, sinto mais seu corpo, seu calor, seu cheiro. Sua mão sobe a meus cabelos, minha nuca, puxando meu rosto para junto do seu.

- Vamos subir, por favor!

- E toda essa gente?

- Por favor, Natasha, vamos subir. Vamos!

Afasta-me, pega-me pela mão e puxa-me pelo pátio. Entramos em casa, ele pega um candelabro e subimos as escadas, entramos no quarto ele fecha a porta, coloca a trava, põe o candelabro na penteadeira, tira a camisa de uma vez, puxando-a.

- Igor há tanta gente lá fora.

Olha-me sério.

- Nenhum deles sente o que estou sentindo.

-Sorrio e pergunto: - E o que está sentindo?

- Vontade de sentir-la... Sinta meu coração.

 

Coloco a mão em seu peito: seu coração está acelerado.

Deslizo a mão em seu peito, sinto sua pele, seus pêlos. Pele morena e quente.

Ele me olha e me abraça forte, tenta desabotoar meu vestido, atrás. Ouço sua voz bravejando: - Que complicado!

Vira-me de costas e consegue desabotoá-lo, puxa-o ao chão.

Tiro o restante das minhas roupas e, só aí, volto-me a ele. Seu ar sério, e olhar é de intenso desejo. Meu corpo treme quando sinto suas mãos na minha cintura puxando-me devagar até ele. Devagar suas mãos sobem as minhas costas. Envolvo-o num abraço, sentir seu corpo é necessário. Beijo-lhe a nuca. Suas mãos percorrem meu corpo, passa os lábios na minha nuca. Leva-me devagar num abraço, e deitamos na cama. Depois, num salto, põe-se de pé e despe-se.

- Você fica bonito, sem roupa... Quer dizer você é bonito...

Ele, não me deixa completar a frase, solta sua risada.

- Não ria assim, todo mundo pode ouvir!

- E daí?

Ele se deita devagar sobre mim.

- O que sente, Natasha?

- É sem palavras...indecifrável... Abraça-me, Igor!

- Não, o que sente?

- Desejo de estar inteiramente unida a você.

Ele beija meu pescoço, e sobe a meus lábios, num beijo intenso. Sussurro:

- Quero você, Igor...

- Amada, sou teu há muito e muito tempo.

Sinto-o por inteiro, nossos corpos um só.

Ouço sua voz, nos meus cabelos.

- O que sente, agora?

- A eternidade sobre nós.

Meu corpo esmorece, como o dele, abraço-o, gotas de suor pingam no meu ombro, pergunto:

- Como você se sente?

- Como você. Somos um do outro, para sempre, ontem, hoje, amanhã, depois até a eternidade.

- Como você sabe?

- Sinto, daí sei. Você vive em mim, eu vivo em você. Nossas almas se tocaram. Não há como nos separar, somos uma unidade.

Onde existe um, existe o outro. É o perdurar para sempre, entende?

Estou de bruços a olhá-lo, ele deita a meu lado enrola meu cabelo entre seus dedos.

- Entendo?... Não totalmente, mas entenderei.

Ele puxa meu cabelo, fazendo meu rosto ficar mais perto dele.

- Sinta para assim compreender. - respondo: - Sabe que você é presunçoso...

Não me deixa falar, rola comigo na cama, fico sobre ele, meus cabelos cobrem seu rosto. Tento tirá-lo, mas ele segura minha mão. Isso não importa, nos beijamos e começamos a nos amar novamente. A febre do amor nos toma.

Ao deitar a seu lado, no seu ombro suado, passo a mão no seu peito, que, também, está suado.

- Igor!

- Hum!

- Explique-me o que você falou: onde existe um, existe o outro.

Ele passa a mão na minha cintura, continuo deitada no seu ombro.

- Nos amamos, o sentimento por você vive em mim, em cada segundo, a cada minuto, na eterna plenitude. Ter consciência...

Meus olhos fechados. A voz amada a deliciar-me. Seu perfume...

 

Acordo com o sol batendo em mim.

Respiro fundo e abro os olhos, perco-me sem me dar conta de onde estou.

Um bem-estar maravilhoso toma-me, invade-me, espreguiço-me na cama. Sinto o braço de Igor na minha cintura, volto-me a ele, que dorme sereno, chego pertinho, toco seu rosto, como está belo. Lembro-me que dormi! Olho seu ombro, está seco. Dou-me conta de que estou sem roupa.

Sento-me e olho em volta, vejo meu baú. Vou até ele buscando meu vestido azul. Atrás do biombo, vejo a tina, está com água.

Tomo um banho, a água está fria, mas gostosa. Seco-me e me visto.

No espelho, penteio os cabelos e perfumo-me. Irei à cozinha trazer-lhe leite. Antes de sair olho para ele, indago-me: por que tenho a vital necessidade de olha-lo sempre.

Na cozinha, o silêncio é total, vou à janela, as carroças estão com as portas fechadas, todos dormem, muito vinho.

Esquento leite, pego maçãs e uvas. E subo para nosso quarto. Nosso quarto, é isso mesmo Natasha, dele e meu.

No quarto, abro um sorriso ao ver a bandeja que Igor trouxe à noite na mesinha de cabeceira. Coloco a bandeja que trouxe ao lado da outra. Sento-me na cama. Tento acordá-lo, beijo seu rosto, nada. Beijo sua nuca, respira fundo. Beijo seus lábios, ele abre, lentamente, os olhos.

- Bom dia amado! Dormiu bem? Trouxe seu desjejum... Igor?

Sua mão puxa-me para ele.

- Como está, amada?

- Feliz. Perdoe-me não senti o sono chegar.

- Você fica linda dormindo, fiquei um bom tempo olhando-a, ao mesmo tempo, a pensar quantas noites, inquieto nessa cama, sem sono lembrando-me de você. Querendo você, chamado por você.

- E, agora, eu estou aqui. Amando você, junto a você, casada com você.

- Eu vou banhar-me, para escutar tudo isso aqui na cama.

Levanta-se, vai atrás do biombo, aviso-lhe que me banhei com a água da tina. Ele ri alto, e diz que então ela está melhor agora, terá meu perfume.

Vem com a toalha envolta na cintura. Os cabelos molhados.

Um barulho lá fora, alguém chama por Igor. Ele vai a janela.

- Fale Janos, o que o traz aqui?

- Tenho em recado da senhora sua mãe. Ela pede para o senhor me acompanhar.

- Impossível.

- Senhor, é urgente.

- Diga-lhe que, assim que puder, irei vê-la. É só isso Janos?!!!

Sua voz é uma ordem, ouço o rapaz responder: Sim, senhor.

- Então volte e dê meu recado ou se achar melhor coma alguma coisa antes de ir. É com você.

Ele se volta sério, mas ao me olhar sorri tranqüilo.

- Sua anya já deve saber do nosso casamento.

- Com toda certeza. Natasha, não quero que se preocupe com isso.

- Estou preocupada com você. Só quero lhe pedir para sempre me contar tudo.

- E por que não contaria? - pergunta ele, sentando-se a meu lado, acariciando meu rosto.

- Não sei, talvez para me proteger.

- Nunca iria protegê-la com alguma mentira. A verdade é a maior proteção. Sei que vamos passar alguns contratempos, mas não permito que ninguém, ou alguns venham a interferir no que diz respeito a nós dois, tudo é muito simples: ou eles aceitam, ou não. Minha escolha eu fiz, já há algum tempo: e foi, é e será você. Não gosto de viver mal com ninguém. Sempre fiz o possível para conviver bem, aceito seus modos de encarar a vida; se eles não aceitam os meus, respeitem-nos.

 

Toco seu rosto, e vejo no meu dedo o anel, desço a mão para observá-lo: é de ouro, com um grande rubi, tendo em volta brilhantes. Jóia bonita. Igor observa-me, agradeço e elogio o anel. Ele conta que pertencera à sua avó paterna, ela lhe dera depois que seu avô morrera. Só tinham de filho o pai de Igor. E viveram muito em função do filho. Ela morrera em Badacsony.

 

Lá fora, já se ouve a minha gente, devem estar se arrumando para partirem.

Ele percebe o que sinto.

Levanta-se, vai a cômoda e tira uma calça preta e uma camisa de linho branca, veste-se rapidamente. E chama-me: - Vem, vida.

Descemos para a cozinha, Misca já está com a mesa pronta para o desjejum. Fala que estamos com uma fisionomia ótima.

Igor se apressa em ir chamar meus pais, mas Misca comunica, que já o fez.

E chegam o pai e anya. Sentamos à mesa, pergunto por Andrei e Belle, anya diz que logo virão, estão acabando de arrumar algumas coisas, após o desjejum, partirão.

Igor insiste para partirem depois e o pai explica os motivos, Igor fala da cidade, da melhor estrada. Não escuto, anya observa-me. Nunca tinha me separado deles...

Andrei aparece na porta, dando-nos bom-dia. Beija meus cabelos.

- Vocês nos dão licença por alguns instantes, vou lá fora com Andrei.

Não o deixo falar, puxo-o pela mão, pego a direção oposta das carroças e subimos por uma estradinha.

- Madar, você está bem?

- Sim, por um lado sou a mulher mais feliz da face da terra, e por outro lado, sinto uma tristeza enorme no meu peito, não quero falar isso com nossos pais... Amo vocês, Andrei.

Abraço-o chorando, ele, alisa meus cabelos.

- O que posso dizer-lhe? Sentiremos mais saudades, sabe por quê? Você tem uma vida nova pela frente, nós continuaremos os mesmos, só que sem você. Olhe para mim. Não torne as coisas mais difíceis. Nossa família é por demais unida, é um amor vivo e comunicado.

Posso lhe dar uma boa noticia, na volta de Tihany passaremos um tempo aqui. Ontem à noite, Igor conversou muito conosco, você estava dormindo. Ele já tinha conversado esse assunto comigo e com o pai e ontem reforçou a conversa, convidou-nos para nos fixar aqui. Você sabe como sou desconfiado, e quando vi seu interesse por ele; colhi informações de várias pessoas. Em resumo; ele é admirado e querido por gente simples, como pelos proprietários de terra.

Gosto de viajar, Nat. Mas por inúmeras vezes olho meus filhos. Sei que seria muito bom ter um lugar fixo, onde eles pudessem estudar. Acho que herdamos isso de anya, Belle também tem essa necessidade.

E afinal quem não gosta daqui? Vamos só dar tempo ao tempo.

Abraça-me, consolando-me, enxugando as minhas lágrimas. Faço recomendações sobre Erno e Gaspar, descemos pela estradinha. O pátio está cheio de nossa gente. Val leva caixas para as carroças, sei que são mantimentos que Igor deve ter mandado colocar nas carroças.

Anya veio para junto de mim, e ficamos os três a ver o grupo acabar de arrumar-se para partir.

Anya pergunta-me se pode viajar tranqüila, afirmo que sim.

As crianças vinham com flores para me dar; vi Belle na carroça enxugando o rosto. Abracei-as e beijei-as. Fiz minhas recomendações, abraço novamente meu pequeno Gaspar, e ele diz: - Tá bom, tia.

Tento sorrir para eles. Vieram todos e foram abraços longos. Belle e Miriam choravam.

Igor observa, de longe; ao falar com elas, tento prender o soluço, aí ele veio para perto. Abraço, demoradamente Andrei, o pai e anya.

Vejo-os subir nas carroças.

- Pai.

Meu pai pára de costa, corro e o abraço.

- Não demore muito tempo.

- Não posso demorar sem ver você, filha.

Ele chora, e anya pega-o, engolido seco, segurando o choro.

Igor chega e me abraça, limpo as lágrimas.

- Chore, Natasha, solte-se e chore.

As lágrimas correm livres no meu rosto, soluço e ele me envolve, com o braço acena para a caravana, afundo meu rosto no seu ombro e soluço.

Não sei quanto tempo fico assim, ele, alisando meus cabelos.

- Posso lhe garantir que eles voltarão e, além do mais, podemos ir vê-los em Tihany. O que você acha?

Levanto a cabeça.

- Podemos mesmo?

- Claro que sim. Compreendo seu sentimento, e não segure isso, partilhe comigo. Venha, vamos lá para dentro. Seu nariz está vermelho como um pimentão.

Na estrada não se vê mais a caravana, vamos andando em direção à cozinha, ouço um som estranho, indago a Igor com o olhar.

- Misca.

Ao entrar na cozinha está ela sentada no banco com o avental no rosto, chorando. Ao nos ver, levanta o rosto e funga. Igor pede um chá.

- Minha menina, imagino o que está sentindo, vou tomar conta de você.

- E eu não tomo? - indaga Igor.

- Não, da maneira que estou falando; vou ser como uma mãe.

- Ah! Misca, você já me é muito cara.

Beijo-lhe o rosto gordo.

Tomamos o chá com queijo, Igor pergunta a Misca se já subiram com a cômoda, ela faz uma afirmativa. Ele levanta meus cabelos e beija minha nuca, um arrepio sobe pelas costas, Misca nos olha e fala que ele é assim mesmo: aberto. Aceno confirmando. Ele pede a Misca para Val levar água ao quarto e me faz subir até lá.

Uma cômoda foi colocada no nosso quarto.

- É para você, abra.

Abro a gaveta: essências, perfumes, e tecidos.

Olho para ele.

- Você, por acaso, não está me mimando demais?

- Ainda é pouco, passei três longos anos esperando você.

- Conde Igor!

- Quem diabo será? - Ele respira fundo e vai à janela.

- Fala Ferene.

- A máquina emperrou.

- Então, pare-a.

- Não podemos, ela esta puxando a corda toda.

- Esta bem, vou descer.

 

Volta-se para mim e diz que uma das máquinas da fábrica esta com defeito, tendo que ir até lá. Ele tinha dito para ninguém mexer nela, pois não tinha intenção de trabalhar. Saí do quarto correndo, vou à janela e o vejo subir de uma vez no cavalo e sair em disparada. Colo o rosto na janela, vejo-o sumir, pois as copas das arvores encobrem parte da estradinha que vai a fabrica. Ver-se: parte do telhado, as vinhas que quase chegam as margens do Balaton – majestoso e enorme!

 

Retorno o olhar para nosso quarto, vejo os tecidos que ganhei. Dou uma arrumada no quarto e coloco as minhas roupas na cômoda.

Nosso quarto: dois grandes janelões, nossa cama, a mesinha de cabeceira, as duas enormes cômodas espelhadas, uma cadeira de balanço, um tapete, um biombo e, atrás dele, uma enorme tina para banho.

Na parede: meu quadro. Como lhe expressar Igor, o que sinto?

Anya esta certa, amor não se mede ou equipara...mas há em você o alcance pleno do sentimento, e tenho que seguir você...e em mim, a há como certeza: sempre foi assim.

Saio do nosso quarto e entro no outro, ao lado do nosso. Paro maravilhada. Uma biblioteca! Estantes repletas de livros.

Uma escrivaninha com vários papéis.

Deve ser o lugar onde Igor trabalha quando está em casa. Na parede, atrás da escrivaninha, três quatros de Mikail.

Este lugar me tomará grande tempo. Tantos livros! Leio os títulos: são livros bem variados. Há muito que ler. Há também um janelão que da para o lago.

Vou ao outro quarto, duas camas de solteiro, uma cômoda, bacia para toalete, duas cadeiras, um quarto simples.

Desço e ajudo Misca com a arrumação. Por mais que ela negue e fale que tem uma moça que vem ajudá-la, mesmo assim insisto.

Subo para um banho merecido. Já estou na tina, quanto ouço Igor chamando-me.

- Natasha?

- Estou aqui, tomando banho

Ele aparece no biombo, olha-me.

- Posso entrar na água?

- Sim.

Ele sai e volta com algo que joga na água e esta logo espuma, sais de banho! Nunca tinha usado.

Tira as roupas e entra na tina, fica apertado, mas a sensação é deliciosa.

- Deixe-me massagear suas costas.

Volto-me a ele, que retira meus cabelos das costas e massageia-as por um tempo.

Depois me puxa e deito no seu peito.

Pergunto-lhe sobre a máquina, ele responde que conseguiram desemperrá-la.

Em seguida viro-me a ele e molho seu rosto, ele mergulha na água, e eu também.

Sorrimos, ele passa a mão no meu corpo; passo a minha, também, no dele.

Uma descoberta lenta, nos tocamos sem pressa, suavemente, sorrindo vez por outra, e quando nossos corpos se tocam é um chamado mútuo.

Ao sairmos da tina, sinto frio, ele pega uma toalha e me enxuga. Enquanto isso, olho seu ombro, que está seco.

- O que foi?

- Estou vendo seu ombro. Está seco, mas ficará a cicatriz.

Você não imagina a surpresa que tive ao ver no outro quarto tantos livros. Eis uma das coisas que adoro: ler, Igor, no acampamento...

Paro de falar. Onde estaria meu povo, agora?

Igor olha-me e fala: - No acampamento?

- Onde estarão, agora? Devem estar parados para a refeição. As crianças...

Levanto-me e vou pegar uma roupa limpa, Igor fica me observando.

- Já lhe falei que toda vez que você tiver com vontade de falar deles, fale. Eu estou aqui, gosto de ouvi-la falar sobre todos eles.

Concordo com ele; vestimo-nos e descemos para refeição. A mesa da sala está colocada.

Fatányeros, eis o nome da comida, delicioso.

Vamos ao terraço.

 

O sol está quente, e seu brilho se estende por toda a região. Não pode existir um lugar assim em todo mundo. Seria impossível Deus criar tamanha beleza duas vezes.

Lá embaixo, ao redor do lago, o colorido da primavera enche tudo.

Hungria, aqui nasci, aqui estou vivendo, aqui ficarei.

O tempo nos leva por caminhos que parecem estranhos, de repente nos damos conta de outra realidade. Que nossa vida não é mais somente nossa. É partilhada, dividida e unificada com alguém. Parece estranho que no inverno passado, vi os homens da guerra na Rússia, e hoje estou aqui. À frente, o lago, que tanto povoou meus pensamentos, que me fazia sonhar, noite após noite, em estar aqui. E aqui estou; ao meu lado, Igor; ele reina sozinho na minha vida e é ele, por ele que meu mundo também está em plena primavera.

O sol esfria, vamos às vinhas e depois ao lago, sentamos junto a uma árvore, Igor se encosta, e eu encosto-me nele. E ele pergunta-me como era meu avô. Olho o lago...

- O murmúrio das ondas do mar...

Uma frase encantada, como um bálsamo que ele repetia inúmeras vezes.

Falar do avô é falar da vida para mim. Meu pai se parece com ele; só que ele, desde que me entendo por gente, tinha os cabelos brancos.

Sua fisionomia era sempre alegre, e estava de bem com o mundo e a vida. Ele tinha o dom da palavra, no seu real sentido. Quando ele falava todos se calavam, e ele não as desperdiçava. Ao descrever uma cena qualquer, todos nós nos transportávamos a ela. Sempre tinha uma resposta para tudo. Sempre. A seu lado eu sentia como se todo conhecimento humano estivesse junto a mim.

A primeira vez que vi o mar fiquei decepcionada, o que ele falava era muito mais bonito.

Avô: - eu perguntava, quando pequena - quem fez as flores, de onde vinham? Ele parava para responder, não só a mim, mas a qualquer um. E eis que Deus olhou o mundo, faltava algo, mas o que seria? Deveria existir mais colorido e de onde viria? Ele, Deus, olhou o sol e viu seu brilho, puxou-o com a mão e o estendeu à Terra, em forma de flores.

A mim, quando maior, ele dizia: - A natureza é Deus em sua forma, os homens O buscam em altares e igrejas, mas Ele está aqui, diante de nos. Veja as estrelas, o céu; olhe as árvores, os animais. Olhe para dentro de si mesma: Deus está em tudo.

Foi um homem que estudou; tinha bons conhecimentos, que enriqueciam sua cultura.

Deixou os pais ricos e foi para o mundo. Na busca de algumas verdades, uma delas era muito marcante: a verdade da vida, qual o significado da vida?

Por isso, não temos costumes totalmente ciganos.

É tradição cigana, no casamento, o uso do lençol branco, para provar a virgindade da moça. Aos treze anos, assisti a essa cerimônia, e fiquei impressionada. Ele pegou-me para uma conversa: - A pureza do homem está no seu pensamento, nas suas ações. Como se comprovar uma integridade? Mas não nos cabe julgar, cada povo tem seu costume, sua tradição.

Sua filosofia tinha fundamento na realidade que o cercava. Essa visão ele nos passou e viveu por ela. Ele procurava incorporar mais conhecimentos a essa filosofia de vida. Conhecimento de livros, conhecimento com outras pessoas, conhecimento de pesquisas.

Percorremos lugares onde viveram pessoas que ele admirava. Como foi conhecer Assis. É clara a lembrança de nós dois andando por uma viela e ele a me falar: - Madar, estamos pisando onde Francesco de Assis, pisou!

Passávamos noites inteiras a conversar, muitas vezes até o raiar do dia.

Na véspera de ele morrer, ficamos até muito tarde da noite conversando. Era verão, a noite estava quente. Estávamos a olhar o céu e ele passou o braço no meu ombro e falou, olhando o céu. Falou, talvez não para mim, mas para si mesmo: - Madar, todo conhecimento, todo poder e vontade, o que há de bom ou ruim está dentro de nos. Podemos ser deus ou demônio. Tudo está inserido dentro de nós; até a historia da humanidade.

Fiquei a pensar como seria possível. Ele que buscou tanto. Não quis perguntar, na hora, pois ele contemplava o céu, com uma felicidade. Pensei em falar-lhe no dia seguinte.

Ele morreu, morreu dormindo, eu a seu lado. Não ouvi nada! Ele morreu dormindo. Deixou um vazio... Não quero mais falar nisso.

 

Igor toca meu rosto e fala: - Natasha, não evita falar do que sentes.

Respiro fundo e falo: - Lembranças ricas, valiosas e vivas.

Igor fala: - Ao meu ver, ele está certo.

Viro-me para ele: - Então, explique-me. Já indaguei a algumas pessoas, mas ninguém soube me responder. Explique-me.

- Na minha concepção nossa essência é divina, Natasha. E tudo é uma questão de consciência. Ao meu ver, os seres passam por vida apôs vida, nisso têm experiências que incorporam a si, ou seja, tomam consciência. É algo que se traz ou que se adquire. Na consciência estamos acordados e cientes para vida ou algum aspecto dela. Cientes de que estamos aqui em missão, de que estamos aqui a trabalho, isto não quer dizer que deixamos de sentir; do contrario: sentimos mais e mais. Que não existe maior, ou melhor, e sim, que existem missões e missões. Acho a compreensão um ato discernimento. Quando você afirma: eu compreendo, seu ser se coloca diante da pessoa, da causa, do fato, ou situação.  Ao afirmar eu compreendo, transportamo-nos ante ao que estamos a lidar. Existe um partilhar e daí se comunga ou se discorda desse algo.

A compreensão é o melhor e mais pratico meio para a consciência. O ser estando aberto a ela, é sem duvida uma maneira mais fácil, menos dolorosa. Pois quando não, a vida nos colocada diante de fatos com que temos que lidar. A consciência é a incorporação desses atos, seja pela compreensão, ou seja, diante de fatos.

Olhe bem, amada, onde está o significado da vida?

Seu avô buscou e achou. Ele via Deus em tudo, pois, a meu ver, a essência da vida está em tudo.

Ela a buscou junto ao conhecimento, e vivenciando isto, tornou-se um sábio. Ou seja: vivenciando cada tomada de consciência.

E descobre, antes de morrer, que tudo está em nós.

Olho para o lago e em seguida para ele e falo:

- Nessas andanças, deparávamos com uma imensidão de fatos e situações.

Nelas, via com clareza que Deus não colocaria um determinado homem em situações tão adversas, enquanto outro tão privilegiado. A resposta, só podia estar em vida, morte, vida. Que nossa essência é divina, eu creio. Mas como tudo está inserido em nós?

Ele olha-me dentro dos olhos e fala:

- Qual o sentido da vida, Natasha?

Para mim, não importa qual a religião, ou a condição de um ser. O que diferencia é a consciência, e ela vem pela compreensão ou dor. Ela sempre vem pelo sentir. Ao tomar consciência do meu amor por você, vi que ele é capaz de tudo.

Qual o sentido da vida? Seu avô afirmou que tudo está em nos, somos criadores ou destruidores; é tudo uma questão de consciência. E o que a diferencia?

Vejo o por de sol no lago, a beleza presente e abrangente. Falo:

- O que diferencia é o sentimento.

Ele sorrir sereno e fala:

- A essência da vida está no sentido onde e como, aqui em terra, atribuímos nosso sentimento.