Taças

Luz do Sol, encoberto

 

O dia amanheceu nublado, à noite choveu.

Não consegui dormir direito. O sono não vinha, o pensamento: ele.

E quando dormi, tive outro sonho na casa estranha, só que vi uma pessoa deitada, parecia doente. Sei que acordei chamando por Igor, para ele não ir embora. Acordei molhada de suor. Vou tomar um banho.

O dia se arrasta, meus nervos estão à flor da pele. Chego a gritar com Gaspar!

O que está me acontecendo? Nunca fui rude com as crianças.

Não consigo comer.

Ele não apareceu.

Como posso ficar assim?

 

É começo de tarde, vez por outra o sol tenta aparecer, mas há nuvens...

Meu Sol também não aparece.

O mundo perde o brilho, o colorido.

Sem ele parece não haver vida. Meu Deus! Com tão pouco tempo que o conheço.

Ao diabo os dias, o que sei é o que sinto.

Sorrio, ouvi isso de Igor, e ele está certo! Pois é o que sinto.

É tão grande assim?

Imagine, se eu viajar, ninguém irá me agüentar, nem eu mesma!

Por que eu não iria agüentar?

Meu coração se acelera... Por um único motivo, motivo simples e óbvio.

Não posso viajar, pois amo você. Eu o amo!

Igor, eu amo você.

Isso é mais forte que tudo, quero ficar com você.

Meu coração disparara. Mago, amo você. É tudo que importa.

E nós dois juntos vamos achar uma solução.

 

Homem, me posicionas-te a decisão!

Preciso falar-lhe que quero ficar, pois o amo.

Vou procurá-lo, agora, já!

Sim, o agora é comigo.

Saio da carroça.

- Natasha, aonde você vai?

- À procura de Igor, anya. Você tinha razão, ele não veio. E eu vou procurá-lo para conversarmos e chegarmos a uma conclusão.

- Tenha cuidado, filha. - A abraço serenando-a.

Procuro o 'gavião', o cavalo mais veloz que temos. Coloco-lhe os arreios e parto.

A tarde continua nublada.

Tenho pressa, uma pressa incontida em verbalizar o que sinto.

Amo você, caro Conde!

Chego à casa dele, mas não vejo seu cavalo. Quem sabe, ele deva estar na fábrica. Melhor perguntar a Misca, ele pode estar na plantação ou na casa de Mikail!

Bato à porta, e logo Misca aparece, fica surpresa e alegre ao me ver. Explica que Igor foi à cidade, pois há alguns dias a Condessa mandará chamá-lo e ele foi pela manhã. Depois acrescenta:

- Hoje cedo ele acordou dando murros na parede, não sei o que houve.

Pergunto como chegar à cidade.

- A senhorita toma esta estrada e não tem erro, sairá lá. Mas deixe-me chamar alguém para acompanhá-la.

- Não é preciso Misca, grata.

- Tem certeza? Não custa nada. Então quando entrar na cidade verá uma praça, Val, meu marido está lá, com toda certeza do mundo, jogando gamão. Ele chamará o senhor para a senhorita. Vá com Deus.

- Obrigada, Misca.

Dou-lhe um abraço e subo em gavião. Aproveito a estrada boa e faço-o correr, mais e mais.

 

Quero estar logo com você, Igor; quero abraçá-lo e falar o que sinto:

- Perdoe-me, é tão novo para mim. Nunca senti o que sinto agora. Amo você, e como fui tola.

Como fazer-lhe querer esperar, se a vontade é estar.

Perdoe-me, tudo é novo para mim... Novo a minha mente, pois o amor que tomo consciência está presente desde que ti vi... Quero ficar com você, quero estar com você.

Hungria, amada Hungria, hoje começo a ter orgulho de ter nascido aqui, aqui encontrei o paraíso, e o homem que amo. E esse homem é que faz o mundo virar o paraíso e tornar-se colorido. Sol da minha vida.

E eis a cidade. É pequena, ao que dá para notar. Muito arborizada e com casarões bonitos. É bela.

Há muitas pessoas circulando na rua.

Ali está a praça. Por que tanta gente na praça? É o jogo.

É melhor deixar o cavalo aqui, amarrado.

Agora vou a pé à procura de Val. Mulheres bem vestidas! Olho para minhas roupas.

Ali está Val, acho que é ele, sim, vou pela calçada.

Olho para a minha direita e, ali de costas é ele, é Igor! Que bom, ele terá uma surpresa.

Com quem está conversando? Não dá para ver, chego mais perto.

É uma senhora, será sua mãe?

Melhor chamar Val. Não é a Condessa, essa senhora não tem idade para ser a anya de Igor.

E aí, Natasha onde está sua coragem?

Aproximo-me.

Ele continua de costas e ela está a falar, vou chegando mais perto.

- ... Não o entendo Igor, porque adiar esse casamento. Minha filha já está inquieta. Afinal, vocês se conhecem desde crianças. Soube que tem uns ciganos na região, e é normal você se divertir com uma ou outra qualquer. Mas isso não tem nada a ver com seu casamento...

Minha vista escurece. O que está acontecendo.

Não é verdade, não pode ser verdade...

Estou tonta! As palavras que ouvi, entranham por mim, tomam-me.

 

Que é isso, Natasha! Reaja, mexa-se. Saia daqui.

Como ele pode fazer isso comigo?

- Senhorita, está passando bem?

Olho o rapaz a meu lado. Nesse instante vejo que ainda estou parada.

Igor vira-se, seu ar é de surpreso.

- Nat?!

Afasto o rapaz e corro. Derrubo um cesto de frutas.

- Moça, por que não vê onde anda!

Tenho que sair daqui, tenho que sair...

Meu cavalo, onde o deixei?

Pense, Natasha; pense.

Escuto o homem das laranjas falando.

- Sr. Conde, claro, depois a gente acerta...

Meu cavalo, ali está!

Corro e subo nele.

 

- Nat! Espere! Por favor, espere-me!

Vamos gavião, vamos lá.

Eia! Eia! Vamos!

Onde é a saída daqui? Onde?

É ali! Vamos lá cavalo corra, corra tudo que você puder.

Tire-me daqui, pelo amor de Deus, tire-me daqui...

Casar?

Casamento marcado?

Você é uma imbecil, tola.

Como pôde ser tão ingênua, e ele tão cínico.

- Natasha, espera.

Olho para trás, maldição! Ele vem a cavalo, seguindo-me.

Ele não vai me alcançar, quero chegar ao acampamento.

Deus! Foi esta a estrada por que vim?!!! Claro, ali está a casa dele.

Casamento marcado... Divertir-se...

O que fiz a ele? Por que tanta mentira!

- Natasha!

Viro-me para ver se ele está perto.

Meu braço! Maldito galho, minha blusa está presa, há sangue!

Feri o braço.

Maldição! O galho não sai da minha blusa.

- Natasha! O que houve?

- Não chegue perto de mim.

- Calma, Natasha! Vou ajudá-la.

- Cale-se Sr. Conde! Posso estar em suas terras, mas não quero ouvi-lo falar. Não fale uma única palavra. Suma da minha frente.

Seu cavalo está ao lado do meu.

- Natasha, deixe-me explicar. Seu braço está sangrando.

Ele pula do cavalo.

- Não se aproxime mais de mim!

Posso ter sido tola, mais sei me defender. Você conseguiu me ferir mais do que qualquer coisa na vida. Portanto suma! Eu posso ser tudo, uma cigana ingênua, mas você foi um covarde. Você me toma por quê? Admito que um homem ou uma mulher mesmo casados possa se apaixonar. Posso até vir a ser outra na vida de alguém, mas por sentimento.

Ter uma mulher, caro Conde, é mais que um ato, é um desprender-se... Mas você não sabe o que é isso.

 

Consigo livrar-me do galho.

- Natasha, saia desse cavalo!

- Quem você pensa que é? Você me dá pena. Uma pessoa que tem que mentir para ter uma mulher.

Ser homem, Conde, é enfrentar situações criadas, vivenciadas ou mesmo imaginadas por si mesmo.

Enfrentar não é um ato de coragem; é, antes, um ato de consciência, que você não tem.

Realmente, você é muito pouco para mim...

- Acabou?

- Não! Agora vejo a distância que temos, existem léguas de distância de mim, da minha gente, para você e seu meio desprezível. Hoje mesmo vamos embora daqui. Não agüento vê-lo mais um segundo.

- Calada, Natasha! Estou ficando fora de mim. Vou tirar você daí agora. Por bem ou a força.

- Não venha! Saia da frente. Este cavalo é bravo. Estou lhe avisando. Saia da frente!

- Você vai descer agora e me escutar!

- Saia da frente do cavalo! Ele ataca quando vê algo à sua frente. Saia!

- Oh! Oh! Cavalo! Calma!

O cavalo levanta as patas e bate nele. Ele cai no chão. Deve ser mais um dos seus truques, uma de suas mentiras.

Faço o cavalo disparar.

 

O lago, estou perto.

Tenho que parar, não posso chegar assim ao acampamento.

Olho para trás, ele não está me seguindo mais.

Paro o cavalo. Melhor descer e me lavar.

Queria que a terra se abrisse no meio para eu entrar nela.

Como ele pôde fazer isso?

Chore, Natasha; chore tudo que tem vontade... Chore aqui, porque lá no acampamento você não vai chorar. Chore, por ser tão tola em pensar que um Conde a estaria amando.

O que lhe fiz?

Como pode mentir tão bem! Casamento marcado!

Devo admitir que foi brilhante a sua atuação. Perfeita.

Chore até suas lágrimas esvaziarem o que sinto aqui dentro de mim.

Dói meu peito, meu coração. Descobri que amo e, em seguida, não sou amada.

Meu Deus, isso é dor, isso machuca... Corrói aqui dentro.

Amar leva a isso? Na desilusão, sentir tamanha dor?

Antes, não tivesse eu este sentimento.

Casamento marcado...

 

É noite.

O acampamento, meu lar, minha segurança.

Andrei vem ao meu encontro, perguntando o que houve, onde me feri.

Não me deixa responder, completando que estão todos aflitos por minha demora. Olha meu braço e me coloca nos seus braços qual criança. Conto-lhe foi só um arranhão, minha blusa se prendeu num ganho.

Anya chega assustada e a tranqüilizo:

- Só um corte pequeno no braço. É que meu irmão me adora mimar.

- Vamos para a carroça!

Pronto, deixe-me ver. Andrei, avise a seu pai que ela chegou.

Anya cuida de mim, calada. Não sinto dor no braço, dói a alma, o coração. Como alguém é capaz de mentir dessa maneira? E tudo que vivenciei era uma farsa!

- Pronto. Agora, conte-me o que houve.

Olho para anya, até ela tinha sido enganada. Toda sua intuição, sua percepção; na verdade somos todos ingênuos. Acreditando num caráter nato, como falava meu avô; sim somos ingênuos: os seres humanos não são assim!

- Você está se sentindo bem, filha? Fale comigo, foi o Conde?

Nego com a cabeça e falo:

- Fui à casa dele, lá Misca disse que ele estava na cidade, sua anya tinha-o chamado. Fui até lá. - olhando para ela, continuo.

Na cidade deparei-me com a casa dele. Vi as pessoas que entravam nela... Não é uma casa, é um palacete, aquelas pessoas, tão bem vestidas. Fiquei algum tempo, ali parada.

Vi a diferença entre nossos mundos. Ao dar-me conta dessa diferença, fugi. Vejo como tudo é diferente. Saí correndo de lá, fugindo mesmo. Foi assim que feri o braço. Não quero mais ficar aqui, anya. Peça ao pai para irmos embora.

Ficar significa me apegar mais a ele.

- Foi, exatamente, isso que aconteceu?

- Sim.

- Não acha que está sendo precipitada?

- O que a senhora quer? Que fique, e ele me convença que somos iguais? Eu vi como é a casa dele na cidade e as pessoas que a freqüentam. Ele pode morar aqui, mas ali, também, é sua casa. Queira ou não há diferenças grandes entre nossos mundos. Sentir isso, machuca.

Anya levanta-se.

- Durma, vou conversar com seu pai.

 

Que boa lição você me ensinou: mentir. Aprendi depressa algo tão desprezível, Sr. Conde.

Você me enganou, enganou anya, enganou a todos. E dizem que nós, ciganos, é que somos mentirosos.

Casamento marcado. Conhecem-se desde crianças.

Vão formar um lindo par. Uma dama que irá compartilhar de toda a sua sujeira.

Você me usou, usou meu sentimento.

O que dói são suas mentiras, tantas palavras belas.

Mas você tem um grande mérito, Sr. Conde. Isso você tem.

Levou-me pelas asas da paixão.

Suas mentiras me fizeram aterrissar prematuramente, de uma maneira violenta.

Estou machucada. Nunca tinha sentido o que sinto.

Nosso ponto de partida foi diferente.

Divertir-se com uma ou outra qualquer... É, acho que você se divertiu.

Mas tudo passa.

Tudo tem que passar. Hoje, vai passar. Amanhã, este hoje será passado.

E você, meu caro, uma mera recordação.

Uma bela e dolorosa recordação.