Taças

 

Hoje sou eu que ergo um brinde.


Vendo-me no espelho, acho-me bonita.

Meus Livros no chão, a paisagem do lago Balaton ao meu redor.

Sorrio ao levantar a vista para o mar à minha frente: - Adoro você mar, mas é o lago que me chama.

Leio um escrito de Pongrac Galsai que fala do lago e suas cidades.

Badacsony, um friozinho percorre minhas costas. É linda a cidade, pequenina e florida.

As colinas e os bosques parecem surgidos dos contos de fadas, o Balaton com suas águas brilhantes e o mago!

- Como você estará agora?

Se você é passado que hoje é presente, aonde quer que eu chegue?

Se é presente, se não mora em um mundo físico e me visita, por que não é mais perceptivo?

Doce e imponente, dono do meu dia, da minha noite, dos meus pensamentos e sentimento.

Excede, é dono de minha alma... Ou minha alma ciente o busca? Meus olhos têm brilho, um sorriso vem-me aos lábios.

Suspiro e sorrio!

Se alguém perguntar onde está a coerência?

Fica a frase: aos entendidos, pois não entendo mesmo.

A mim, neste exato momento, o que importa é ele. Por mais estranho e absurdo que pareça, esta é minha realidade que vivencio. O cenário é sempre o mesmo; o tempo é móvel, oscila entre 1813 – 1988.


Como um passado, uma vivência pode ser tão forte?

Vêm imagens, cenas.

Boquiaberta vejo, nessas cenas a força de um sentir.


Noite linda!

Há nuvens no céu. O sentimento se alastra, e sobrevém a vontade de tocar o impossível. Ele, sinto: Seus cantos são tão antigos, no entanto, sua voz está em mim, seu rosto é tão meu como meu próprio corpo. Rompe a irrealidade e vive o real através de mim, do sol à lua, da lua ao sol.

Aonde isso me leva?


Cena:

É noite, o lago Balaton está sereno. Depois da chuva, a relva úmida, o cheiro da terra que fora molhada se mistura ao perfume das flores. Uma colcha de pele no chão. Igor tem no olhar mais brilho que a lua cheia. Sua voz é grave:

- Abrimos o caminho.

Natasha senta-se: - Não o entendo. Que caminho?

Ele sorri: - Você irá entender com o tempo.

- Fale-me agora, abrimos que caminho, Igor?

- O nosso caminho. Passado, presente e futuro. Abrimos nosso caminho ao permanente: ao estado de amor permanente. Se assim o desejarmos, se assim o quisermos. O amor é a maior força do universo. Para ele não existe o impossível: nem o tempo, nem a distância, nem a morte. Ele exige a plenitude, o eterno. Ele é nosso elo. É nele, com ele e por meio dele que atravessaremos tudo. Amo você, amada, hoje e sempre.


Cena.

Anoitece, o pôr-do-sol no lago é esplendoroso demais. Relatá-lo, de tão magnífico e valioso, é correr o risco da imperfeição. Igor, sentado à frente do lago, num movimento deita a cabeça no colo de Natasha. Antes, encosta seu ouvido em seu seio.

- Ouço seu coração, sabe o que ele fala?

- O que ele fala?

- Que me ama, infinitamente.

- Presunçoso, mas verdadeiro. É tão simples para você, Igor, falar do sentimento?

- Falar dos meus sentimentos, nem tanto. Mas é fundamental falar a você. Falar do sentimento que tenho por você é um ato. Por si já o é. Quero viver e morrer falando: amo você. Eu a amo sob mil formas ou por mil representações. O que importa é que fique claro: amo você! Que o Balaton adormeça ao som do “amo você”. Que o dia nasça com o murmúrio do meu sussurro “amo você”.

Cada vez que a olho, em cada gesto: amo você. Se houver distância, você sentirá, esteja onde estiver, aconteça o que acontecer. Por um único e simples motivo: a imensidão, a grandeza desse amor que tenho por você.

Cai o silêncio.

- Não existirá distância, Igor...

- - Se existir, você entenderá o que estou lhe falando. Meu sentimento é o sopro da própria vida. Sem o sopro não há vida! Amo você de tal forma que nada, nada fará você não sentir. Nem a distância, nem o tempo ou a própria morte.

- Por que falar em morte ou distância. Estamos juntos e juntos ficaremos até envelhecermos, sempre e sempre.

- Entenda-me, por favor, muitas coisas existem além da nossa visão, do nosso alcance de agora. E se por ventura existir uma dessas situações, quero que procure entender o que lhe falo. Mesmo que me cale, você sentirá, ecoará em seu ser o sopro da vida, do amor que tenho por você.

- Não fale nisso, sinto-me mal... Eu não viveria sem você.


Ele senta-se, sério, o olhar que atinge a alma, e fala: - Viveria, pois meu amor por você é sentimento, e sentimento não morre. O sentimento é vivo. Se o sentimento é vivo tudo o é. Viveria, pois meu sentimento estaria vivo através de você.


Noite alta. Faz frio aqui na varanda, sopra o vento, acho que vai chover.

Começo a não ter noção do tempo. E o que importa.


A verdade cai como uma pedra num lago limpo e claro, as ondas repercutem quando a pedra toca no lago. São essas ondas, é a pedra. A pedra lançada há tanto tempo, e as ondas a repercutirem.

Vejo a pedra no lago e as ondas continuam, vão de um pequeno a grandes círculos.

- Ajuda-me, Igor! Já não sei onde me sustentar, já não sei onde me segurar. O que faço com tudo que estou sentindo? Quero estar com você! Maldito tempo, maldita distância.


Madrugada.

Estou congelada de frio. Dormi lá fora, meu corpo dói.

- Sabe o que trago dentro de mim? Você sabe, Igor? Não! Com certeza você não sabe! Existe uma guerra - não! Guerra não! Ela já está sendo travada há algum tempo, o que existe são bombas, estou sob um bombardeio. Santo Deus, por um único motivo: quero estar com você. Isso dói, isso machuca, tal qual uma ferida aberta. Ajude-me, eu não estou agüentando mais!

Não sei que horas são, há uma tempestade lá fora. Tenho febre, febre alta.

Estou cansada, deitada no quarto. Lá fora é só vento e chuva.

Como posso fazer o tempo voltar?


14:20

A febre continua. Sinto Igor perto.

- Seria muito pedir a você: Venha buscar-me, leve-me! Por que você não responde?

Tenho que chegar a 1813, é lá que se encontram as respostas. Está me ouvindo?

Por favor, responda-me. Onde está você? Foi você que começou toda essa loucura. Eu não agüento mais... Eu preciso de você. Talvez mais do que você imagina, talvez mais do que eu própria imagine.


16:50

Minha febre está alta, já tomei dois antitérmicos. A tempestade continua, o quarto está escuro, parece noite.

Em meio a um sono:

-- De que você tem medo? Solte-se mais, venha a mim!

Sinta o amor que temos, vem amada!

- Ao inferno, Igor! Esteja onde estiver.

Meu ser só quer você. Como verbalizar isso? Não existem palavras, elas ficam sem sentido diante do que passo. Porém, mago, ao sentir o que sinto, quero estar – estando, eu necessito. Mas eu não sei o caminho.


18:50

Meu corpo treme, é a febre, é a vontade de estar com você!

Meu corpo dói, minhas costas queimam, respiro mal. Queria, não, quero você aqui, comigo! Não sei como chegar a 1813!!!

Parece-me que a insanidade instalou-se.

Se você não aparecer mais, se sumir!

Você não faria isso. Levar-me a essa loucura e sumir.

Claro que não: Se o sentimento existe, então tudo existe.

Ao diabo a coerência: tenho um sentimento por você, é isso que você quer ouvir? Entranha em mim seu pedido para voltar no tempo.

Leve-me Mago, leve-me, você impera sozinho. No início teimava em ser notado, notado hoje é o vento, você está em mim, faz parte do meu ser.

Mas mesmo assim somos sol e lua. O sol que busca a lua, a lua que busca o sol.


21:40.

Não consegui comer hoje, a febre persiste. Acho que preciso de um médico, médico de alma.

Os tremores continuam, já tomei mais antitérmicos. A febre, o sentimento, a chuva, e ele...

Sei que preciso relaxar, mas não tenho conseguido. Adormeci, sonho ou não, já nem sei mais, porém, senti a mão de Igor na minha testa e a sua grave voz pausada:

- Relaxe, amada. Solte-se e venha a mim.

O tempo não existe, o que existe é o amor, é o nosso amor.

Vindo do passado, repercute no presente.

Sua mão acariciava meu rosto, sentir seu toque é a bênção que buscava.

Sussurrei: - Estou morrendo, Igor?

- Não, amada, você terá simplesmente que ter consciência do que fomos, e hoje somos. Pois, assim prometemos. Temos nosso trato - Selo.

- Perdoe-me se eu não conseguir, vida...

- Você irá conseguir. Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros, posso tocar tua alma, teu ser. Sabe por quê? Porque eu a amo, e como amo!

Relaxe, respire o sentimento.

Solte-se, você irá conseguir.

Não tema, estou com você a todo momento, em todo momento que você se permite sentir o nosso sentimento. Portanto sinta: eu amo você. Solte-se.


Acordei com meu próprio grito, chamando por ele. Minhas lágrimas caem como a chuva lá fora.

A fórmula está no tempo?

Não fosse essa febre, eu poderia raciocinar melhor, mas o corpo dói, dói minha cabeça.

O tempo; é nele que está a porta?

Não, claro que não, pois não existe nem o tempo nem a distância.

A fórmula está no sentimento, no amor!

Ele ama, por isso espera.

E eu? E eu?

O tempo une a quem quer se unir. O tempo sempre foi a alma da vida, e hoje, a alma da vida é o sentimento que tenho por você.

O sentimento... A busca... Amo você!

Eu amo você.

A busca ao alimento.

O mergulho.

A razão: eu amo você!

Meu coração dispara, meu corpo treme: Eu amo você, eu amo!

Dou-me conta de que eu amo você.

Do momento que te vi, a estranha sensação era amor!

Você me escuta? Sente? Ouça-me, eu amo você.

E ao escutar minha própria voz, meu coração bate acelerado.


Tenho que relaxar, serenar.

Farei o relaxamento indiano do auriga. Existe uma charrete com três cavalos. Quem guia a charrete é o auriga – é o ser, o espírito. A charrete é a vida, os cavalos: a força física, mental e emocional. O auriga controla os cavalos com as rédeas, que são os pensamentos.

O meu cavalo emocional está disparado. Imagino-o diminuindo sua carreira. Puxo as rédeas, murmurando: mais devagar, devagar.

Respiro fundo, minhas costas doem, continuo respirando fundo e lentamente.

- Eu tenho um corpo. Meu corpo é meu instrumento preciso de experiência e de ação. Mas meu corpo é apenas um instrumento. Tenho um corpo, mas eu não sou esse corpo, faço parte dele, mas eu não sou ele.

Respiro lentamente.

- Eu tenho emoções, elas são contraditórias, mutáveis. Todavia, sei que sempre permaneço. Tenho emoções, mas eu não sou as minhas emoções.

- Eu tenho um intelecto, às vezes indisciplinado. Ele é indispensável, pois é responsável pelo conhecimento com relação tanto ao mundo exterior como ao interior. Tenho um intelecto, mas eu não sou o meu intelecto.

Respiro mais suavemente.

Sou o constante e imutável EU.

- Eu sou Luz. Eu sou harmonia. Eu sou o centro da verdade, capaz de dirigir, comandar e utilizar todo meu processo psicológico e meu corpo físico.


Sinto sono, estou relaxada, serena e tranqüila.

Chove, os pingos da chuva no vidro da janela escorrem.

O quarto está escuro e silencioso.

Silêncio na escuridão, meu mergulho.

Mergulho silencioso, os pingos que escorrem no vidro da janela brilham.

Mergulho na luz,

Luz que trago comigo, a luz do sentimento.

Luz que trago em vida, morte, vida.

Sinto a luz do sentimento me abranger, respiro, sinto tudo amplo.

O tempo é vasto, pulsa.

O tempo universal se alastra, e envolve-me como o sentimento.

Mergulho... O tempo... O sentimento.

O sentimento leva-me. O sentimento: qual o nosso lugar?

- O nosso lugar está dentro do nosso amor. Seu lugar é comigo, amada. Mergulhe neste lago de luz. Venha, mergulhe!

O calor do sentimento faz soprar a areia do tempo.

Segue cronologia encantada: o calor e a areia do tempo.

- Sopro a brisa do tempo e deixe o calor do sentimento subir.
Vem amada, estou aqui!
Vê a plantação de uvas, os nossos vinhedos!

Que flores mais perfumadas você sente, senão as nossas.

Ali, o bosque, nosso bosque!

Que águas mais cintilantes você vê! O Balaton, águas que tanto nos banharam, é nosso lago.

A planície que se estende sob sua vista daqui do alto da nossa casa lhe parece que o mundo está a seus pés. E pergunto: e não está? Aqui está nossa história, percorra.

Uma história onde existiu um começo e não terá fim. De duas vidas, que se tornaram uma, de um amor que nem o tempo, nem a distância calou.

Reviva, ressinta, entenda e colha o que fomos para assim compreender o que somos.

Pois a essência da vida, o seu sentido, está onde e como atribuímos o nosso sentimento. Aqui ele reinou.

O infinito está com você. O amor que tenho por você precede a esta vida, o amor que trago entrou pela eternidade e provou: é o sempre, o eterno.

E, portanto, a espero, espero amando. Espero o seu acordar, para assim você realizar nosso trato, promessa, selo de almas!

Amada minha, minha alma se expande na luz do amor que temos. E eu a espero. A ponte está a sua frente! O mundo que vivemos está nas suas mãos, aí está nossa realidade. Siga em frente, vá até o fim, pois só assim você entenderá.

E sinta: amo você!


O tempo, o tempo, tempo.