Taças

Homem, es especial.
O que leva um homem a ser especial?
Carisma, amplitude de visão, atitudes autenticas.
O que faz com que duas pessoas se interessem uma pela outra?
Atração? Sim, ela existe e é tão forte como o ar que respiramos.
O que faz a gente querer partilhar mínimas coisas com alguém? Simpatia? Afinidade?

E o desejo de permanecer juntos as vinte e quatro horas do dia?
E o que dá certeza de alguém ser importante na sua vida, mesmo que conheça esse alguém há apenas dois dias? De onde vem isso? De um passado, da minha inconsciência na doença?

Sentimento e emoção estão juntos.

Sei que anya está certa, mas Igor também está.
Ele é um conde, um homem atraente, com o olhar mais belo que já vi.
Esse mago chama-me no tempo, e eu concordo, fala que me quer e eu o quero.

- Vamos lá, Natasha, já faz tempo que acordou, levante-se.

O sol está lindo, forte e brilhante, como a noite também será linda, será quase lua cheia.

Vou ao lago tomar banho.

Na volta do lago, banho tomado, vestindo blusa branca bordada e saia estampada, pendendo o cabelo úmido no lenço. Vejo minha gente já de volta de Badacsony. Estão todos entusiasmados.

- Pai, o que de tão especial tem na cidade, vocês estão tão alegres.

- Descobrimos como vender nosso trabalho que levaríamos a Nijmí, isso é excelente filha.

Ah!!! Meu peito está apertado e doendo, e sei o motivo.

- Existe uma cidade, chamada Tihany, que tem uma feria espetacular. Sendo assim, seguiremos para lá. Não é longe, fica a um dia de viagem, e, na volta, ficaremos um bom tempo aqui.

E, agora?
Sei da importância de vendermos, já faltam alguns mantimentos, e precisamos de dinheiro. E Igor?
Não consigo pensar em ficar longe dele!

- Egoísta! Penso.

Estou sendo egoísta, mas é a mais pura verdade.
Não consegui comer nada, e por isso vim para cá, ver o lago.

Creio que será pouco tempo, sei disso, sei da total necessidade da nossa gente.
Mas não consigo pensar em ficar longe dele! Só em pensar, meu peito dói...

- Natasha!

É ele, seu grito está um pouco distante.

- Estou aqui, Igor, rumo ao lago!

- Fique falando assim localizo você.

- Está chegando perto. Está me ouvindo? Igor? Está me ouvindo? Igor!

Lá está ele, meu coração dispara.

- Igor!

Corro a ele. Ele pára o cavalo, mas não desce.

- Como você está linda! Já falei com seus pais, pedi-lhes para você vir comigo à casa de um amigo. Eles consentiram.

Vou para perto dele para montar no cavalo, só que ele pula antes. Chega perto de mim, e eu o abraço; ele tira o lenço que prende meus cabelos, olha-me por um tempo, e fecho os olhos.

- Quer que a beije?

Sua voz grave, respondo com um sorriso.

Volta-me para diante de si, desce o rosto ao meu e beija-me. Um beijo que me deixa sem ar, e plena do nosso ar; tento falar, mas ele não deixa, continua a beijar-me... Ele me puxa para mais perto; passo as mãos em suas costas, nosso beijo é intenso... só existe uma respiração.

- Eu quero você. - Ele fala sem tirar os lábios dos meus. E a vontade é senti-lo mais e mais.

Um cavalo! Ouço um cavalo.

Ele se afasta um pouco, sua respiração está irregular, seus olhos em chamas, eu falo.

- Vem alguém.

Ele respira fundo, como se controlando.

- Eu sei... Mas veja como você me deixa.

Ele me mostra suas mãos, elas tremem e as minhas, também. Ele, então, pressiona minhas mãos nas suas, e fala.

- Você me tira do tempo.

O cavalo está próximo.

- Igor! Onde diabos você está?

Franzo as sobrancelhas: quem é? Não conheço essa voz.

- Aqui, você está bem próximo.

Igor já está mais controlado, passa as mãos nos meus cabelos, meu lenço em sua mão e ao tentar pegá-lo, ele guarda-o no bolso e sorri para mim.

- O que você está fazendo... Desculpem-me.

Um homem alto, com barda e loiro surge à nossa frente. Bastante alto. Pele branca, muito branca e olhos de um azul profundo; bonito, uma beleza serena.

- Natasha, este é Mikail. Mikail, esta é Natasha.

O homem desce do cavalo. E Igor fala.

- Íamos a sua casa.

- Ótimo. Prazer, Natasha. Igor fala-me muito de você.

- O prazer também é meu, Mikail. Parabéns, você é um grande artista, vi seus quadros na casa de Igor.

Pronto, fico vermelha e o bosque se enche da risada de Igor. Ele me abraça como para descontrair-me.

- Ela viu o quadro?

Pergunta Mikail a Igor.

- Não, ainda não. Vamos lá, espero que tenha um chá para nós.

Subimos no cavalo, Mikail galopou na frente e Igor o acompanha. Tinha que me agarrar enquanto subíamos o monte. A casa de Mikail fica num local bem mais alto.

É uma casa pequenina, meio desarrumada, por todo lugar viam-se telas em esboço. Dois quadros estão prontos, são perfeitos. Elogio seu trabalho e pergunto como ele consegue dar tanta vida. Ele aponta para os esboços e explica que muitas vezes não consegue, tendo que esperar a inspiração.

A casa tem dois cômodos, um deve ser seu quarto. Várias prateleiras cheias de tintas e pinceis, dois janelões dão para o lago.

Linda vista, pergunto se é ali que ele pinta. Ele diz que depende. Quando o tempo está bom ele sai a buscar lugares novos ou novos ângulos.

O chá é servido e Igor pergunta se o chá é de ontem ou de anteontem. Mikail sorri e responde se faz diferença. Sentamos. A conversa, agradável, gira em torno das pinturas. Faço a pergunta de onde ele é, pois seu sotaque é carregado. Ele me conta: é russo, de Odessa, mas faz quinze anos que mora ali. Saiu de casa quando tinha dezoito anos, passou um tempo a andar até chegar aqui, e fixar-se. Diz ele que é o encanto do lugar. No começo pensava em só fazer algumas telas, mas foi ficando, ficando. Sempre viaja, para outras regiões, mas sua casa é ali. E hoje não pensa mais em sair, pois gosta da região e a  Hungria, que adotou como sua terra.

As telas de Mikail são belas, perfeitas. As tonalidades das cores me dão a real impressão de ser um registro vivo da natureza.

É fim de tarde quando saímos da casa de Mikail. Foi uma tarde deliciosa. Gostei dele. E, mesmo sem querer, comparei-o a Igor, mesmo sendo ele mais bonito que Igor, pois suas feições são perfeitas. Igor é notado por sua sinceridade, pela abertura dos seus gestos, do seu ser e, evidentemente, pela força que dele emana. Mikail, sereno, controlado, interiorizado.

Igor pára o cavalo e pergunta-me, enquanto desmonto, em que penso.

- Gostei de Mikail.

- Não me faça ter ciúmes. -  fala sorrindo.

- Mas gostei mesmo dele.

- Estou brincando, Mikail é um grande amigo, como um irmão.

Penso logo na família de Igor, mas não quero perguntar-lhe nada a respeito, agora. Tenho que lhe falar de nossa ida a Tihany.

Estamos no bosque, Igor senta-se na relva, sento-me a seu lado; olhamos o céu, uma revoada de pássaros desliza. Acompanho seus movimentos. Viro-me para ele que está a observar-me. Ele toca meu rosto.

- Tenho algo a falar-lhe; meu pai foi hoje à cidade.

- Ele me falou.

- O que ele falou?

- Que foi a cidade. - falou ele sorrindo.

- E daí?

Pergunto, na esperança de meu pai ter-lhe falado mais. Igor está intrigado.

- Só isso, Natasha. Por quê?

- Na cidade ele ouviu certas coisas que o fizeram tomar uma decisão.

- Que decisão?

- De ir a Tihany vender nosso trabalho, ele disse que é perto daqui...

Não, completo a frase, ele está sério.

- Não é tão perto.

- E depois voltamos.

- E você vai?

Ele está visivelmente irritado: sobrancelhas erguidas emoldurando o olhar, a voz baixa e controlada. Tento fazê-lo compreender nossa necessidade em vender.

Igor levanta-se, ergue a face para o céu. Pergunto-lhe o que posso fazer; ele continua com o rosto levantado para o céu e fala: - Ficar.

- Como, Igor? Vou dizer a meu pai: Olha pai, não podemos viajar, não posso partir. Você, por acaso, acha que estou gostando da decisão?

- Fique.

Quem fica nervosa sou eu.

- Como posso ficar, Igor?

Levanto-me também. Desce seu olhar aos meus.

- Comigo.

Ele me olha dentro dos olhos, e sinto que tenta manter a calma.

- Comigo... Fique comigo, Natasha. Não consigo, não posso ficar mais sem você.

- Igor, para nosso povo as coisas não são bem assim.

Ele fala pausadamente:

- Fique comigo.

- Não posso chegar a anya e dizer simplesmente que vou ficar com você!!

- Diga a ela para ficar aqui com você e, comigo.

- Ela não vai concordar, eu a conheço! Ela vai dizer-me que são poucos dias e logo voltaremos.

Ele respira profundamente.

- Não consigo ficar sem você, Natasha. Já não basta o que esperei. Fique comigo.

Ele me abraça forte e sussurra a meu ouvido.

- Fica comigo, preciso de você, Vida.

Toco seu rosto e o beijo, beijo-o com todo sentimento que sinto, abraçando-o.  Ele se senta na relva e me puxa. Deita-se na grama, levando-me para cima dele. Fecho os olhos... Ele puxa a minha blusa para fora da saia e sinto suas mãos  nas minhas costas...A sensação é arrebatadora.

Num gesto rápido, rolamos na grama, ficando ele por cima de mim a beijar-me com suavidade. Pára, abro os olhos, e ele me fala:

- Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros, posso tocar tua alma, teu ser, pois o amor pode com tudo...

Ele sussurra: - Fica comigo.

- Eu te adoro, Igor.

Abre os olhos, pérolas negras.

- Repita.

Repito com a voz baixa, ele fala.

- Beija-me, Natasha.

Beijo-o e sinto meu corpo tremulo, assim como o dele, calor presente. Ele pressiona mais seu corpo ao meu e sussurra mais uma vez a meu ouvido.

- Fica comigo.

- Mas eu não posso ficar...

Ele pára de me beijar e olha-me.

- Não posso ficar, Igor. Entenda-me...

Então ele se afasta de mim. Fico olhando o céu, meu corpo pede por ele, meu ser pede por ele. Olho para ele sentado, olhando o horizonte, sua respiração é cortada.

- Entenda, Igor, eu não posso ficar.

- E você pode partir?

Olha para mim, seus olhos estão mais negros que nunca.

- Você pode partir, Natasha? Responda. Você pode partir... Se pode, vá!

Levanta-se visivelmente irritado e desabotoa mais a camisa, sente calor e passa a mão nos cabelos.

- Vamos embora.

- Igor! Você está sendo incoerente.

- Ao diabo, ao diabo sua coerência. É coerente ficar sem você?

- São só alguns dias...

Ele balança a cabeça negando.

- Ao inferno alguns dias, ao inferno algumas horas. Estou sendo sincero com você, sei das minhas limitações. Se você quiser ir, vá. Mas não me fale de coerência. Isso que sinto não é avaliado assim. Isso que sinto é imenso e clama por você. Fique ou viaje, é com você, decida. Vamos embora.

Estende a mão, ajuda-me a levantar. Sigo-o até o cavalo. Ele me coloca na cela e saímos em disparada.

Logo, chegamos ao acampamento, ele pára perto, e não desce do cavalo, eu pulo.

- Você não vai descer?

- Não. Ouça-me bem.

- Desça, vamos conversar.

- Não! Você tem duas escolhas. Duas, fica ou vai, é simples. Faço tudo o que for possível para você ficar, chame sua anya, seu irmão, sua cunhada, seus sobrinhos, o acampamento todo, se quiser. Não sou eu que estou complicando, é você.
Todo mundo aqui sabe o que sentimos um pelo outro. Pode ficar alguém com você.
Agora, é com você.

- Você vem aqui mais tarde ou amanhã?

- Você sabe onde me encontrar. E novamente: Agora é com você.


Dá a volta no cavalo e parte. Fico plantada e desnorteada, meu norte já sumiu, por entre as árvores.

Ao diabo você também, sangue húngaro danado! Será que ele pensa que é fácil chegar ao pai e dizer: pai resolvi ficar, não posso me afastar de Igor, nem ele de mim.

O que você pensa que é, Conde Igor?

Pois não venha hoje, não venha amanhã...

E se ele não vier? Não ficou nem para conversarmos!

E lá vem o pai a perguntar por ele, e o Andrei, e anya, mas que diabo! Digo a mesma coisa: - ele deve ter ido para casa.

Vou para carroça.
Não sei o tempo que fico a olhar o teto. Da janela vejo a lua, depois de amanhã será lua cheia.

O que ele estará fazendo agora.

A porta da carroça abre: é anya. Senta-se a meu lado e pergunta o que houve. Desvio o olhar dela e digo-lhe que estou indisposta. Ela fala:

- Não minta, você nunca mentiu e não é agora que vai começar. Vocês discutiram, não foi?

Confirmo. Ela me pergunta o por quê. E eu falo:

- Porque lhe falei que iríamos a Tihany.

Conto-lhe, por alto, nossa conversa; ela escuta quieta.

- Ele talvez não venha aqui hoje. Nem amanhã. Quando eu tiver uma solução que o procure.

- Decidido, ele sabe o que quer. O admiro. Vamos pensar e chegaremos à solução. Tente conversar com ele com calma.

- Anya, ele não quer conversar, quer uma resposta, só isso. Posso lhe dizer que vou ficar?!!! O pai deixará, a senhora aceitará?

- As coisas não são bem assim. Responde anya.

- Mas é justamente assim que elas são. Para ele e, agora, para mim. Vou ou fico, realmente, até que é simples.

- Natasha, não ironize!

- Anya, não estou ironizando, ele deu as cartas, isso é tudo. Ah! Deixa para lá, amanhã eu penso, estou com uma dor de cabeça terrível.

Anya me trás um chá. Deito, mas o pensamento seguindo o sentimento: Homem onde você esta?