Taças

Realizar

 

 

No dia seguinte, sento-me na biblioteca e quando me dou conta, estou frente às taças.

Tenho sono, pois dormi muito pouco.

Vem- me o sono, as taças.

Fecho os olhos: é ela, estou vendo, ela está doente. Febre alta. O lugar é o mesmo. Ela está sozinha. O que faço? Ela está delirando de tanta febre. Olho em volta, ela está só. Vem-me angústia. Está chegando alguém. Alguém chega junto dela: É Igor! Ele alisa seus cabelos.

Meu corpo está dormente.

O tempo...

Escurece, acho que adormeci. A meu lado Igor acaricia meus cabelos.

Olho bem fundo nos seus olhos.

A tarde voou, a noite chegou. Posso ter sonhado, adormeci.

Ele está debruçado sobre a cadeira, toca meu rosto.

- Quem é ela? - pergunto.

- Ela quem?

- Você sabe. A moça que tenho visto ou sonhado. Já não sei mais!

- Por que você acha que eu sei, vida.

- Não sei se você sabe. Estou perguntando, indagando. Acabo de sonhar com ela, vi-a delirando de febre. Fiquei apavorada ao vê-la tão doente e sozinha.

Ele me olha bem. Seu olhar se perde no meu e torna-se distante.

- Ela estava só?!!!

- Por instantes. Depois, vi alguém chegar e ficar ao lado dela. Deu-me um grande alivio.

Principalmente quando esse alguém é uma pessoa que tem a capacidade de ajudar.

Ele franze as sobrancelhas.

- Você conhece a pessoa que chegou?

- Sim. Era você.

Os seus olhos foram às taças e voltam para mim.

- O que posso lhe dizer. Não sei quem é essa moça. Só sinto algo em relação ao tempo, mas o quê, eu não sei. E você o que sentiu ao ver-me chegar?

- Um profundo alívio, como se você pudesse ajudá-la. Tudo isso é estranho, mas sinto em mim, faz parte de mim. E me pergunto: Onde? Em que tempo?

- Seja em que tempo for, sendo algo referente a você, eu estarei.

- Me promete?

- Preciso? O que sentimos é eterno.

A noite transcorre maravilhosa.

Ficamos na sala a falar sobre tantas coisas e, principalmente, do nosso bebê.

É noite alta, ouço um barulho do lado fora da casa, mas Igor dorme e eu não quero acordá-lo.

Como retorna o silêncio lá fora, meu sono volta.

Acordo cedinho. Igor acabara de acordar, está lavando o rosto. Espreguiço-me na cama.

- Bom dia amado!

Ele enxuga o rosto na toalha.

- Bom dia, vida. Veja que dia bonito!

Dirige-se à janela e fica a olhar para baixo, vira-se, num sorriso aberto para mim e fala.

- Venha cá. Venha à janela! Venha ver como está colorido nosso jardim!

Ele está a rir, eu levanto-me da cama intrigada, ele me dá um beijo rápido e vira-me para janela.

Santo Deus! Meu coração bate acelerado, colo meu rosto à janela: são nossas carroças, é minha gente!

Nosso desjejum não podia ser melhor. O sorriso nos lábios de todos. E, logo depois Igor serve vinho. Em meio ao espanto – vinho tão cedo: ele anuncia a chegada de nosso bebê.

É a primeira vez na vida que me vejo analisando meus sentimentos por minha gente, sem viver mais com eles. Fazendo parte deles, sem estar mais com eles; fazendo parte, mas sem estar junto a eles. Isso faz brotar em mim um profundo respeito por cada um. Analisando, como espectadora, uma agradecida espectadora. Agradeço a Deus por ser fruto dessa gente calorosa e aberta.

Os dias se seguem coloridos, e as noites, calorosas; ficamos até tarde ao redor das fogueiras, numa conversa gostosa. Mikail tem vindo quase todas as noites.

Nossas tardes são de visitas aos moradores; o pai ou Andrei me acompanham. E nas longas conversas com Andrei, vem a certeza de que Igor os convenceu a ficarem permanentemente aqui. Em dezembro, eles virão para o natal e ficarão até nosso bebê nascer; depois, irão a Nijmí e na volta, bem, na volta ficarão aqui. Há tanta felicidade.

Igor gosta da convivência, ele sente o carinho e o calor da nossa gente. E isso ele aprecia e vivencia.

Anya não cabe em si de felicidade com a chegada de mais um neto.

As crianças estão soltas, a toda hora vão ao lago. Sempre que posso, fico com elas. Faz quinze dias que estão aqui.

Minha gente está ajudando na obra da escola, existe uma expectativa sadia, e vejo Belle com os olhos compridos, sei que é a vontade de ver Erno e Gaspar na escola.

A construção da escola é funcional. O objetivo, além de ensinar a ler e escrever, é levar o conhecimento da terra às crianças e aos adultos, no sentido do desenvolvimento do potencial de cada um.

Saímos, eu e o pai, da escola e nos sentamos à sombra de uma árvore. Ele absorve o nosso intuito de uma sociedade produtiva e consciente.

- Filha, aonde Igor quer chegar?

- Ele pensa numa Hungria liberta. Mas, o mais importante é que essa gente tenha condições de saber o que quer. O mundo aqui gira em torno do próprio Igor, e isso lhe faz mal. Ele quer que as pessoas tenham a escolha e, acima da escolha, que elas descubram seu potencial. Quer um exemplo: Ontem fomos à casa de Pal. Três semanas atrás, ele trabalhava na fábrica, mas, conversando com ele, disse-me o quanto gosta de lidar com a terra. Pediu-me, no entanto, por tudo, para não contar a Igor. Disse-lhe, porém, que contaria a Igor e que era muito natural ele gostar de uma coisa mais que outra. Isso mostra sua inclinação natural. E foi feito um remanejamento, o resultado o senhor próprio vê, ele está mais feliz e produzido mais.

E eles são, todos, praticamente assim. Admiram Igor, mas de maneira, como dizer, prejudicial a eles mesmos.

Veja bem, pai, Igor está andando em uma corda bamba, o senhor sabe que ele faz parte desse movimento de separação húngara.

Há alguns proprietários de terra por aqui, que estão cansados de pagar impostos à Áustria e não recebem qualquer incentivo. São pessoas que amam a Hungria, mas estão dispostos a tudo, até à violência. E eles vêem em Igor uma representação dessa liberdade. Só que essa liberdade corre além de suas próprias vistas, na hora que for proclamada ou estabelecida a separação, grande parte dessa gente não saberá o que fazer. Os proprietários querem a separação por patriotismo, também revoltados com os impostos que lhe são cobrados.

O pai então indaga: - E essa gente que trabalha em suas terras?

- Eles não sabem o que é isso.

Igor tem que pensar em tudo, sua visão vai além. Mais que qualquer pessoa que conheço, quer a dissolução do Império Austro-húngaro, mas ele não quer uma Hungria estagnada. Quer uma Hungria produtiva. São inúmeras as vezes em que me deparo com ele com as mãos sujas de terra, ou suadas a puxar as cordas das máquinas. O senhor já sentiu a aspereza das mãos de Igor? São iguais aos dos camponeses. Mas o que ele faz, faz por amor a seu trabalho, por acreditar no progresso e no resultado dos seus esforços.

E sabe como ele é visto? Para a aristocracia, ele é um Conde excêntrico, ou um ideólogo, um homem que pode ser perigoso para os interesses da Áustria. Para os proprietários de terra daqui, é um grande homem de negócios, que está à frente de suas causas. Para os trabalhadores ele é um homem magnífico, simples e forte. E sabe o que ele é, pai? A soma de tudo isso. Ele é o que diz; faz o que pensa. Ele é autêntico demais e, conseqüentemente, sincero em demasia. Sua sinceridade o faz amado, mas, também, odiado. Sua autenticidade o faz receptivo, torna-o imperativo. Ah! Meu pai, conheço tão bem esse homem, seu potencial.

O pai acrescenta que também o admira. O quanto é agradável a convivência e que na volta de Nijmí, pretende permanecer aqui.

A noite desce lenta, tranqüila, bonita e quente!

Da janela de nosso quarto, enquanto penteio os cabelos, vejo o movimento lá fora. Misca acaba de colocar uma grande travessa na mesa, já estão chegando alguns moradores. Minha gente está vestida para festa.

Onde estará Igor?

Ele já deveria estar aqui. Na fábrica, não está. Capaz de ele ter perdido a noção do tempo, conversando com alguém.

Batem à porta, mando entrar.

Da janela, vejo doutor Lajos chegar, sozinho. O pai vai ao seu encontro.

- Está pronta, Nat?

- Quase, Belle, você bem que pode ajudar-me com o cabelo.

- Claro. Está enorme, pouco abaixo da cintura. O Conde ainda não chegou.

- Ele é imprevisível. Não sabe a felicidade em saber que em dezembro vocês estarão de volta. É maravilhoso estarmos todos juntos.

Em poucos minutos acabo de me arrumar, e Belle e eu descemos.

Onde andará Igor?

Chega Mikail, ele também não sabe onde está Igor. Tento mais informações, mas ninguém sabe.

Todos os moradores já estão presentes, minha gente fez amizade com todos, e a festa de despedidas é um ato de selar todos esses dias.

Os violinos tocam. Estou ao lado de anya, a fazer-me, pela centésima vez, sua recomendação referente à gravidez. Beijo seu rosto. Viro-me para a estrada, na esperança de avistar Igor e me deparo com o olhar de Mikail, sorrio para ele. Anya observa e, lembra-me o que falou em Tihany. E, novamente, a tranqüilizo. O pai a convida para dançar.

Vou para junto de Andrei, que passa o braço nos meus ombros. É engraçada a afetividade; tentamos desfrutar até pequenas coisas numa despedia. Encosto a cabeça no ombro do meu querido irmão.

Que diferença entre nossa festa e a da Condessa. Nesta, existe a unidade, a integração. E muito carinho e calor humano.

A Condessa; acho que fiz bem em não comentar sobre o que ela disse e fez. Isso só causaria preocupação a anya e ao pai. Eu chegarei a uma solução.

Passo o braço na cintura de Andrei.

Ele... É ele, chegando a cavalo, chega como um raio.

Levanto minha cabeça do ombro de Andrei para vê-lo melhor.

Seus olhos percorrem a todos. Ele se eleva um pouco do cavalo, sério, sobrancelhas erguidas.

E nossos olhos se encontram!

Ele deixa surgir o sorriso, seu sorriso terno. Seus olhos negros brilham.

Pula do cavalo e fala com um, fala com outro.

Encosto-me, novamente, no ombro de Andrei.

- Gostaria de ter um pouco desse magnetismo que vocês tem, um com o outro.

- Que magnetismo, Andrei?

- Você e Igor. É uma coisa que já observei por inúmeras vezes. Você e ele se buscam num olhar. É um à procura do outro e quando se vêem, acalmam-se, acham-se. Um buscando o outro. É forte e sutil ao mesmo tempo. A primeira vez que notei foi no acampamento. Estávamos sentados perto da fogueira. Lembro-me que pensei: é a caça e o caçador. Existe um momento, um fino e leve momento, quando o caçador e a caça estão frente a frente, ocasião em que não se sabe ao certo quem é a caça ou o caçador. É olho no olho. Nessa hora, não se sabe se é dia ou noite! Se estamos numa floresta ou na estepe.

É assim que vejo vocês nesses momentos. É interessante de se ver, melhor deve ser sentir.

Andrei está certo, certíssimo, é assim que acontece, é assim que é.

Não é necessário confirmar, apenas sorrio para ele.

- Desculpe a minha demora.

Olho-o e sorrio, ele continua.

- Será que dá para tomar um banho rápido.

- Claro, tem água na tina, sua roupa está em cima da cama. Não demore.

- Não me demorarei.

Sua chegada traz mais brilho à própria noite.

Vários pares já dançam, toco Andrei e mostro-lhe Belle com o olhar. Ele vai a ela, chamando-a para dançar. À minha frente, Mikail balança a cabeça na conversa com padre Pal. Sei o que está acontecendo e chamo Mikail com a mão. Ele pede licença ao padre e vem para junto de mim.

Não pude conter o riso ao ver o semblante de Mikail.

- Obrigado, Nat, eu não sei até quando terei paciência de ouvir o padre. É sempre a mesma história, ele não muda uma única palavra: “Meu filho, venha ao menos uma vez ouvir meu sermão, e, quem sabe, sob o teto de Deus, você não se converta!”.

Não brinque, Natasha, pois ele fala serio, e haja paciência.

- Não é disso que estou rindo. É sua fisionomia de angústia a ouvir o padre falar. Você precisava ver a si próprio e o alivio quando o chamei.

Meu olhar passa por nossa casa e se detém na janela de nosso quarto. Lá está Igor, abotoando a camisa, aceno para ele que me faz entender que já esta descendo.

- Ele já vem vindo...

Mikail olha-me e acena com a cabeça.

- Por que você não dança Mikail? Sei, por fontes seguras, que tem duas jovens que estão ansiosas para dançar com você.

Ele fica vermelho, contrastando com sua pele branca.

- Não gosto e nem sei dançar.

- Então, está na hora de aprender, posso chamar Miriam, ela é excelente professora.

- Não, Natasha, já tomei bastante vinho. Quem sabe...

Honestamente, não foi por indelicadeza. Chega Igor, enlaça o braço na minha cintura e beija meu rosto. Só ouço o final do que Mikail fala:

- ... outra oportunidade! Igor, caro amigo, onde você andava?

- Conversando com Adolfo, inclusive o convidei para festa. Ele chegou hoje de Keszthely, e chamou-me para uma conversa.

Meia hora se passa até o Visconde chegar. Ele chega meio desconfiado. Conversa bastante com alguns moradores.

O resultado não sabemos.

A festa vai até amanhecer.

Agosto

O movimento de separação está tranqüilo.

A Condessa continua quieta, o que é bom para mim. Talvez, como ela falou, dar-me-ia um tempo.

Nossa escola será inaugurada semana que vem. Já está quase tudo preparado. Com esse evento haverá uma maior integração entre a gente de nossa região. Ainda não encontramos nenhum professor, se até lá não encontrarmos ninguém, darei aulas. E Mikail se propôs, também, a ensinar, até encontrarmos alguém habilitado.

Há duas semanas abrimos a escola. No inicio, existiu uma grande inibição, principalmente dos adultos. Pela manhã, as aulas são para crianças, e no final da tarde, para os adultos. Estou me saindo bem como professora. Nos primeiros dias, fiquei nervosa, mas agora, faço-o com naturalidade. Gosto de ensinar-lhes mais que aos adultos; elas são mais abertas, gostam do que lhes parece novidade. Pela manhã, eu e Anita, uma jovem, que mora aqui perto, nos encarregamos das aulas. Ela tem mais jeito que eu, precisando, apenas, de maior segurança, o que, aos poucos, irá adquirindo.

À tardinha, Mikail é quem, praticamente, assume. Anita e eu vamos lá dar-lhe uma mãozinha. Seu trabalho é muito maior e mais difícil.

Mas o principal ele já tem: os adultos estão querendo aprender, e isso vem do trabalho que Igor vem fazendo ao longo dos anos.

Ontem, fui encontrar-me com ele nas vinhas e fomos juntos à escola. Ficamos à janela, vendo o desempenho de Mikail. Honestamente, acho-o ótimo, e sei que ele está gostando. Hoje, tive uma idéia: por que não usar a escola, à tarde, para ensinar alguns ofícios? Se existe alguém que tenha tempo e sabe determinado tipo de trabalho, poderia ensinar a outros. Sei que isso ficará restrito às mulheres, pois os homens estão no trabalho. E ele achou a idéia excelente.

Setembro.

Setembro já chegou. Estou com uma carta na mão, acabo de ler. É do Visconde parabenizando a escola.

Isso dá satisfação. Tanto as crianças como os adultos estão indo bem. À tarde existe de tudo, costura, bordado e artesanato. E o melhor: tudo que é feito lá é levado para feira de Badacsony e vendido, sendo o dinheiro revertido para a compra de mais material para escola. Logo a escola estará se auto-sustentando.

Meu ventre cresce. Fico no espelho a admirá-la; é tudo novo e excitante. Quatro meses, estou com a mão no ventre, pois já o mexer batante.

E o homem mágico passa longo tempo a tocar meu ventre, para sentir o bebê mexer.

Participa de tudo, no inicio era exagerado nos cuidados. Já o expliquei que, para nossa gente, gravidez não é um estado anormal, e sim, saudável.

Não engordei com a gravidez, mas Misca quer me ver obesa, inventa mil novidades. Se não tivesse a criação de anya, estaria perdida com tantos mimos, e nisso ela se junta a Igor a falarem: “Não suba tanto as escadas”, “não se esforce demais”.

Misca está fazendo o enxoval, e ele quer ver cada peça que ela faz.

- Interrompo?

Viro-me à porta.

- Entre, Misca, estava só pensando.

- Deve estar com o pensamento longe, pois não ouviu nem o som da carruagem.

Meu sangue gela, a Condessa. Santo Deus, está tudo tão tranqüilo.

- Você tem visita.

- A Condessa?!!!

- Não, senhora Elizabeth.

Meu alívio é instantâneo.

Desço as escadas; sinto o frescor do vento; é quase outono. Olho para a sala e me invade um bem-estar; assim é nossa casa: aconchegante e perfumada.

Vejo-a observando a tela na qual estou às margens do lago.

- Boa tarde, senhora!

Ela se volta, e sai de seus lábios um sorriso tão bonito! Cumprimenta-me, convido-a para sentar-se. Peço a Misca chá e bolo. Já sentada, ela baixa a cabeça e sorrir, timidamente, pedindo desculpas por ter vindo sem avisar. Fico constrangida diante do seu constrangimento.

Digo-lhe que não sou dada a essas cerimônias. Ela olha a minha barriga.

- Você está muito bonita, grávida. Quando nasce o bebê?

- Fevereiro.

- Encontrei-me com Igor na cidade, ele não cabe em si de felicidade. E você está muito feliz?

É a segunda vez que ela toca no assunto da minha felicidade.

- Estou muito feliz. Como está sua filha?

Ela fica sem graça, arrependo-me da pergunta.

- Não estou aqui por ela. Se estou a falar de sua felicidade, nada está ligado a Krisztina.

Deixe-me esclarecer-lhe estas coisas. No inicio acreditei que Igor poderia chegar a casar-se com Krisztina. Principalmente, pela Condessa, pois ela vive a impor fantasias na cabeça dela. Porém, Igor jamais alimentou nada, nem sequer gostava da minha filha. Foram, desde pequenos, amigos, apenas amigos. Como lhe falei, cheguei a achar que esse casamento pudesse ocorrer, cheguei a falar com Igor algumas vezes. Mas ele em momento algum se pronunciou a favor. Isso vem da Condessa, e ela nos levou a acreditar no casamento. Igor está certo, quando nos diz que o que nos resta é sonhar. Realmente, com nosso tipo de vida, o que nos resta é sonhar.

Há muito queria vir aqui. Tomei coragem e vim. Talvez, até, importuná-la. Sou uma pessoa solitária, Natasha. Já gostei de conviver com a aristocracia. Hoje não agüento, vou a algumas reuniões por obrigação e não por prazer. Aqui, em Badacsony, nós temos dois pontos, uns poucos aristocratas e pessoas simples. Tem certas ocasiões que tenho vontade de sair à rua e conversar. Tentar algo novo. Mas sou muito fraca, e isso iria de encontro a meu marido e a Krisztina, e não tenho coragem.

Olho-a com carinho e falo:

- A senhora não está sendo inoportuna, e não quis ofendê-la. Talvez, me seja difícil desassociar vocês duas. Desculpe-me.

- Claro. Mas lhe afirmo que estou aqui por ter gostado de você. Mas se isso lhe causa constrangimento.

Nego e peço para mudarmos de assunto, perguntando-lhe por que não faz o que tem vontade, pois é uma senhora tão jovem e pode ter tantas oportunidades, ela responde:

- A covardia tomou-me uma vez, e isso me marcou a vida inteira. Na verdade, mudou minha vida. Tive nas mãos a oportunidade de ser feliz e fazer outras pessoas felizes. E joguei fora, pensando que, com essa atitude, estaria eu a fazer um grande negocio. E a única pessoa a perder fui eu mesma. Não me encontro em nada.

Fico a olhá-la. Misca traz a bandeja, coloca-a na mesinha e sai. Sirvo chá e o bolo. Gosto dela, e isso sai de mim, de dentro de mim. Ela pergunta se já escolhemos o nome do bebê. Respondo-lhe que não, são tantas opções. Ela coloca o prato na bandeja e fala:

- Um dos motivos que me trouxe aqui é a Condessa. Ontem à tarde ouvi-a falando com Aurel. Ele discordava dela e o assunto era a seu respeito. Ela estava pedindo para Aurel vir aqui fazer alguma sondagem. Não sei bem de quê.

Olho para a senhora, lembro-me que comentei com anya sobre ela. Disse-lhe que conhecera uma senhora que me parecia ser sincera. E vejo que estava certa.

- Por que a senhora veio me avisar?

- Já lhe disse: gosto de você. Esta é toda explicação, estou sendo sincera.

- Eu sei que está, como, também, sei que a Condessa não me suporta.

- Você representa a liberdade, Natasha, e ela a autoridade. Você tem o amor do seu filho e ela tem a indiferença dele. Você é a maior rival que ela tem, tenha muito cuidado.

- Terei. E obrigada, sei que ela é capaz de tudo.

A senhora respira aliviada, e continua:

- Também vim lhe falar sobre a escola. É o que se fala na cidade. Sei que vocês dão aulas à tarde, onde se ensina o que se sabe. Há dias que estou pensando nisso. Temos famílias carentes na região. E surgiu-me daí a idéia de fazer roupinhas ou enxoval para essas crianças. Um dia na semana poderia se tirar para fazer as roupinhas, ou enxoval para mães carentes, posso conseguir os tecidos.

- Acho uma excelente idéia. Hoje, a escola está quase se mantendo sozinha. Segunda à tarde, fazem-se doces, que são vendidos na feira; na terça é dia de aulas de costura e bordado; na quarta, são feitos os arranjos de folhas e flores secas para, também, serem vendidos, e na sexta-feira, perfumes e essências, já temos encomendas para Tihany. A quinta-feira está aberta. Fazemos uma reunião para avaliações, mas podemos fazê-la à noite. Tenho certeza de que aceitarão de bom grado. Gostaria de vir, na próxima quinta-feira, para conversarmos todos juntos?

- Gostaria muito.

- E por que não fica responsável por essas reuniões? Orientando.

Ela me olha pensativa, e depois, sorri.

- Não sei se teria condições, mas posso tentar.

Nossa conversa é muito agradável e nem sinto o tempo passar. Fica acertado, então, que na próxima quinta-feira ela virá.

Ao sair, ela parece mais revitalizada e alegre. Talvez seja trabalhoso para ela, mas, sem duvida lhe fará bem.

E, sem querer, equiparo as vidas, dando-me conta de como a minha é movimentada e participativa. Pela manhã é a escola, à tarde, geralmente, dou uma passada lá e as aulas de perfumes são minhas, pois aí uso a técnica cigana. E todas as tardes vou encontrar-me com Igor. Algumas vezes, ficamos simplesmente a passear, a namorar, ou então vamos à escola, de onde saímos os três, Igor, eu e Mikail, e este geralmente janta conosco.

E, nos dias de avaliações, ficamos até mais tarde na escola. Alguém sempre nos leva um chá com pães. Essas discussões são muito produtivas, e sendo na escola, é como se fosse na casa de todos.

Anita já está segura, o que me dá mais folga. E disse-me que nós não precisávamos mais procurar um professor. Deu-me uma alegria enorme, vê-la tão segura. Acho que ela está apaixonada por Mikail.

- Posso saber o motivo do abandono, amada?

Ainda estou na sala. E ele entra com seu jeito espontâneo.

- Desculpe-me, tive uma visita hoje à tarde. Senhora Elizabeth saiu há pouco.

Estamos passeando, conto-lhe nossa conversa e ele diz:

- É muito interessante. Agora, ela vai comprar briga com algumas pessoas. Vai, sim! Gosto de Elizabeth, sempre gostei, ela tem uma tristeza que sensibiliza, e o interessante é que, mesmo triste, ela não é uma pessoa amarga. Sabe quem chega semana que vem? Margit.

Eu já sabia. Mas o que na verdade queria saber de Igor era o que a Condessa comentara sobre nosso filho.

- É importante para você saber?

- Talvez não, mas quero que me conte.

- Ela foi fria, como sempre, e disse-me: - Parabéns seu herdeiro esta a caminho, só espero que ao nascer, você não esteja numa prisão.

Amarga, fria e prepotente, e isso não nos atinge.

Atinge, amado, e como atinge-me; chego a ficar gelada. Ela manda seu recado.

Encosto a cabeça na sua.

- Não fique em conflito, Natasha! Ela é só uma mulher ambiciosa, que está parada no tempo, sem se dar conta que o mundo à sua volta está mudando. Ela, por puro egoísmo, está ficando num passado inexistente. Nada irá nos atingir, pode estar certa disso.

- Ah amado! Queira Deus que você esteja certo.

Anoitece, ele senta-se e encosta-se na velha árvore. Deito minha cabeça nas suas pernas. Ele alisa meus cabelos. O céu está belo!

Lembro-me do avô, suspiro. E lembro das palavras de Igor: temos missão.

- Vida, lembra o dia em que falávamos do avô? Você ali falou que temos missão. O que significa?

Ele continua a alisar meus cabelos e fala:

- Estamos aqui para um propósito. Se tivermos consciência deste propósito, é bem mais fácil.

- É como o trabalho na escola, de forma mais abrangente?

- Em parte. Juntos colocamos em prática consciente: a escola. É um trabalho, missão. Ela é em prática uma junção do que acreditamos, sua força vai além e mostra que cada um que está ali dentro tem o potencial, é só estar ciente.

Por isso ela corre tão naturalmente. Estamos cientes do que realizamos.

Sorrio e falo:

- Creio que dentro da minha missão está meu aprendizado referente ao sentimento.

Ele solta seu riso alto e fala:

- Não vejo assim, você trouxe-me uma recordação nossa. Talvez eu só esteja mais acordado que você, simplesmente isso. O seu potencial de força é imenso, só que você é nova nessas aragens.

Suspiro e vou levantar-me, mas ele é mais rápido e beija meus lábios.

- Amo você.

Sua frase se perde na minha boca.

- Interrompo esses eternos enamorados?

Igor permanece de olhos fechados, respira e volta-se para Mikail.

- Caro amigo Mikail, se não tenho educação manda-lo-ia para o inferno.

- É o mesmo que diz o padre Pal. Devo ser um caso perdido...

- Sente-se aí, Mikail, como foi a aula?

- Obrigado, Nat. A aula foi boa! A turma está interessada. Quero combinar algo com vocês. Estamos numa época bonita, o outono se aproxima e a sua gravidez já é notada. Que tal fazer uma pintura de vocês?

Achamos a idéia ótima, ficamos de começar o quanto antes.

Subimos a colina, indo para casa, quando Mikail pára e, com o olhar, mostra-nos um ninho de pássaros: a mãe alimenta seus filhotes, e estamos os três a olhar.

Olho para Igor, moreno, sério, com os olhos a falarem por si. Olho para Mikail, loiro, alvo, com barba, olhos azuis, difíceis de decifrar. Desço o olhar para meu ventre: - é, bebê, você tem sorte, nascer aqui, neste lugar abençoado, cercado de tanto amor e de gente tão amiga.

Vêm-me lágrimas aos olhos.

Igor capta tudo muito rápido e sussurra.

- O que é, vida?

- Olhe para mim. Acho que é a gravidez. Ela me torna mais emotiva e sensível. Simplesmente estou feliz.

Ele me abraça e começamos a subir a ladeira para casa. Puxo a mão de Mikail. Igor ri do embaraço dele e começa a cantar uma velha canção húngara.

Cá estamos no lago.

Mikail começa a pintar.

Não sei onde ele arranja paciência com Igor.

Mikail grita: - Vou começar!

Essa é uma tentativa para Igor ficar quieto, não se mexer.

Correm alguns minutos, olho de lado para Igor. Tenho vontade de rir.

Igor olha para mim e pisca o olho. Puxa-me correndo para o lago, só tenho tempo de jogar meus sapatos fora. E estamos tomando banho de roupa e grito para Mikail vir, ele tira as botas e cai na água.

Meia hora de banho e estamos a subir para casa, molhados, ensopados, rindo de Mikail.

Uma carruagem preta está à porta. É a carruagem da Condessa!

Fico gelada e olho para Igor.

- Sua mãe?

Ele solta sua risada.

- Imagine seu semblante, nos vendo assim. Quem sabe, ela não gostaria também de tomar um banho no lago!

- Cale-se Igor! Vamos entrar pela cozinha.

- Imagina! De jeito algum. É nossa casa.

Meu coração se acelera, o mal-estar que ela me causa é incontrolável.

Igor abre a porta.

Na mesma posição em que estava Elizabeth, a ver meu quadro, está uma moça. Igor franze as sobrancelhas.

- Margit?!!!

Ela se vira sorrindo. Fico na porta a observá-los. Como ela se parece com ele. Os dois se abraçam emocionados, trocam palavras de carinho. Ele vira-se para mim e chama-me.

- Natasha está é minha irmã Margit. Margit, está é a mulher da minha vida.

Aproximo-me.

- É um prazer, Natasha, estava ardendo de curiosidade em conhecê-la.

À primeira vista, fiquei gostando dela. Igor chama Mikail para entrar e o apresenta a Margit. Mikail se desculpa de estar molhado, e por mais que insistisse para ele ficar para o jantar, desculpa-se dizendo que tem muito o que fazer.

Margit tem uma parte de seu vestido molhado do abraço de Igor.

Pedimos licença e subimos para nos trocar.

Instintivamente, gostei dela, talvez por ser tão parecida com Igor.

Nosso jantar é muito agradável.

Ela é meiga e simples. Quando acabamos o jantar vou ajudar Misca a tirar a mesa e vou à cozinha pegar um licor. Misca me pergunta se gostei dela, digo-lhe que sim, e me diz.

- Ela quando chegou, abraçou-me calorosamente. Trouxe-me até um presente! É, ela mudou, a vida deve ter-lhe ensinado muita coisa.

Volto à sala num momento inoportuno. Margit está de cabeça baixa, chorando. Coloco a bandeja de licor na mesa e faço menção de me retirar.

- Pode ficar, Natasha, não tenho o que esconder. Se você é a esposa desse irmão maravilhoso que tenho é porque deve ser uma pessoa muito especial.

- Creio que vocês dois têm muito o que falar. Vou ajudar a Misca.

Ela pega minha mão e pergunta:

- Quando o bebê nasce?

- Fevereiro.

- Gostei de você, Natasha.

- Eu também de você, Margit.

Ela sai tarde, ficando de voltar na manhã seguinte. Na cama, Igor olha o teto, e conta-me que o casamento dela está insustentável.

Seu marido, o velho barão, além de beber, agora, não esconde de ninguém suas amantes. Fica a dar escândalos e já levou, por algumas vezes, moças à sua casa. Pergunto a Igor o que ela pretende fazer, ele diz que ela ainda não sabe, e, por isso veio passar uns dias para pensar melhor. Para ver o que pretende fazer de sua vida. E indago o que ele disse a ela.

- Disse-lhe que pode contar comigo seja qual for a decisão que tomar.

- Mas ela não pode ficar nesse casamento.

- Ela já sabe quem ele é. Isso quem tem que decidir é ela. Ela tomou consciência de forma dolorosa, por mais que tenha sido avisada. A resolução, só ela terá que tomar. Ela precisa de apoio e carinho, aqui ela tem.

- O que a Condessa disse a ela?

- Você é capaz de imaginar. Disse-lhe para ela agüentar mais um pouco, pois o barão está velho e do jeito que bebe, logo morrerá e, aí, ela irá usufruir tudo. Uma viúva jovem, bonita e rica, morando na corte, essa é a melhor sorte que uma pessoa pode ter. Ela não tem nem a capacidade de ver a angústia que Margit está passando. Para ela, tudo isso é bobagem. O que importa é o futuro promissor. Ela é tão cega que não vê que essa situação está destruindo Margit. Se seguir o raciocínio da Condessa, esse homem dura mais uns quatro anos, mas, até lá, minha irmã estará acabada.

Vejo Igor revoltado com a Condessa, até então as atitudes dela eram-lhe indiferentes.

Acordo cedinho, Igor está, novamente, com o olhar no teto, pensando. Depois puxa-me e abraça-me.

- Por que as pessoas não buscam o melhor? Por que as pessoas não se acham em condições de buscarem a felicidade? Por que existem pessoas que interferem na vida do outro, sem dar chance de o outro achar a própria vida? Por que não se permitem sentir.

- Creio, Igor, que seja o que tanto falamos: consciência. E, a sua frase: a essência da vida está onde e como atribuímos nosso sentimento. Onde está a essência e o sentimento dessas pessoas? No externo? Nas aparências? Meu avô sempre dizia que somos responsáveis por tudo que plantamos e cultivamos. Cada pensamento terá ressonância no amanhã, mesmo que esse amanha demore até a uma outra vida.

Você, amado, chamou-me no tempo, construiu uma fortaleza e aqui estamos. Esta é, para nos, a maior felicidade: somos unidos e nos temos um ao outro. Já para sua mãe, é o maior infortúnio. Margit terá que mergulhar dentro de si, alcançar sua alma, para decidir o que fazer. Você deu-lhe a luz ao dar apoio e carinho. Ela já foi muito influenciada e agora ela precisa, por um tempo, de uma ajuda para recomeçar a trilhar o seu verdadeiro caminho. Ela precisa ouvir seu próprio coração.

Poucas horas depois, estou tendo a oportunidade de falar exatamente isso a Margit. Ela, depois, beija meu rosto e apertando minha mão fala:

- Sabia que seríamos amigas. Além de termos um grande amor pelo mesmo homem, de maneira diferente, é claro. Admiro-a, Natasha, e imagino o que você deve ter passado com minha mãe. Enfrentá-la, para mim, já é um ato de coragem.

Sorrio para Margit, negando.

- Nem tanto, Margit, Igor é que me dá muita força.

- Ele nunca se influenciou, em nada, pelo que minha mãe fez ou pelo que ela achava certo. Sempre fez o que acredita ser certo, dê no que der. Não sei onde ele encontra tanta força.

- Dentro dele mesmo, seus valores estão firmemente plantados. E sabe por que ele não a teme? Por ser autêntico demais, cristalino como água da chuva. É cheio de energia e luz. Ele, sozinho, é capaz de mudar o curso do Balaton! Altruísta, por essência. É o que pensa, faz o que sente; não existe meio-termo para ele.Tem a claridade e o calor do sol. Um mago! Existe dentro dele a força e, talvez, por ele comungar com ela, sua força vai além do normal. Sua visão também; seu pensamento limita-se com o infinito.

E, muitas e muitas vezes, ele passa de mortal a imortal.

Tenho tanto o que descobrir nele! Seus olhos observam tudo e, ao mesmo tempo, expressam o que está sentindo.

Ela me olha admirada e exclama: - Como você o ama!

- Amo-o, ele é toda minha vida. Só que ele atingiu a plenitude do amor. Não que possamos medir ou equiparar o sentimento, mas que se pode ter uma visão plena dele é um fato.

Em mim, ainda existem temores e vacilações. Penso que o exterior pode abater esse reino interno onde nosso sentimento reina. É por isso que temo sua mãe. Temo ficar distante dele. Meu sentimento é sujeito às vibrações humanas, o dele está acima da razão humana. Compreende-me?

Margit olha-me com carinho e responde:

- Não, honestamente, não compreendi tudo. Exceto o quanto se amam!

É tocante por demais.Também, como poderia compreender, se nem por sombra chego a sentir alguma coisa assim. Se nunca senti uma paixão. As coisas, para mim, sempre foram por conveniência. Desculpe-me, mas chego a ter uma inveja sadia do que vocês sentem e de como se nutrem. Sabia que com ele seria assim, razão pela qual, também, sabia que a seu lado estaria alguém muito especial. Este alguém é você. Já sabia, por antecipação, que nos daríamos bem. Hoje, vejo como Igor estava certo sobre meu casamento. Naquela ocasião, eu dei ouvido, como você falou, ao exterior. Não posso condenar somente meu marido. Já sabia como ele era. Agora não quero errar novamente, por isso estou nesta luta comigo mesma. Tenho que realmente ouvir minha alma. Quero que saiba que terá em mim uma aliada, esteja onde estiver em qualquer situação. Você foi capaz de me compreender. Uma amiga, coisa tão difícil, quanto esse sentimento que vocês têm.

Margit não só passa o dia conosco, como também fica para dormir.

Ficamos até tarde numa conversa gostosa.

O dia amanhece com o sol brilhante, irradiando perfume e vida. Magnânimo!

Ao levantarmos, Margit já está na cozinha com Misca. Fazemos a refeição e vamos à escola.

Após o almoço, ela volta para a cidade prometendo voltar no dia seguinte. Convido-a para passar alguns dias conosco. E Igor fala:

- Ótima idéia, aqui você não terá ninguém pressionando sua vida.

- Se tiver coragem de enfrentar os por quês da mamãe, virei.

Estamos na varanda acenado para Margit, e converso com ele, que fica atento às minhas palavras.

- Sabe o que mais me encanta nela? Não! Existe um momento em que aprofundamos em avaliações e reflexões sobre nossas vidas. Aí, tornamo-nos aptos ao novo; como um reaprender. Ela tem a consciência de quem quer acertar; a humildade em rever e reavaliar seus erros, sem culpa. Tem, também, uma carência de ajuda ou carinho.

Ele olha-me sereno e fala:

- A cada dia você se solta mais e mais, e compartilhar deste ato é magnífico!

Amada, você está certa, Margit tem a humildade e a carência. Que ela enfrente a Condessa, principalmente porque deixou que sua vida fosse por ela delineada.

- Você nunca chama a Condessa de mãe, por que?

Ele me olha pensativo e fala:

- Sempre chamei meu pai de pai. Mas ela sempre foi para mim, uma Condessa e não uma mãe. Mãe foi e é Misca. Quando criança não entendia que cada um só dá o que tem. Não existe mágoa, existe um carinho. Sei que ela procurava saber se estávamos bem, confortáveis e saudáveis. Mas foi Misca que nos assumiu, juntamente com meu pai e avós. Tenho um carinho, não um sentimento por ela. Sou-lhe muito grato por ela ter me dado a vida. Sempre a chamei de Condessa. Engraçado é quando meus ideais passaram da cabeça para a ação ela chegou a pensar que era uma forma de contestá-la. Ela sempre se vê como centro de tudo.

A chegada de uma carruagem interrompe nossa conversa. É Elizabeth, cheguei a pensar que ela não viria. Tomamos um chá e seguimos para a escola.

No inicio, ela ficou inibida, mas quando suas idéias foram aceitas, ela foi se soltando. E, no final, estava relaxada, a combinar o que será necessário para se iniciar o trabalho.

Ao subirmos para casa, ela está confiante e alegre. Ela é extremamente carinhosa comigo.

À noite chega Margit, com suas malas. Já tínhamos jantado, e estamos a ver a lua, quando ela chega.

Sorrimos ao ouvir dela que a Condessa ficou furiosa, depois fez um ar de indiferença, dizendo que ela precisava de ar do campo. Margit lhe disse que fazia muito tempo que não está com Igor e sentia saudades, o que não é uma inverdade.