Taças

Natal e Nascimento

 

Véspera de Natal.

A neve deu trégua.

Dia encantado.

 

No galpão está a maior loucura;

é minha gente e os moradores da região.

Mas há espaço suficiente.

É um entardecer alegre, descontraído.

Nossas carroças dão um efeito colorido ao local.

Alguns moradores se despedem, irão se arrumar para nossa grande festa, festa de todos nós.

Uma Celebração!

Belle e Miriam estão cuidando das crianças;

o pai, Andrei e Igor foram pegar mais vinho na adega;

anya e Misca estão na cozinha.

Passo a vista em tudo.

Não digo que esteja bonito, mas está agradável e interessante. Vários arranjos foram feitos na escola, e dão graça ao lugar.

A beleza fica por conta da cooperação de todos.

Foi improvisado um altar, do lado direito do galpão, onde padre Pal celebrará a missa e dará a primeira comunhão às crianças. E é Mikail quem prega o crucifixo na parede, enquanto Anita arruma todo ambiente.

Mikail desce da escada e olha o efeito, vira a cabeça para um lado e para outro, acho que está analisando o aspecto estético. Seria isso?

- O que tanto o intriga, Mikail?

Ele continua a olhar o crucifixo.

- Estou a pensar que hoje se comemora a véspera do seu nascimento, e o que tenho à frente é Ele, na cruz. Estranho, não é?

- Não diga que está convertido num bom católico, Mikail? - fala Igor.

Viro-me para Igor, que está bem atrás de mim.

- Não, estou só achando injusto. Está no lugar certo, Igor?

- A cruz ou o Homem?

Mikail sorri e balança a cabeça.

- Igor, você não acredita que seu Deus está ali?!!!

- Não, Mikail. Primeiro, ele não é Deus. Deus, para mim, está dentro de cada um de nós, nossa essência é divina.

A imagem é uma imagem. Os homens constroem templos de adoração, são erguidos monumentos para glorificar a passagem de um ser. Os homens apegam-se ao que viram e criaram religiões e leis. Esquecem ou não têm consciência de que esses seres são sentimento, dão sentimento, operam através do sentimento Amor. Na clareza do sentimento está a vontade, esta gera a força que opera os ditos “milagres”. E os homens limitam-se aos porquês, limitam-se até aonde seu pensamento os levam, são seus guias. Têm no coração a vontade, e são conduzidos por pensamentos.

Os templos dentro do tempo, o sentimento está além do tempo. Alguns templos ruíram, o Homem que, a meu ver, veio inspirar outros homens permanece. Por que?

Minha crença é o sentimento, que faz com que comungue, por sentimento com Homens que vieram exemplificar o sentimento, apenas isso. Homens que resistem ao tempo por estarem além do tempo e por serem sentimento.

Cai o silêncio por um tempo indeterminado, e olhando a imagem falo:

- Este Homem não criou religião nenhuma. E é mais fácil para nós, adorarmos um Deus morto, e não o Homem vivo. Andando por Assis, era fácil compreender Francesco, ele mostrava aos homens como era importante a ligação com a natureza, a simplicidade do ser; a essência está em tudo! Morre Francesco nasce um símbolo. O que temos à frente é um símbolo, um grandioso símbolo do sentimento.

Igor acaricia minha nuca e fala:

- Natasha, a meu ver, você está certa, Ele é um símbolo, como foram outros. Ao prendê-lo na cruz, os homens se prendem. Seu martírio é tudo. Soltá-lo da cruz é o salto. Porém isso gera responsabilidade. Responsabilidade em encarar o mundo de outra maneira. É mais fácil delegar essa responsabilidade a Ele e outros iguais a Ele. As leis ditadas pelos homens são rígidas. Tolhem qualquer movimento de soltura e conseqüente liberdade. As leis ditadas pelos homens ditam o que é pecado. Por isso, na grande Lei da terra, nós próprios nos punimos pelo que fazemos. É Lei terra: violá-la é repará-la. E, temos a outra simples opção, a Lei do Amor. Complicamos, não é?

E ficamos os três a olhar e a sentir.

Chega a noite. É festa!

O galpão está repleto de gente, o movimento é contínuo; as crianças com seu brilho especial parecem anjos vindos do céu.

Observo tudo, a integração, a troca. Observo.

A essência da vida está onde e como atribuímos nosso sentimento.

Penso na força interior, na consciência dela.

Quantas pessoas estão aqui?!!! Inúmeras.

E quantas sentem o que sinto. Viro-me em volta.

Só um Homem aqui compreende este sentir. Só um Homem aqui é a ponte do visível com o invisível, só um Homem aqui parece conhecer as leis naturais que regem o próprio homem.

Essa certeza me dá uma serenidade aliada a uma intensa felicidade.

Meu olhar vai à porta. Por que tanto demora, Elizabeth? A estrada não está ruim assim. Já chegaram varias pessoas da cidade. Notam-se alguns do movimento de separação da Hungria.

Belle está na roda das crianças, como se fosse uma delas. Como eu gosto de Belle, Andrei conversa com alguns moradores. É uma conversa entrecortada de risos. Nossa gente, além de trazerem um colorido especial, misturam estórias e histórias pouco comuns.

Anya e Misca, como sempre juntas, estão colocando comida nas mesas. Mikail conversa com Anita. O pai, não o vejo.

A música torna o ambiente mágico.

Um estranho calor me invade, é um intenso calor,

invade minha alma. O calor se alastra por todo meu ser.

É a música cigana? É a noite de Natal?

Respiro fundo. O calor se alastra mais e mais... É meu avô?!!!

Busco o pai com os olhos. Lá está ele, sua expressão denota embevecimento.

Seu olhar, enfim, se encontra com o meu, e lá vem ele ao meu encontro. Passa o braço no meu ombro, e seus olhos são a expressão de muita emoção.

- Pai, o avô está aqui!

Ficamos calados sentindo.

Volto-me ao crucifixo. É Você?!!! O calor se estende numa amplitude que não alcanço.

É Você também! Acima da minha capacidade humana, transcende um fluxo vivo.

- Tudo bem, meu velho?

O pai vira-se para anya e responde que tudo está maravilhosamente bem.

Instintivamente viro-me para o lado. E ali está ele, o mago. Eu sabia que ele estava a nos observar, e com certeza, a partilhar deste momento. Ele sorri e vem se aproximando de mim; pega minha mão e a aperta.

- Você sentiu, Igor! Sei que sentiu a emoção.

- Não foi emoção, Natasha. E sim sentimento. A emoção vem do pensamento, é humana. Experienciar o sentimento é Ser.

O olhar de Igor vai à porta. Não consigo ver quem chega, fico na ponta dos pés. É Krisztina, o pai... Ah! Elizabeth, e uma senhora idosa. Que bom, ela veio!

Anya me pergunta e eu respondo que quem chegou foi à mãe de Krisztina. Logo, terei oportunidade de apresentá-la.

Vou ao encontro deles.

- Boa noite! Sejam veja bem-vindos, já estava preocupada.

Elizabeth não está bem. Está muito pálida, seu olhar perdido nas muitas pessoas.

Seguro suas mãos geladas, fico assim, enquanto seu marido fala:

- Ela não queria vir, de maneira alguma, mas tanto fiz que consegui. Imagine, ficar sozinha na noite de Natal! Pois, eu viria de qualquer jeito.

Olho para ela e pergunto: - O que a senhora tem?

Ela tenta um sorriso e responde:

- Nada, é uma das minhas indisposições. Só isso. Você está linda, Nat. Esta é minha ama Tuthy, está é Natasha.

- Muito prazer, Tuthy; seja bem-vinda!

- O prazer é meu, senhora.

Falo com Krisztina. Igor foi arranjar um lugar para acomodar Elizabeth. Meu Deus! Seu semblante é de angústia viva. Seu marido e sua filha nem se apercebem.

Depois de acomodados. Comento com Igor e falo que vou procurar anya; quem sabe, com uma boa conversa, Elizabeth não melhore. Ele responde:

- Ótimo, faça isso. Não demore.

Seu ar é maroto.

- Igor! Igor! Krisztina não é ameaça para mim, aliás, ninguém o é.

- Presunçosa! É a mais pura verdade.

Encontro anya junto de Andrei. E falo o que ocorre, digo-lhe que ela sempre sabe o que fazer, então nos ajude. Anya retruca que, nem sempre há solução ou ajuda para tudo. Abraço-lhe e falo que se, ao menos, pudermos levar a ela o sentido fraternal desta festa, quem sabe ela não melhorasse.

Atravessamos o galpão.

Ao chegarmos perto de Elizabeth, observo ela estar mais pálida. Igor pega anya pelo braço e a apresenta ao marido de Elizabeth e a outras pessoas. Vou para junto de Elizabeth.

- Esta melhor? Quer tomar alguma coisa?

As duas, ela e sua ama, olham na direção de Igor. Acho que nem me escutam. Anya vem se aproximando com Igor, sorrindo com algo que ele fala.

- Elizabeth, apresento-lhe minha sogra Lorna.

O sorriso some do rosto de anya, que fica tensa. Dá dois passos à frente e pára, ficando a olhar. Elizabeth levanta-se e estende a mão.

- É um enorme prazer conhecê-la, Lorna. Sua filha fala-me tanto a seu respeito. Esta é minha ama Tuthy.

Anya fala com as duas estranhamente. Pede-me um ponche.

Vou pegá-lo e peço para Misca servir. Assim, quem sabe, elas conversando, Elizabeth melhora, e anya deve ter sentido algo com sua aguçada intuição.

A missa começa, a união é visível e bonita. A primeira comunhão deixa em mim a integração que é a escola.

O significado do natal é sentido e expresso fraternalmente nessa grande mistura de pessoas, que, nessa noite, deixam de ser voluntariamente “eu” para se tornarem “nos”.

 

 

Janeiro 1814

Começam as contrações. Calma, Bebê! Não é para ser agora.

Espere fevereiro chegar.

Respiro profundamente. Pego a carta da Condessa e rasgo. Uma carta simples e objetiva.

“Não pense, nem por um segundo, que me esqueci do meu intuito. Quero você fora da vida do meu filho, e faço tudo, tudo para vê-la longe dele...”.

Novamente meu ventre se contrai.

Os minutos se arrastam... E as contrações continuam.

Quem sabe; se eu relaxar, elas não param.

Passa o tempo, entardece... Continuam as contrações.

Anya a meu lado sorri confiante. Olho para Igor, seu olhar tenta tranqüilizar-me, embora sinta que ele está ansioso.

A contração... É noite.

Doutor Lajos pede a Misca mais água morna. Igor a meu lado.

A contração... Sabe, bebê, não pensei que podia demorar tanto. Sinto dores. Lembro-me dos partos de Belle. Devido à expectativa, a ansiedade, tudo parecia rápido.

Anya molha meu rosto.

A contração... Doutor Lajos pede para Igor sair do quarto.

- Não! Necessito ver minha filha nascer. Quero vê-la chegar ao mundo!

Amanhece, mas ainda há estrelas no céu.

E, na ultima contração, olho para uma delas.

O céu clareia, surgirá o sol, uma a uma as estrelas desaparecem,

mas eu fico com uma nos meus braços.

Ainda sujinha, trazendo de sua viagem, a mais pura essência da vida, anjo viajante, que chega em terra.

Seja bem-vinda, minha filha!

Igor mal consegue respirar, passa o dedo em seu rostinho,

como para ter certeza da nossa realidade: ele, eu e nosso fruto.

Uma trindade. É a magia da vida.

Excede às palavras, que aí ficam sem sentido...

Um gesto de Igor diz tudo.

Ao meu lado, um candelabro; ele sopra o fogo e olha para Ivy - o fogo da vida, ao nosso lado!

 

 

Fevereiro.

À minha frente, a pequena Ivy. Por mais que a tenha esperado, imaginado ou sonhado, ela agora é tocável. Solicita por estar com fome ou quando está molhada. Não mede o tempo, se é noite ou dia. Muitas vezes fico a olhá-la intrigada: uma recém-nascida, não parece com ninguém; que nasceu com tanto cabelo, e agora está caindo. Tão pequena e tão repleta de vida! Tão esperada e tão amada!

Essa magia que faz um pequeno ser sair do ventre e chegar à vida. O nascimento é, em todos os sentidos, a maior maravilha humana.

Estar com Ivy é precioso. Ficamos Igor e eu sem qualquer noção do tempo, a tocá-la, a senti-la. Os momentos nos quais estou a amamentar, o simples ato reveste-se de tão tanto esplendor, é como lhe transmitir toda nossa história.

 

 

Março.

O sol está forte.

Como nossa Ivy está gorducha! Seus olhinhos já têm uma expressão mais definida, seus cabelos caíram quase totalmente. Os que nascem são negros como os de Igor.

Minha família partiu para Nijmi, deixando comigo a saudade. Mas, há a certeza de que quando voltarem se fixarão aqui. Eles estão seguros da decisão e eu repleta de alegria.

Ontem, Elizabeth esteve aqui, ficou apaixonada por nossa pequena.

Não sei o que anya conversou com ela na noite de Natal, mas a verdade é que de lá para cá vejo-a nitidamente mais segura.

A maternidade transformou um pouco meu corpo, com contornos mais nítidos; estou mais mulher. E dentro de mim algo ganho; viver a maternidade deu-me segurança, sentir que o que vivemos é um fato real. Ivy é a prova. Além da sua individualidade, sua identidade, ela nos mostra, a cada riso ou choro, que temos uma realidade onde o sentimento está presente; permeia tudo, como ar que respiramos.

A escola está cada dia mais forte, entraram mais crianças e adultos, o movimento é contínuo.

 

 

Abril.

Primavera! Um ano!

Estou na biblioteca. Olho a janela, tudo tem cor!

Um ano! Há momentos em que sito a eternidade se abrindo para nós.

E aí eu me pergunto: só um ano?

A eternidade cai sobre nós em momentos nos quais o tempo parece não ser tempo; quando cada fração é ilimitada.

Existem momentos em que fazemos novas descobertas e deparamo-nos com algo novo. Estar ao lado de Igor é ter, ao mesmo tempo, as duas coisas. Isto é, desfrutar do lugar e do momento - do aqui e agora.

O sentimento por ele toma uma dimensão ilimitada e, quando estamos a nos amar, essa dimensão toma forma que vai de pequenos gestos a total integração. Dou-me conta, então, de que a descoberta é constante.

Volto-me às estantes de livros. E lá estão as taças, o coração dispara. O que elas trazem, que mistério contém essa moça? Aquela moça.

Como podem trazer alguma coisa, se foram feitas por meu pai! E são como registro de nosso casamento. O pai cravou nossos nomes nelas.

Qual o elo? Comecei a vê-la, quando peguei as taças? É através das taças que chego a ela?

Por que não contei a anya, talvez ela pudesse me ajudar. Na verdade ajudar a moça.

Todo esse tempo passou, ela deve estar boa, curada.

Não quero mexer nisso! Afirmo e vou à estante. Que contradição!

Toco as bordas. Igor e eu sempre tomamos vinho nelas. E o que ela tem a ver com isso?

Qual sua participação?

- Escute-me, moça, esteja onde estiver: se você é um sonho ou se você existe a distancia. Compreenda-me, de todo coração espero que esteja bem. Não conheço você, mas é como se a conhecesse e do fundo do meu sentir, espero que você esteja bem. Espero que...

É dia, mas está escuro, já é noite? Vejo o quarto: a moça está, ainda, deitada, estão lá suas roupas. O que vem a ser isso que ela está usando? Sua fronte está encharcada de suor e ela balança a cabeça. Ela delira. Como posso ajudá-la, é desesperador vê-la assim. Suas cobertas estão no chão. Quero cobri-la, mas não consigo. Não consigo sair de onde estou. Não existe ninguém por perto; olho em volta, uma grande janela dando para o mar. Vem uma brisa. Sopra a brisa. Deus a ajude. Faça aparecer alguém, ela não poderá agüentar muito tempo, eu sinto isso! Sinto sua agonia.

A brisa é morna, fecho os olhos.

- Calma! Tenha calma, você está bem, é o confronto com o tempo. O amor une o possível ao impossível. Estou aqui com você, não tenha medo. O tempo é um amigo...

Abro os olhos, não para confirmar o que sei. Mas para me inteirar de que é Igor quem fala com ela!

Sai a noite, entra o dia.

- Natasha! Fale comigo.

Sinto-me tonta, muito tonta. Abro os olhos, fecho-os. É dia, mas era noite há pouco.

- Natasha! O que você tem, fale comigo.

- Igor! Onde você está?

Seus braços me envolvem.

A tontura vai sumido. Sinto seus braços me apertarem. Vou respirando profundamente e lentamente.

- O que você tem, amada? Você está suada. O que está sentindo?

Abro os olhos, olho em volta: a biblioteca. Igor abraça-me forte; falo a ele:

- Quando entrou aqui?

Minha voz sai distante. Ele olha-me e fala:

- Agora há pouco. Vi-a em frente à estante. Você parecia fora de si. O que está sentindo?

- Fale-me o que você ouviu?

- Natasha, você está pálida. Vamos para nosso quarto.

- Diga-me, Igor! Eu estou bem. Só quero saber o que você viu ou sentiu?

- Já lhe falei! Entrei aqui e vi você branca parecendo fora de si, suada e de olhos fechados. Quando os abriu seu corpo estremeceu.

Respiro fundo, a tontura passou, passo a mão nos meus cabelos, estão suados. Sento-me na cadeira, ele se agacha à minha frente, seu olhar...

- Você não está bem. Vou chamar o médico!

- Igor, se não estivesse bem diria a você. Você não era para estar aqui, por que veio?

- Estava a cavalo já nas vinhas. Senti algo. Então, não segui para as vinhas, corri para casa. Como se você me chamasse. Veio à minha cabeça você e uma coisa vaga sobre o tempo. Conscientemente, senti que você estava precisando de mim.

- O que você pensou sobre o tempo?

- Não sei, quando senti que você não poderia estar bem, fiquei nervoso.

- O amor une o possível ao impossível. Seria isso?

Ele, mais tranqüilo, sorri:

- Pode ser. Não sei ao certo, por quê?

Conto-lhe tudo que vira, tudo que sentira. Seus olhos se prendem entre mim e algo distante, depois voltam-se às taças. Continua calado.

- Que vem a ser isso, Igor? As taças, eu, você e essa moça. E, novamente, a pergunta ecoa sem resposta, o que vem a ser isso? E, em mim existe pressa. Pois, ela não está bem. Ela está muito, muito doente. Por mais estranho que pareça, eu tenho uma ligação com ela, e, ao ver você junto dela, acalmei-me. O que fez você sentir o que sentiu? Sentiu que eu não estava bem, porém eu não estava bem por ela não estar bem. E por que toda vez que falo nisso você se ausenta, fica distante? O que você sente, Igor?

Ele respira fundo, fica calado por um tempo e fala.

- O que eu sinto? Quando você me fala das cenas que vê, sinto-me sendo puxado. Meu sentimento segue, e meu pensamento não acompanha. Por isso fico ausente. Sinto sim, que tudo isso tem a ver com o futuro.

Olho para ele confusa:

- Que futuro?!!! Tudo que vejo não é conhecido! Exceto minha identificação com ela. Que futuro, Igor?

- O nosso. Nosso futuro, Natasha.

 

 

 

Julho.

Lua cheia

A claridade da lua e da lamparina, o calor do verão.

E a bela cena à minha frente.

Igor levanta-se da cadeira de balanço com Ivy nos braços e a acomoda no berço. Ele a contempla, acaricia seu rostinho. Chego junto deles, Igor ergue o rosto e sorrimos.

Olho a janela, vou até ela.

O céu estrelado.

Penso como meu avô se sentiria com Ivy. Nossa filha é um presente das estrelas.

Sinto Igor atrás de mim, abraça-me. Lua cheia, que noite linda!

Uma estrela cadente... Tento fazer um pedido. Não tenho o que pedir. Tento pensar, o pensamento não acompanha, ela é mais rápida.

Lá está a estrela que Igor passa longo tempo a observar. Também já é para mim um ponto de referência. Ela não é tão grande, porém seu brilho, sua luz é um chamado.

O rosto de Igor está no meu ombro, não preciso olhá-lo para saber que ele a olha.

Uma nuvem, transparente passa por ela. Igor abraça-me forte; um homem como este deve ter vindo dela, da estrela.

Noite de lua cheia, repleta de uma ternura que a brisa espalha por toda a região.

Brisa morna, lua cheia, nossa família e a estrela brilhante.