Taças

Lago Balaton - Badacsony

 

O sol já está alto, como dormi.

Vem a lembrança do sonho que tive. Algo tão estranho: sonhei com uma casa que nunca vi, que tinha um quarto; a mobília era estranha, e, da janela, via-se o mar. Foi, então que vi Igor. Ele andava pelo aposento e ia até uma janela e ficava a olhar o horizonte.

Igor! Volta a emoção.

- Bom dia, moça! Pensei que não ia mais acordar.

- Bom dia, anya.

- Está uma linda manhã e seus olhos brilham como nunca! Belle e Miriam estão no lago lavando algumas roupas, você pode ir ajudá-las?

- Claro!

Levanto-me e me troco rapidamente, anya trouxe meu desjejum. Como algumas frutas. Os olhos de anya acompanham-me.

- O que acha do Conde Igor?

Minhas mãos tremeram, não adianta disfarçar nada de anya.

- É um homem simples, educado e bonito.

- E...

- Só isso que sei. E a senhora o que acha dele?

- Um homem simples, educado, bonito, e que tem os olhos voltados para você o tempo todo.

- A senhora acha? - um calor sobe-me ao rosto, fico ruborizada.

- Que é isso, Natasha, sabe muito bem. Vá ajudar as outras na lavagem de roupa. Quando você voltar, temos muito que conversar. A propósito, pedi a Belle para estender seu vestido rosa ao sol, para você poder usá-lo logo mais.

Abraço anya e saio rumo ao lago.

 

No lago, Belle e Miriam já tinham lavado quase toda a roupa. Havia roupa estendida por tudo lugar. O dia está lindo, o sol presente, o céu limpo.

Tudo está belo! Cumprimento as duas que se entreolham e sorriem.

Olho o lago e suspiro, agacho-me e lavo o rosto.

- O que achou do Conde, Nat?

Levanto o rosto e sorrio diante da fisionomia das duas.

- Simples, educado e bonito.

- Ele é muito mais que isso, e você sabe muito bem. Ele é gentil e extremamente atraente, seu porte é indiscutivelmente másculo, tem o olhar mais bonito que já vi. É, Natasha, você corou; é lógico que concorda comigo - falou Miriam.

- Melhor trabalhamos.

- Oh! Quer mudar de assunto. Então, o caso é sério. Imagine, Miriam, Natasha é tida por todos nos como de uma beleza ímpar. Não formariam um belo par! Está bem, Nat, não precisa olhar-me assim. Mas que é sério, é.

Abrem o sorriso e dão altas risadas, e até eu sorrio.

Afora as brincadeiras delas, está tão visível o que sinto?

 

Lavamos bastantes roupas. Paramos só para o almoço, e, mesmo assim, nos levaram a comida. Lavei quase todos os meus vestidos, pois estavam com cheiro de mofo. Temos bastante roupa, roupa até demais. Porque ganhamos muito bem,  com nosso trabalho. Isso nos orgulha bastante: o trabalho, a educação, a higiene de nossa gente, o que nos diferencia de outros grupos. A mim parece que temos outra cultura, com outros valores. Sem desmerecer os outros grupos e sim, termos tido o avô, com todo seu conhecimento.

Ouço os gritos das crianças, e lá vem Belle com todas elas para o banho.

Eles são uma festa; jogam-se nas águas claras do Balaton. As crianças chamam-me. Não resisto, tiro a roupa de cima e fico com minhas roupas intimas e vou para água. Que algazarra esses pequenos fazem! E como é gostoso brincar com eles. Miriam e Belle foram pegar toalhas, levando as roupas que secaram. A água a uma temperatura ótima, damos mergulhos e mais mergulhos, como nossos risos.

- Quantos anos você tem, Natasha?

Meu sangue foge, o coração bate rápido.

Não preciso virar-me para ver quem é.

Agacho-me na água transparente e volto-me a ele. Ele está a cavalo e sorri com a cena. As crianças à minha volta, param.

Diabos! O que ele está fazendo aqui a essa hora. Queria que me visse à noite, arrumada...mas assim como estou?!

- Quantos anos. Hem Natasha?

A resposta não me chega aos lábios. Ele está na margem do lago - o sol está forte. A água cintilante e transparente - eu envolvida por ela... Água doce do lago...Água do sentimento.

Erno lhe responde, e ele indaga.

- Você acha sua tia bonita? Mesmo assim toda molhada!

Os meninos riem e ele também.

- Por favor, pode sair daí! Tenho que tirar as crianças.

Ele fica sério, faz um gesto com o braço.

- Saia, não a estou impedindo.

Ele olha a transparente água, meu sangue sobe.

- Não posso sair com você aí!

- É? E por quê?

Faz um ar de inocente, seus olhos continuam brilhantes como o sol.

- Ora não posso sair assim, por favor!

- Ah! Você está em trajes impróprios. Está bem! Espero você no acampamento. Não demore.

Ele dá a volta no cavalo e galopa, o cabelo negro ao vento, como está bonito! Calça preta, botas, camisa branca.

Chegam Belle e Miriam, perguntando se Igor me viu assim.

Aceno com sim e elas riem.

Tiram as crianças da água, enxugam-nas e mudam suas roupas.

Visto o vestido rosa e Belle penteia meus cabelos e finalizou com um: - Está linda!

 

No acampamento, Igor conversa com anya. Está de costas para mim. Quando me aproximo mais, ele pára de falar e vira-se; seus olhos parecem duas contas negras.

- Natasha, o Conde Igor pediu-me para deixar você ir ver a sua plantação de uvas com ele. Seu pai e seu irmão foram no começo da tarde. Pode ir, mas não demore.

Beijo anya e vou à carroça trocar os meus sapatos. Olho-me no espelho, enquanto me perfumo. Anya tem razão, meus olhos têm um novo brilho.

Quando saio da carroça vejo Andrei conversando com Igor, meu irmão passa o braço no meu ombro.

- Você vai ver como é bonita a plantação, Nat.

Despeço-me de Andrei e vou à frente de Igor. Olho em volta à procura de nossos cavalos, mas não vejo um só. Só o cavalo negro de Igor, à frente.

Olho para Igor. Ele abre os olhos, com um olhar travesso e, num gesto, pega-me pela cintura e coloca-me na cela; em seguida, sobe rápido.

- Como você é bonita.

Saímos a galope. Numa certa altura, ele pára e puxa meus braços para ficar mais perto dele. Sinto, novamente seu perfume.

Cavalgamos mais um pouco e chegamos às vinhas.

Observo a beleza, fileiras e fileiras de plantação, parece um desenho, tudo bem certinho. Seguimos por entre elas, é extensa a plantação.

Carreiras e mais carreias de madeiras toscas sustentam as vinhas, parece-me um túnel natural onde as folhas das uvas, em alguns momentos, chegam a tocar em nos. O sentido contato com as folhas aliado ao aroma dá-me a sensação de interação; mesmo sendo esta a primeira vez que esteja dentro de uma plantação de uvas.

Passamos perto de alguns trabalhadores e constrangida, me afasto um pouco de Igor. Eles o cumprimentam. E, Igor torna a me puxar para mais junto de si.

- Aceita provar nosso vinho?

Aceno que sim. Saímos da plantação, e pouco depois estávamos à frente de uma grande construção de pedra, quase toda tomada de musgo verde. Ao seu redor, um gramado bem cuidado de um verde bonito.

Ele desce do cavalo e pega-me devagar, estamos tão próximos; seus olhos me chamam, fazem o meu ser ficar a sua mercê.

- Conde!

Coloca-me no chão, minhas pernas estão trêmulas. Ele volta-se para o homem.

- Fale.

- Já coloquei os vinhos que o senhor mandou separar, na charrete. E agora?

- Leve ao acampamento. Sabe onde fica?

- Sim senhor!

- Venha, Natasha. – ele fala.

- Conde!

- Fale Val!

- A senhora sua mãe mandou-lhe um recado.

- Sim. Qual o recado? - ele, observo, fica impaciente.

- Ela quer vê-lo. Disse que precisa falar-lhe, para o senhor ir a Badacsony, ainda hoje.

- Na volta do acampamento, vá à cidade e fale à Condessa que só posso estar com ela amanhã, vamos Natasha.

Sorrio para o simpático senhor, e ele retribui.

Entramos na grande construção, e a cena à minha frente é engraçada: um grande tanque de madeira e seis homens com calças na altura do joelho, descalços pisam as uvas.

A voz de Igor a explicar o processo para se chegar ao vinho... O vinho, é a voz de Igor que me deleita. Estar com ele é um ato contínuo de bem-estar.

Meus olhos se detêm, a maioria do tempo, nele.

Chegamos à adega, onde o aroma é forte. É escuro lá dentro, estamos à porta. Ergo meu olhar a este homem, que tem em si algo que me entorpece e embriaga em plena lucidez...

Ele olha para mim e para a escura adega; sorri sereno.

Saímos de lá, entramos numa saleta, onde há uma escrivaninha com vários papeis, três cadeiras, umas prateleiras com livros e uma enorme janela que dá para o lago.

- É aqui que você trabalha?

- Sim, onde passo uma parte do dia, mas gosto de estar na plantação.

Ele vai à prateleira, pega uma garrafa de vinho enche dois pequenos cálices e me oferece um.

- Um brinde! A você, tão esperada; ao tempo, que colaborou comigo e a trouxe!

Em seus olhos cintilam: sinceridade e calor, abaixo o rosto e vou à janela.

- Grata.

Do lado direito, subindo mais o monte e pouco distante, uma bonita casa branca com um primeiro andar, onde se viam grandes janelas em forma de arcos; no andar térreo, também, há janelas com esse formato ao que podia ver, e a beirar as janelas, jardineiras floridas.

- Sua casa.

Sinto que ele está nas minhas costas.

- Sim. Gosta?

Sua voz vinha perto do meu ouvido. Céus, estar perto dele é mágico.

- É aí que você mora?

- Sim. Gosto do campo, dos bosques, do lago e das pessoas daqui, onde tudo é muito simples, as coisas são o que são.

- E sua família, também mora aqui?

Ele se afasta de mim; coloca seu cálice na mesa.

- Não. Moram na cidade, e, muito raramente, vêm aqui. A realidade deles é diferente da minha. Eles gostam do brilho das cidades e de suas festas. Mas certos comportamentos não se enquadram comigo.

Vejo que ele se torna arredio, mas em poucos segundos sorri ternamente.

- Quero mostrar-lhe a casa. Vamos conhecê-la?

Seu ar travesso está de volta.

- Não tema, sei me portar, e além disso tem a Misca.

Fico corada. Não o temer? Em verdade, eu temia a mim.

- Quem é Misca?

- É minha segunda mãe.

Pega-me pela mão e leva-me

 

Já fora, ele pega as rédeas do cavalo e saímos andando.

Uma estradinha saindo de lado esquerdo da fabrica leva à casa de Igor.

A nossas costas, o Balaton. Como um impulso natural nos voltamos a ele: majestoso!

A plantação de uvas descendo da fábrica até quase o lago.

Ao lado o bosque delimita a vinha, a vinha; suas largas folhas – parreiras, paralelam o bosque. Ah! Hungria, estou apaixonada por você!

A subida é silenciosa. Silenciosa e partilhada.

Sinto sua presença; uma presença forte e máscula; a atração de uma força plenamente sentida.

E eis a casa, ao longe ela parece maior.

Igor amarra o cavalo numa arvore, fico a olhar o jardim bem cuidado.

Sinto sua mão na minha, olho para ele que sorri. O sorriso - seu sorriso começa no olhar e cai nos lábios serenamente. Uma expressão bela de se ver; uma sincronia perfeita.

Entramos na casa. Uma gostosa sensação me atinge, como de aconchego.

Tudo é tão simples. Há flores por toda a casa; um grande tapete na sala, uma lareira, dois sofás, móveis simples de madeira, uma cristaleira, mesa e cadeiras. E muitos quadros na parede. Chego mais perto, lindos quadros com a paisagem do lago, das arvores floridas com um colorido misto, dos pássaros, das vinhas.

- Lindos! Quem os pintou?

- Mikail, um amigo meu. Vou levar você até a casa dele, amanhã ou depois. Ele é um grande artista, pintar é sua vida. Misca!

Quantos arranjos bonitos de flores. A simplicidade da casa condiz com Igor.

- Misca! Onde você está?

- Estou aqui, espero que... Desculpe-me pensei que estivesse só.

Misca, gorda, baixinha, cabelos meio grisalhos presos num coque, com um enorme avental, e as mãos sujas de massa.

- Venha cá Misca, quero lhe apresentar Natasha.

Ela me olha intrigada e se aproxima. Fico envergonhada, existe em mim a timidez.

- Muito prazer, Misca; não queria incomodá-la.

Aí veio seu sorriso.

- Que é isso menina, estou fazendo uns pãezinhos. Aceitam com um chá? Alguns já estão prontos e quentinhos.

Igor abraça a senhora. Indaga-me com o olhar e aceno que sim.

- Aceitamos, mas tem que ser rápido.

- Importam-se de ser na cozinha?

Ela olha para mim e me apresso em dizer:

- Claro que não, a senhora quer ajuda?

- Senhora? Chame-me de Misca.

Entramos na cozinha, onde o cheiro do pão toma o ambiente.

Uma grande mesa de madeira escura, dois bancos compridos, um de cada lado da mesa, o grande fogão de lenha, prateleiras repletas de tachos e panelas, e outra cristaleira.

Sentamos no banco; ele, ao meu lado; Misca, à nossa frente, nos dá as costas para fazer o chá.

- Misca, pelo cheiro delicioso dos pães, você deve usar alguma erva; incomoda-se de dizer qual?

Ela começa a falar, e eu coloco minhas mãos sobre a mesa.

Igor chega mais perto, leva a mão a meus cabelos e os coloca de lado, sobre meu ombro esquerdo. O leve toque de seus dedos na minha nuca faz com que já não ouça a receita de Misca. Olho para ele, meus cabelos tocam a mesa e ele toca suas pontas, e as enrola nos próprios dedos.

- Sua casa é muitíssimo agradável.

Ele encosta seu rosto perto do meu e fala a meu ouvido.

- O quê?

O arrepio percorre as costas, abro a boca para respirar melhor. Não falo, sussurro: - Sua casa é agradável, aconchegante.

Com o dedo, ele percorre meus lábios; a outra mão puxa meus cabelos, faz meu rosto ficar mais perto do dele. Fecho meus olhos, pois o entorpecer me invade com o olhar dele e respiro fundo. Com o movimento leve, ele toca meus lábios. Como é encantado estar junto deste mago. Estou apaixonada por você, Igor e rendo-me a isso. Ele parece ler meus pensamentos, chega a meu ouvido e fala.

- Sempre esperei estar com você como agora, Vida.

- Ei, olhem o chá e os pães.

Fico sem jeito. Igor sorri alto e Misca, também.

- A senhorita é mais bonita do que imaginava.

Olho espantada para ela e, depois, para Igor. Este, por sua vez, toma o chá com ar inocente. Sinto, no entanto, que ele chega mais perto de mim. Agora, estamos lado a lado, juntos; sinto sua perna ao lado da minha, meus quadris batendo nos dele. Como poderia ao menos tomar o chá?

- Há muito que queria conhecê-la, desde o tempo que esteve aqui doente.

- Por que Misca? - Indago.

- É bom vê-la. Tirei minhocas da minha cabeça.

Tomo um pouco do chá e já ia perguntar, quando Igor o fez.

- Que minhocas?

- Ah! Besteira de gente velha! Gostei de você senhorita e sou sincera. Aliás, todos nós que moramos nesta casa: o senhor, Val, meu marido e eu, todos somos, e acho que é por isso que vivemos aqui. Tenho a boca grande e não tenho papa na língua, sempre falo o que acho, e na cidade tenho que engolir certas besteiras. Não é, senhor?

- É Misca. Mas você não falou o que tinha na cabeça.

 

Misca leva o avental à boca e dá uma risada, Igor a olha intrigado.

- Primeiro, eu pensei que o senhor tinha imaginado a senhorita; depois, quando falei com o doutor Lajos, soube que ela realmente existia. Desculpe-me, senhor, tinha que saber. Lembra-se do dia que a caravana partiu? Só eu sei o estado em que chegou aqui. Ele bebeu, como nunca o fez e não deixou um jarro de planta inteiro nessa casa.

Olho para Igor e pele primeira vez vejo-o sem jeito.

- Para mim foi difícil vê-lo assim, o tenho como um filho. Ele dormiu no tapete. Depois se seguiram os dias, em que saía de manhã e só voltava à noite, estando a perguntar a Deus e ao mundo se tinham visto vocês. E agora a vejo na minha frente, linda e delicada. Isso me deixa muito feliz! Aceitam mais chá?

 

Nego com a cabeça. O que quero é ouvir de Igor o que se passa ou passou. Agradeço a Misca e lhe explico que está ficando tarde e minha anya ficará preocupada.

- Entendo, senhorita.

Igor levanta-se e fala a Misca que Val foi à cidade. É sentido o carinho entre eles.

Ela sorri e nos acompanha até a porta.

- Foi um prazer conhecê-la.

Ela me dá um abraço sem jeito. Igor olha espantado e nos dirigimos ao cavalo.

- Você é um ser encantado, tenho certeza. Conquistar a Misca? E no primeiro encontro!

No cavalo, toco seu ombro.

- Igor, preciso falar com você.

- Daqui a pouco.

 

Saímos, encosto-me a ele, o pensamento estava nas palavras de Misca e na frase dele: - Sempre esperei estar com você.

Agora, tudo parecia tomar forma, mas é necessário ouvir dele mesmo a historia para, assim, compreender.

Chegamos a um lugar perto daquele onde nos encontramos ontem.

Árvores, arvoredos, e alguns, por ser primavera, estão floridos.

O verde impera da relva às folhas das árvores.

Creio que, por ser entardecer, as águas do Balaton refletem belas tonalidades do verde ao dourado do sol que se vai.

- Esse lugar é especial para mim. Bem, moça, o que quer falar-me?

Já não sei mais o que dizer; só o tenho à minha frente... Como alguém pode ser tão envolvente.

- Natasha... Não me olhe assim.

- Como?

- Como você está me olhando, agora.

Desvio o olhar desconcertada.

- Por que não posso olhá-lo?

- Só existimos você e eu aqui, e você tira todo meu raciocínio. A minha vontade é senti-la, entende-me?

E, como entendia, fecho os olhos e tento pensar.

- O que Misca quis dizer com tudo que falou?

Ele vai para junto de uma árvore, encosta-se nela, pega um graveto e fica com ele nas mãos.

- Ela disse exatamente o que viu.

Pára de falar, olha o graveto por uns instantes e continua.

- Fiquei fora de mim quando vocês partiram, quando você foi embora. Não conseguia ficar calmo, pois não entendia a razão da súbita partida.

Dou alguns passos me aproximando mais a ele.

- Por quê, Igor?

- Por que? Natasha, não é visível o que sinto? Quando a vi pela primeira vez com febre e doente, senti-me estranho. Entrei na carroça com Lorna a falar preocupada e quando a vi, fiquei a olhá-la; era a doença, era você. Saí de lá angustiado, fui para casa, mas você não me saía da cabeça. Fui à casa do médico, ele já estava dormindo e o arrastei ao acampamento. Fiquei a observá-la enquanto o médico a examinava; naquela hora pedi ao Pai para você não morrer. Pedi ali na carroça, implorei em casa. Algo me incomodava e pela manhã fui ao acampamento, e passei a ir toda vez que vinha essa sensação forte. Era como se você me chamasse. Seguiram-se alguns dias. No começo, eu tinha a desculpa: Ela precisa de mim, está doente. Mas aos poucos entendi: quem precisava era eu. Precisava vê-la, estar perto; uma necessidade real e vital... E o pior foi quando cheguei ao local onde estavam acampados e não vi mais nada, nem ninguém. Deus Pai, fiquei louco. Por que partiram? Por que você tinha me deixado...O resto você ouviu de Misca.

Chego perto dele, meu coração bate rápido.

- O que posso lhe falar? O que posso lhe dizer, Igor? Quando o vi o mundo parou.

Em todo esse tempo sonhava - é mais que isso - vivia a pensar em estar aqui, em voltar ao lago. Perguntava-me o porquê. E quando o vi, aconteceu. Só existe você antes, agora. Nunca tinha sentido algo assim, tão forte; algo que me excede, e que, no intimo, esperava; não me pergunte por quê. Simplesmente esperava você, apenas você, por ser você...

Seus olhos chamam-me, ele joga o graveto no chão.

- Vem cá.

Um sussurro, um pedido.

Chego perto dele, puxa-me pela cintura, meu corpo encosta ao dele. Ergo a mão, toco-lhe o rosto, ele puxa-me mais a ele, vem-se chegando com os lábios entreabertos, sinto seus lábios nos meus... Passo os braços no seu pescoço por puro receio de cair. Ele pára de beijar-me, abro os olhos, ele está a me olhar, fala:

- Como pensei neste momento, nestes anos. Sonhei em estar com você. Chamei-a no tempo. Tudo que eu mais queria, que eu mais quero, está aqui nos meus braços.

Encosto a cabeça em seu ombro, mas ele levanta meu rosto; fecho os olhos, sinto seu abraço. Com a mão, levanta meus cabelos, e sinto seus lábios no meu pescoço suavemente, mas minha pele queima... Puxa-me mais para si, passo os dedos por entre seus cabelos, beija-me os lábios...nossos corpos parecem um só...

De repente pára de beijar-me, sinto-o afastar-se de mim; não entendo, abro os olhos.

- Temos que ir embora.

Estou atordoada.

- Se ficar mais um pouco aqui com você, posso fazer com que você se arrependa de estar comigo, e isso eu não quero.

- Como, Igor?

- Quero amá-la.

Volto a mim. Amar-me?! Claro. O sangue vem ao rosto, dou-me conta de que estou quente. Coloco a mão no meu rosto.

- O que é, Natasha?

- Estou quente, parece que estou com febre.

Ele tenta manter-se sério, porém não se contém e solta seu riso. Pega-me e abraça-me rindo.

- Quer dizer que você está com febre? Não sabe o que é isso, Vida? Essa febre?

- Não.

- É febre de amor.

- Como você sabe?

- Vejo nos seus olhos, você me quer como eu a quero.

- E só eu a sinto?

Ele ri novamente e fala:

- Não, toque em mim.

Minhas mãos ainda tremem, passo-as no seu rosto... Quente, pego sua nuca, quente. Seus cabelos estão suados, passo a mão na minha nuca, meus cabelos também estão suados. Ele os levanta e sopra, fecho os olhos. E ao voltar a abri-los, vejo o intenso e penetrante olhar dele. Ele puxa-me, nossos corpos juntos, e vem o beijo sedento. Sede um do outro. Abro os olhos, é quase noite e falo.

- Igor, já está tarde, anoitece, temos que ir.

Ele abre os olhos como se tivesse acordando.

- Sua febre passou?

- Tenha a certeza que ela nunca passará com você por perto. Só em vê-lo, o meu coração dispara. Ontem, senti como se o conhecesse, meu coração, pulsava tão rápido, como pulsa agora. Sinta, não estou mentindo.

Ele empurra-me um pouco, balança a cabeça.

- Acho melhor não tentar senti-lo. A não ser que você queira ser amada aqui na grama.

 

Estou louca? Pedir para Igor sentir meu coração! Porém, ao estar com ele, tudo é natural. E ao contrario do que sinto, falo:

- Vamos, Igor.

- Sim, venha. Do contrário não serei tão bem recebido por seu pai.

Pega-me pela mão e vamos para o cavalo. Levanta-me e, em vez de colocar-me na cela, olha-me longamente, abraça-me e sussurra: - Minha Vida...

O som da tua voz é plenamente conhecida... Homem ti conheço...

Coloca-me na cela e monta. Chego-me para junto dele e o envolvo com meus braços, num abraço.

Saímos do bosque. Algumas estrelas já no céu, ali estão as três Marias, simplesmente as observa. Meus sentidos estão voltados a ele e ao que acabo de viver e continuo a sentir.

Igor, como eu gostaria de saber o que está a sentir. Num gesto toco os seus cabelos. Sinto-o pegar minha mão, a encaminha para seu peito. Sinto seu coração!

O pulsar rápido. O calor do seu peito, o coração pulsa acelerado.

 

Homem, sei o que está sentindo.

No acampamento as fogueiras já estão acesas, e sente-se o cheiro de comida. Não tenho fome, a fome é estar com ele, é algo novo, porém, ao mesmo tempo, é como se sempre tivesse existido.

O som dos violinos vem do acampamento, que está colorido. Descemos do cavalo.

- Vocês são sempre assim, alegres?

- A maior alegria do cigano é a vida. A celebração da vida. Viver a vida o mais que possa.

Seu ar travesso, os olhos vivos me fazem sorrir. Anya veio até nós. Seu ar denota preocupação. Igor desculpa-se e explica que fomos conhecer a fábrica e sua casa. Ela arregala os olhos, e ele fala sobre Misca. Só assim ela se tranqüiliza.

Anya, anya, o perigo, se é que se pode chamar de perigo, não está na casa de Igor, está dentro de nós mesmos; e isso não é perigo, anya. Isso é o melhor evento que já me aconteceu.

Igor junta-se aos homens, e eu vou ajudar no jantar. Vez por outra, nossos olhos se encontram e meu coração bate mais forte, celebra o comungar.

- Você está corada, Nat.

- É mesmo. - respondo, sorrindo para Belle.

- Sim. Vai me contar o que se passa? É ele, claro é o Conde.

- Estou feliz, cunhada, muito feliz.

Demos o jantar. O vinho da noite é de Igor, ele está sentado junto ao pai, e a conversa é boa, vou sentar-me junto a Andrei, encosto a cabeça em seu ombro, antes ele me olha e sorri.

- Você tomou vinho? Seus olhos estão brilhantes.

Não o respondo, olho para Igor.

- Este lugar, realmente, é um lugar abençoado. Natasha, o Conde gosta de você.

Fico surpresa ao ouvir Andrei dizer isso, não é bem da pessoa dele.

- Por que você fala isso?

- Sou homem, percebo quando um homem está interessado numa mulher. Vejo como ele a olha. Aliás, não é de agora. Desde que estivemos aqui da outra vez, ele passava um tempo enorme a olhar para você. Sempre arranjava uma desculpa para vê-la. Anya sentiu, e acho que foi por isso que nos fez sair daqui tão depressa. Ela a via como uma criança.

Imagine! Nessa idade, Belle e eu já estávamos casados.

Conheço você - continua Andrei. Conheço você muito bem, e sei que está apaixonada por ele. Nem precisa me responder, eu sei. E, também, já estou tonto de tanto vinho; falando demais. Mas preocupo-me com você, adorada irmã. Existe uma grande diferença entre você e ele. Ele é um Conde, e nos ciganos, Natasha. Sei que ele é um homem simples. Hoje, quando fomos ver sua plantação e sua fábrica, admirei-o. Ele nivela as condições sociais; mas ele é um Conde, e existe a diferença. Quero que pense nisso, não quero vê-la sofrer, pois a adoro. Tenha cuidado. Ah! Creio que me excedi no vinho.

 

Sei que Andrei está certo, existe uma diferença entre nós. Só que quando estamos juntos, só existe ele e eu, e mais nada. Sim, meu irmão, terei que pensar nisso, mas agora é impossível estando ele a alguns metros de distância de mim.

Andrei levanta-se e vai ajudar Belle levar as crianças à carroça, pois há algum tempo que dormem.

Olho o fogo, poderia essa diferença nos afastar?

- O que a faz pensativa?

Igor senta-se a meu lado, o calor da fogueira se estende por mim.

- Está preocupada com alguma coisa, Natasha? O que se passa?

Seu olhar aprofunda-se nos meus olhos, abaixo a vista.

- Não, estava olhando a noite que está bonita, apenas isso.

- Mentira! Aliás, você mente muito mal. Em que pensa?

Realmente, eis aí uma verdade: eu não sei mentir. Fico sem jeito e falo.

- A verdade, é que penso em você ser um Conde, Igor.

Ele fica impaciente.

- Sim, e aí?

- Existe uma diferença entre nós. Sei que você é um homem simples, mas é um Conde.

- Você quer que exista essa diferença? Por acaso o que sentimos hoje há tarde é diferente um do outro. Sou um homem e você uma mulher. Até aí tudo bem, existe uma diferença. E no que mais? Sou um Conde e você uma linda cigana, e aí? Faria diferença, se fosse o contrário, você uma Condessa e eu um cigano? Responda-me, hem! Olhe para mim, quero ver seus olhos.

- Não, não faria.

- Ótimo! Também não conheço essa diferença, a não ser que você crie. Estou no seu mundo, estou bem dentro dele. Posso não saber tudo sobre ele, mas saberei se isso for importante. Você esteve na minha casa, e se sentiu bem. Não importa um título externo, e sim, o que tenho aqui dentro.

 

Falou, batendo no seu peito.

- Se você começar a pensar assim, colocará uma barreira entre nós, e se a colocar estará dificultando tudo. E mesmo que você a coloque, tenha certeza, eu a derrubo, pode estar certa. Sou um homem consciente do que quero e quero você. E se você continuar a me olhar assim, levarei você agora e lhe mostro que a única diferença que temos é você ser mulher e eu ser homem. Só está.

- Também quero você, e muito.

- Vida, você sabe que o que existe entre nós não é algo de agora. Chamei você no tempo, você veio e ficará, ficará para sempre; é para sempre Natasha, está me ouvindo? Esperei, é verdade, mas em mim existia a certeza de que você viria. E eis você, aqui, agora. Não pense você que vou ser tolo para perdê-la, não mais.

 

Seu olhar é de uma intensidade, mas não entendo a profundidade de suas palavras.

- Como você me chamou no tempo, Igor?

- Natasha, logo você compreenderá, tenha certeza. A única coisa que lhe peço é para não colocar barreiras entre nós.

- Talvez seja cedo para entender, o que sei é que você tem razão. Minha ligação com este lugar, a eterna vontade de estar aqui, hoje sei por quê. Não pode ser comum sentir o que senti quando o vi. É você, sempre, foi você. E fico maravilhada por ser você, estou feliz, Igor!

Ele é por demais transparente, a emoção toma conta dele, com o dedo ele acaricia meu braço; sorrio.

- Sabe o que você parece, Igor? Uma caixa de surpresa que os mágicos usam. Sério! Não ria, parece mesmo. Um mago! – ele está sorrindo e pergunta:

- E você gosta de caixa de surpresa?

- Sendo você, pode estar certo que sim.

- É bom saber. É bom saber tudo que se passa com você, tudo sobre você.

- O que você sabe sobre mim?

- Ah! Muita coisa. Sei o quanto é amada por todos, o quanto seu avô foi importante para você. Sei que adora ler, sei até alguns livros que já leu... Deixe-me ver mais. Ama estar com as crianças.

- Como sabe disto? Andou falando com quem?

- Falei-lhe que me interessa saber tudo sobre você. Sendo assim, sempre puxo o assunto quando estou conversando com alguém. Ah! Sei que é péssima em costura e faz um ensopado muito mal, não gosta de cozinhar. Sei, também, que adora ficar comigo. Mas é tarde e sua anya está olhando muito para nós dois. Acho que tenho que ir embora.

Olho para anya e noto também que muita gente tinha ido dormir. Igor levanta-se e vai falar com o pai e anya, fico onde estou, esperando. Observo-o despedindo-se, a maneira como fala, é espontânea, parece bem integrado. E vem chegado e falo:

- Você vem aqui amanhã, não é?

- Você quer? - Andamos na direção do cavalo.

- Claro, e você sabe disso, por que pergunta?

- Para confirmar o que sinto, você não pode mais ficar sem me ver.

Ele solta sua risada, que enche a noite.

- Presunçoso!

- Estou errado?

- Não, está certíssimo.

- Posso beijá-la?! – Paro de andar, há momentos que não sei se ele está falando sério.

- Se quiser tentar, tenha a certeza que amanhã não será tão bem recebido por anya.

- O que tenho que fazer para agradar sua anya e agradar a mim?

Pega minha mão e aperta, morde seus próprios lábios.

- Acho que tenho que ir.

Sorrimos, ele fala.

- Amanhã.

- Até amanhã, Igor.

Beija minha mão e sobe no cavalo, chego junto a ele e acaricio sua mão.

- Espero você. Durma bem!

- Como dormir com você na minha cabeça?!

Vejo-o partir, Deus, como gostaria de ir com ele.

 

Volto para o acampamento, anya me espera, o pai deve ter ido deitar, desta vez, na carroça.

- Sente-se filha, vou fazer uma trança nos seus cabelos.

Sento-me, toda vez que anya quer falar a sério pede para fazer tranças nos meus cabelos.

- Você sabe que não sou de muita conversa, como seu pai.

Sei o que está se passando, sei também que você sabe, nunca tive muitas preocupações com você. É sensata e inteligente, mas está apaixonada. - permaneço calada, e ela continua: - Quando estivemos aqui há três anos notei no Conde, desde o primeiro dia, como alguém especial. Sabia, por intuição, que ele faria parte de nossas vidas, por um tempo. Vi como ele a olhou, os dias que se seguiram serviram só para confirmar minhas suspeitas. Existia nele algo forte por você.

Ela para de trançar meus cabelos e vem para minha frente.

- Os olhos dele são como espelho, sincero demais com o que se passa na alma, em seu coração. Ele ficava calado olhando-a; uma vez cheguei até ele e perguntei o que sentia, ele continuou a olhar para você e disse: ‘’ – Não sei, é como se a conhecesse, sei o que se passa com ela, o que ela está sentindo...”.

Ele não mentia. Você sabe que acredito na existência de outras vidas,  vidas passadas.

E ele não mentia, ficava a observá-la, buscando, talvez, a resposta de algo que ele próprio não sabia, continua anya.

Agi errado em sair o quanto antes daqui. Sei que agi errado.

Mas pensei em você.

Não era só o fato de achá-la nova, mas principalmente ele ser um Conde e  você uma cigana, e isso pesa, Natasha, pode estar certa que sim. Gosto dele, vejo sua sinceridade, mas quis protegê-la. Ele tem uma família, que pode não ser igual a ele.

Pensei que você poderia interessar-se por algum rapaz da nossa gente.

 

Anya observa-me e continua.

- Enganei-me, mas no fundo sabia, como Istvan, também.

Fico espantada. Por isso o pai sempre me falava que voltaríamos ao lago. Anya continua.

- Ao voltarmos para cá, seu pai quis provar-me de que estava certo; de que estávamos certos.

Só que acho que vocês não têm noção desta diferença, e você pode se machucar. Ele é aberto e sincero, mas e os outros? E sua família?

Até então não tinha pensado nisso, porém é evidente! Ele tem família.

Anya continua.

- Existe um elo forte entre vocês, que, para mim, vem do passado, algo tão forte e vivo.

Mas meu lado prático mostra, claramente, a diferença entre uma cigana e um Conde. Um homem simples que se senta no chão e come conosco. Um homem aberto que, em sua doença, expunha o que sentia, que leva os nossos para mostrar sua fábrica, que mora longe de sua nobreza. Mas a nobreza faz parte dele, sei que ele é o mais velho da família, seu pai já faleceu. Isso quer dizer que ele toma conta de tudo: da família, das propriedades, e aí? Como você acha que a família dele vai recebê-la. Como uma aproveitadora? Talvez.

Se fosse gente simples estariam morando todos juntos aqui no campo.

Veja bem, filha, estou só supondo, não quero errar novamente, posso estar enganada.

Peço que pense no assunto, e partilhe comigo as suas conclusões.

Tudo que mais quero na vida é ver você e seu irmão bem e felizes, como sou com seu pai. A felicidade existe quanto estamos cientes, e por isso quero que pense. É melhor refletir do que ter um grande susto mais à frente. Não digo com ele, pois vejo-o sincero. Mas é um Conde, e não é um Conde solitário, pois tem família.

Não é meu objetivo perturbá-la e sim alertá-la. Você, filha, é para nós um presente de Deus e não queremos que nenhum mal aconteça.

- Entendo suas preocupações, anya, eu ainda não tinha pensado sobre a família dele.

Prometo que irei refletir. Mas, quero entender mais o que acontece; por que acha que ele e eu tivemos algo num passado?

O olhar de anya se distancia, sua voz sai lenta como se tentasse achar a lógica do passado.

- Como pode alguém se impressionar tanto com um doente, sem laços afetivos, um homem jovem, bonito, rico, com tantas ocupações, ficar tanto tempo a olhá-la.

Lembro-me quando ele trouxe o médico. Foi no mesmo dia em que o conhecemos, seu pai o levou para vê-la. Ele chegou já noite alta, entrou com o doutor na carroça. Estava inquieto e angustiado, perguntava ora e meia: ela vai ficar curada?

Por que tamanha identificação, tamanha preocupação? Por uma jovem cigana desconhecida. Poderia ser caridade. E, depois, ele chegava a vir três vezes ao dia para vê-la. Não era mais caridade, não era simpatia, pois você nem falava, era carinho, um carinho que transbordava de seus olhos. Como ele poderia achar que conhecia, se nunca a vira antes?

- Anya, ao vê-lo senti uma emoção tão grande que pensei que ia morrer. Está emoção associada à morte, seria por ter ficado tão perto dela, da morte? Mas o fato é que senti que o conhecia. Anya, você me conhece, tão bem. Por quantos homens me interessei? Acho alguns bonitos, outros interessantes, mas nada, além disso. Nunca tive esse sentimento por ninguém.

Mas fique tranqüila, vou pensar no que me falou.

- Quem dera, eu ficar tranqüila! Vejo algo muito forte todo esse tempo.

- Anya, ele falou que me chamou no tempo. Eu não entendi.

Ela sorri, roça sua mão no meu rosto e fala:

- Acho que o compreendo, ainda não saberia lhe explicar,

deixe-me chegar o entendimento.

Vá dormir, Nat; amanhã cedo, nossa gente irá à cidade,

acho que também vou.


Beijo-a, falando do meu sentimento por ela: a forte e intuitiva mulher.