Taças

Quando o Tempo: Inicio da Consciência

 

 

Amanhece chovendo muito, é a força da lua cheia.

Todos querem viajar. Viajar para vendermos nosso trabalho.

Sei o quanto gostaram daqui, e isso me alivia. Tihany é nossa esperança de, em curto prazo, vendermos nosso trabalho. Se a chuva passar, iremos à tarde.

Tive vontade de ir ao lago. Não fui e não vou.

Como querendo não ter qualquer lembrança dele. Pela manhã tive medo que ele viesse aqui.

Depois, fiquei tranqüila. Ele não teria coragem, coragem de enfrentar.

Enfrentar, diante de tudo que fez, na verdade, diante de tudo que ele é.

É melhor assim. Ele, com certeza, já pensa que fomos embora.

A minha mentira foi a melhor coisa, se é que se pode dizer isso de algo tão vil. Porém, como falar para meus pais algo tão desprezível, tendo eles uma consideração, uma dívida de gratidão para com o Conde? Levá-los a tomar uma satisfação, para quê? Iriam se expor.

Falei o que estava a preocupar anya e a Andrei. E Deus permitiu que ninguém me fizesse perguntas. Anya, com certeza, deve ter pedido para ninguém tocar no assunto.

Sei que eles sabem da seriedade do meu sentimento, nunca tinha ficado tão interessada por alguém.

Interessada?! A quem quero enganar? O que sinto é amor. Deparo-me com o amor, o maior sentimento existente; o que de mais forte e intenso vivi!

Um homem bonito e inteligente, bonito e atraente, cabelos negros, olhos escuros e brilhantes.

 

Homem, por que fizes-te tudo isso comigo?

Não quero entendê-lo, levaria a quê? Saber que é pior do que é?

Como é difícil avaliar o caráter de uma pessoa.

Chega, Natasha! Chega!

Ocupe a mente para não pensar. Vou ficar com as crianças.

Tarde, a chuva continua.

A terra é só lama. No horizonte, só chuva e vento. Isso significa que não iremos hoje.

O acampamento está improvisado, começa a faltar mantimentos, mas estamos positivos, que venderemos bem em Tihany.

Ajudo o pai com as peças de bronze, pois é necessário estarem polidas. Assim, na exposição, na feira, serão bem apreciadas. Acho magnífico o nosso trabalho. Peço outra peça ao pai. Ele tira novas peças do baú, são candelabros, jarros e taças.

- Como são bonitas, pai, deixe-me poli-las.

- Essas taças foram feitas por mim e Andrei, eu também gosto muito delas. Tome-as, dê-lhes um polimento.

Pego-as, sinto um arrepio e surge uma cena: uma mulher pega as taças. Ela usa roupas estranhas, usa calças de homem.

- Natasha?

Tento ver meu pai, parece que estou saindo de um túnel. Me pergunta se estou bem. Sua voz parece distante, mas estou chegando.

- Está bem, filha?

- Estou pai. Que coisa estranha que senti! Ao pegar essas taças tenho uma sensação boa! Ao tocar nelas, vi uma cena, não é aqui, vi uma mulher usando calças de homem! Ela tinha as taças na mão. Que acontecimento esquisito. Mas a sensação é boa.

- Não é um pressentimento? Indaga meu pai.

- De que, não acontecia nada, a moça só tocava as taças, nada mais. Se estas taças não forem vendidas, eu as quero.

- Fique com elas filha, temos tantas peças, e mais algumas taças.

- Não! Só as quero se elas não forem vendidas. Então, sei que elas estão para ser minhas, certo?

- Certo. Está anoitecendo, a chuva bem fina. Amanhã partiremos. Você vai ver, amanhã teremos sol.

Veja Nat, já se vê a lua, venha ver como está linda.

Olho pela janela.

- Bela lua! As nuvens escuras já estão longe. Sempre, depois de uma tempestade o sol brilha mais forte...

 

O Sol - Igor. Cheguei a falar, a sentir que ele era meu sol.

Mas no céu, agora é lua cheia, é ela que impera, e quando o sol voltar a brilhar já estaremos na estrada... O Caminho que me trouxe aqui toma outro rumo...

- É mesmo o que você quer? Você quer mesmo partir, filha? - volto a mim e respondo:

- Quero pai, não quero forçar ninguém a nada, mas já que temos a necessidade de vender, como já estava previsto, ótimo, partiremos.

- Acho que você está sendo precipitada. O Conde é um homem simples, pode ter certeza disso.

Olho para o pai, o carinho que tenho por ele.

- Gosta dele, não é pai?

- Sim, é um homem em que confio.

 

Baixo a cabeça, meu pai também está enganado.

Passo os dedos nas taças.

Olho o céu novamente, quase não chove mais, amanhã estaremos longe daqui.

Meu Deus, passar três anos da minha vida querendo estar aqui! Sim, era tudo que mais queria.

E, hoje, tudo que mais quero é partir.

Como poderia em tão pouco tempo minha vida se transformar.

O lugar que mais amei, que me fez amar, e depois, ver nesse amor o sofrimento. Uma dor angustiante, que sufoca a razão.

O que é o destino, voltar a um lugar tão sonhado para sentir o maior sentimento.

Mesmo que não se partilhe esse sentimento.

Você me pegou uma peça, destino, nunca temos certeza de nada.

- Tenho orgulho de você filha.

Observo o pai, eu é que tenho orgulho da família que tenho.

- Natasha!

Viro-me à porta. É anya, mostro-lhe as taças e falo da beleza delas. Ela não olha as taças.

- Filha. Tem uma senhora aí fora querendo vê-la. - franzo as sobrancelhas e pergunto: - Quem é?

- Misca.

Minhas mãos tremem, solto as taças.

- O que ela quer?

- Falar com você, ora. Vá lá, ela a espera.

- Não tenho nada a falar com ela, anya

- Natasha! Vá falar com ela. Vamos lá, vá.

Gosto de Misca, mas ela tem a ver com ele.

Será que ele a mandou aqui?

Ou a boa Misca veio se despedir? É mais provável, o pai esteve com o Val, hoje.

 

Levanto-me e saio da carroça. Misca veio de charrete. Um xale cobre a sua cabeça, protegendo-a da chuva fina.

- Boa noite, Misca! Seja bem-vinda ao nosso acampamento.

Seus olhos estão angustiados.

- Ah! Senhorita, como fico feliz em vê-la. Não cabe em mim minha alegria. Deus ouviu minhas preces.

Ouço-a agradecer a todos os santos que estão no céu por eu ainda estar aqui e lhe pergunto claramente:

- O que houve, Misca?

- A senhorita tem que vir. Precisa ver como ele está. Por favor, senhorita. Ele tem a certeza que vocês já foram embora. Precisa vê-lo...

- Misca, por favor, pare!

Ela pára de falar; olha-me como se me visse pela primeira vez.

- Não pode fazer isso com ele. Será que me enganei tanto com a senhorita?

- Eu é que me enganei com o seu senhor.

Respiro fundo, devo essa explicação a Misca.

- Desça Misca, vamos conversar, então entenderá.

- Não, venha comigo. Já falei com sua anya; expliquei-lhe o que estava acontecendo. Ela concordou.

- Misca, não quero ser rude, mas não vou. Não quero encontrar-me com ele, está decidido. Não tenho mais nada o que dizer a ele. Não me force a ser indelicada com você.

- A senhorita não precisa vê-lo, posso lhe dar minha palavra.

Quero só mostrar-lhe uma coisa, uma única coisa, só isso. Será, assim, tão dura comigo?

- Por que não conversamos aqui, é bem mais simples. Tenho muito que fazer. Amanhã partiremos.

- Senhorita Natasha, eu lhe peço por tudo. Quero só mostrar-lhe algo.

Não tema, meu senhor pensa que vocês já partiram. Ele não vai descer. Está no quarto desde ontem e o médico disse para ele ficar de repouso. Mas é evidente o porquê que ele não desce. Não pelo repouso, porque é teimoso como uma mula; nunca respeitou o que o médico falou. Lembro-me quando...

 

- O que ele tem? Pergunto, sentindo um aperto no peito.

- Não soube?!!! Caiu do cavalo, Val o encontrou-o na estrada, desacordado. Ele ficou desacordado por muito tempo, chamamos o médico às pressas. Ele levou uma pancada na cabeça e um horrível corte no ombro, profundo, sangrou muito.

Meu coração aperta, estômago girou, minhas pernas tremem; não pensei que gavião... Meu Deus!

- Como ele está, agora?

- Não sei, ele não fala. Está no quarto, colocou uma cadeira na janela e fica lá olhando a chuva. Mas não é bem a chuva que ele olha.

Logo que ele voltou a si, gritou seu nome, levantou-se e correu até o estábulo. Ainda chegou a subir no cavalo. Corri atrás dele, pois Val tinha ido chamar o médico. Mas ele caiu. Fiquei com ele, sangrava muito. Estava desacordado. Quando chegaram Val e o médico, levaram-no para cima. O homem parecia um louco quando retornou a si, parecia delirar. Foi a custo que Val e Dr. Lajos deram-lhe um sedativo. Só assim o doutor cuidou de seu ombro. Quando acordou, gritando, Val disse-lhe que vocês tinham partido, para, assim, ele se aquietar. Foi aí que ele se calou, e até agora está emudecido. A senhorita pode vir tranqüila, ele não irá vê-la. Só quero mostrar-lhe algo, apenas isso.

 

Olho o céu. Igor, você é um pesadelo.

Sei que Misca não mentiria. O que fazer?

- Misca, eu não quero vê-lo.

- Não o verá, só se quiser.

- O que tem para me mostrar?

- Lá, a senhora verá.

- Está bem, espere um pouco.

Vou à carroça, o pai e anya conversam sobre Igor. Disse-lhes que iria com Misca e que não demoraria. O pai, muito serio, fala:

- Demore o que for preciso, esse homem fez muito por nós e por você. Só sairemos daqui quando soubermos que ele está bem. Se soubéssemos que ele estava assim, já teríamos ido lá. Pensávamos em ir lá amanhã, para nos despedirmos. Mas, agora, só partiremos quando ele estiver bem.

- Natasha, atenta o que o destino lhe mostra! - fala, anya.

Beijo meus pais, pego meu xale e saio.

Estremeço, não é de frio e sim em pensar que logo estarei na casa dele. Não quero vê-lo, mas rezo para ele não estar sofrendo.

- Estou pronta Misca.

 

Seguimos rumo à casa dele.

A chuva passará, vê-se a lua.

Lua cheia. Cheia também está minha cabeça de informações.

Não quero me envolver em nada, nada referente a ele.

Sinto a culpa do ferimento dele.

Não quero me envolver, eu não posso me envolver.

Como alguém nos faz sofrer - e continuamos a sentir.

Como alguém pode ser um perfeito mentiroso - e continuamos a sentir.

Como comandar ou dominar o que sinto?

Não quero sentir. Eu não quero sentir!

Ajuda-me, razão! Ajuda-me a dissipar essa magia que vem do mago.

Ouço Misca falar. Olho para ela como se estivesse acordando dos meus pensamentos. Ela pergunta-me o que houve na cidade, pois Val vira-me.

Olho a estrada. Por que não contar a ela? Assim, esse episódio acabava de uma vez.

Começo a relatar a Misca tudo que se passou, fui me soltando. Falo do que ouvi, falo do que senti, conto tudo. Misca ouve calada, pouco depois chegamos à casa.

Se ele estiver na janela, poderá ver. Relaxo, a estrada é lateral à casa e o estábulo fica nos fundos. Val abre a porteira e entramos. Falo com ele, Misca sai à frente e entramos pela porta da cozinha. Olho para trás, Val fica no estábulo.

Sinto-me tensa, sento-me no banco comprido, lateral à mesa e ela coloca chá numa xícara, sentando-se à minha frente.

O fogão esquenta o lugar, mas sinto frio.

- Aquela senhora é a mãe de Krisztina...

Sinto como uma dor no estômago, e falo:

- Não me interessa saber quem é, Misca. Você não me trouxe aqui para isso. Não quero mais falar nesse assunto. Por favor, vamos ao que me trouxe aqui.

- Escute-me. Tenho certeza de que ele iria contar-lhe, talvez não o conheça tão bem quanto eu. Eu o vi nascer, é como um filho, e não existe pessoa melhor!

- Misca! Não vim aqui para ouvir as qualidades do Sr. Conde. Sei que ele não é uma má pessoa. Só que estou ferida, ele me usou, e ele pode até se achar no direito... Mas eu não vou ficar aqui a ouvir falar o quanto ele é bom, ou seja, o lá o que for.

 

- Deus meu! Tão cabeça dura quanto ele. A senhorita vai me ouvir, vai me escutar nem que para isso chame Val e a amarre. Minha palavra é lei. Garanti que só o veria se quisesse, isso é com a senhorita. Vim lhe mostrar algo, e vou mostrar-lhe. Mas antes tenho que falar tudo que sei e sinto. Tudo que presenciei.

A senhorita tem razão em uma coisa: é ingênua, e não sabe do amor que esse homem tem por você é a maior coisa que já vi.

Ele tem um casamento marcado. Sabe desde quando?

Há quatro anos. E há três anos ele a conheceu; há três, ele só pensa em você.

Não era um casamento de amor, era de conveniência. Não pense que ele é de aceitar conveniência. Ouça a historia:

O pai de Krisztina é um nobre, um nobre falido, que perdeu tudo no jogo. A esperança da família é o casamento com o Conde, e desde jovem que se falava nesse casamento, e ele achava graça. A Condessa é uma das que mais quer esse casamento, pois se meu senhor não parece seu filho, a senhorita Krisztina lhe parece. Gente fingida, que só pensa em títulos, e ele nunca foi assim.

Moramos nesta casa há seis anos, pois ele não suporta essas pompas. E quatro anos atrás a Condessa e a família da moça acertaram o casamento. Ele nunca tinha amado e sentia muita compaixão das condições em que se encontrava a família de Krisztina, e numa noite foi pego de surpresa em meio à família toda. Ele não disse um sim; seguir a coisa ficou subentendida.

E talvez até acontecesse; ele moraria aqui e ela na cidade.

Santo, ele nunca foi, - continua Misca - farra, algumas vezes, e mulheres se apaixonaram por ele, mas nunca enganou a ninguém, todo mundo sabia, inclusive a suposta noiva.

Até o dia que a conheceu. Lembro-me bem: no inicio ele ficou intrigado, depois, ora zangado e azedo como um limão, ou pensativo. Era o sentimento que se alojava no seu coração.

Um dia fiz-lhe um prato de sopa, ele estava tomando calado, aí de repente empurrou o prato e falou alto: - “o que está acontecendo? Nem fome tenho”.

Pegou o cavalo e foi vê-la, e cada vez que chegava, parecia sereno e pensativo ou, às vezes, um furacão. Até o dia em que foram embora, Santo Deus, ele vasculhou tudo, mandou alguns homem procurá-los. Foi o que lhe contei naquele dia... E quando os homens voltaram dois dias depois dizendo que não tinham noticias da caravana, ele ficou pálido e disse-me nessa noite: - “Quando descubro que amo, eu a perco”.

Foram três longos anos de espera. Só saía de casa para resolver negócios. À cidade, só ia quando era necessário. Farra? Nunca mais. E sempre que falava: - “Tenho certeza que ela volta, Misca, tenho certeza”.

Há um ano e pouco apareceu aqui uma caravana, não me lembro quem veio falar-lhe. Ele sorriu como um menino. Pegou o cavalo e correu ao lugar, quando voltou, seus olhos eram de tanta tristeza que naquela noite eu rezei a Deus para ele se casar com Krisztina. E, vez por outra, tocava no assunto. Ele só tinha uma resposta: - Ela vai voltar.

Não houve quem o fizesse casar, não houve quem o fizesse mudar de idéia. Na minha cabeça eu pensava: fútil ou não, ela não é um fantasma como a senhorita, e ele apenas sorria tranqüilo e afirmava que você voltaria. A Condessa fez de tudo, pressão, chantagem, mas nada o fazia mudar de idéia. No começo, todos pensavam que era algo passageiro. Eu sabia que não. Conheço-o como minha própria mão; sabia que estava decidido diante do amor que tinha, que tem.

Um amor enorme, um amor que o fez esperar todo esse tempo, que o fez ficar sereno e certo do que queria. Sabe o que é esperar três anos por amor? Um amor tão grande que fez expressar seu sentimento.

Venha comigo até a sala, venha. Mandei Val descer, escondido dele.

 

Misca levanta-se. Estou paralisada, respiro profundamente. Acompanho Misca.

Minhas pernas tremem, minhas mãos estão suadas.

Sinto-me mal. Sinto em mim, a minha limitação.

Na sala, os candelabros chamuscam.

Não é possível! Não acredito!

Sou eu! É um quadro meu. Sou eu mesma!

- Ele passou semanas e mais semanas instruindo Mikail. Não sei como Mikail, teve paciência. Varias vezes, ouvia sua voz, dizendo a Mikail: - “Não, os lábios dela não são assim, ou os olhos são diferentes”. Tinha vezes que Mikail já chegava rindo a dizer: “– Vamos lá, veja se seu fantasma está, agora, parecendo real”. Mas, afinal conseguiram.

Vê como ele a ama, o que falo é verdade.

No dia em que vocês se reencontraram, nunca vi tamanha felicidade, ele entrou de manhã na cozinha como um raio luminoso, levantou-me no ar e falou: “– Não lhe falei, ela voltou, voltou!”.

Loucura? Não, ele sempre acreditou nisso, nesse amor sem limites.

As lágrimas que até então eu escondera, escorrem livres pelo meu rosto.

- Onde ele está?

- Lá em cima.

- Posso?

- Claro.

 

Ao subir as escadas, minhas pernas tremem.

Como pude ser tão tola... Tão estúpida. Como o feri.

Eu é que não o mereço.

Qual o quarto?

Deve ser este de porta fechada.

Não lhe dei nem tempo de falar. Ele tem todo o direito de nem querer me ouvir.

E o que tenho a lhe falar?

Que o amo, mas de uma maneira tão limitada.

Ajude-me, Deus.

Abro a porta, o meu coração está na boca.

Lá está ele, de costas para a porta, sentado, olhando a janela.

- Fecha a porta, Misca, não quero comer!

Não consigo me mover. O homem que amo a minha frente.

Não consigo falar. Só sinto o pulsar do meu coração...

- Você não me ouviu? Fecha essa maldita porta!

Quero chegar a ele, ele permanece na mesma posição.

Homem, o que te fiz? Te fiz sofrer.

- Está surda?! Fecha...

Ele se volta.

Seu olhar de surpresa.

Sinto as lágrimas correrem por meu rosto.

Como está abatido. O que fiz contigo? Está pálido em contraste com o negro dos cabelos.

- Você não viajou?

Respiro fundo, como tomando ar, necessito de ar, o ar sempre esteve em ti. Falo baixo:

- Como está se sentindo?

Ele abaixa a cabeça, e ao levantar os olhos, eles estão úmidos, seu olhar é frio, tão frio como sua voz.

- Como você acha?!

- Amo você.

Seu olhar é estranho.

- Amo você, Igor. Eu o amo - consigo respirar melhor, ao falar a verdade: - Eu amo.

Ele, sério; olhos nos olhos.

O brilho conhecido vem surgindo e chega a seu olhar. O brilho quente e intenso.

Seu rosto continua sério, porém o brilho vivo do seu olhar resplandece e chega em mim, fazendo nascer o calor.

- Repete.

Encaminho-me a ele.

Olhar penetrante que me chama, aquece-me.

- Amo você, Igor... Eu o amo. Você é tudo, você...

- Vem cá.

Chego a ele, à sua frente. Olheiras circundam o olhar mais belo do universo.

Olhos negros que me dão vida. Olhar que me envolve inteiramente.

Ele levanta-se, num gesto rápido, puxa-me, como se tivesse receio que eu fugisse.

- Não vou embora, a menos que você me mande. Amo você, Igor.

Segura meu rosto, olhos nos olhos.

- Perdoe-me, fui uma tola, eu não...

- Não fale. Abrace-me o mais que puder. Abrace-me com força, mais... Mais e mais...

 

Respiro num alívio e tomo consciência: Nos teus braços, estou em casa.

Ele coloca seu rosto nos meus cabelos e fala ao meu ouvido:

- É você não é? Abraça-me mais, mais.

O calor, o envolvimento.

Meus lábios roçam sua nuca, beijo, falando:

- Amo você. Em seus braços, estou em casa. Quero ficar com você o tempo que você quiser.

Sua voz grave e forte: - Sempre... Sempre.

Volto o rosto. Seus lábios vêm se chegando, entreabertos, tocam os meus.

Beijo suave e lento. O sentimento impera, o calor do homem que amo chega a meu ser.

Acaricio suas costas, sussurra ao meu ouvido: - Vida a amo...

Nosso beijo intenso: nossa respiração única. Afasto o rosto para falar: - Misca pode en...

Ele não me deixa falar, beija-me. Como eu o quero.

- Quero você, Igor.

Afasta-me, segurando meus quadris, olha-me.

Seu olhar intenso como chama que me chama.

- Tem certeza?

Aceno com a cabeça.

- Não, quero que pense, sei o que ouvi de você sobre um homem ter uma mulher, portanto, quero que pense.

Afasto-me dele com o corpo trêmulo.

- Não sou criança, sei o que quero, e ontem fui à cidade para lhe falar isso.

- Que você não é uma criança, eu tenho certeza. É impetuosa e, como tal, tivemos um contratempo.

- Como você é bonzinho. Causei uma briga, feri você. Cause-lhe um mal.

- Você, consciente, não me causa mal. Você agiu na inconsciência.

Deixe-me falar. Ontem, eu ia falar com você e, depois, com seu pai. Não fui ao acampamento pela manhã, pois tinha que tentar resolver nossa situação, fui falar com o padre, e se você aceitasse, casaríamos o quanto antes. Tudo, dependendo, apenas, de sua resposta. Não iria deixá-la partir, a menos que você quisesse, que não é o caso.

Sendo assim, aceita casar-se comigo?

- Sim.. amo você, Sr. Conde.

 

Envolvo suas costas, ele aperta os olhos, sente dor. Seu ombro! O afasto, e falo: - Quero ver seu ferimento.

Ele, com algum sacrifício, tira a camisa.

E como fica belo, a pele dourada.

Faço-o sentar-se para ver a ferida. Levanto o curativo. Meu Deus é grande, o formato da pata do cavalo, não tenho coragem de ver totalmente, coloco o curativo em cima.

Ele está segurando minha cintura e fala.

- Agora posso escutar seu coração.

- Sua ferida está doendo?

- Não. Como está tremendo, por que Natasha?

Ele morde seus próprios lábios.

- Sangrou muito?

- Não me lembro. Abraça-me, Natasha.

Beijo seus cabelos e acaricio sua nuca.

Ele levanta-se e nos abraçamos. Eleva-me, pois não sinto o chão. Sinto, apenas, que sou empurrada, devagar. Caímos juntos na cama, passo a mão por entre seus cabelos, ele beija-me, seu corpo faz pressão no meu, sua mão entra por minha blusa... um arrepio toma-me. Sinto-o acariciar-me. Sussurro a seu ouvido:

- Igor... O que é isso que estou sentindo?

Ele responde, rouco a meu ouvido:

- Desejo de amor.

Eleva o dorso e seus dedos trêmulos desabotoam minha blusa, seus quadris pressionam mais meu corpo...

- Sr. Conde.

 

A porta! Estão batendo na porta. É a voz da Misca!

Ele olha-me sereno, eu aflita, ele fala:

- O que é Misca?

A voz dela: - O médico está aqui.

- Não posso recebê-lo.

Afasto-o. Sento-me, tento pensar e digo a Misca:

- Só um momento.

E falo baixo para ele: - Você vai vê-lo, agora.

Levanto-me e abotôo a blusa com as mãos trêmulas.  Olho para ele, que permanece deitado na cama. Mas vou a ele e o faço levantar.

- Você tem noção do seu ferimento, portanto é necessário o médico vê-lo. Vou chamá-lo, lá embaixo.

- Ele sabe qual é o meu remédio. Misca, - grita ele - mande o doutor subir.

Não quero que me deixe só, nem para ir lá embaixo.

- Tolo, você, que pensa que iria fugir.

- Sei lá, por via das dúvidas. Sentiu a febre? - não o compreendo.

- Febre?

- Sim, a febre. - novamente, o sangue sobe-me ao rosto.

Ele dá uma sonora risada, que tenho certeza que toda redondeza ouviu.

- Quer parar, fique quieto. O que vão pensar!

- Que estamos nos amando.

Batem à porta, e abrem.

- Boa noite, Conde! Fico alegre ao vê-lo tão bem. Boa noite, Natasha. Impossível lembrar-se de mim, estava tão doente.

O médico tem um semblante simpático; agradeço-lhe pelo que ele fez por mim. Ele sorri e diz que devo agradecer a Deus e a Igor.

Indica a cadeira para Igor sentar. Pergunto quando Igor ficará curado, e se irá doer o curativo.

- Doer vai; curado, ele já está.

- Tenha a certeza - responde Igor olhando para mim.

Sento-me ao lado dele, que acaricia minha mão. Dr. Lajos tira o curativo. Santo Deus, só agora vejo toda a ferida. Sinto-me mal.

Igor observa-me e indaga: - O que foi?

- Minha culpa.

- O remédio é você cuidar de mim. - não me alivia.

- Conde, vai arder, prepare-se.

O médico derrama um pó branco em cima da ferida, Igor franze a testa, gotas de suor escorrem por suas têmporas.

- É tão tolo de dizer, mas, perdoe-me, queria voltar o tempo para não ver isso. Não lhe ter causado tudo isso.

Ele fala, também, baixo:

- Aconteceu e, portanto, vida, cuide de mim.

- Não me alivia.

- Então, assim que estiver curado derrubo você de um cavalo.

Sorrio, ele é imprevisível.

Olho a ferida coberta do pó; ainda há sangue, sinto-me mal e encosto a cabeça no ombro são de Igor.

- Natasha, você esta pálida.

Olho para Dr. Lajos. Igor, com a mão, levanta meu rosto.

- Não gosto de ver ferimento, passo mal.

Igor aperta minha mão, e fala:

- Quando posso casar, doutor Lajos?

O médico olha para ele, e responde achando graça: - Até amanhã se quiser.

- Esteja convidado, amanhã à noite. Acabou, doutor?

- Sim, preste atenção, Conde, nada de comer carne de porco, nem montar a cavalo por alguns dias. Tente descansar para a ferida cicatrizar, conheço-o como é teimoso. Volto amanhã para fazer-lhe outro curativo.

- Só se for cedo, não vou interromper minhas núpcias por causa de um curativo. Esteja convidado, juntamente com sua família.

Olho espantada para ele. Amanhã?

- Sério, Conde? – Indaga Dr. Lajos.

- Já lhe menti?

- Não, claro que não. Estarei aqui. Parabéns, permita-me dizer, Conde, fez uma linda escolha. Boa noite, parabéns.

Dr. Lajos sai, fico a olhar para Igor. Casar amanhã?

- Nosso primeiro convidado.

- Igor, amanhã?

- Pode ser hoje, teríamos que acordar o padre... Falo sério, Natasha: esta ferida não me mata. Porém, ficar sem você... Vamos ao acampamento falar com seus pais. Calma, iremos de charrete.

- Está louco, ouviu o que o médico disse!

- Montar a cavalo.

Corro à porta, desço as escadas correndo.

Encontro Dr. Lajos a se despedir de Misca e Val, explica-lhe o intuito de Igor, ele afirma que não tem problema desde que não seja Igor que guie a charrete, e que não adianta teimar com ele, pois é como um touro, forte como o mesmo e teimoso como tal. E que é só ter cuidado para ele não movimentar o ombro. Antes de sair, aperta-me a mão, parabenizando-me, novamente.

Misca olha-me intrigada. Quando o médico sai, abraço-a e lhe agradeço. Conto-lhe sobre o casamento, amanhã. Seu semblante é só alegria, e repete: - Eu sabia, eu sabia!

 

Ouvimos o grito de Igor a chamar-me. Antes de subir, pergunto a Misca se ele se alimentou. Ela diz que não e que tem uma sopa pronta. Peço para ela providenciar e levar ao quarto.

Subo as escadas rapidamente. Chego junto dele.

- Você está sentindo alguma coisa.

Puxa-me para junto de si. Toco seu rosto.

Falo-lhe de como me sinto... Casar amanha.

Temos muito a acertar, por que não trazer o pai e anya. Porém, ele quer ir ao acampamento.

Ouço Misca pigarreando na porta.

- O que agora você quer, Misca? – fala impaciente.

- Sopa. Sopa quentinha.

- Quem lhe disse que quero comer?

- Eu. Fui eu que pedi a Misca para trazer sopa, e você vai tomá-la. Misca, peça a Val para colocar a charrete lá fora e, por favor, prepare um chá com leite para Igor, que tomará, lá embaixo.

Misca, satisfeita, coloca a bandeja na mesinha de cabeceira, sai rindo e falando escada a baixo:

- Estou gostando de ver.

Faço Igor sentar-se e coloco o prato de sopa nas suas mãos.

Espero ele tomar a sopa, e desço com os pratos e o espero na cozinha enquanto ele se arruma. Argumento com ele, que poderia trazer o pai e anya aqui, mas nada o fez mudar de idéia.

Pergunto a Misca por que ele é tão teimoso e ela me fala que ele sempre foi assim, sendo o oposto de seu irmão, que é três anos mais novo que ele. Aurel é seu nome, tem vinte e nove anos, nasceu para viver na corte. Vive sob o que a Condessa acha certo ou errado.

Então, Igor tem trinta e dois anos.

- Misca, Val já aprontou a charrete?

Viro-me para a porta, lá está ele.

Seus olhos, um chamado. Levanto-me, vou até ele e faço-o sentar no banco.

Puxo a xícara de chá com leite, e fico nas suas costas acariciando seus cabelos, úmidos do banho. Vejo Misca olhar para nós com ternura imensa. Está emocionada, Igor olha para ela.

- Pelo amor de Deus, Misca, não chore. Se ela chorar é capaz de acordar Deus e todos os anjos.

Você ainda não me deu um abraço de parabéns, por nosso casamento.

Val entra na cozinha avisando que a charrete está pronta e, se necessário, ele irá guiando.

Igor diz que não, olha para mim e balanço a cabeça, ele pede a Misca uma pele, pois pode estar frio. Misca e Val nos acompanham até a charrete, abraço Misca e subo na charrete, ele pede a Val para amanhã cedo ir à cidade chamar o padre.

 

O céu está limpo, a lua reina sozinha.

Sente-se o cheiro de terra molhada.

Seguimos pela estrada, descendo rumo ao lago, rumo ao bosque.

Ele levanta o rosto, olha o céu.

- Veja o céu. Há quem diga que choveu tanto?

- Tudo é tão mutante, às vezes penso; hoje, o dia inteiro choveu, não existia a luz do sol. E agora a lua está linda, o céu estrelado. Algumas coisas passam, pequenas coisas ficam. Só o tempo é permanente... Só ele é permanente, Igor?

Estamos no bosque, ele segura as rédeas, fazendo a charrete parar. Está recostado no banco e fala:

- O amor é permanente, Natasha.

- Amo você, mas não o entendo. O amor é tão permanente quanto o tempo?

Ele que olhava o céu, olha para mim. A luz da lua sobre nós.

- A permanência do amor é um estado de receptividade de nossa alma, nosso ser interior. Se nossa alma é eterna, e a meu crer é, assim sendo, o amor também o é.

Veja o lago e o reflexo da lua em suas águas. O que me diz?

- É lua cheia. Sua luz brilha no lago que, passivo e enternecido, reflete sua luz... as águas, mexem comigo. A natureza fala por si, ela entra em nossos corações.

Ele sorri sereno e diz:

- A lua é a mesma, o lago, o quadro é que nunca é o mesmo. Na lua cheia do mês passado, aquela arvore ali não estava florida, o lago não estava sereno como agora, e eu não estava completo, pleno.

- Igor, fale-me como você se sente.

- Por mais estranho que possa parecer, eu tinha a certeza de que você viria, que voltaria. Desfrutar não é uma questão de vitória. A emoção exala por minha pele, o sentimento toma conta de mim. Essa é minha força maior, vida.

- Você me ensina a tê-la, também?

Ele dá um sorriso sereno e bonito: seu olhar é terno e quente.

- Você a tem, amada, talvez tenha só que aprender como usá-la. Mas você a tem, você foi receptiva a meu chamado. Você ouviu meu chamado.

- Amanhã, estaremos selando nosso sentimento, isto é, assumindo algo que nós próprios já tínhamos estabelecido. É a força. Agora vejo que é. Porém, ensine-me a usá-la corretamente e devidamente. Ontem, quando briguei com você, fiquei fora de mim, do que sou. Porque sou serena, sempre procuro compreender situações, mas ali, no que ouvi e senti: A minha vida perdeu a cor, ficando sem luz, porque estar sem você seria perder o sentido da vida. E eu tenho sede de vida.

- Você nunca irá me perder, pois você é tudo que quero e que amo. E como eu a amo! Um amor sem limite, que irá durar para sempre, pois existe o permanente. E na minha vontade que gera a força, está: eu a amo, eu a quero, sempre.

Desço a charrete e olho à lua.

- Para você não existe a vitória, para mim existe a descoberta. Posso tocar o céu, o sol... Ontem eu afirmava ser você o sol da minha vida, sol e lua, lua e sol. Mundo, escuta-me: encontrei um homem encantado; um mago, que é o sol da minha vida, que me deixa tonta de felicidade. O homem que amo. Esse homem puxa-me em sonhos até aqui. E aqui estou ao lado de meu amado. Isso é tudo, pois ele é tudo. É o Sol da minha vida.

Ouço-o atrás de mim.

- Senhora Lua, tão antiga e jovem, eternamente jovem, símbolo da minha amada. Em tantas noites, que nem posso contar, meu coração pedia, meu corpo ardia, o sentimento se alastrava, me tomava, ficava deitado na relva a olhá-la e falava: leve à amada o meu sentimento, e faça-a sonhar em estar aqui comigo. E quando o sol nascer, possa ela manter viva a força em estar comigo.

E hoje, agora, estamos aqui juntos, em plena lua cheia, sendo a lua feminina e a noite escura. Quem reina na noite é a lua, a amada. Sem lua, a noite nada mais é que pura escuridão.

Viro-me para ele. Toco seu rosto e falo.

- Você, que emerge dos meus sonhos como um sol brilhante repleto de força e energia, com tanto ardor que queima minha pele, desperta coisas em mim até então nunca sentidas. Faz-me suspirar e amar. Que o sol entre na minha vida, dando-me vida.

Seus olhos negros cintilam úmidos. Sua voz quente.

- Que a lua, amada, envolva-me em sua feminilidade tornando-me um ser pleno.

Reina a lua, reina a amada... Eu rendo-me a tua luz.

Ele me envolve em seus braços e meus braços o enlaçam, apertando-o. Suspiro; um sussurro: Amo você.

Olha para mim e murmura:

- Natasha, permita-me...

- Sinta-me: quero amá-lo, também.

Ele franze as sobrancelhas... E seus olhos. Ah! Seus olhos falam tudo...

- Fique aí.

Ao não sentir seu corpo, parece que vou cair. Necessito dele.

Olho a lua, suspiro, ela clareia o bosque.

- Amada, vem cá.

Sua voz, um convite. Dou alguns passos até ele. Puxa-me e beija-me. Sentamos na coberta de pele, nossos corpos estão mais quentes que ela. Deito-me, ele tira sua camisa. Puxo-o pela nuca, e o beijo. Ele se levanta, ficado de joelhos e eu entre eles, desabotoa minha  blusa e fica a me olhar, sua respiração é acelerada. Ergue a mão, toca meu colo. Toques leves, quentes.

Contorno seu rosto, meus dedos tremem. Contorno seus lábios. Levanta-se, tira minhas sandálias, minhas roupas. Olha-me, passa a mão, nervoso, em seus próprios cabelos. Tira suas botas, sua calça. Como é belo. Seus olhos brilham:

- Você é linda. Amar você...

- Ama-me.

Debruça-se em mim.

Sinto seu corpo sobre o meu.

Seu rosto vem se chegando. Seus lábios, entreabertos, tocam os meus.

O calor é mais que uma sensação: é ser calor.

Os sentidos, um sentido.

- Igor... O que estou sentindo?

Levanta o rosto para olhar-me e fala:

- Sente a nossa vontade, desejo, de amor.

Nossos corpos estão febris, a vontade, que se torna pleno desejo, de unirem-se, de ficarem mais e mais juntos, de se pertencerem, de estarem. Como uma busca, numa busca.

A busca em estar mais e mais no outro.

Sussurra, a meu ouvido:

- Não tenha receio.

- Não tenho...

- Estamos entrado num mundo que foge aos sentidos. Solte-se ao: eu amo você. Sinta: eu amo você... Amo você.

Sinto uma explosão no meu corpo, no meu ser.

Sinto que nada mais existe, além de um só corpo.

 

E o tempo... Quanto tempo?

Sorrio e o abraço, e escuto sua voz:

- Como está se sentindo?

Passo a mão por entre seus cabelos, estão suados.

- Posso tocar o céu... Eu o toquei ao estar em ti. Agora, estou aterrissando. É sempre assim?

Ele dá uma risada que enche a noite.

Sento-me, ele me abraça sorrindo.

Ele senta-se, alisa meus longos cabelos. Segura minha mão a coloca no seu peito - sinto o pulsar do seu coração. Coloca a sua mão no meu - sente o pulsar do meu coração. Pega minha outra mão e a coloca contra a sua, entrelaçando seus dedos nos meus.

Olha o céu, ergo também o olhar para cima; as estrelas brilham... Orion brilha mais. Fala calmamente:

- Nossos corpos se uniram, realizamos nosso desejo, sentimos no físico a intensidade do nosso amor. Abrimos o caminho.

Ele desce o olhar e sorrir.

- Não o compreendo, abrimos que caminho? O nosso?

- Tenha calma, com o tempo você entenderá.

- Fale-me agora, abrimos que caminho?

Ele desvia o olhar do meu. Olha o céu por uns instantes e volta a olhar-me.

- O nosso caminho: passado, presente e futuro. Abrimos nosso caminho, em terra, ao estado de amor permanente. Se assim for nossa vontade, se assim o quisermos.

O amor é a maior força do universo. Para ele não existe o impossível - nem o tempo, nem a distancia, nem a morte. Ele exige sempre a união. Tem em si a energia para o que bem entender. Ele é nosso elo. É nele, com ele e por meio dele que atravessaremos tudo, até onde existe o impossível. Amo você amada, hoje e sempre.

Olho-o, suas palavras ecoam em mim, seu real significado não está diluído.

- Atravessaremos o que, Igor?

- Tudo que quisermos.

Puxa-me pelos cabelos, beija os meus lábios, e fala: O elo...

Oh! Não. Seu ombro está sangrando... Veja!

- Só um pouco. – ele tenta olhar o ombro e dar de ombros, falando que não é nada.

- Não é pouco, Igor!

Pego minhas roupas, e começo a vestir-me.

- Não, agora...

Sorrio com ele, pego suas roupas e lhas dou. Fico a vestir-me rapidamente, ele só a me olhar. Ajudo-o a vestir a camisa, meu coração está apertado, a ferida sangra.

De mãos dadas vamos até a charrete. Ele sobe e olho o lugar que nos amamos. O lago, a lua, o bosque... Hungria, minha terra.

Subo na charrete, Igor pergunta sobre o que penso.

- Que vou morar aqui, será esta a minha terra. Fico feliz que seja aqui.

- Amo meu país, Natasha. Meus pais são austríacos, mas nasci aqui. Sou daqui. Gosto da gente e dos costumes da minha terra. Não aceito a interferência austríaca, não é necessária e nunca será! O húngaro é um povo diferente do austríaco: esta união não nos leva a nada, a não ser às vantagens para a Áustria. Existe um movimento separatista, um movimento clandestino, é claro, que tudo faz pela conscientização da nacionalidade de nosso povo.

Não tinha necessidade de perguntar o obvio, mas o fiz:

- Você faz parte desse movimento?

- Sim.

- Sua família aprova?

- Eles não têm o que aprovar ou não. São meus conceitos, meus valores. Na orla do Balaton moram alguns aristocratas austríacos, usufruindo dos tributos que não são seus.

Olho-o incerta.

- Como é sua família, Igor?

Ele demora uns segundos para responder.

- Tenho mãe, um irmão e uma irmã.

- E como eles são? Como é seu relacionamento com eles?

- Tenho um ponto de vista diferente deles. Meu pai morreu há seis anos. Dávamo-nos muito bem, tínhamos um temperamento comum. Ele veio para cá a mando do Imperador, como dizia, para disciplinar os ímpetos húngaros. E o que aconteceu é que meu pai começou a amar tudo isso aqui: esta terra, essa gente orgulhosa, mas com um coração de ouro. O tempo foi passando e ele ficando. Depois, assumiu seus sentimentos. Isso foi terrível para minha mãe, que adora a corte. O que ela fez? Trouxe um pouco para Badacsony. Fez minha irmã casar-se com um velho barão austríaco, só assim ela teria pretexto para ir à Áustria.

- E sua irmã, quis esse casamento?

- Sim. Relutei muito, falei com ela, mas não adiantou. Ela era encantada com tudo o que minha mãe falava, e quis casar-se. Não fui à cerimônia. O noivo era um homem que vivia bêbado as vinte quatro horas do dia. Mas ela estava entusiasmada com as expectativas da vida na corte. Isso foi há alguns anos. Hoje, não a vejo tão feliz, não tem filhos, sente-se frustrada. Meu irmão é totalmente influenciado por minha mãe.

- Qual o nome deles?

- Aurel e Margit. Ele tem vinte e nove anos e Margit vinte e seis e eu trinta e dois.

- Como é sua anya?

- O titulo é tudo para ela. Não digo que seja má pessoa, só que não nos damos bem. Por isso, preferi viver aqui, gosto da simplicidade, do sentido de liberdade, das reações sinceras. Se fosse obrigado a viver em uma corte, morreria.

- Você nunca seria obrigado a nada. Não você.

Ele sorri e continua.

- Meus conceitos diferem daqueles que delineiam os costumes e modos de vida dos aristocratas. Eles me acham excêntrico por causa disso. Mas, vivo de acordo com o que acredito.

Penso um pouco antes de falar.

- Como sua anya verá nosso casamento? Tenho a certeza de que ela não aprovara.

- O problema é dela, não meu. Tenho respeito a ela e pela sua opção de vida. Exijo, apenas, que respeite o meu jeito de ser, o meu modo de vida. Quanto a ela aceitar ou não, isso não me preocupa. Não vivemos em uma corte onde os relacionamentos são forjados, onde os costumes fomentam uma falsa educação, pela qual os reais preceitos de vida são postos de lado. Nossa vida, amada, será aqui, nas vinhas, no bosque, no lago.

- Posso ser sincera com você? Tenho receio de sua anya.

- Por quê?

- Não sei lhe falar, ainda. Mas, também, posso lhe afirmar que nada e ninguém irá afastar-me de você. Acho que ela representa o desconhecido, simboliza o seu titulo, o seu ascendente. Mas o que importa é estar com você e na sua vida.

Seus olhos brilham, um leve sorriso vem aos lábios.

- Isso é tudo que preciso ouvir. Amo você, vida.

 

Chegamos ao acampamento.

Há algumas horas, tudo para mim estava diferente, existia uma dor profunda e nada mais tinha sentido.

Agora, porém, sinto-me a pessoa mais feliz do mundo. A razão, na verdade: a causa, aqui a meu lado!

Paro a charrete, anya e o pai saem da carroça. Andrei se aproxima, todos falam ao mesmo tempo. O sangue já manchara bastante sua camisa, anya leva-o para a carroça. Lá dentro, ele fica com o pai e Andrei. Fomos anya e eu bater as ervas para o curativo. Sabia que Igor iria falar com o pai. Pegamos as ervas, anya machucando-as no pilão, observa-me com um sorriso.

- Você é toda felicidade, filha.

Relato a ela a conversa com Misca e a reconciliação com Igor e, por fim, falo do casamento.

Ela me envolve num abraço demorado, fica espantada ao saber que o casamento será amanhã e torna a me abraçar.

Voltamos para carroça. O pai, Andrei e Igor tomam vinho.

Ao ver-me, o pai levantou-se e abraçou-me, beijando minha testa, olhei para Andrei, seus olhos falavam tudo, corri a seus braços, e perguntou-me baixinho:

- Está feliz, Madar?

Afirmo com a cabeça, e ele completa: - Isso é tudo que me importa.

Olho para Igor, sentado, sério e sereno.

O pai fala-me que primeiro teremos a cerimônia cigana, depôs o casamento católico.

Anya faz Igor sentar-se, e ajuda a tirar a camisa, tira em seguida o curativo e surpresa indaga:

- Como conseguiu isso?

- Caí do cavalo. – ele responde.

- Não anya, foi gavião, ele o pisoteou-o.

O pai olha-me sério e pergunta-me: quando foi.

- Ontem, à tarde.

Igor intervém na conversa.

- Istvan, temos muito o que acertar, isso foi um acidente. E agora, Lorna, o que vai fazer comigo?

- Vai doer, Conde.

- Chame-me de Igor.

Anya mexe as ervas e, em seguida, as coloca na ferida. Agacho-me ao lado dele, que franze as sobrancelhas.

- Queima, como queima! Vou sobreviver, Lorna? Amanhã tenho um compromisso inadiável.

- Amanhã estará seco, ainda queimará um pouco.

Andrei fala que, quando era criança, não sabia o que era pior, o ferimento ou ter que tratá-lo.

Fica acertado que o casamento cigano será ao ar livre, ao lado da casa de Igor, e o católico dentro de casa. Anya está entusiasmada por ser primavera e o local ficará belo com vários arranjos. Misca, pela manhã, virá pegar anya para, assim, verem o que será necessário da comida à decoração.

O pai fica apreensivo, pois já não tínhamos mais tantos mantimentos, mas anya fala a verdade, o pai tenta protestar, e Igor fala:

- Temos tudo que é necessário na casa. Se faltar alguma coisa, alguém irá à cidade. Istvan, nunca fui formal com você; sei que não será comigo. É nosso casamento! Lorna, amanhã ao raiar do dia, Misca virá buscá-la para verem o necessário.

Combinaram-se mais alguns detalhes, e num dado momento nossos olhos se cruzam, meu coração bate acelerado, tenho vontade de tocá-lo e, em pensamento, envio: amo te.

Ele entende, bate os olhos lentamente... respondendo, confirmando.

Ato contínuo, levanta-se e fala:

- Bem, já é bastante tarde. Sei que vocês têm muito o que conversar. Vou embora.

- Você não irá guiar a charrete.

- Natasha, o trajeto é curto.

- Não, eu o levo.

Diz Andrei levantando-se e completa dizendo que amarrará um cavalo à charrete. Igor ainda teima, mas a maioria o convence. Despede-se do pai e anya, e eu saio a acompanhá-lo.

- Quer que eu vá, também?

- Só se for para ficar comigo. Seus pais, ou melhor, Lorna, deve querer conversar com você. Não seria justo tirá-la daqui. Espero amanhã. Admiro a união de vocês.

- Vou precisar muito de você, minha família sempre foi tudo para mim.

- Eu compreendo. O que podemos fazer para eles ficarem aqui?

- Grata Igor, mas creio ser meio difícil.

- Posso tentar.

- Sim.

Sinto suas mãos nas minhas costas vou a ele, toco seus lábios com os meus.

- Cuide-se, não faça esforço para essa ferida não abrir.

- Vou vê-la, pela manha?

- Não! Não pode, é nosso costume.

- Só vou vê-la à noite! Se soubesse disso, teria ficado mais tempo. Como está se sentindo?

- Ansiosa, agora. Quero que o dia, amanhã, corra rápido, e que chegue a noite para estar, o quanto antes, com você.

Chego-me a ele, sinto seu calor, seu cheiro. Passo os dedos por entre seus cabelos. Ele me abraça e beija -me, o calor nos envolve.

Ouvimos o barulho da charrete, Igor se volta e fala:

- Bela hora, cunhado!

Andrei dá um riso e pede desculpas.

- Boa noite, amada. Espero-a amanhã, por favor, não me deixe esperando muito tempo.

Beija-me e sobe na charrete.

- Vou raptá-lo para uma boa despedida de solteiro. – diz Andrei.

- Andrei, pare de brincadeira... Ei! Esperem.

Só ouço a risada de ambos ecoar na noite.

 

Volto para carroça.

Anya faz um chá, o pai tinha saído.

- Qual vestido você usara amanhã?

- Não sei, anya... Não pensei nisso. Aliás, não pensei em tantas coisas.

Ela vai a um dos baús, fica a remexer. Fico a observá-la curiosa, ela vira-se.

- Veja! O que acha?

- Anya! É lindo! Lindo.

Corro a ela, toco o vestido.

- Vista para vermos se é necessário algum ajuste.

Enquanto dispo-me pergunto de quem é, pois nunca o vira. Ela diz que fez para mim, para uma ocasião especial. Visto-me, anya dá um passo para trás.

- Belíssima! Você está perfeita!

Olho, maravilhada, o vestido. É branco, duas saias rodadas de renda francesa, uma renda delicada. Da cintura para cima é justo e de seda, todo bordado com delicados ramos de flores douradas. Mangas compridas, da mesma renda das saias, e nos punhos, detalhes dourados. O vestido é belíssimo. Rodopio, encantada.

Olho para anya, que ri, abraço-a.

Enquanto tiro o vestido, conto a anya sobre a família de Igor e fico a admirar meu vestido.

Anya me faz sentar a sua frente e fala:

- Quero que preste atenção no que vou lhe dizer: Ouça-me atentamente.

O amor que o Conde traz por você é bem maior que o seu. Amor não se equipara, mais eu não tenho outras palavras senão estas, para você me entender.

Espere, ouça-me. Sei que você o ama, mas ele a ama mais, o que ele traz consigo vem da alma. Ele tem total consciência do seu sentimento. É como um lago limpo, de águas claras. O que ele tem em si é a plenitude do sentimento. Portanto, aprenda com ele, não o faça sofrer, e sim se esforce para entendê-lo. Dilua suas palavras, seus atos, pois ele é movido por esta plenitude. Sou uma velha cigana, observo tudo. - continua anya - O que ele traz é essência do sentir; já são plantadas.

Você é inteligente. Use sua inteligência a cada dia para obter este estado. Regue sua semente, veja bem: ele é um Conde, um nobre rico. É, no entanto, um homem simples, vivendo de maneira simples, amando uma moça simples. Agora, eu o entendo, ele mora sozinho naquela casa porque sua visão do mundo é diferente da família e de muitos.

Ele não está preocupado com a reação da família, pois ele tem total certeza de seus sentimentos; tem valores enraizados. O que ele quer é viver esse sentimento, e esse sentimento é você. Não deixe que coisas externas venham confundir você.

- E por que a senhora tem medo que eu possa feri-lo?

- Você já o fez, ou estou errada?

Contei a anya tudo que aconteceu em Badacsony, e o mal-estar que isso me causou e causa, ainda.

- Está é sua primeira lição, filha. Seus julgamentos sempre foram justos, mas, agora, você tem um sentimento novo que se aloja no seu ser. Seja íntegra para com o sentimento. Trabalhe bem isso dentro de você, para assim atingi-lo integralmente.

- Sei da força do sentimento de Igor. Ele fala de coisas que não compreendo, totalmente. Fala sobre o tempo e nosso caminho, fala que me chamou no tempo, e sinto isso.

Anya sorri e fala:

- Natasha, não se perca e sim siga; aí, então, terei plena certeza de que você será muito feliz. Vá dormir. Amanhã, você será a noiva mais bonita que essa redondeza já viu!