Taças

Final de Agosto

 

 

Ivy está linda! Tem os olhos vivos e os cabelos do pai, a cor da pele é a minha.

Embora Ivy tenha a expressão do olhar de Igor, o formato amendoado é meu.

Tenho-a nos meus braços. Igor, deitado na relva, brinca com ela. Fico a rir dos dois.

Ela faz barulho com a boquinha, babando a ele e meus braços.

- Natasha, venha cá, vocês têm visita!

Olho para Igor a indagar; ele encolhe os ombros. Só ouvimos o grito de Misca, Igor levanta-se, pega Ivy e ajuda-me a levantar. O dia está quente, subimos o morro para casa.

À frete de nossa casa, a carruagem da Condessa, meu sangue gela.

- Olhe para mim, Natasha. Quando você irá parar de temê-la? O que faz ela lhe parecer tão forte? Amada, que mal ela poderia fazer?

Igor, como eu gostaria de lhe contar a chantagem que ela armou sobre nós. Algo que não se pode esquecer. Não há como esquecer.

- Estamos juntos, e nada, ninguém nos afasta. Confie em você mesma. Confie em mim, somos uma unidade; uma forte unidade, e o que nos une é a maior força que existe.

- Amo você Igor, esta é minha verdade.

Chegamos em casa, Igor me entrega nossa filha como para dar-me segurança, passa a mão nos meus ombros e abre a porta. E sou eu que falo aos gritos:

- Eu não acredito no que vejo!

Há poucos passos está Margit conversando com Misca, vira-se rapidamente.

Nosso abraço é demorado. Ela pega Ivy nos braços

- Meu Deus! Como é linda! Você é linda minha princesa.

Não sei a que horas paramos de falar. Falávamos ela e eu ao mesmo tempo, depois rimos. Ela, disse, então:

- Vocês terão que agüentar-me aqui por um novo período.

A noite chega um pouco quente, e estamos no terraço a conversar. Escutamos Margit dizer que sua posição no casamento mudou. Ela pergunta sobre a escola e Igor explica-lhe que a escola está se autofinanciando, já é uma realidade. Que é necessário ampliá-la, pois os trabalhos feitos à tarde são grandes e o espaço é pequeno.

- E Mikail?

Olho para Margit, ela continua com o brilho nos olhos quando fala nele.

- Mikail continua o mesmo, como você o deixou.

O dia amanhece nublado.

Subimos para casa, vindo da escola, Margit e eu.

- Gosto daqui, Nat, e, no fundo, vim comprovar isso. São quase duas semanas que estou aqui e sinto-me relaxada e em paz.

Sentamo-nos embaixo de uma árvore. Margit fala-me:

- Quando lhe falei que mudei em relação ao casamento é um fato. Hoje, ele me respeita, mas não consigo mais viver na corte e todos os meus pensamentos estavam aqui, onde quero viver. Vim comprovar isso a mim mesma.

Aperto sua mão.

- Fico feliz com isso, Margit, não é necessário dizer o bem que queremos a você.

- Eu sei, e você não imagina o bem que me faz essa amizade, pois ela é verdadeira e viva. Nos meus planos quero estar definitivamente aqui em dezembro, e isso já está decidido. Nada, ninguém mudará esta minha idéia. Porém, só comunicarei ao barão perto de vir para cá, pois não quero que nada interfira.

Sei a quem ela se refere, baixo a cabeça. Até na vida da filha a Condessa é uma ameaça.

- Você sabe de quem estou falando. Claro, que sabe. Os dias que ela passou comigo foram torturantes, comecei ver minha mãe por outro ângulo. E saber que ela, minha mãe, é uma pessoa egoísta, isso dói. Seu egoísmo já é uma doença. Tivemos inúmeras discussões. Tenho até vergonha de lhe dizer os argumentos usados por ela para eu continuar esse casamento, que já começou falido. Depois, simplesmente, parei de discutir com ela, é inútil. E, numa das vezes que falei com ela, fiz a bobagem de lhe dizer a vontade que tenho de vir morar aqui no campo. Meu Deus, você não imagina o que ouvi.

Toco seus cabelos e falo: - Imagino, pode ter certeza - Margit, continua.

- Sou sua filha, Nat, mas a ela isso não importa. Minha felicidade não importa. O que tem importância é ter uma filha que mora na corte. Isso machuca. E, mais do que nunca, entendo a posição de Igor e o admiro mais. Vi ódio sair dela, ouvi ameaças.

Ela pára e olha-me, pergunto:

- Essas ameaças assustaram você?

Margit responde:

- Não, fizeram-me entender que tipo de mãe eu tenho. Agora, quero que você se abra comigo. Que tipo de ameaça ela lhe fez?

Olho assustada para Margit.

- Por que você me faz essa pergunta?

- No dia que lhe falei que ela tinha incutido aquele casamento na minha cabeça, e que não agüentava mais morar na corte, numa vida conjugal sem sentido, e que, de fato, foi aqui onde me senti feliz, realizada, produtiva, ela não gritava, falava com os dentes cerrados. Tinha ódio. Falou de Igor, falou de você, que deveria ser coisa combinada para ela perder a posição que ostentava. Ela não me ouvia, ela só falava e nisso soltou uma frase: “Aquela cigana me paga, ninguém brinca comigo, eu a tenho nas minhas mãos...”. Depois disso não toquei mais no assunto, e até a fiz entender que continuaria com o casamento e, conseqüentemente, na corte... E, agora, fale-me.

Meus olhos se desprenderam de Margit. Olho o céu, lembro-me da noite da festa, e conto tudo a ela, tudo que a Condessa me falara. Quando acabo o relato, vejo-a de boca aberta. Ela baixa os olhos e se cala por algum tempo.

- Deus. Não pensei que ela chegasse a tanto! Estou chocada, não tenho palavras.

Início de Outubro.

Amanhece! O sol reina sozinho.

Não consegui dormir bem. Igor notou e aleguei ser a comida da noite.

Será que o plano de Margit dará certo?

Igor já saiu para as vinhas, ando de um lado para o outro. Ivy, no berço, me acompanha com o olhar. Falo a ela: - Ivy, minha bela estrela, mamãe está só um pouco agitada. Mas, fique serena que logo, logo isso passa. Vou coloca-la no chão, assim você, minha amada estrelinha, ensaia seus passinhos, vem!

Será que ela está a executar o combinado? E se essa carta não existir? Melhor para todos nós. As horas parecem se arrastar.

Se Margit for surpreendida a mexer nos documentos da Condessa?

Mas Margit é inteligente. Porém, a Condessa também o é. E nós duas envolvemos Elizabeth, logo ela, que é tão sensível!

Imagino a cena, Elizabeth conversando com a Condessa, tomando-lhe o tempo, até Margit remexer tudo e encontrar a carta.

Bate o amor pelas duas. De Margit existe o vínculo, é a irmã que nos ama. E, Elizabeth, uma amiga sem par. Não pensei que ela aceitaria, quando Margit lhe contou, ela se expressou com uma frase que está no meu coração: “Não é para sua felicidade? Eu faço tudo, tudo que estiver no meu alcance”.

Olho para Ivy, já a amamentei. Ela , agora, adormeceu.

Meu Deus! A pior coisa é a espera.

Lembro-me de anya: - Filha, você terá que aprender a ter paciência!

Impossível anya; nesse momento é totalmente impossível.

Deus! Ajude a Margit e Elizabeth.

Vou à janela, nem sinal. Que diferença da minha pessoa, o lago está sereno.

Um cavalo! É Mikail.

Abro a janela e balanço a cabeça.

- Quer que vá até lá?

- Não Mikail, prefiro que fique com Igor. Entretenha-o, ele está nas vinhas, leve-o à escola.

Meu nervosismo é por demais evidente, não quero que Igor chegue antes de Margit.

Mikail responde que irá até as vinhas, encontrar Igor.

Outro grande amigo, sei que ele também está tenso.

Misca chega no quarto perguntando com quem eu falava. Digo-lhe: é com Mikail.

- Vamos princesa, sua Misca já lhe preparou uma sopinha. Você está bem, Natasha?

- Estou só um pouco indisposta, logo estarei bem.

Ela me olha, pega Ivy e sai do quarto.

Por que tanta demora?

Com a carta na mão estaremos livres da Condessa, livres!

Um barulho lá fora. Corro à janela.

É ela, é Margit.

Não desço as escadas, eu as pulo.

- Natasha! É você?

- Sim, Misca, vou receber Margit, que acaba de chegar.

Margit está descendo da carruagem e se despede do cocheiro. Seguro a respiração, que é ofegante. Dirijo-me a ela, que sorri cordialmente para o cocheiro, tento um sorriso ridículo e aceno para ele que faz a manobra para ir embora. Olho para ela, a carruagem parte, ela se volta sério e abre um sorriso: - Nós conseguimos!

Subimos para a biblioteca.

Minhas mãos tremem ao abrir a carta. Ela conta como foi. Ontem ela descobriu onde a Condessa guardava seus documentos, mas não mexera em nada. Teve vontade de fazê-lo quando todos foram dormir. Mas pensou bem: a Condessa ou algum criado poderia acordar e pegá-la. Durante a noite, qual a motivo ou desculpa que ela daria. Pela manhã, logo cedo chegara Elizabeth que ficou a entreter a Condessa numa conversa, o que deu tempo a Margit. Ela continua, então:

- Pensei que esta carta não existia, e juro que rezei por isso, que fosse um blefe da minha mãe. E quando encontrei a carta, vi do que ela é capaz. Guardar a carta do seu filho, como um documento contra ele próprio. Natasha, essa carta é de dois anos atrás. Se ela fosse uma pessoa que estivesse preocupada com Igor, teria falado com ele, mas, não, guardou-a com que intuito? É terrível, monstruoso...

Leio a carta, é um registro, um documento de todas as idéias de Igor, toda sua visão ideológica, todo seu intuito de lutar e ver a separação da Hungria.

- Estamos esquecendo de uma coisa, Margit. Como a Condessa conseguiu esta carta? Como ela foi parar em suas mãos? A carta está endereçada a esse tal senhor, e é uma resposta, veja ela estava lacrada... Existe alguém que traiu Igor.

Margit arregala os olhos.

- Não tinha pensado nisso. Você tem razão! Eu só pensava na minha mãe, em sua loucura. Mas é claro, alguém traiu Igor. Conheci esse senhor, ele morava aqui perto, era um grande proprietário de terras, ele morreu, não sei quando ao certo. Mas ele está morto e se não me engano foi coração. Quem teria traído Igor? Esse homem, o portador da carta, um dos homens do movimento de separação. Quem? Natasha, isso é serio! Existe um traidor, e essa pessoa está aliada à Condessa.

- O que vamos fazer Margit? Será que devemos contar tudo a Igor? O que vamos fazer?

Ela balança a cabeça.

- Não sei, Nat. Contar a Igor? Nós o conhecemos! Ele ira querer colocar tudo isso em pratos limpo. Ele vai querer a verdade. E, se existe essa pessoa, poderia haver outros documentos! Vamos pensar, o que vamos fazer. O certo é que ao menos a carta da Condessa já está conosco. Vamos pensar.

No almoço, Igor me olha intrigado. Sei que nem eu nem Margit estamos à vontade.

Assim que acabamos o almoço, ele puxa-me para darmos um passeio.

Descemos para o lago, o sol está quente. Sentamo-nos à sombra da velha árvore.

- O que está acontecendo, vida?

Olho para ele, que deita a cabeça no meu colo.

- Você confia em mim, não é?

- Preciso lhe responder?!

Seus olhos negros brilham mais que o sol, embora sejam tão negros como a noite, posso a mão por entre seus cabelos.

- Então aguarde mais, um pouco mais; Margit e eu estamos a resolver um problema. Não posso lhe falar nada, por enquanto. Peço que tenha um pouco de paciência.

Ele me olha bem nos olhos, continuo:

- Não me agrada, nem um pouco, ocultar algo de você, mas neste momento as circunstâncias assim exigem.

Ele silencia minha boca com a mão, e sorri:

- Você não precisa se justificar. Confio em você, e isso é tudo.

Respiro mais aliviada.

- Igor, você sempre me fala na força que o amor tem. Como faço para usar essa força? Veja bem: eu sinto o sentimento, mas você a usou me chamando no tempo; o que fazia? Como se opera essa força?

Ele se senta, ficando à minha frente. Surge um vento, algumas folhas caem em cima de nós.

Retiro-as dos seus cabelos. A camisa aberta ao peito. Ele olha-me. Pega minha mão e a coloca no seu coração.

Bate forte, também, o meu coração. Olho nos seus olhos...

- Como você usa a força, amado?

- Amo-a, Natasha. Quando ficava aqui, sozinho, meu pensamento ia a você. Sente meu coração?

Aceno afirmativamente. Ele pega minha mão, beija-a demoradamente, olhando-me.

- Aqui, o pensamento ia a você. Falava: amo-a. Soltava-me por completo ao que sentia. Fechava meus olhos. Sentia o amor por dentro de mim. Respirava: eu a amo. Mergulhava em cada respiração. O pensamento seguro do que sentia, exclusivamente no: amo. Emerge a força. Quando a sentia como um calor a invadir-me por dentro, eu falava ao tempo: necessito vê-la. A ti falava: volta, volta para mim.

É o soltar-se, sentir, respirar e segurar o pensamento. Nesse momento nada, nada pode povoar a mente, pois o sentimento se alastra e segue. O sentimento gera a vontade, a emoção gera o desejo.

A força quando emerge é para ser usada, cabe a cada um o seu uso.

Toco-lhe o rosto amado, olhos que me acham e pergunto:

- Como você descobriu? Como sabia que chegaria a mim?

- Era fim de tarde, eu pensava: qual o propósito de sentir que a amo, se ela não voltar mais? Sinto, e é tão forte. Olhei o céu, deitei na relva.

O que eu posso fazer? Perguntava-me, fechei os olhos e veio sua imagem. A daí, emergiu a força e fez valer a minha vontade. Como saber que chegava a você? Eu não sabia, eu sentia que de alguma maneira chegava. O saber, como o entender, é mental; o sentir, como o compreender, é do coração. Compreende? - pergunta sorrido.

Amo você, por ser você, hoje e sempre.

Sorrio, repetindo:

- É soltar-se, sentir, respirar e mergulhar no sentimento.

Homem, você construiu nosso castelo. A chama dentro dele é permanente, é quente e sagrada. Para mim é você um homem acima dos homens. E, muitas vezes, pergunto-me: por que eu? Fecho os olhos e rendo Graças, por ter o puro ouro a meu lado.

Ele sorri e toca meus lábios.

- O sentimento teve a força por ser você o centro de tudo. A resposta está acima de nós, pois a razão de um amor tão grande como o nosso foge à capacidade racional humana. O que posso afirmar é que nada calará o que sinto por você, senhora da minha vida. Olho nos seus olhos e nos falamos, o amor atravessa um e chega no outro, e nós sentimos o que o outro está a sentir, temos a receptividade mútua, uma sintonia nossa. E quando nos amamos...

O bosque enche-se de sua risada, ele me abraça, falando:

- Quando nos amamos, chegamos ao infinito. Nosso amor começa no físico, nossas emoções passam a ser uma e nossas almas se fundem em uma só. Vem cá.

Igor encosta a cabeça no meu seio.

- Ouço seu coração, sabe o que ele diz?

- O que ele diz?

- Que você me ama... Que você me ama... Me ama...

- Presunçoso! Porém, verdadeiro, e você vai cansar de tanto ouvi-lo: amo você.

- Não, fale-me sempre, como ter tamanha participação, se não nos expusermos? Quero morrer falando: eu a amo. Eu a amo sob mil formas ou por mil representações.

Que fique claro: eu a amo. Que o Balaton adormeça ao som: amo você. Que o dia nasça com o meu sussurro: amo você. Que fique certo e compreendido que cada vez que a olho, em cada toque: amo você.

Expressar meu sentimento é dar vazão à plenitude do amor que tenho por você.

Rondo você, pois somos. E quando vejo o sol, sorrio a ele. Lembra-me você, brilhante e vivo. Quando vejo a lua, ela lembra-me você: envolvente, suave e instável. Quando vejo o Balaton, suas águas, quantas e quantas vezes me desnudei e mergulhei meu corpo nele por querer que ele fosse você, necessito de você.

Quando olho no espelho, dentro dos meus olhos, o que vejo é você.

E, se um dia houver distância, você sentirá: amo você. Isso é tão real, tão sério e tão vivo quanto minha própria vida, e você sentirá esteja onde estiver, aconteça o que acontecer. Por um único e simples motivo: eu amo você.

Paro de tocar seus cabelos e falo:

- Não existirá distância, Igor...

Seu olhar se afasta, olhando o céu.

- Se existir você compreenderá o que estou lhe falando.

Meu sentimento por você é o sopro da minha vida. Sem o sopro não há vida, pois a essência da vida está no sentido que atribuímos ao nosso sentimento. Amo você! E nada, nada fará você não sentir, nada! Nem a distância, nem o tempo, nem a própria morte. Nada calará o que sinto por você.

Um tremor percorre meu corpo. Seguro seu rosto e falo.

- Estamos juntos e juntos ficaremos até envelhecermos, até morrermos.

Ele franze a testa e fala.

- Compreenda-me, Natasha, muitas coisas existem além do nosso alcance, da nossa visão. E se por acaso existir uma dessas situações, quero que você compreenda o que falo.

Mesmo que me cale, que fique mudo, você sentirá. Ecoará em seu ser o sopro da vida deste amor que tenho por você.

- Não! Não fale assim. Você é tudo! Eu não viveria sem você.

Segura meu rosto entre as mãos, olha-me profundamente, bem dentro do meu ser.

- Viveria, pois o amor por você é sentimento. Sentimento não morre. O sentimento é vivo. Se o sentimento é vivo tudo o é. Viveria, pois meu sentimento estaria vivo através de você.

Coloco as mãos nos ouvidos e falo: - Não! Pare...Não estaria vivo através de mim, por que só ha vida, falo, vida com você!

Ele retira minhas mãos dos ouvidos, olhando-me...teu olhar minha vida é puro amor. E fala com sua voz grave e forte:

- Amada, atenta, lembra que ti falei que abrimos o caminho? Sou teu caminho, você o meu! Escuta-me: você ou eu esteja onde estiver, somos e seremos quem somos! Esteja onde estiver você sempre sentira nossa verdade, o que somos, por que assim é minha vontade, como é a tua. Onde esta um, existe o outro. E cedo ou tarde, como você ouviu: o tempo une a quem quer se unir. Dentro da Lei Maior: Amor.

Suas palavras explodem dentro de mim.

- É nesses momentos que você deixa de ser como os demais seres, passa a ser imortal. Você tem muito que me ensinar. A chama viva do sentimento quer compreensão racional para expandir-se.

Ele sorri, toca meus lábios e fala:

- A chama viva e sagrada repousa no lago, o lago é a vida. Ventos, chuvas, calmarias mexem com a superfície do lago. A superfície e os fatores externos fazem as emoções. As emoções são passageiras, mutáveis e humanas. O sentimento reside no coração. Se o lago secar, se o coração parar, o sentimento continuará, pois o amor precede a vida terra. Nada calará o amor que temos.

Ele se aproxima, nossos olhos presos.

Cabelos negros. Camisa aberta ao peito. O terno sorriso.Toco seu rosto e falo:

- Sinta, Igor, sou sua; sempre e sempre.

- Vem, estou solto a você. Respire o sopro da minha vida, que é o amor que tenho por você. Respiro o sopro da sua vida. Busque-me, pois eu a busco. Necessito sentir você. A razão é a comunhão, e nesta hora um é o outro, os pensamentos se fundem num só: amor. Chegaremos juntos ao lugar eterno, pois é eterno nosso amor...

O tempo!

Tempo...

Subimos rindo para casa.

Amanhã será um dia decisivo. Decisivo para todos nós.

Olho para ele, principalmente para você, minha vida.

Aqui agora, não sinto receio algum.

Não tenho mais o que pensar.

Aqui estou à frente da casa da Condessa. Deveria ter aceitado a companhia de Margit.

Pensamos melhor, a Condessa desconfiaria. E isso é tudo que não queremos.

Saí cedo de casa, logo que Igor saiu para a fábrica, há compradores de vinho. Que é isso, Natasha, vai ficar nervosa agora?

A casa é, realmente, bonita e impotente, subo os degraus. Respiro fundo e bato à porta.

Espero ansiosa, abre a porta um criado.

- Bom dia! Em que posso ser útil?

- Gostaria de ver a Condessa!

- Verei se é possível. Aguarde. Quem eu devo anunciar?

- Natasha.

Ele faz uma reverência e entra. Fico na saleta que precede a escadaria para o salão. Olho ao redor, que lugar bonito; a decoração é toda dourada, até o porta-chapéus. Sorrio, ao imaginar Igor com um chapéu, ele não teria paciência para usá-lo, seus trajes têm que ser muito à vontade, sua camisa é meio aberta no peito. Livre como o vento.

- Senhora, por favor, acompanhe-me.

Descemos a escadaria, não entendo por que um salão tão grade. É enorme. Dirigimo-nos ao jardim, e a vejo, embaixo de uma grande árvore, sentada numa cadeira branca. A seu lado, uma mesinha com seu desjejum. Olha para mim.

- Que prazer em vê-la!

- Bom dia, Condessa!

- Sente-se aqui a meu lado e acompanhe-me no meu desjejum. Não! Uma xícara de chá, então? Ah bom.

Alguns segundos se passam, estou sentada com uma xícara de chá na mão. E o pensamento preso no sentimento.

- Já sei o que a trouxe aqui, meu silêncio. Mas já lhe falei que daria um tempo junto ao meu filho, e, agora, que ele é pai. Mais alguns meses, é o tempo que você tem junto ao meu filho, só mais esse tempo.

Coloco a xícara na mesa e falo.

- Fico-lhe grata. Eu, realmente, pensei em tudo e avaliei o que a senhora falou-me. Amo por demais seu filho, e sei que ele morreria sem ter a liberdade, sem o seu trabalho. E por amá-lo irei deixá-lo. Vim aqui para isso. Por mais que pense, e reflita, não sei como devo fazer. A senhora começou a dar as cartas, eu estou no seu jogo.

Ela sorri vitoriosa.

- Interiormente, eu sabia que você, por tanto amá-lo, iria pensar em tudo. Sei que nesses meses você refletiu. Bem, tenho tudo em mente, mas só irei expor no momento certo, não que ache que você irá mudar de idéia, pois tenho as provas de Igor nas mãos.

Respiro fundo, ela toca no assunto que tanto quero.

- Senhora, desculpe-me por interrompê-la. Essa carta, da qual a senhora fala, tenho uma preocupação quanto a ela: é mesmo uma carta?

Seu olhar é persistente, continuo:

- Uma carta, onde Igor expõe todos os seus ideais, como a senhora falou, eu não entendo. E por que Igor, sendo tão inteligente, exporia suas idéias numa carta, deixando-a vir parar nas suas mãos. Isso é tão intrigante!

A irritação dela é visível, e eu mantenho o ar de preocupação.

- Você estaria duvidando da existência dessa carta, é isso?

- Não senhora, claro que não. Minha preocupação continua sendo Igor, ele expor-se numa simples carta, e essa carta ter o destino que teve, imagino que, como ele é muito aberto, saia a soltar suas idéias e é isso que temo. Por esse motivo, irei deixá-lo, com medo que ele seja preso. Mas outros documentos poderão existir a comprometê-lo. Esta carta chegou à senhora, mas imagine se ela chegasse a outras mãos. Seria o fim dele. Essa é minha preocupação.

Ela enche o peito, sorri e fala:

- Noto sua preocupação, e vou mais além, passa na sua cabeça: “Se outras pessoas tiverem provas quanto a Igor, não teria motivo para partir”.

Ouça-me bem, querida, meu filho é por demais inteligente. Jamais arriscaria seus altos ideais e de outros, como ele. Essa carta ele mandou a um proprietário de terras que fazia parte desse Movimento de Separação da Hungria. Mas, esse senhor me devia um certo favor. Então, deu-se a troca. Poucos dias depois, ele me procurou arrependido, mas já era tarde a carta já estava comigo. Ameaçou contar tudo a Igor, e eu simplesmente lhe disse que fora ele que me dera a carta. Ele era um traidor. Coitado, morreu no dia seguinte, que Deus o tenha.

Portanto, só eu tenho provas quanto a Igor. Provas evidentes, e só eu posso forçá-la. Seria muita tolice guardar uma carta, se houvesse outras pessoas com documentos comprometedores. Você subestimou a inteligência de Igor, minha cara, e, também, a minha.

Respiro num alivio tão imenso. Então, foi isso, não existem mais provas. Só existimos eu, você, Ivy nessa terra abençoada. Sorrio para o mundo.

- Você tem, exatamente, quatro meses a contar de hoje. É todo o tempo que lhe resta.

Olho para ela, e faço a pergunta que tanto quero saber.

- A senhora tem mesmo a coragem de entregar seu filho, seu próprio filho?

- Minha cara, eu faço qualquer coisa, qualquer coisa para não perder o que tenho. Faço arranjos, alianças ou o que for necessário, mas perder o que tenho nunca. Nunca! Entregaria Igor, sim, sem sentir culpa, pois é ele ou eu. Com sua saída da vida dele, será terrível para ele ficar aqui, no mesmo ambiente que viveu com você. Irá para casa de Margit, e, lá, na corte, calará a boca da aristocracia. Você pode se perguntar por que ele irá para casa de Margit. Estarei lá e, ficarei doente, quem sabe se não estaria à beira da morte, e o chamarei, e meu bravo leão, irá. Quero meu filho do meu lado. Se não for o caso, tê-lo-ei como inimigo e inimigo nós eliminamos. Aproveite bem o resto de sua estada aqui e, quando estiver perto de você partir, eu a chamarei. Até lá, acho que não nos veremos mais. A propósito, sei o quanto Margit está de amizades com você. Comece a cortá-la, isso será ruim para ela. Bem, já falamos tudo que tínhamos para falar. Estou aguardando uma visita, se me der licença...

Deus! Não pensei que pudesse existir alguém assim, ela é monstruosa, levanto-me:

- Esteja à vontade Condessa.

- Ah, só mais uma coisa, não se exponha aqui em Badacsony com sua menina. Sei que vocês estiveram na feira. É muito desagradável! Perguntarem a mim sobre a menina, e eu tendo de dar mais uma desculpa! Portanto, fique com ela longe da cidade. Aproveite seu tempo.

Todo esse tempo calada e com medo. Enfim acabou.

- Irei aproveitá-lo até o final dos meus dias, “cara” Condessa. E quanto à carta que compromete meu esposo. Agora está em boas mãos. Tenha um bom dia, senhora.

Seus olhos se arregalam e me fulminam, passo por ela, ouço sua voz atrás de mim.

- Cigana, espere!

Não dou o trabalho de virar-me.

- Se, porventura, você estiver me desafiando e não deixar meu filho, se for isso, eu acabo com você... Natasha ... Natasha...

Subo as escadas, abro a porta da rua. Val espera-me na charrete.

Livre! O sorriso vem nos meus lábios.

Subo a charrete, é mais que alivio, é liberdade. Faço esforço para me conter.

- Para casa, Val. Para nossa casa.