Taças

Conviver.

Outubro.

 

 

Um mês se passa. Nossos dias estão repletos de uma alegria suave e contagiante.

Rimos todos quando eu falei que a Condessa estava certa, pois Margit está com nova cor.

Seus olhos ganharam vida, ela está solta como as folhas de outono.

Acompanha-me à escola todos os dias. Participa, ativamente, de nossas vidas. Digo-lhe que ela chegou numa hora abençoada, pois, tanto ajuda na escola, como a Misca no enxoval do nosso bebê. E é assim que ela fala: - nosso bebê.

Outro dia, ela me perguntou se não estava atrapalhando, ficando conosco.

Fui severa, perguntando por que ela não se dava o direito de estar bem, sem se punir com isso. E disse-lhe que, se fosse inconveniente, com toda certeza não estaria conosco.

É bonito de ver uma pessoa se descobrindo, começando a amar a vida, sentir que está bem e em paz. Emerge dela uma brilhante luz, e por diversos momentos percebo essa luz brilhar mais quando ela está ao lado de Mikail. Isso foi acontecendo naturalmente, ela tenta disfarçar da melhor maneira possível. Mas se percebe quando alguém está apaixonado: o sorriso aflora à toa, os olhos brilham mais. Mikail continua o mesmo, até por respeito, talvez. Ela casada, irmã de Igor. Comento com Igor, e ele dá uma sonora risada e balança a cabeça.

- Sério? Você acha mesmo que ela está apaixonada por Mikail?

- Acho.

- Seria muito bom para os dois!

Depois, ele solta o riso novamente e fala ainda rindo:

- Imagine a Condessa. Trazemos minha irmã para cá, e ela se apaixona por um artista.

A paixão de Margit é serena. Acho que sei o que se passa no seu interior; afinal, ela é casada.

E é a primeira vez que se apaixona. Mikail conseguiu, enfim, terminar nosso quadro. Impulsivamente peço para ele retratar Margit. Ele aceita, naturalmente. Ela fica sem jeito.

Não compreendo Mikail. Anita já não sabe o que fazer para ser por ele notada, se bem que a tenho visto acompanhá-lo a sua casa.

Margit, duas vezes por semana, vai à cidade ver a Condessa. Igor quase não a acompanha, o que acho ruim, pois temo que a adversidade dela se interponha mais ainda em sua vida.

Outra pessoa com quem está sendo extremamente agradável de conviver é Elizabeth. Sua docilidade, e sua sutileza me envolvem. Sinto como se ela quisesse me conquistar. Honestamente, não a entendo, ela por si já me é cara, gosto muito dela.

Novembro.

O tempo corre, entra mês, sai mês, estamos em novembro, mas, meus pensamentos, vez por outra, vão à Condessa. Nosso elo não se desfaz. Soube por Margit que ela tenta disfarçar, mas, faz perguntas a meu respeito. Ao contrário de mim, se fosse possível, calaria a boca das pessoas quando estão a falar nela. E vejo que nem eu nem ela conseguimos esquecer uma da outra. Procuro por todos os meios esquecê-la. E, mesmo não fazendo perguntas sobre ela, é como um fantasma que me persegue até em sonhos. Já sonhei por várias vezes ela rindo a dizer: - Não falei que conseguiria?

Por mais que tente dizer a mim mesma: ela não é forte o suficiente para me afastar de Igor.

Eu, simplesmente, temo. Tenho medo dela, suas manobras são tão sujas que a vejo com a capacidade de tentar tudo. Se hoje ela está quieta é que alguma coisa está armando.

Vejo a ingenuidade de Margit, ela pensa que a mãe, ao perguntar por mim, dá uma demonstração de interesse. O que, em certo sentido, não deixa de ser.

Soube, por Val, que ela se refere ao nosso filho, como o filho da cigana. Misca, ao ouvir, quis falar com Igor, mas lhe pedi para não fazê-lo. Aonde levaria acirrar mais as divergências?

Vou à janela...

Nossa região está nua.

A maioria das árvores perdeu suas folhas. Restam uma ali e outra acolá.

O chão está como um tapete alaranjado. O vento faz seu trabalho.

É uma estação que nos convida à meditação. Estamos no fim do outono.

O mundo parece se preparar para uma estréia. É a nova estação que se aproxima.

O vento começa a soprar frio.

Passo a mão na barriga. O nosso bebê mexe-se bastante. É uma gravidez abençoada, não senti nada de anormal. Doutor Lajos vez por outra vem me ver. Acho-me uma grávida bonita. Igor diz que estou extremamente sensual. O meu sentido de ser mulher está mais ampliado. Meu cabelo está mais sedoso, o tom de mel passa para alguns fios dourados, minha pele limpa; meus lábios mais notados. Fazer amor com ele é, hoje, suave, deliciosamente suave, nossos momentos são mais longos e profundos. Creio que existe um ciclo encantado desde o bem-estar à felicidade. Instalam-se as diferenças.

Continuo indo à escola exceto nos dias de muita chuva. A escola passa a ser um grande orgulho de todos nós. Elizabeth continua vindo às quintas-feiras. Suas idéias se concretizam.

Além dos enxovais, estão confeccionando colchas de retalho. Estas são vendidas, o que representa mais entrada de dinheiro para a escola.

Mikail começa um curso de pintura. Elizabeth está cursando, como, também, duas moças da cidade. São interessantíssimas as aulas. São muitas as tentativas, poucos acertos, mas creio que lidar com arte é aflorar a própria sensibilidade. “Com o conhecimento das técnicas, é só deixar a inspiração surgir, crescer e tomar forma”. Palavras de Mikail. Ouvi-lo falar da arte é sentir como ele vê o mundo, e como ele canaliza sua energia vital.

Margit fica a ouvi-lo. Restam poucos dias para ela estar conosco. Ela nos comunicou que semana que vem retornará á Áustria. Já sinto saudades dela.

Ela foi à cidade visitar a Condessa, e eu estou no término da aula de fabricação de perfumes. Mikail me espera para levar-me em casa. A subida para casa está cheia de folhas úmidas. Não vejo necessidade de tanto zelo, mas gosto, imensamente, de sua companhia.

- Margit vai partir. Apeguei-me a ela como uma irmã; é como se ela fizesse parte de nosso mundo, gostaria que ficasse aqui.

- Cuidado com as pedras, Nat, estão escorregadias.

- Acho que ela não terá mais condições de ficar com o marido. Não é a corte que a encanta e sim a vida que temos aqui. O quadro que você fez dela, está lindo. Também, ela é muito bonita, não é?

- É.

Seguro seu braço, fazendo-o parar.

- Posso lhe perguntar algo? Não precisa responder se não quiser, somos amigos e eu saberei entender.

- Pergunte.

- Você é nosso amigo, meu grande amigo. É uma pessoa de poucas palavras, mas é uma grande amizade. Amigo que a gente quer bem, a quem só se deseja o melhor, por quem se pede a Deus que seus sonhos se tornem reais. Você é muito caro para mim Mikail, e muitas vezes fico a me perguntar se você é feliz, se está se realizando. Vive sozinho por opção. Já notou que existem pessoas interessadas em você! Você já amou alguém?

Ele passa a mão na barba, seus olhos tornam-se de um azul escuro.

- Já.

- Faz tempo? Por que não se interessa por mais ninguém?

Ele dá um meio sorriso.

- Porque amo essa pessoa.

- Seu amor está distante daqui, é isso?

Ele continua, de repente, a andar; segui-o.

- Digamos que é a distância. Existe uma total distância entre mim e ela.

- E por que você não vai ao seu encontro?

Ele pára de andar.

- Porque isso não vem ao caso. Saí de casa muito cedo, aos dezoito anos.Quando criança, ficava o dia a ver o mar. Odessa é uma cidade à beira do mar, e eu pensava, algum dia, pegar um barco e conhecer o mundo. Disse a mim mesmo que não quero ter família, que quero ser livre. Todo mundo ria, coisa de criança. Meu pai era pescador, e eu via seu fascínio pelo mar. Via, também, seu rosto quando chegava em casa e encontrava diante de si sete filhos. Liberdade, para mim, era não ter laços afetivos. Um dia, ele saiu ao mar e não voltou, minha mãe esperou seis meses. Não foi o barco que afundou, ele sumiu. Nessa época tive raiva do meu pai; via o sofrimento de minha mãe ter que alimentar sete filhos à custa da piedade dos outros. Ao mesmo tempo, tinha inveja dele, do pai. Saiu ao mundo; deu-se esse direito. Ele, para mim era uma pessoa má e, ao mesmo tempo, um herói. Comecei a pintar cedo e nesse período eu vendia meus trabalhos para ajudar em casa.

Um dia, chegou em casa um irmão da minha mãe, ele morava numa aldeia. E nos levou para morar com ele na sua pequena fazenda. Foi um bom período, voltei a ser criança, brincava, tirava leite das vacas. Havia espaço para todos. Esse período foi dos doze aos quase dezoito anos. E, um dia, retornou meu pai, chorando, pedindo perdão à minha mãe. Senti uma revolta. Vira o que ela passou, como, também, a vi recebê-lo de braços abertos. O homem que um dia chegou a ser herói para mim, chegava destruído e passou a ser insuportável conviver com ele. Se antes o invejava, passei a vê-lo como um grande perdedor, pois tudo que fez foi malfeito: não foi bom marido; sonhou em ser um aventureiro e se arrebentou.

Então, comuniquei a todos minha decisão em partir. Minha mãe sabia o que se passava comigo, e ele dizia que eu era sua cópia fiel, que tinha a aventura nas veias. Eles resolveram ficar na fazenda do meu tio, onde meu pai, trabalhando, poderia dar à mãe e aos irmãos uma melhor condição de vida. Fiquei aliviado, pois era mais seguro para minha mãe. Foi assim que saí ao mundo, percorri longos caminhos e minhas revoltas foram desaparecendo. Mas continua nítida a lembrança de família como uma grande responsabilidade; e do casamento, uma faca de dois gumes. Visito-os sempre que posso. Portanto, acho perigosas as ligações amorosas.

Ele sorri e acrescenta: - Exceto raríssimas exceções.

- Mas você ama alguém; esse amor ficou em alguma cidade distante?

- Vejamos uma pintura, Natasha, minha dama vive num reino distante e encantado.

- Isso o faz feliz?

- Digamos que sim.

- E, por amar, você não gostaria de partilhar?

Ele fica sério e pensativo.

- Não é possível. O que você está achando das aulas de pintura?

Por forçar o assunto a ser mudado, entramos em outro tipo de conversa.

Mas, então, esse amigo ama alguém. Isso fica mais difícil para quem está interessado nele. Se, ao menos, ele fosse mais aberto. Mas não, fecha-se, cala-se, é aberto apenas à nossa amizade, à escola e, principalmente, a sua arte.

A chuva recomeça fininha e persistente; existe um friozinho.

Mikail e Margit estão lá embaixo.

Tomo um banho e troco de roupa. Escolho meu vestido verde novo.

Passo na sala. Eles estão tomando vinho e vou à cozinha ajudar Misca.

Igor chega no momento que estou a beliscar a comida na panela, completamente molhado. Beijo-o. Subo para ajudá-lo a se trocar, aproveitando o momento para estar a sós com ele. Contamos, um ao outro, pequenas coisas; é o fazer parte, estar presente. Ele me fala que a máquina deu novamente problema.

A lareira é, pela primeira vez, acesa, o que torna a sala mais aconchegante.Tomamos vinho, Margit fica mais solta, fala de seus planos, o que denota que ela é, agora, uma mulher que sabe o que almeja, o que quer. Está a reencontrar-se com a própria vida.

- Quero voltar para solucionar minha vida, embora saiba que não será algo de imediato. Vejo o quanto minha vida foi dirigida, avalio o quanto me deixei corromper. A corte dava-me uma idéia de ser uma grande festa. E a festa acabou há muito tempo; a realidade é outra. Vivi sempre uma vida irreal; nada sabia da realidade, nem queria saber. Hoje, sei que posso buscar, tenho vontades. Afinal é minha vida.

Estar com vocês foi, é e será sempre valioso. Vim no momento certo. Se estivesse aqui antes, talvez não tivesse condições de assimilar, refletir e participar desse mundo.

Aqui, aconteceram tantos fatos, tive a liberdade de fazer o que queria. Como, também, achar-me em casa, sem ser uma estranha. Um fato marcante aconteceu nos primeiros dias, quando lá na escola, eu ensinava uma senhora a fazer um arranjo. Ela me chamou e disse-me: por favor, ensine-me, eu não sei e quero tanto aprender!...

Isso foi tão forte para mim, que me fez refletir toda minha vida e vi o quanto não sabia e o quanto tinha e tenho que aprender quanto às relações humanas. E, depois desse dia passei a tentar assimilar o conteúdo dessas relações. Disse a mim mesma: eu não sei, pois tudo é tão novo para mim. Você, Natasha, escutou-me e ajudou-me, indo além, com toda essa serenidade que tem, deu-me carinho. É uma amiga e não é só um presente para meu irmão, é para mim, também, uma irmã, de quem tenho muito orgulho e amor. E foi importante eu ter me sentido em casa. Na casa de mamãe freqüentei uma escola onde se faz aprendizado em sofisticação, de como se portar, de como receber as pessoas com o único intuito de ser uma dama da corte. E, em casa, eu não passava de um objeto de decoração. Foi para isso que fui educada. Dentro de mim, existia a necessidade de comprovar que deveria existir um mundo autêntico, vinha sua imagem, Igor. Sua vida solta e livre. Ser o que é.

E aqui estou com vocês. E você, Mikail, soube, sutilmente, ensinar-me como pequenas coisas têm grande valor. Observando você pintar, vi a dimensão das coisas mínimas, e como o mundo pode tornar-se colorido!

Ele ri e baixa a cabeça. Ela continua:

- Já discursei o bastante, o vinho adormeceu minha timidez, mas é importante abrir-se aos amigos. Quero, num futuro próximo, estar aqui, novamente.

Igor está sentado no tapete, puxa-me para junto de si. Deito a cabeça no seu ombro e falo emocionada da saudade que sentiremos dela. Ela nos olha e sorrir falando:

- Na primeira vez que Nat e eu conversamos, ela me falou do sentimento que tem por você. – continua Margit.

- Honestamente, não entendi, mas ao vê-los dia a dia, comecei a ter uma noção de como é esse sentimento. Exala de vocês essa cumplicidade, essa necessidade que um tem do outro. Ainda não sei entender totalmente o que me disse, Nat, simplesmente vejo e comprovo que é a vivência mais bonita que já presenciei. Isso aflora dos seus olhos, e de suas vozes. Existe alguma fórmula?

Todos rimos e Igor fala:

- Estamos seriamente propensos a vendê-la. – todos rimos muito e ele continua.

Sabe o que ocorre Margit? Damos vazão a tudo que sentimos. Tudo se dificulta por causa das meias palavras, meios-termos. Ser sincero com o que se sente é partilhar essa comunhão. A sinceridade do sentimento e a participação têm sido nossa fórmula.

Há algum tempo, encontrei a mulher da minha vida, distanciamo-nos. Dia e noite, no pensamento e no meu peito eu sentia a presença dela. Chamava-a, vinha a força do sentimento. Respirava e segurava meu pensamento nela, e vinha a vontade, pois o amor pode com tudo. E quando eu não mergulhava no que sentia, ficava ao léu, qual um barco sem rumo. Porque o amor que tenho por ela é tudo! Eu a chamava e a esperava. Em abril, ela reapareceu, e aqui está ela junto a mim.

Eu necessito, preciso e quero estar a seu lado. Não é simples?

Necessito dela como o ar que respiro, preciso dela por ser ela o sentimento, e quero estar a seu lado por querer, sempre e sempre, partilhar.

Amo-a, e isso é tudo. - Volta-se para mim e fala.

Como pude ficar três anos a te esperar? Eu deveria ter corrido os quatro cantos do mundo para te reencontrar.

A sala fica silenciosa, só o crispar do fogo na lareira é ouvido. Aconchego-me a ele. Homem, sem meias palavras, joga o que sente, abertamente.

- Meu irmão, você é sempre uma surpresa para mim. Você já viu alguém amar tanto assim, Mikail?

- Não. Como ele, não.

É noite alta, quando Mikail vai embora. É noite de um amor profundo e de buscas, onde a troca de energia é mágica e o adormecer é de mero cansaço.

Dezembro.

O natal se aproxima. O inverno chega com seus ventos frios.

Acabo de receber uma carta de Margit. Ela garante que, em março, estará aqui para conhecer nosso bebê. Seu mundo começa a clarear, sei que ela quer a separação, mas de uma maneira que não seja tão dolorosa.

Uma temporada aqui é, para ela, como dar vazão a si mesma. Num trecho da carta, ela diz: “... saiba que esta nova Margit está bem posicionada e sabe o que quer. Estou sempre a seu lado, em todas as ocasiões, e a defendo em qualquer situação, sem de antemão saber as causas...”.

Sei o que deve ter ocorrido. A Condessa viajou com ela, e deve ter feito muitos comentários desairosos a meu respeito. É, Margit, você é uma amiga e irmã para mim.

Existe a sensação agradável de saber que a Condessa não está aqui. Sei que é infantilidade da minha parte, mas é pura verdade.

Minha barriga está enorme. Ontem doutor Lajos veio ver-me. Ele garante que é para o final de fevereiro, mas nas minhas contagens creio que não. Existe a expectativa de estar frente a frente com nosso bebê.

Começou a nevar. Tudo está branco, mas o lago não gelou.

A Hungria está linda! Toda de branco. A neve lhe dá um toque mágico.

Todo nosso horário na escola mudou, o frio faz a gente acordar mais tarde. Na fábrica, só falta engarrafar uns poucos vinhos. A adega está repleta de vinhos que serão vendidos o ano que vem. A fábrica, quase que parada, intensifica, agora, as vendas. Como o vinho já é conhecido, muitos compradores vêm de fora comprá-lo. Isso dá mais tempo a Igor, e a sua participação, em casa, é como uma festa.

A escola só tem, agora, um turno. As atividades escolares estão suspensas. Mas as outras atividades continuam.

Fizemos uma votação para ver se interromperíamos. Foi unânime a decisão de continuarmos. Existe o costume de estarmos juntos. Mesmo com o sacrifício dos que moram longe, algumas atividades continuam, até as crianças aparecem para ajudar. O padre Pal está dando aulas de catecismo aos sábados, a primeira comunhão será na noite de natal.

Os arranjos do natal estão sendo feitos na escola, mas a festa será no galpão. Igor reformou todo ele para a chegada da caravana, e, no próprio galpão, foi feito cozinha e alguns cômodos. Conto os dias para a chegada deles...

Convidei Elizabeth para nossa festa. Ele me trouxe mais presentes para o bebê.

Disse-me que não podia dar certeza. Achei-a um pouco hesitante, talvez por ter que trazer Krisztina. Mas lhe assegurei que não existe constrangimento para mim, e o quanto a sua presença é importante.

A caravana já devia ter chegado! Minha gente já deveria estar aqui.

Mas acho que as estradas cobertas de neve devem ter concorrido para esse atraso. Estou ficando ansiosa!

O dia amanhece com um lindo sol, mas a terra está branca, coberta de neve.

Estou na janela de nosso quarto, viro-me para nossa cama, meu sol ainda dorme.

O lago resiste à neve, não está congelado, suas águas serenas.

Não existe mais tanto verde; ali as árvores estão nuas. A imagem é bonita, mas parece ter havido um desvendar de fatos e folhas. Em direção do lago corre uma corsa; seus pulos são altos, parece querer voar.

Só falta uma semana para o natal, a família está me deixando ansiosa.

Vejo Mikail ao longe. Seu cavalo tem dificuldades de andar devido à neve. Acho que ele vai à escola, e, com certeza, na volta passará aqui. Volto o olhar para Igor, continua a dormir, suas feições serenas. Ontem, ele chegou tarde. Foi com Val comprar mantimentos, sacas e sacas.

- Natasha?

Grita Mikail, aceno para ele, abrindo a janela.

- Igor está aí?

- Sim.

- Chame-o, por favor.

- Ele dorme, mas aguarde um instante vou chamá-lo. Desça do cavalo e tome um chá. Misca está na cozinha.

- Diga a ele que é urgente.

- Que aconteceu Mikail?

- A casa de George foi abalada pelo vento de ontem à noite.

- Vou acordá-lo.

Fecho a janela, e vou a Igor: - Amado, acorda!

Ele se mexe, abre os olhos, protegendo-os com a mão devido à claridade, envolve minha cintura atraindo-me para junto de si: - Esquente-me, estou com frio.

Explico-lhe o que Mikail falou, ele pede-me para avisar a Mikail que está descendo.

Na cozinha Mikail toma chá com pão e lhe dou o recado de Igor. Quero saber os detalhes, mas ele não sabe. Igor chega em instantes.

Cumprimenta Mikail e Misca, pergunta o que houve.

Mikail diz não saber ao certo o que aconteceu, pois já fora informado por terceiros. Igor come alguma coisa, rapidamente. Dá-me um beijo, diz para não me preocupar e sai com Mikail.

A manhã transcorre lenta. O que teria acontecido?

Chega a hora do almoço e nem sinal deles. Peço a Val para ir até lá. Estou inquieta e impaciente.

Sinto-me um bicho enjaulado.

Detesto esperar. Principalmente de ficar entre quatro paredes.

A impaciência está no limite. Já é de tarde.

E a família que não chega! Não consigo ficar parada.

Sabe o que vou fazer? Resolvo andar um pouco. Não agüento ficar parada a esperar.

Posso ir até o lago, sem nenhum problema!

Vejo daqui, não é inseguro. Não neva.

Mas como vou sair? Se falar com Misca vai ser um deus-nos-acuda, e não me deixará sair.

Santo Deus! Por mais que explique que minha gente é acostumada a tantas coisas, e que, na gravidez, trabalha, e que no inverno saímos. Imagine, se a neve detivesse os ciganos?! Belle com a barriga enorme, em pleno inverno, saía, trabalhava.

Que bobagem. Posso sair pela porta da frente, Misca nem notará. Quero, apenas, dar uma volta. Mas se ela me procurar? Faço um bilhete: “Misca. Fui dar uma volta, não se preocupe. Volto logo, Natasha.”.

Vou deixá-lo aqui em cima da escrivaninha, ela pensará que estou aqui na biblioteca e talvez nem note, posso sair e voltar e ela, talvez, nem se dê conta. Pronto! Coloco o bilhete num lugar visível.

Coloco botas, pego um casaco e desço as escadas devagar. Lá está ela na cozinha.

Abro a porta. A camada de neve é fina.

Respiro, o sol está lindo!

Desejo apreciar o lago. Vim olhando tanto para o chão que não prestei atenção como tudo ficou tão mudado.

Lá de cima via o lago totalmente livre do gelo, mas constato que em alguns trechos aparece uma camada de gelo. Quase invisível, e o sol ao bater reflete o prisma, uma luz bela!

- Ah Balaton, você está bonito, parece se enfeitar para a noite de natal.

Como estará o lugar em que encontrei Igor pela primeira vez!

Deve estar lindo! Gostaria de ver. E por que não?

Tomo cuidado ao andar. Vou devagar, a neve é de pouca espessura, só uma pequena parte das minhas botas é que afunda, uns dois dedos. Meu filho se mexe. Você está gostando do passeio, bebê?

Começo a subir o monte. Em algumas árvores existem folhas; noutras, só galhos; existem gotículas de gelo, que o sol não degelou. Parecem o arco-íris. Caem alguns pingos, com o ventinho leve que soprou. Puxo o casaco de pele, e continuo.

- Meu Deus!

Como tudo está mudado, daqui de cima é que se tem noção.

Lá está Badacsony, os telhados das casas estão meio embranquecidos. Das chaminés sai fumaça. Parece outro lugar!

Que interessante! Nunca pude observar as transformações da natureza num mesmo lugar, exceto em algumas cidades. E aqui, por ser um lugar tão meu, é que vejo o quanto, com o inverno, tudo transforma.

Tiro a luva, limpo a água de uma pedra, assim, posso sentar-me.

A natureza é fantástica, incrivelmente fantástica. Como tudo está visivelmente diferente!

Lá embaixo nossa velha árvore de namoro está quase nua. E foi lá que Mikail nos retratou.

Ela estava florida! Agora parece carecer de vida.

A vida é mesmo a maior maravilha; por ela, essa árvore se nutre; permanece firme, de pé mesmo sem folhas, mesmo parecendo morta. E, quando chegar a primavera, estará ela, novamente, repleta de folhas.

As circunstâncias modificam as aparências, e o pulsar da vida corre solto em cada pedaço da natureza...a essência divina em tudo! Aqui agora é tão mais fácil vê-la na natureza.

Um bando de pássaros voa para leste; eles cantam. Ou melhor, acho que gritam; é uma grande algazarra. Devem estar informando que só voltarão na primavera, e, quem sabe, estão a chamar seus companheiros. Gostaria de voar como eles. Como seria bom. O homem bem que podia voar!

Imagine poder ver todo esse espetáculo do alto, voar entre as nuvens, dar esses rasantes no lago ou chegar perto das estrelas.

Seria o homem capaz de ter tamanha graça e leveza acaso voasse!

Se eu pudesse voar percorreria toda a Hungria, conhecê-la palmo a palmo. Se eu pudesse voar iria bem alto e bem veloz. Sorrio sozinha, imaginando-me voando. A verdade é que os pássaros sempre me encantam. Madar, um apelido que podia ser meu nome.

E lá estão outros pássaros, esses são mais coloridos, porém voam mais baixo.

Voar deve ser tão bom que até a imagem dos anjos tem asas.

As asas parecem ligar o ser ao divino. Seria por isso que o homem não tem asas? Enquanto ele não descobrir sua real natureza, estará preso a terra?

Estar aqui no alto engrandece a alma.

Aqui estou. Abaixo, os mortais; acima os imortais. Abaixo, o conhecido, o palpável; acima, a grande incógnita, a continuidade, o desconhecido!

Como seria bom rasgar um pedacinho desse céu e deixar que meus olhos vissem o que ora não enxergam!

Mas, a bem da verdade, consegui verdades que estão dentro de mim. A existência dessa força sei, pois sinto que está dentro de mim.

O céu tem, agora, uma tonalidade alaranjada, e já sopra um vento frio. Melhor começar a descer. Respiro profundamente, levanto-me. Tenho um bom caminho pela frente, não que seja longe e sim por que tenho que ir devagar.

Retenho a vista na paisagem, pois não sei se terei oportunidade de rever o que vejo agora, daqui para frente deve nevar bastante, ficando difícil chegar até aqui.

Devo ter passado muito tempo a observar a tarde, pois ela logo chegará ao fim. Vamos lá, Natasha.

Sempre se diz que subir é mais difícil, mas não aqui, agora. A descida é lenta, pois tenho receio de escorregar. O esforço aquece, mas agora estou com frio. Condeno-me por ter passado tanto tempo lá em cima, Misca deve estar preocupada. Mas que valeu a pena, valeu.

Ouço um tiro!

E mais outro. Quem estará caçando?

A caça, nesta época, está proibida! Latidos de cães, estão caçando mesmo! Que diabo!

Os animais não têm a menor chance com a neve. Quero ver quando Igor souber.

Ao longe ouço um grito:

- Algum sinal?

E a resposta mais distante: - Não!

Como seria bom dar de cara com esses homens.

Chego na estradinha. Ainda bem, começava a me cansar. Encosto-me numa árvore.

O som da nossa charrete! Sei que é, coloquei sinos nela.

Igor deve estar voltando agora. Que bom, assim não ficou preocupado.

Ficará admirado ao ver-me.

É nossa charrete! Mas não é Igor quem está nela, e, sim Mikail.

Ao ver-me pára a charrete, balança a cabeça e dá dois tiros para cima. Na mesma hora, ouço a voz distante de Igor:

- Está tudo bem? Mikail está tudo bem?

- Está! - gritando Mikail.

- Onde estão?

- Venha no sentido da estrada!

Olho para Mikail, que ainda está sentado na charrete, coloca a espingarda no banco.

- Que está acontecendo Mikail? Já não bastam os caçadores aqui para assustar os animais, e você fica a atirar! E Igor o que está fazendo a pé?

- Onde você estava?

- Passeando. O que aconteceu? Por que Igor não está com você?

Ele pula da charrete, e vem na minha direção, perguntando se estou bem.

- Claro que estou bem. Onde está Igor?

O vento veio forte, sinto frio. Fecho o casaco, os cabelos cobrem meu rosto.

Ele, meio sem jeito, afasta meus cabelos, a olhar-me com carinho.

- Por que Igor não está com você?

Seus olhos dirigiram-se para um certo ponto, ele inclina a cabeça.

- Ele está chegando.

Viro-me, logo à frente vem Igor e Val e mais dois homens. Seu rosto está queimado do frio, chega sério, está com pouca roupa para o frio que faz!

Olha-me sério e contrariado, sorrio para ele, mas sua seriedade continua, entrega a espingarda para Mikail, mas continua a olhar-me.

- Onde você estava, Natasha?

- Fui passear.

- Com toda essa neve você foi passear? Por acaso perdeu o juízo, Natasha?

- O que tem você? Não perdi o juízo. Deu-me vontade de sair, para dar um passeio, então...

Ele não me deixa terminar a frase:

- Passeio?! Com toda esta neve à sua volta!

- Sim! Com toda esta neve à minha volta. A neve não é um obstáculo para se dar um passeio. Passeei e aqui estou inteira.

- Vamos para casa, venha.

Mikail já espera na charrete. Val e os homens já estão bem à frente, a pé.

- Vá você, eu vou andando.

- Deixa de infantilidade, Natasha e venha na charrete.

O meu sangue esquentou, aborreci-me. Não sinto mais frio.

- Vá você de charrete, eu vou andando. Melhor assim que junto a um adulto tão mal-humorado. Suba na charrete senhor ajuizado. Continuo minha caminhada que até bem pouco estava ótima!

Dou-lhe as costas e começo a andar no sentido de casa, a uns vinte passos ouço o som da charrete a meu lado.

- Suba! Vem!

- Não, estou bem aqui! Pode continuar Mikail, leve esse ajuizado senhor para casa, peça a Misca para lhe fazer um chá. Assim, quem sabe, até eu chegar ele terá se acalmado.

Mikail sorri, com o olhar pede-me para subir, e olha para ele. Continuo:

- Sabe que você é muito mal-acostumado? Tudo que você pede ou quer, é sempre atendido. Quando estava lá em cima do monte...

Mikail olha assustado para Igor, ele, por sua vez, franze a testa.

- Você estava no alto do monte?!!!

- Sim.

Ele pula da charrete, dá um suspiro e fala:

- Ontem houve um deslizamento no monte, chegando a derrubar uma parte da casa de George. E você resolve dar um passeio? Um passeio! Em meio à neve, há poucas horas houve um deslizamento.

Chego a casa e Misca, apavorada, não sabia se sairia à sua procura ou se ficaria à sua espera. Sabe há quanto tempo estamos atrás de você? Sabe quantas pessoas estavam a tentar achá-la? Sabe a preocupação, a aflição em que me encontrava? Você tem idéia o que passou na minha cabeça? Consegue pensar? Vê a inconseqüência de um passeio? Não seria capaz de supor que eu estaria como um louco à sua procura? Passei essas três horas num inferno.

Sua aflição é por demais evidente.

Que posso dizer para acalmá-lo! Não pensei e nem sabia o que tinha ocorrido. O rosto de Igor está cansado, mas transparece raiva.

- Perdoe-me, juro que não pensei...

Ele fecha os olhos por alguns segundos, e ao abri-los transmitem o calor conhecido, sem deixar que eu termine a frase, ele me envolve com os braços.

- Não fale nada agora! Deixe-me sentir você.

Sinto Igor trêmulo, aliso suas costa: apesar do frio, ele está suado.

Ele me abraça forte. Depois de um tempo assim, calado, ele afasta-me e olha minha barriga. Damo-nos conta de que Mikail espera. Subimos na charrete e, Igor, cansado, fala:

- Vamos para casa, amigo. Natasha, quando irá você crescer?