Taças

Conflito(continuação)

 

Que horas são?

Olho para meu lado, em busca de Igor.

Dou-me conta, então, do que aconteceu ontem.

Deito-me novamente; ainda estou com a roupa da festa. Maldita festa! Maldita Condessa!

Minha respiração é ofegante.

Ouço uma batida na porta, é a voz de Misca.

Sem vontade, abro a porta.

Ela me olha intrigada, eu ainda com o vestido de gala.

Traz suco e pão, não diz nada e vai preparar meu banho.

Fica com a toalha na mão, enquanto estou no banho. Porém não se contém e fala:

-         Ele saiu cedo. Encontrei-o na sala, o dia estava clareando. Tenho certeza que ele não dormiu. Eu sabia, tinha quase certeza que ia dar alguma confusão. Uma festa naquela casa, feita pela bruxa.

Abro um sorriso. Misca, só ela teria esse poder. Ela continua:

-         Só tomou chá e saiu feito louco a cavalo. Você sabe como ele é, mal falou comigo. Só por que fui perguntar o que acharam de você. Sabe o que ele disse?

“Ela deve saber melhor do que ninguém o sucesso que fez na festa!”

E, já saindo, perguntei se vinha almoçar, ele berrou um não, que deve ter acordado até os anjos. E saiu em disparada, sei que não foi para as vinhas.

Quando chegou, ontem à noite, bateu na porta a ponto de quase derrubá-la gritando por você. Quando lhe disse que você não estava, ele sentou-se e mandou-me dormir. Perguntei o que acontecera, ele disse que não sabia, que você saíra sem avisá-lo, deu um murro na mesa e disse baixinho: “eu tanto que pedi que se acontecesse alguma coisa me chamasse”. Eu não consegui dormir até você chegar, isto é, quando vocês pararam de gritar. Mas eu sei que foi alguma coisa que a bruxa fez com você. Acho que ele também sabe, deve tê-la arrancado da cama.

Meu Deus! Será que ele foi lá? Se acaso foi, o que pode ocorrer? Só se a própria Condessa falar!

-         Sei que está preocupada Misca, mas eu não quero falar nada agora. Preciso de um tempo para pensar, esta bem? Ele tem todo o direito de estar irritado.

-         Irritado? Claro que não. É muito pouco para ele, ele está igual a dia de tempestade, de seus olhos saem raios que podem fulminar qualquer um.

Quer almoçar? É, já é bastante tarde, quase hora do almoço.

Troco de roupa, e mesmo em dizer que estou sem fome, ela diz que vai fazer meu prato, pois fez algo que eu gosto.

Como para satisfazer Misca. Meus pensamentos estão longe.

Tento ter lógica, mas é tão difícil com a emoção tomando conta de mim.

Relembro toda a festa, revejo tudo. Mas é a memória que funciona, os fatos soltos pairando na minha mente.

A única coisa que sei, a única verdade: é que o amo.

Entardece, e eis o lago. Há nuvens no céu, provavelmente irá chover.

Só sinto a serenidade quando penso no meu filho.

Por mais que Krisztina seja descontrolada, penso nas suas palavras.

Não consigo reter a imagem de Igor lamentando-se com ela.

Ele é idealista demais, ama o próprio amor. Lembro-me das palavras dele: “Meu amor independe do que você sente...”. Ele é idealista. Não sendo eu o ser amado e sim o próprio sentimento, eu não teria sentido, nada teria sentido. Estaria vivenciando o quê?

Um ideal criado por ele?!

Tanto Krisztina como a Condessa estão lutando por ele; por nossa separação. Quanta loucura!

Uma com o objetivo de tê-lo; a outra, manter o poder. As duas têm um amor doentio.

Sorrio, Krisztina tem suas “boas” razões para tanta luta.

Um homem por demais atraente. Adoravelmente...

Natasha, pense no problema e não nele; nem no que sente por ele!

Mas ele me deixa tonta, meu ser pede por ele.

É um grito surdo, quero estar com ele.

Nos seus olhos eu me encontro.

Vem o sorriso, aflora o brilho nos olhos.

O mundo pára! Só existe a luz do sentimento.

Só escuto o palpitar do meu coração.

Mergulho com um suspiro neste palpitar.

E o brilho emerge do meu ser, amo você. Como pode ser tão forte?

Não posso pensar em tirar conclusões se nem, ao menos, tiro você da minha cabeça?

Como pode ser tão extenso? Forte e extenso, é um fato. Eis o que você falou: render-se a uma força maior!

Você me excede, o sentimento excede...

É a verdade.

Amo-o de tal maneira que nem a sensatez tem lugar. Na verdade o amor toma plenamente tudo.

A incerteza do seu sentimento para comigo me assola e gera uma profunda agonia, angústia.

Deus! A que ponto estou chegando!

Coisas precipitadas. E meu ser grita:

Amo você, mago. Amo você, é tudo que sei, pois é tudo que sinto.

Cai à noite, o sol morre, para renascer amanhã. Quem sabe mais forte.

Sopra o vento, irá chover.

Onde ele estará?

Sinto a insensatez de perto, a briga interior. Estou louca que ele chegue, e, ao mesmo tempo, não o quero perto.

Janto sozinha. Mikail apareceu para saber se estava bem.

Seria por parte dele uma grande infantilidade querer preocupar-me.

Mas ele é tão imprevisível, arrebatadoramente imprevisível.

Ele mesmo pode estar se dando um tempo.

Estou na sala lendo, volta e meia Misca aparece, dou-lhe um sorriso para tranqüilizá-la.

Ouço o pisar de patas de cavalo. Será ele?

O coração dispara, minha mão treme.

Fixo a atenção no livro, tentando ler. Não consigo.

Talvez não seja ele! Talvez seja Val.

Levanto-me e vou à cozinha pegar um chá. É isso, um chá pode me acalmar.

Sigo a cozinha com o pedido nos lábios.

Paro na porta. Ele! Entrando também na cozinha, joga o que esta nas mãos na mesa, a olhar-me fixamente.

Que diabo de sensação! Só ao vê-lo meu corpo treme!

Misca olha para ele e para mim, e salva meu constrangimento, perguntando-lhe: - Já jantou?

-         Não!

-         Ótimo! Então colocarei seu jantar, ou vai tomar um banho antes?

Ele não tira os olhos de mim, nem para responder a Misca.

-         Vou tomar um banho. Dê-me licença. Você já jantou, Natasha?

Afirmo com a cabeça, sem conseguir falar.

Ele passa por mim e sobe as escadas, peço o chá a Misca e volto para a sala.

Pego o livro e sento-me. Ouço o barulho lá em cima. Misca traz o chá, tomo-o rapidamente.

Onde estaria tudo que havia planejado falar?

É outra coisa que aprendo: não adianta programar o que se quer dizer quando a emoção está descontrolada. Não, novamente estão juntas:emoção e sentimento.

Ouço seus passos na escada. Pelo canto dos olhos vejo-o abotoar a camisa, seus cabelos molhados. Entra na cozinha. Misca pergunta se ele quer que ponha o jantar na mesa da sala. Ele diz que comerá na cozinha.

Viro a página do livro, sem ao menos ter lido! E esta maldita inquietação.

Sabe o que é melhor fazer. Subir e tentar, digo, tentar dormir.

Levanto-me. Subo a escada.

-         Natasha?!!! - sua voz vem da cozinha,

-         Fale. - continuo na escada.

-         Aonde você vai?

-         Dormir. Boa noite!

Ouço o arrastar do banco. Ele aparece na escada.

-         Espere-me, quero falar com você.

-         Estou com sono.

-         Espere-me.

Subo as escadas e entro na biblioteca. Sento-me na cadeira em frente à escrivaninha e abro o livro novamente... Uma página, viro outra.

Ele chega, elevo os olhos do livro. Senta-se na escrivaninha à minha frente, rosto baixo para me ver, desabotoa três botões da camisa. Suava um pouco.

-         Está quente, vou abrir a janela.

Ele pega meu braço e me faz sentar.

-         Quero falar com você. Como foi seu dia?

-         Bem. – respondo.

-         Bem em que sentido?

-         Andei fazendo algumas avaliações, pensando na vida...

-         Natasha, seja objetiva, sem subterfúgios e evasivas!

-         Afinal, o que você quer saber? Um relatório do meu dia?

Ele respira devagar, como para se acalmar.

-         Quero saber de ontem. O que aconteceu em primeiro lugar; depois por que você veio para casa sem falar comigo. Fiquei zonzo na festa procurando-a. Foi quando fui à rua e me disseram, o cocheiro, que você saíra a cavalo com Mikail. Estou esperando: o que houve?

-         Não me senti bem. Pedi a Mikail para trazer-me a casa. Não o chamei porque era cedo, você deveria querer ficar mais algum tempo. Mikail não queria me trazer, mas praticamente o forcei a isso.

Ele balança a cabeça, morde os lábios, pula da escrivaninha e fala devagar.

-         Deixe-me ver se entendi direito. Então, quer dizer que você coagiu Mikail a trazê-la. Coitado do rapaz! Não se sentia bem... Não me chamou porque passou pela sua cabeça que eu poderia estar gostando da festa.

Você me toma por algum imbecil! - exclama ele num tom irado.

Primeiro você sabe que não gosto daquele tipo de festa. Depois, sabe muito bem que não faria questão de trazê-la e ficar com você aqui em casa.

O que está acontecendo Natasha? Por que Mikail e não me chamar?

Depois de sua saída, por causa do mal-estar, onde ficaram tanto tempo?

-         Perto do lago, conversando.

Ele encosta-se na escrivaninha, passa a mão nos cabelos, e, ironicamente, repete.

-         No lago... Conversando. Conversando sobre o quê?

-         Sobre a festa. Sobre mim mesma.

-         E essa conversa deve ter sido muito produtiva, pois hoje passou o dia a fazer avaliações. Posso saber que avaliações você fez?

-         Você passa o dia inteiro fora, não vem almoçar, e eu não estou lhe pedindo qualquer relatório do que você fez ou deixou de fazer. Com licença estou com sono.

-         Sente-se aí!

Ele me empurra de leve na cadeira.

-         Não vai dormir! Quero saber que avaliações fez, sobre o quê?!!!

Olho bem para ele, que está tenso e irritado. Como, também me sinto assim, e falo:

-         Avaliações sobre nós, nosso relacionamento, nosso casamento, nosso sentimento.

Sua respiração é rápida e intercortada.

-         Qual a conclusão?

-         Ainda não sei, posso só lhe dizer que estou avaliando muitas coisas, coisas minhas. Boa noite!

Levanto-me e vou para o quarto, ele chega à porta e fala:

-         Natasha, eu não sou criança, não engoli o que você falou.

Existiu alguma coisa naquela festa, e você não quer me contar.

Pensei hoje em ir à casa da Condessa e arrancar dela o que aconteceu. Mas pensei melhor: Seria a pior coisa que eu poderia fazer.

Portanto quero a verdade!

-         Por que a Condessa, quem sabe Krisztina?

-         Você não é tola de acreditar nas conversas de Krisztina.

- É, você tem razão, talvez não, quem sabe, você. Saia do quarto que quero dormir.

-         É meu quarto também. Estou calmo, mas estou perto de perder a paciência.

-         É mesmo? E o que você faria se perdesse a paciência? Porque já perdi a minha.

Ele se senta na cama, coloca o rosto entre as mãos, fica um tempo assim, volta-se a mim e fala:

-         Sim, claro, você tem Mikail como um amigo, como ele é...

Ah, Deus Pai! Você consegue tirar minha razão.

Um raio clareia nosso quarto, logo vem o barulho estrondoso do trovão, mas os olhos de Igor estão pregados em mim.

-         O que houve a ponto de fazer você avaliar seus sentimentos? Você está com dúvidas do que sente por mim? É isso? Seu sentimento está mudado? É isso, Natasha?

Pego minhas roupas de dormir e saio do quarto. Ele me alcança no corredor, seus olhos brilham. Encosto-me na parede. Olha-me tão estranho. Encosta os próprios braços na parede, fico entre eles, sua voz é baixa e lenta, seus olhos estão tristes. Fala então:

-         Pode ficar com o quarto. Eu durmo no outro. Só quero lhe pedir uma coisa, uma única coisa. Se acaso, você tem algo em relação a nosso sentimento, que me fale. Não tenha medo, só não me deixe ficar na expectativa. Não consigo mais. Já esperei tanto tempo. Eu não agüentaria mais...

Baixo os olhos, meu coração está apertado, meu peito dói.

Por que toda essa confusão? Por que não lhe conto a verdade. Orgulho, raiva... Emoções que não levam nada, que impedem de sentir e ver o que realmente importa.

Pergunto baixinho:

-         Você não agüentaria o quê?

Seu olhar é profundo, a tristeza por demais evidente. Ele baixa os braços.

-         Vá dormir Natasha.

E sai pelas escadas.

Meu Deus o que estou fazendo?

O que estou fazendo a ele? O que estou fazendo a nós?

A luz dos raios clareia o corredor. Ele está sofrendo, eu estou sofrendo...

Vem o trovão, o grito no meu peito é maior: Eu o amo!

Igor!... Largo as roupas no chão, corro para escada.

Chego à cozinha, ele não está.

Será que saiu?

A angústia sufoca meu coração, mal consigo respirar.

Abro a porta da frente, não o vejo! No céu não se vê uma estrela, só nuvens baixas, escuras e pesadas.

Corro ao jardim, nada!

Igor! Onde você está?

Um rasgo de luz clareia tudo. Meu peito dói. Como posso ser tão infantil?

O rasgo de luz espalha-se no céu. O estrondoso trovão assusta-me. Não me detenho: quero achá-lo.

Cai a chuva, pingos fortes.

Igor! Será que foi ao lago?

Minhas roupas já estão molhadas. Corro, corro.

Minha roupa pesa, levanto o vestido. A terra está encharcada.

Deus! Para onde ele foi, o que fiz?

-         Igor! Igor!

Tropeço, recupero o equilíbrio. Paro, tomo fôlego.

A escuridão é tomada por outros raios.

-         Natasha!

Ouço seu grito. Meu coração bate rápido, ele.

Volto-me. É ele a cavalo!

Grito seu nome, ele me vê.

O trovão faz o cavalo levantar as patas, ele o acalma.

Pula do cavalo, vem em minha direção.

Seu rosto sério.

Seu olhar intenso.

Pega-me e coloca-me na sela e sobe.

Sentir seu calor, mesmo com a chuva, é tudo que mais preciso, encosto-me nele.

Poucos minutos depois estamos no estábulo, ele desce e pega-me. Volta-se para tirar a sela do animal. Sem me olhar, fala:

-         Você não precisa fugir de mim. Já lhe falei para não temer, seja o que for, que venha a me falar. Fui rude com você, desculpe-me.

Olho para ele, que ainda está de costas, enquanto torço meu cabelo.

-         Eu não estava fugindo de você. Estava procurando por você. Como não o encontrei em casa, pensei que você estivesse saído.

Ele coloca a sela no chão e fala.

-         Eu estava aqui. Vim ver os cavalos. Eles se assustam com os trovões. Vi você saindo, gritei e acho que você não me ouviu... Vá tirar essa roupa, está ensopada!

-         E você?

-         Vou prender este cavalo.

-         Quer um chá quente? Vou fazer para nós.

Ele não responde, simplesmente me olha.

Entro na cozinha, coloco água no fogo. Deixo um rastro de água em toda cozinha.

Igor entra e fala:

-         Vá tirar essa roupa, senão pode adoecer.

-         Logo a água irá ferver, você, também, está todo molhado.

-         Vá tirar a roupa que faço o chá.

Subo as escadas correndo, o frio começa a chegar, visto minha camisola, mas o frio continua, pego o casaco dele e com ele me agasalho. Pego, também, uma toalha e uma camisa para ele, penteio meus cabelos e desço. Estou na porta da cozinha a olhá-lo, ele coloca o chá nas xícaras, e ao ver-me abre um sorriso espontâneo.

-         Está muito elegante.

-         Tire sua camisa, trouxe-lhe outra.

Ele tira a camisa, os pingos de água descem por seu rosto. Como está belo!

Pega a toalha, enxuga o corpo, depois os cabelos, balança-os para enxugá-los melhor.

-         A camisa...

-         Não estou com frio. Você está?

Balanço a cabeça confirmando, sento-me no banco pegando o chá, minhas mãos tremem. Mas não é de frio, é do efeito que ele causa em mim.

Ele se senta à minha frente, sua mão vem em direção à minha...

Mas ele pára e pega a xícara.

O silencio é total, só a chuva batendo nos vidros da janela.

O chá me aquece um pouco. Mas seus olhos negros olhando-me dizem tantas coisas, que um tremor percorre meu corpo.

-         Ainda tem frio?

-         Tenho.

Ele levanta-se e vem para meu lado, passa a perna no banco comprido, senta-se como quem monta a cavalo, chegando-se para junto de mim.

-         Posso aquecê-la?

-         Pode. - respondi com o rosto abaixado e enrubescido.

Então, envolve-me com os braços. Sua respiração é quente nos meus cabelos. O calor vem chegando... Chegando... Não sei o que falar.

-         Quer chá?

Viro o rosto a ele, que está de olhos fechados. Abre-os como se acordando e fala:

-         Não. Tudo que mais quero, que mais amo está comigo, agora. Nada mais importa, só o que você tem a me falar.

São olhos nos olhos.

-         Eu nunca iria fugir de você. Por que pensou nisso?

Ele continua calado.

-         Quando lhe falei de avaliações, não foi me referindo ao meu sentimento, mas ao seu para comigo. Quanto ao meu sentimento sei muito bem avaliá-lo e tenho a certeza do que sinto, Igor. Amo-o, como nunca pensei amar.

Aí então, ele encosta sua cabeça no meu ombro, e me abraça forte e demoradamente. Encosto a cabeça no seu peito.

-         Ontem ouvi tantas coisas ruins. Ouvi Krisztina falando com você no jardim.

Ouvi-a dizer que você não me amava, que sempre voltava para ela depois de uma desilusão. E o que me deixou mais aflita foi ela dizer que você amava o próprio sentimento do amor e não a mim. Isso sim, teve uma conotação forte.

Saí de perto e pedi para Mikail trazer-me para casa. No caminho pedi-lhe para parar, e chorei, porque me veio o medo. Medo de realmente você amar o sentimento e não a mim. E quanto mais eu avaliava, ate pensei: como ficar com ele, pois, não é a mim que ele ama. Lembrei-me, então da sua frase: “meu sentimento independe do seu...”. Busquei a sensatez, não a achei. A única coisa que permanecia era o sentimento de que eu o amo.

Tive raiva! Mas só me dei conta da realidade quando ouvi de você: “eu não agüentaria mais...”. Corri atrás de você.

Ele me aperta com força, com o rosto no seu peito ouço seu coração.

-         Deus Pai! Veja o que aconteceu. Quando você falou em avaliações de sentimentos, suas palavras caíram como água fria em mim. Antes, eu queria saber o que tinha acontecido, mas eu não pensei na possibilidade de seus sentimentos terem mudado. A vontade era sacudi-la para você falar. E me ocorreu de repente! Se ela disser que não ama? Não teria condições de ouvi-la falar isso. Por isso saí. Precisava de um tempo para ver-me dentro dessa possibilidade.

Posso suportar tantas coisas, mas não teria condições de ouvi-la dizer que seus sentimentos por mim mudaram. Como o ser humano se torna impotente. E veio: eu não agüentaria mais. Esperei por você tanto tempo, mas, é claro, não teria como exigir para você ficar comigo. Fui para o estábulo e a vi correndo na chuva, gritei por você e você corria. Pensei, fui rude, assustei-a e ela está fugindo. Natasha, não podemos permitir que essas coisas nos influenciem. Como eu poderia amar o sentimento do amor se apenas o conheci quando a vi? Nunca o tinha sentido antes. Já lhe afirmei que tive outras mulheres, porém, nunca amei ninguém. Muito menos iria a Krisztina para lamentar-me. Todas as mulheres com quem tive contato sempre as respeitei profundamente e jamais faria comentários com outra pessoa.

Posso ter meu sentimento independente do seu, pois eu a amo. E, hoje, tudo que mais quero na vida é partilhá-lo e comungá-lo com você. E, por alguns instantes, vi esse mundo nosso ruir. Não podemos permitir que esses falatórios tomem dimensão na nossa vida. Chegue a mim ou eu a você, aí, nós dois teremos a total abertura para examiná-los. Se você ouviu a conversa com Krisztina, deveria ter entrado e falado. Você nem chegou a ouvir o que eu lhe respondi. Isso deu margem a você ter mil pensamentos. Como, também, fiquei a pensar: por que ela não me chamou para ir embora e saiu com Mikail?

Não deixe que pessoas como Krisztina ou a Condessa venham a interferir no que é sagrado a nós.

Meu pensamento vai à Condessa. Se eu falasse tudo a Igor!... Mas se ela cumprir sua promessa? Tenho que pensar. São coisas tão sérias que dizem respeito à sua liberdade. O homem que vivo e amo, que tem em si a liberdade plena!

- Tenho algo mais a lhe dizer, desde ontem que era para lhe falar, mas não deu tempo.

Viro-me de frente para vê-lo melhor.

Seus olhos estão serenos, ele os fecha e chega-se a mim, e beija-me.

O clima na cozinha é aconchegante, a lenha no fogão a clarear e a esquentar.

Até a chuva, agora, é suave.

A fisionomia de Igor expressa tranqüilidade, bem-estar. Esse homem mágico.

-         Estou esperando um filho, estou grávida.

Ele franze a sobrancelhas, aperta os olhos: não consegue deter a surpresa.

-         Um filho?... Nosso filho!

A idéia, associada ao fato, percorre rapidamente sua fisionomia, ele vai assimilando, e vem um sorriso. Puxa-me e envolve-me em seus fortes braços.

Faz-se o silencio, fruto da grande emoção que nos assalta. Vem-nos a idéia do princípio da continuidade. O expressar é feito em gestos. Encosto-me nele, que levanta meus cabelos e beija minha nuca.

O tempo...

A chuva lá fora se foi, como minha tempestade interna também se dissipou.

O tempo...

Pela janela, observo três estrelas no céu que brilham timidamente; nossa luz interior brilha muito mais.

O tempo...

A aurora está chegando...Amanhece lá fora, amanhece em nós.

Viro-me, extasiada. Lentamente, o céu começa a clarear.

No fogão existem mais cinzas que brasas.

A claridade do raiar do dia começa a tomar conta do ambiente.

Levanto-me e o convido a me acompanhar até a porta. Que cena maravilhosa!

Igor fica atrás de mim, abraça-me.

A terra está molhada, chegando-nos aquele cheiro característico de terra molhada.

O Balaton está sereno, cintilante; suas águas estão como que paradas de tão tranqüilas.

Os pingos d’água caem da velha árvore com o rápido movimento do vento, que chega a levantar meus cabelos e minha roupa.

O vento, ou o raiar do dia faz saírem da árvore vários pássaros, que voam deslizando pelo céu.

Suspiro, num misto de alegria e êxtase!

Acho que o mundo acaba de acordar. A Hungria acaba de acordar. É uma sincronia perfeita.

Viro-me para Igor, seu rosto está voltado para o alto: olha os pássaros, ele os acompanha em suas acrobacias.

Devagar, ele vai descendo o olhar para mim, vindo-lhe um sorriso terno. Fico na ponta dos pés e o beijo.

Vem a certeza de que fazemos parte desse quadro; existe uma integração.

Ele puxa-me mais a ele e susurra: - vamos subir para nosso quarto.

Entramos em casa, mas volto a olhar para essa terra encantada, querendo registrar na memória todo este belo amanhecer.

Nosso quarto já tem a claridade alaranjada da chegada do sol. Ele fecha a porta e se encosta a ela. O sol a bater nele. Cena bonita, ele sem camisa, a cor do raiar do dia a acentuar a beleza natural. Seu sorriso sereno, também sorrio.

-         Queria, amada, que todo ser sentisse o que sentimos. Que respirassem o que respiramos.

-         Nosso ar é um só: amor!

Sua voz:

-         Percorra-me. Sou seu Caminho, você é o meu.

Adormecemos, depois, pensando em nosso filho.