Taças

Conflito

Final de Junho.

Noite de lua cheia.

 

Estou à frente do espelho, meu vestido é lindo.

Nunca vesti algo tão luxuoso, está perfeito!

Misca tem mãos de fada. Ele é de cor champanhe; com rendas num tom mais escuro. São várias saias. Estou bonita, seria falsa modéstia se dissesse que não.

Meus cabelos estão penteados como no casamento, Misca fez um arranjo com flores pequenas, cacheou as pontas do cabelo.

Dou uma volta para ver-me mais: nossa, Natasha, você está uma dama!

Minhas mãos tremem. Que é isso? É apenas uma festa.

Como ele me achará?

Foi à tarde para Badacsony, a pedido da Condessa. Foi de má vontade.

-         Natasha, você está muito bonita, espere até Igor vê-la. - falo comigo mesma.

Vem-me aos lábios um sorriso.

Imagino a felicidade dele quando lhe contar que espero um filho.

Instintivamente passo a mão no ventre.

Um filho, Igor ficará louco de felicidade!

Queria tanto ter-lhe contado antes da festa, mas não podia imaginar que sua mãe iria chamá-lo.

Bem, Sr. Conde, a notícia fica para depois da festa.

Ele vez por outra fala: - Quero ter muitos filhos, amada.

Homem, ficarás feliz!

Um filho, nosso filho. Vem o sorriso.

-         Nossa Senhora! - a admiração de Misca me assusta.

Está linda! Minha menina... Divina!

Sorrio para ela que me rodeia com a mão na boca.

-         Não exagere! Diga-me se estou de acordo com a ocasião. Você já viu várias festas.

-         Se você está de acordo? Você vai esta linda minha menina, o povo da cidade vão ter o que falar para o resto de suas vidas. E quando ele a vir? Você é a luz da vida dele. Foi até bom ele ir antes. Daria tudo para ver o semblante dele quando for recebê-la. Nossa, isso eu queria ver! – Misca continua:

-         Mas tenha cuidado! Existem víboras espalhadas nessa festa. Você, minha menina, será a grande estrela da noite. Não permita que nada a intimide. Krisztina está lá; ela é a réplica da Condessa. Seus lábios podem sorrir, mas não seus olhos. Ela o quer de qualquer maneira. - Misca se aproxima mais de mim, falando baixo, como se alguém pudesse ouvi-la.

Vou lhe confessar uma coisa: naquele dia que a Condessa esteve aqui, fiquei a ouvir tudo, pois tive receio de que poderia precisar de mim, o que não foi o caso, pois você se saiu muito bem. Mas não acredite no que a Condessa falou, que a pobre Krisztina só faz chorar. Ela deve estar se mordendo de raiva, e com isso chega a chorar. Mas ela o tem na mente. Portanto, cuidado! Não permita que tirem essa sua serenidade.

Olhando para ela pergunto: - Como ela é?

-         Uma beleza sem graça, típica da corte. De uma brancura cor de leite, olhos cinza, cabelos loiros e é muito arrogante. Seu pai está falido, mas, ela se comporta como se fosse riquíssima.

-         Muito bem, Misca, estou pronta. Igor ficou de mandar uma carruagem, já chegou?

- Já, como também Mikail. Você não irá reconhecê-lo.

- Mikail?! Igor deve ter-lhe pedido para acompanhar-me.

Misca ri baixinho e balança a cabeça.

-         Ele sabe onde está pisando. Sabe que Mikail lhe dará segurança.

-         Ele pensa em tudo. Misca, amanhã tenho uma surpresa para lhe dizer. E não adianta me perguntar agora!

Olho-me, novamente, no espelho. Aparentemente, tranqüila, mas as mãos frias. Você está bonita, Igor irá se orgulhar de você. Ora, que bobagem. Igor não iria se orgulhar de mim pelo meu traje, e sim por minha segurança. É este o toque que me falta: segurança. Mas, ao passar a mão no ventre me invade uma grande serenidade. Nosso mundo é aqui, e esta festa somente um acontecimento social.

Ao descer as escadas, não acredito no que vejo: - Mikail! Você está elegantíssimo!

Ele se volta, pois olhava um quadro seu na parede. Fica parado a olhar-me.

-         Você está linda, linda como uma tarde de primavera!

-         Você, meu amigo, está muito bem vestido. Que bom irmos juntos. Temos tempo para um chá?

Enquanto tomamos chá, pergunto a ele sobre o que se vê nessas festas.

-         Vamos ver várias pessoas estranhas, algumas interessantes, outras inquietantes; uma grande mistura. O comando estará sob as rédeas da Condessa e de Igor.

Como espectador, parece-me interessante. Sei do desagrado do meu amigo nessas horas.

Você sabe o que é um leão enjaulado? É como estar vendo Igor nessas ocasiões. E o alívio estampado no seu rosto quando as pessoas estão se despedindo.

Penso comigo mesma, sei como ele fica: com ar irritado, enquanto seu outro extremo brinca, ironicamente. Mikail continua:

-         Mas hoje a conotação é diferente, há uma seriedade com a presença do Visconde.

Coloco um pouco mais de chá e falo:

-         Temo por ele. Por ser tão verdadeiro. Sei onde pode chegar se instigado.

Existem pressões contra Igor dos dois extremos. Gente da corte e os nacionalistas húngaros. Mesmo tendo ele uma visão ampla e autoridade, é também, sincero e bastante honesto, principalmente, se for provocado.

-         Natasha, temos dois motivos para esta festa: a chegada do Visconde, e você. A cidade em peso quer conhecê-la. Você pode contornar a situação. A Condessa irá colocar panos frios, só que frios demais. Ela passará para o Visconde uma história irreal. Se ele for inteligente, não acreditará. Ao mesmo tempo, a Condessa não convidou nenhum nacionalista. Ela não correria esse risco.

-         Sei, Mikail, que a Condessa dará uma idéia que tudo corre às mil maravilhas. E afirmará que nosso senhor é o Imperador. É inteligente para desviar qualquer assunto comprometedor.

O amor de Igor pela Hungria é incontestável, mas de uma maneira sadia. Seus princípios são fortes; ele é capaz de abrir a boca e falar de coração, ou mesmo, é inteligente para saber que se falar demais poderá comprometer todos os seus planos. Não sei, todavia, se ele irritado, é capaz de ficar calado.

Mikail olha-me atento e fala:

-         É por isso que digo que você tem que estar perto. Você o conhece o suficiente para saber quando deve interferir. Por sua vez, o Visconde veio sondar, ele não veio comprovar. Irá ouvir um pouco daqui e dali.

Muito bem, está na hora de irmos.

Despeço-me de Misca, que faz mil recomendações.

Saímos, a carruagem preta está a nossa espera. O cocheiro vestido para a ocasião, dá-me uma noção do que me espera. Entramos e aceno para Misca.

-         Você está nervosa, Natasha?

-         Um pouco. Quero fazer-lhe uma pergunta. Como é Krisztina?

Mikail me olha sério e responde:

-         Nada que possa ameaçar você.

-         Misca fala dela como sendo uma pessoa fútil e venenosa. Mas sabemos o quanto Misca, é exagerada.

-         Krisztina é assim. Mascara todos seus sentimentos num perfil angelical. Se comparar, teremos uma natureza-morta, com um amanhecer vivo e esplendoroso.

Sorrio e falo:

-         Sua visão das festas é totalmente diferente das de Igor. Criativo como é, tudo pode ser motivo de inspiração. Uma visão de espectador, como você mesmo colocou. Onde as cenas, e rostos ficam presos na sua mente para uma análise, não é?

Ele ri e responde:

-         Quando falo que você é de uma sensibilidade e inteligência raras, eu não minto. Você, também, analisa tudo, com muita sensibilidade. É incrível, estou tentando acabar uma tela sua, aquela que você está sentada às margens do lago. Mas falta um detalhe: no momento em que pintava seu rosto, seus pensamentos estavam distantes, e seu olhar se ausentou, sua fisionomia excedia.

-         Recordo-me bem, realmente meus pensamentos estavam longe. Recordava um sonho, um lugar que nunca estive. Chegamos! Mikail.

A casa da Condessa está iluminada, olho pela janela, é realmente um palacete. Sinto a mão de Mikail na minha e fala: - Vai dar tudo certo.

-         É o que espero, Mikail. Só mais uma coisa, não me deixe sozinha por muito tempo.

-         Claro, pode contar comigo.

A porta da carruagem é aberta, um tapete vermelho vai da calçada até a entrada da casa. Casa? Isso não é uma casa, casa é a nossa. À frente desse palacete, grandes arranjos de flores. Desço da carruagem, Mikail, em pé, me espera e me dá a sua mão.

Subimos alguns degraus até a entrada principal.

À porta... Pensei estar preparada para tudo. Nunca vira um lugar tão luxuoso, tão rico.

Olho, espantada, para Mikail e tento voltar a mim.

Um lustre enorme de cristal com velas trabalhadas está acima de nossas cabeças.

O teto é todo trabalhado, todos os contornos em dourado.

Sinto uma leve tontura em pensar: Este é o lugar da Condessa, e foi ou é ainda, também, de Igor!

Um homem, vestido de vermelho, bate com um cajado prata no chão três vezes, e nos anuncia.

Olho para baixo. Um imenso salão, também ricamente decorado.

Terei que descer alguns degraus. Mais de cem pessoas lá embaixo param de falar e se voltam para nós. Não consigo distinguir ninguém. Que Deus me ajude!

Os segundos são arrastados...

Volto o olhar para baixo, então o sangue volta a correr novamente. Avisto Igor, é ele.

Estava de costas, mas voltou-se rapidamente. Nossos olhos se encontram.

Como está bonito! Veste-se, formalmente, de preto.

Ele sai do meio das pessoas e vem em direção às escadas.

O mundo pára, o tempo pára; só existe ele, o mago. O brilho intenso nos olhos me esquenta, envolve-me.

Homem é nos teus olhos que me acho, que há vida.

Ele chega a meu ouvido:

- Vida! Quer fugir comigo? Dividi-la, é puro desperdício... Está linda!

Sorrio, agora tranqüila.

-         Boa noite, Mikail, obrigado por ter vindo. Vamos descer.

Ele pega meu braço e descemos os degraus; a Condessa se aproxima.

-         Está lindíssima!

-         Obrigada, senhora!

-         Há muitas pessoas querendo conhecê-la, mas teremos tempo para apresentações. Devo-lhe dizer que estou impressionada com o seu bom gosto. Mikail é um prazer tê-lo conosco.

Não ouço a resposta de Mikail. Volto-me para Aurel, que fala afetuosamente comigo; em seguida, sou apresentada ao Visconde, um homem baixinho, jovem, ainda, com um enorme bigode.

Enquanto trocamos formalidades, sinto um forte olhar em mim. Krisztina, tenho certeza que é ela.

Olho para o lado, a descrição confere; loira, seus olhos acinzentados, contém hostilidade.

Mas não é dela que sinto o olhar: junto a Krisztina vejo a senhora que estava com Igor na tarde em que brigamos. A mãe de Krisztina é que me chama a atenção.

-         Alguma coisa, vida?

-         Pode ficar tranqüilo.

-         Qualquer coisa, chame-me.

Estou cercada de pessoas.

A Condessa me apresenta, não consigo sequer juntar o nome às pessoas.

Vejo Igor distanciar-se com o Visconde e sorrio para tranqüilizá-lo.

O salão em que estamos é enorme. O bom gosto é visível em todos os detalhes, mas a sofisticação não condiz com Badacsony.

Músicos se instalam num tablado no momento em que homens, uniformizados, começam a servir alguma coisa em bandejas ornamentadas.

As cenas são rápidas na minha cabeça.

É evidente que cada detalhe foi estudado pela Condessa.

Ao pensar nela, sinto sua mão no meu ombro.

-         Quero que conheça a senhorita Krisztina.

A minha frente, a moça num vestido azul. A cor dos seus olhos é belíssima, mas a expressão do olhar, como a das faces, é de ansiedade e de agressividade.

-         É um prazer conhecê-la.

Ela esboça um sorriso.

-         Esteja certa que o prazer é todo meu.

-         Krisztina, onde estão seus pais? Eu não os vejo.

-         Ah! Condessa, minha mãe foi para o jardim.

-         Então, dê-me licença que irei até lá. Natasha, Krisztina pode lhe dar qualquer informação ou ajudá-la, pois é praticamente da família.

É a primeira vez que a Condessa pronuncia meu nome. Indago a mim mesma se a mãe da moça está lá fora ou se realmente foi uma desculpa da Condessa para me deixar sozinha com Krisztina. Que importância teria?

-         Está gostando de Badacsony?

-         Gosto de toda esta região do lago.

-         Deve ser muito difícil a uma pessoa que tanto viaja adaptar-se a um só lugar, não é?

Sei aonde ela quer chegar.

-         As dificuldades existem para ser superadas. Posso lhe dizer que estou bem adaptada.

-         É. Sua adaptação é mais fácil porque está no campo. Talvez mais difícil fosse morando aqui, com pessoas civilizadas.

-         Acho Igor uma pessoa extremamente civilizada.

Ela fica vermelha. Que conversa sem sentido, mas ela continua.

-         Não falava de Igor, e sim das pessoas que o rodeia. Mas ele faz determinadas coisas só para desagradar sua mãe. Sempre foi assim.

-         Não. Acho que ele faz “determinadas coisas” não somente para desagradar a Condessa, mas porque é assim que ele sente, pensa e age. Ele é autêntico, não o vejo com atitudes infantis para chamar atenção de ninguém.

Seus olhos perderam o tom cinza, e passaram a verde. Olho em volta, como vendo um meio de sair dessa conversa desagradável. Mas ela toca no meu braço e continua.

-         E o que me diz do seu casamento?

-         Não estou entendendo sua pergunta, senhorita, pode ser mais clara?

-         Seu casamento a todos parece uma forma de rebeldia dele contra os valores da Condessa.

-         E para a senhorita, o que é?

Ela enche-se de ar. Espero que ela despeje logo sua raiva, pois estou enjoada com esse tipo de conversa.

-         Igor é muitíssimo inteligente. Casando com você ele pode convencer sua gente de que é um homem sem preconceitos, que tem suas próprias metas.

Veja que coisa mais convincente, senão o de casar-se com uma moça humilde. Ele se alia aos humildes e se iguala. Não quero chocá-la com minha opinião, mas deve entender que conheço Igor desde criança. Conheço-o tão bem, que sei, exatamente, ter sido isso que ele planejou.

-         É muito interessante saber que essa é a visão que vocês têm dele: um manipulador, usando as pessoas. Acho que deve fazer uma reavaliação sobre seu conhecimento a respeito de Igor.

Passa uma bandeja com ponche, pego um copo e ela também, suas mãos estão trêmulas. Ao pegar o copo, vejo Igor a minha direita. Ele sorri, tenho certeza que ouvira nossa conversa, simplesmente por sua maneira de olhar.

E ela continua a falar, só que em voz baixa e em tom ameaçador.

-         Natasha, você não me conhece. Sua vida será um inferno, tenho muitos aliados, enquanto você é uma pessoa sozinha aqui.

Deus meu, esse assunto não acaba? Já não tenho a menor paciência.

-         Outro grave engano seu, o fato de estar sozinha aqui, não me intimida em nada. E, quanto a aliados, eu tenho um, que para mim, vale por todos.

Sinto a mão de Igor no meu ombro.

-         Igor, você está de parabéns. Natasha é uma moça muito bonita.

A voz de Krisztina perde toda agressividade. Igor olha-me pelo canto dos olhos.

-         Concordo plenamente.

Ouço a voz da Condessa, e, pela primeira vez, gosto de vê-la chegando, pois não agüentava mais ouvir Krisztina. Ela chega com os pais da moça. São feitas as apresentações, mas não escuto o nome deles, pois os músicos começam a tocar. O pai da moça conversa alguma coisa com Igor, viro-me para a mãe de Krisztina, ela tem o olhar insistente em mim. Não existia raiva em seus olhos. O pai de Krisztina convida a Condessa para dançar.

-         Igor, você poderia dançar essa musica comigo. Você não se incomoda, não é Natasha?

-         De maneira alguma.

Sorrio ao ver seu rosto contrariado.

-         Desculpe-me, seria possível ir até o terraço, dos jardins, comigo? Não me sinto muito bem em lugares com muita gente, faria questão?

Acho estranho, será que essa senhora quer deixar a filha sozinha com Igor, sem minha presença? Mas eu, também, preciso de ar puro.

Solto uma exclamação involuntária ao chegarmos ao jardim, o terraço é todo de mármore e termina num belíssimo jardim, com algumas estátuas entre os bem cuidados canteiros.

O perfume das flores chega a mim. Olho para ela que, com ar simpático, senta-se numa cadeira de ferro e acena para sentar-me a seu lado.

-         Você gosta da natureza, não é?

-         Muitíssimo, faz parte de mim.

Ela se mexe na cadeira e fala.

-         Desculpe o inconveniente da minha filha.

Eu digo-lhe que não tinha que se desculpar. Ela é uma mulher fina e muito bonita, seus cabelos têm poucos fios brancos.

-         Natasha é um lindo nome, quem lhe deu?

-         Minha anya.

A senhora pega as pregas do vestidos e pergunta-me se sou feliz aqui. Olho bem para ela e respondo que sou extremamente feliz.

-         E sua família?

Onde essa senhora quer chegar? Sondar-me para dar informações para sua filha? Que o seja, eu não tenho nada a esconder.

-         Minha família, como a senhora deve saber, é cigana, e está em Tihany. Viajaram todos logo depois do nosso casamento.

-         Você deve sentir muita saudade de seus pais, não é?

-         Muita. Somos muito apegados.

Ela respira profundamente, e pergunta.

-         Qual o nome de sua mãe, Natasha?

É a primeira vez que alguém pergunta o nome de anya. Chego a achar engraçado.

-         Lorna, minha anya, chama-se Lorna.

A senhora tosse nervosa, seu olhar se perde no meu rosto e depois se distancia e repete o nome de anya. Ela está pálida. E falo-lhe que irei chamar alguém. Ela segura minha mão e nega com a cabeça e fala:

-         Não, por favor... Eu lhe falei que não me sinto bem em lugares com muita gente. Fale-me da sua família. Você tem irmãos, avós?

O que vou falar-lhe; é visível que ela não passa bem, porém talvez, o mal-estar passe logo.

-         Tenho um irmão mais velho que eu, chama-se Andrei, que era o nome do meu avô...

Senhora... Por favor, vou chamar alguém! Espere-me um pouco.

Não lhe dou tempo para responder; levanto-me e vou ao salão, vejo Mikail e aceno chamando-o.

Explico-lhe o que ocorre, ele vem ao jardim comigo. Encontramos a senhora com um pouco mais de cor na face. Ela nos sorri, como mostrando-nos que estava bem. Mikail oferecesse para chamar-lhe o marido. Ela nega e pede-lhe, por gentileza, uma água. Sento-me a seu lado.

-         Seus cabelos têm a mesma cor que seus olhos. Conheci alguém assim.

Ela levanta a mão trêmula e alisa meus cabelos, fico constrangida embora seu gesto fosse carinhoso e gentil.

-         Você é muito bonita, Natasha; transmite muita serenidade. E de todo coração desejo toda felicidade a você e Igor.

Ia responder-lhe, mas Mikail chega com a água. Por mais estranho que pudesse parecer, sentia sinceridade nela. Observo-a, enquanto ela toma a água. Delicada, gentil e bonita. Seu nome é Elizabeth.

Em seguida, chegam Igor e Krisztina, seguidos da Condessa, o pai de Krisztina, e o Visconde que elogia a festa. A conversa ganha um sentido banal, fico ouvindo-o falar da corte, Krisztina não consegue tirar o olhar de Igor. Vez por outra, sou levada a olhar a senhora Elizabeth. Que conserva um olhar carinhoso. É como Mikail falou: uma grande mistura de pessoas, de intuitos.

É um mundo estranho para mim. Olho para Mikail, que sorrir; ele, sem dúvida, faz o mesmo: observa.

É servido vinho, o Visconde ergue a mão e fala:

-         Pelo nosso Imperador, pelo Império Austro-húngaro!

Um frio percorre minha espinha, olho rapidamente para todos, que estão em volta. Todos brindam, exceto Igor que fala: - Pela Hungria!

O Visconde faz que não ouve, o clima fica tenso. A Condessa chama o Visconde para mostrar-lhe algo. Aurel chega-se a Igor e praticamente o implora para não provocar nenhuma discussão política. Krisztina e seus pais continuam sentados. Eu, Igor, Mikail e Aurel, em pé.

Logo em seguida, a Condessa volta com o Visconde que tem um olhar intrigado. Além de atento, inverte o jogo puxando conversa comigo.

-         A senhora está gostando de morar aqui?

-         Muitíssimo Sr. Visconde.

-         É uma nação muito bonita, pena que não possa vir com mais freqüência até aqui. O Império Austro-húngaro é de todo muito bonito, sua gente, apesar da diferença de língua, é uma gente única. Somos uma nação imponente, um único território, uma única visão, não é Igor?

-         Depende do ponto de vista, Adolfo.

A conversa tem outro rumo perigoso. Estrategicamente, o Visconde me pergunta:

-         Qual o seu ponto de vista? Como nos vê. Pergunto isso por não ser daqui.

Está mais que claro que ele não queria uma confrontação direta com Igor, por isso, está a me usar.

Ele sabe o que pensam a Condessa e Aurel. Pergunta a mim, eu poderia ser ingênua o suficiente para entregar os conceitos de Igor ou levar o próprio Igor a intervir na conversa. “Pense, rápido Natasha. Pense rápido”.

- Sr. Visconde, o senhor, por ventura, já viu um pôr-do-sol aqui no lago Balaton?

O homem balança a cabeça sem entender nada. Krisztina coloca a mão na boca para conter um risinho. Os demais me olham intrigados, continuo:

-         Pois bem, tente vê-lo, é uma visão magnífica, onde ninguém fica imune. A cor do céu é diferente, o lago reflete essa tonalidade. Pela primeira vez, na minha vida, começo a ter um sentimento de amor a um lugar. Já conheci diversos lugares e gostei de muitos, mas não a ponto de ter o sentimento que hoje tenho. Existe o sabor de achar-me em casa. Admiro esta terra e sua gente. Não posso falar o que não sinto, conheço a Áustria e acho-a belíssima.

Mas ao abrir minha janela, a cada manha, respiro a Hungria e seus costumes. Seu cheiro se torna rotina e é inconfundível.

Meu ponto de vista em relação a sermos um único território, uma única gente, ou ao Império Austro-húngaro seria parcial, pois vivo numa parte. Para um ponto de vista real teria que ser imparcial. Ao lhe perguntar se o senhor já viu um pôr-do-sol no lago Balaton e o senhor diz que não, fica difícil afirmar que somos uma unidade, se não se conhece o todo.

Eu creio que o tocante de cada ser humano está no que sentimos, no prisma de nossa visão. A mim, o pôr-do-sol é importante e, talvez, não seja para os demais. Portanto, a meu ver, fica difícil colher uma opinião sobre um assunto que suscita tanta divergência.

O Visconde fica a me olhar e tenta um sorriso. Nos olhos de Igor o brilho é intenso. Mikail sorria e nossa troca de olhar reafirma o que falamos no inicio da noite.

-         Está certíssima. O tocante de cada ser humano está no prisma de sua visão. Muitas vezes temos uma visão distorcida, onde pensamos que estamos certos, a fazer o correto ou o bem, mas na verdade, estamos complicando.

-         Não entendo o que você quer dizer ou aonde quer chegar, Adolfo.

Pergunta Igor intrigado.

-         Simples, amigo, muitas vezes estamos imbuídos de altos ideais e estamos fazendo o que pensamos ser melhor quando, na verdade, complicamos.

Igor solta seu riso e fala:

-         Se o Imperador o ouvisse, meu caro, você estaria em maus lençóis, não sabia que seu julgamento era esse.

Olho, preocupada, para Igor. Ele sabia que não era isso o que o Visconde, queria dizer.

-         Você sabe que não é sobre o Império que estou falando.

-         E sobre o que é?

A suposta ingenuidade de Igor não convence a ninguém. Aurel precipita-se e convida a todos para irmos para o salão, a Condessa manobra dizendo que tem que dar atenção aos convidados. No entanto, Igor permanece no mesmo lugar, e o Visconde também fica imóvel. A Condessa me chama para outra apresentação. Saio com o coração na mão. Suplico a Igor com olhar, ele apenas sorri tranqüilo.

A Condessa me leva para junto de Dr. Lajos. Esta é, sem duvida, uma agradável presença. Conversamos por alguns instantes, mas meu pensamento está preso no terraço, onda ele está.

De onde estou, dá para vê-los. Vejo Igor balançar a cabeça...

Peço licença ao Dr. Lajos. Saio e três passos à frente a Condessa pede-me para acompanhá-la.

Entramos numa saleta, ela aponta uma poltrona e senta-se na minha frente.

O que ela quer comigo, não vê seu filho com o Visconde?

-         Devo dizer-lhe que você parece convincente.

-         Não estou entendendo, senhora.

-         Sua conversa com Adolfo. Mas já sei o quanto é inteligente, e isso não há o que discutir.

Eis a grande diferença entre você e Krisztina. Ela não tem seu raciocínio. Mas, depois de ver ambas, queria estar com você a sós para dizer-lhe sobre o meu julgamento. Em resumo, você não é a pessoa certa para meu filho.

Devo admitir, que você tem grandes qualidades. Mas beleza e inteligência não fazem de você a escolha certa. Falei, na casa de campo, de que não adianta discutir sobre a escolha dele, pois já estavam casados. Até ainda há pouco eu só queria conhecê-la melhor e agora estou apta a isso. E afirmo que você não é a pessoa adequada para ele. Pegando pelo extremo, você só servirá para acentuar as idéias rebeldes de Igor, e isso é o pior que poderá acontecer com ele.

Estou perplexa com tudo que ouço, e pergunto;

-         E o que a senhora pretende fazer?

Ela dá um pequeno sorriso e fala:

-         Até hoje ouvi as lamurias de Krisztina, ficando calada, pois queria conhecê-la e depois ver seu comportamento junto a Adolfo. Tinha certeza de que faria uma boa atuação.

A escolha certa é Krisztina. Sendo assim, vamos tentar nos acertar. Você pode deixar meu filho de uma forma lucrativa. Qual o seu preço?

Sinto-me como esbofeteada. A vontade é levantar e sair, mas não consigo mexer-me.

-         Quanto à senhora acha que valho? A senhora tem noção do que esta fazendo?!!!

-         Plena. Tenho algo que você não tem, o poder. O poder pode com tudo, eu posso acabar com uma pessoa ou fazê-la ser aceita em qualquer lugar.

Em síntese, posso acabar com você, mas estou lhe dando uma chance...

Espere, deixe-me falar.

Estou há anos vendo Igor seguir uma trilha que não é boa nem para ele, nem para nenhum dos nossos. Tenho feito vistas grossas, só que isso está indo longe demais. E, agora, penso em tudo que adquiri, está ameaçado. Fui, inúmeras vezes, à corte consertar o que falam dele. Só que isso é como um balão, que poderá estourar cedo ou tarde. E você não é uma pessoa que posso ter como aliada. Tem raciocínio suficiente para ter suas próprias idéias e concepções. Igor já é suficientemente ideólogo; capaz de realizar tudo que se propõe. Aliado a você, só Deus sebe aonde ele ira chegar. Sei o que está pensando, ele não precisa de ninguém para seguir em frente. Mas se você fosse o tipo que o fizesse mudar de idéia! Só que não é. Não que é uma coisa fácil, e eu, mais do que ninguém, sei o quanto tudo isso me custará. Só que, o que está em jogo, além dele, sou eu mesma. Minha vida é aqui. Aqui construí meu domínio, e não quero ter no meu filho meu inimigo.

Tomo fôlego e pergunto:

-         Responda-me, senhora: como fará para Igor aceitar Krisztina, e o que irá fazer para ele desistir de seus ideais.

Ela novamente ri e fala:

-         Não sou tola e não jogo no incerto, menina. Sei que Igor jamais amará Krisztina, mas isso cabe a mim.

Não quero que me responda agora, pense em tudo o que estou lhe dizendo. Posso fazer de você uma mulher rica e independente, até ser aceita. Longe do meu filho, longe daqui. Posso realizar qualquer coisa que você deseje, menos que fique ao lado dele.

Afirmo-lhe que não tenho nada contra sua pessoa. Acharia, até, interessante tê-la conhecido por outros meios. Até mesmo se você fosse a esposa de Aurel, mas não de Igor. É uma junção perigosa. E não posso ficar indiferente a isso, principalmente, porque a grande prejudicada serei eu.

Outro detalhe: não caia na tolice de comentar com Igor.

Por uma razão palpável eu usarei, em última instância, ou seja, no caso de você insistir em ficar com ele, uma carta do próprio Igor, na qual ele mostra todas suas idéias nacionalistas. Eu mesma a levarei ao Imperador.

Você deve imaginar que sou uma desalmada, mas não sou. Prefiro meu filho longe de mim, recluso por um tempo a perdê-lo como um traidor, ou eu perder o que construí até hoje. É simples, chego ao Imperador dizendo que Igor está sendo influenciado por essa corrente ideológica daqui e peço a ele para extraditar meu filho, ou prendê-lo por um tempo. E pode estar certa de que ele me ouvira. Não é à toa que vou à corte várias vezes ao ano, ouvi-lo falar algumas futilidades, achar graça de suas piadas. Se isso acontecer será por conta do amor que tenho pelo Império e pela aliança Austro-húngara. Como também ele entenderá o pedido não somente o de uma grande patriota, mas de uma mãe que implora por seu filho. O exílio ou a prisão por um tempo. Igor, então, poderá pôr sua cabeça no lugar. Mas essa é minha última cartada; portanto, você ficara calada, pois, caso contrario, faço o que acabo de lhe dizer. Estou no topo da minha paciência. Com Krisztina, terei muitas coisas nas minhas mãos. Com você, meu filho só irá se distanciar cada vez mais.

E o que conta é minha situação, não posso calar indefinidamente os emissários de Imperador, nem tampouco esse movimento. E a grande força desse movimento aqui é Igor. Quero que pense muito no que acabo de lhe propor. Sei o quanto você o ama e quer o melhor para ele. Como também o amo... Bem, cada uma à sua maneira. Sua escolha é simples: ficar com ele significa vê-lo preso ou extraditado; ficar sem ele, mas tendo o que você quiser e sabendo que ele estará bem. Você terá tempo para pensar, aproveite esse tempo.

Já expus o que queria, tenho que voltar à festa senão todos poderão sentir minha falta de atenção. Pense bem, minha querida. Dê-me licença.

Minha mente é um vazio, meu corpo está trêmulo.

-         Senhora Condessa, espere... Como pode ser tão maquiavélica. É seu filho, são seus sentimentos, ele me ama...

Ela sorri e fala:

-         Meu anjo, você ainda é muito ingênua. O amor só serve para prejudicar qualquer relação.

Veja, vivi tão bem com meu marido, e muitas vezes chegava a ter repulsa por ele. Mas, em compensação, construímos nosso patrimônio. Sei que Igor a ama. É provável que você seja o único amor na vida dele. Mas o amor dele por você não é um amor construtivo, nem prático. Aonde você acha que Igor poderá chegar tendo você a seu lado? Ah! Querida, você ainda é jovem, tem muito o que aprender. O amor só serve para estacionar as pessoas, ele só se dá bem com os poetas e artistas. Ele a ama, mas você não é a pessoa certa para ele. Apenas isso. Agora tenho que ir, fique um pouco aqui, você está muito pálida e não é bom que a vejam assim. Até logo mais.

Mesmo que quisesse sair não conseguiria, meu corpo treme.

O que acabo de ouvir penetra no meu ser, impregna como uma doença.

Minha cabeça roda, os móveis à minha frente parecem balançar.

Sinto náuseas. Natasha, pense no seu filho.

Respiro profundamente. Como alguém pode ser tão odioso. Mãe e filho tão diferentes.

Só agora entendo o que Igor sente, é aversão. Ele não a chama de mãe, não toca nela, e ao beijá-la, é um leve e furtivo toque, como se ela o pudesse machucar.

Tenho que melhorar... Dez ou quinze minutos.

Levanto-me e vejo-me no espelho: muito bem, Natasha, você está bem, saia como se nada tivesse acontecido.

Sigo para o terraço, vejo-o, ainda, com o Visconde. No terraço, ouço Igor:

-         ... e como vê, Adolfo, os tempos são outros. A nossa vida aqui mudou muito, ficando difícil tomar como certas as bases tão longínquas de nós.

Ele se chega a mim e indaga:

-         Onde você estava? Fui procurá-la e não a encontrei.

-         A senhora Condessa foi mostrar-me alguns aposentos da casa.

-         E está tudo bem com você?

Afirmo que sim. Pergunto ao Visconde se ele já dançou.

-         Ainda não tive tempo, nossa conversa está tão interessante que nem me dei conta.

-         Divergente, mas interessante. O que chega a ser construtivo. Acredito que é através das divergências que chegaremos a bons resultados. Principalmente, quando os erros são apontados e aceitos. Nada no mundo cresce ou se torna produtivo e positivo sem que, antes, não se consertem ou se aceitem os erros.

-         Onde estão os erros, Igor? No Império?

-         Sem sombra de duvida é muito fácil estar há milhas de distância ditando o que é certo ou errado a um povo que gostaria de ser ouvido.

-         E você faria o papel de falar sobre seu povo?

-         Papel? Você me toma por que Adolfo? Não faço teatro, onde os atores precisam de um papel para representar. Isso aqui não é uma representação, e aí está o grave engano de vocês. A Hungria existe, é uma realidade. Dê-se o trabalho de conhecê-la. Saia às ruas e converse com o povo. Aí você conhecerá e saberá o que pensam os húngaros. Mas caso não se queira dar a tanto trabalho, que ao menos a veja, sinta o que é nossa gente, o que somos. Não é a Hungria que precisa mostrar-se, são vocês que devem ter o interesse, no mínimo, de conhecê-la. E você sabe por quê? Pelo óbvio, são vocês que precisam da gente, foram vocês que construíram o Império Austro-húngaro. Portanto, adubem o que plantaram. Se é que ainda há tempo. A realidade não se encontra dentro do palácio do Imperador, nem nesta casa. Ela está nas ruas, junto à gente simples. São eles a realidade do país.

-         Você poderia ter uma conversa com o Imperador. Mas temo, amigo, que o tomem por um traidor.

Igor sorri e diz:

-         Se você conseguir uma audiência com o Imperador, eu irei. E não tema por mim. Se você se der o trabalho de sair às ruas da Hungria, verá quem o povo pensa ser o traidor. Julgar é uma das artes mais difíceis que o homem ainda não aprendeu. O que vem a ser um traidor? Uma pessoa desleal. Não, meu caro, eu não sou um traidor.

- Queira ou não, é, provavelmente, assim, que o verão. Conhecemo-nos há algum tempo. Conheço você, e por conhecê-lo fiz questão de eu mesmo vir aqui. Mas me assustam suas idéias. Talvez, o melhor mesmo, seja eu marcar uma audiência com o Imperador e, aí, você poderia defender-se.

Igor escuta sério e responde:

-         Fique ciente de que posso ir conversar como Imperador, mas não para defender-me. Não tenho do que me defender. Por Deus, Adolfo, você crê que posso ser tomado por um traidor? Por eu ter os olhos abertos, por conhecer bem minha gente, minha terra. Seria traidor, sem duvida alguma, se fosse um cego. Se não visse as necessidades do meu país, isso me tornaria um traidor.

-         Igor você é um Conde, um Conde austríaco. Seu pai era austríaco, seu titulo vem da Áustria. Seu pai construiu isso aqui, seu nome e sua vida. São coisas que você não pode esquecer.

-         Não esqueço, em absoluto. Por que você acha que meu pai nunca quis voltar para a Áustria? Porque ele amava tudo isso. Vou lhe repetir o que já falei a uma pessoa há pouco tempo: nasci aqui, chamo-me Igor, antes de existir o Conde existe minha pessoa.

Isso para mim é tudo. Gosto do que faço, gosto de onde moro, gosto da minha gente, amo meu país.

Não tinha mais sentido estender a conversa. Já estava tudo tão claro quanto água cristalina. Seja qual for o objetivo do Visconde, ele obteve de Igor sua visão, se não toda, uma parte e, principalmente, no tocante ao seu amor pela Hungria.

O Visconde convida-me para dançar.

Faço um esforço em parecer natural perante a Condessa. Em meio à dança, faço um pedido ao Visconde, não comentar com a Condessa a idéia dele, da audiência de Igor como o Imperador. Não é necessário expor muito, é obvio que ele deve saber das facetas da Condessa. Ele, de imediato aceita. Quem sabe, aí não está a solução para meu dilema. Se o próprio Igor falar com o Imperador, não teria sentido uma carta, onde ele próprio exporia sua visão.

Pela primeira vez, desde que cheguei a esta festa, sinto-me um pouco tranqüila. Acabo de dançar com o Visconde e vou ao terraço, vejo o jardim, olho o céu. As estrelas já estão altas...

-         Você é mais bonita que elas.

-         Mikail, você me assustou. Estava a pensar nesta festa, nessa gente. Sinto-me tão distante de tudo isso aqui.

-         Mas, mesmo assim corre o risco de envolvimento. Tenho olhos clínicos, não esqueça. Você não consegue ficar solta ao lado da Condessa, cuidado, pois ela pode envolvê-la.

-         É, Mikail, a única pessoa que parece imune é Igor. Não posso negar que ela, a Condessa, me incomoda. Que me é nociva. Mas, vamos mudar de assunto, vim aqui respirar ar puro.

Seria incômodo, pedir-lhe um ponche; não gostaria de entrar no salão.

Mikail sorri e vai ao salão. Estou cansada, não fisicamente, a voz da Condessa não me sai da cabeça. Respiro profundamente, como querendo retirar esse peso repulsivo e desagradável.

Ouço a voz de Igor. Vem daquele lado do jardim. Sigo até lá. Está com Krisztina, melhor sair...

-         Igor, sabe o que você sente por essa cigana? Nada! Eu não estou brincando, é verdade. Você criou uma imagem e está apaixonado por essa criação. Ama o sentimento que nutriu durante todo esse tempo. Mas, com o tempo, acabará. Você é idealista em tudo, eu o conheço. Apaixonado pela paixão, amando o amor. E, porventura conheceu essa moça que passou a ser o foco se seus ideais afetivos. Saberei esperar. Já aconteceu em outras vezes. E você voltou, essa, sem dúvida, é mais bonita que as outras. Só não esqueça de duas coisas, foi no meu ombro que você chorou quando seu suposto amor partiu. Segundo, é visível o abismo que existe entre vocês, e quem cairá nele é a cigana, como tantas outras...

Basta! Não quero ouvir mais nada!

Saio do local às pressas.

Quero sair deste lugar. O que vim fazer aqui?!!!

Quero sair desta casa.

-         Natasha, já a procurei... O que aconteceu?

-         Leve-me daqui Mikail. Por favor, leve-me daqui, agora.

-         Espere só um pouco vou chamar Igor.

-         Não! Se você não pode me levar, posso ir sozinha. Tem alguma saída por esse jardim.

Mikail acompanha-me a falar:

-         Espere Natasha. O que está acontecendo?

-         Apenas isso: não fico nem mais um minuto aqui!

-         Vou com você.

Saímos pelo jardim. Já na rua, respiro melhor. Tenho náuseas.

-         Como iremos para casa? De carruagem é que não é. Espere aqui um instante só, que vou conseguir um cavalo.

-         Mikail! Se você entrar nesse covil e chamar Igor terei raiva de você pelo resto dos meus dias.

Ele balança a cabeça e sai.

Encosto-me na parede, respirando fundo para a náusea passar.

Igor estaria amado o próprio sentimento, por ser ele um idealista...

-         Vamos lá moça! Chegamos de carruagem, voltamos a cavalo. Pobres plebeus somos nos.

Mikail faz-me rir. Ele me dá a mão, subo no cavalo. Saímos de Badacsony.

Já na estrada, sinto frio, lágrimas correm pelo meu rosto. Sei que Mikail percebe.

-         Mikail entre aí para o lago. Por favor, não quero chegar em casa assim.

Ele obedece e logo depois pára o cavalo. Pulo do animal, ando de um lado a outro, a pensar: por que tinha que ser eu?

Sento-me na grama, abraço minhas pernas e soluço.

Sinto o braço de Mikail no meu ombro, solto meu choro.

Há dor pelas ameaças da Condessa, há dor pelo que ouvi de Krisztina, há dor por me achar sozinha, há dor por amar um homem que é desse meio, e por amá-lo tanto.

Levanto o rosto do ombro de Mikail, seus olhos estão angustiados.

-         Abomino aquela gente! Abomino, é a primeira vez que experimento esse emoção. Mikail, eu tenho repulsa, sinto isso entrar em mim como um veneno de cobra. Não nasci para estar junto dessa gente, não sou desse meio, nem quero ser...

Caio no choro novamente, ele me abraça e fala.

-         Chore o que tem vontade, coloque para fora sua revolta. Se quiser falar fale, você pode contar comigo.

Fui atropelando todas as palavras da Condessa até Krisztina.

Os olhos de Mikail ganham uma tonalidade escura. À medida que falo, vou me acalmando, ele me pergunta o que vou fazer.

-         Não sei, ainda não sei, eu não tomei consciência de tudo que está acontecendo! Esta tudo aqui na minha cabeça, sinto esta emoção horrível, repulsiva, doentia. Que trás a minha boca um gosto amargo!

Veja como é a vida. Até há poucas horas eu me sentia nas nuvens. Agora atada aos pés daquelas pessoas.

-         Natasha o que você falou é muito serio, é muito grave.

-         Mikail, você vai me prometer não contar nada a Igor. Nada! Até que eu tenha chegado à razão!

-         Você não precisa me pedir isso, Nat. Quanto a Krisztina, não leve em conta, ela é uma louca, não faz o menor sentido...

-         Não sei também, eu realmente, ainda não sei de nada, nem do que a Condessa falou, nem do que Krisztina falou. Não sei de nada! Krisztina pode se fazer de ingênua ou ser muito esperta. Mas existe uma verdade no que ela falou, parece que existe mesmo o abismo entre mim e Igor; um abismo de classe social, e como existe! Se eu fosse de uma família nobre, jamais teria ouvido o que ouvi. Por que ele tem que ser um Conde, ser filho de uma víbora, ter o que tem? Talvez não devesse estar com ele, diz-me o bom senso...

Só que eu o amo, e o amor deixou-me cega a ponto de pensar que somos iguais? Que não importa ele ter um título e ser o que é. As pessoas não esquecem disso e expressam de várias maneiras. Poderia...Eu poderia ter me apaixonado por tantos homens, por que justo ele?

-         Quem tem a explicação? Existe controle sobre o amor? Ele surge, Nat, emerge espontaneamente por mais inconveniente que ele seja. Ele transborda a sensatez.

-         Estou cansada e frágil, e pior, vulnerável. Estar vulnerável é abrir as portas a tantas indagações. Obrigada por tudo.

-         Já lhe falei que pode contar sempre comigo, para tudo, a qualquer hora, em qualquer momento.

No trajeto até a casa, minha cabeça parece oca, vazia. Uma dormência toma conta do meu ser e, ao mesmo tempo, existe uma tempestade se formando. Não é preciso ser vidente.

Não vejo a carruagem à porta de casa, como também está escura. Acho até bom ele não ter chegado. Preciso e quero descansar, dormir e não pensar em nada.

-         Quer que entre?

Mikail, ajuda-me a descer do cavalo.

Ouço a porta da frente abrir, viro-me e lá está ele, olho para Mikail.

-         Quer entrar Mikail? - sua voz é acida e grave.

-         Não, vou para casa, já é bastante tarde. Amanhã, ou melhor, logo mais terei que devolver este cavalo muito cedo. Boa noite Natasha; boa noite Igor.

-         Boa noite Mikail e obrigada!

Fico a ver Mikail sumir na escuridão da noite, Igor continua à porta, viro-me e passo por ele entrado em casa. Ele bate a porta atrás de mim com tanta força que penso tê-la rachado!

-         O que houve?

Continuo calada e ando na sala no sentido de subir as escadas.

-         Natasha, o que houve? - ele fala alto.

-         Nada!

Subo as escadas, ele me segue com o candelabro na mão. No meio da escada me alcança e segura com tanta força meu braço que chega a doer.

-         O que houve?

-         Largue-me... Nada, não houve nada... Quero dormir! Solte meu braço, por favor!

-         Muito bem! Quer dizer que você sai da festa, nem ao menos vem falar comigo, por nada!

Um capricho! Muito interessante! - gritando.

Você vai me dizer o que diabo aconteceu. Vai me dizer agora. Já, neste momento.

Quero saber o que houve!

-         Estou cansada, dê-me licença...

-         Onde você estava? Estou aqui há mais de uma hora.

-         Não me senti bem, Mikail trouxe-me para casa.

Ele começa a falar alto, novamente, mas se contém e fala grave.

-         Por que você chamou Mikail e não a mim? E onde diabo vocês estavam?!!!

-         Pode ter a certeza que estávamos num lugar mais decente que naquela sua casa. Largue-me, que vou dormir.

Ele me encosta na parede e coloca o candelabro na mesinha em frente ao quarto. Respira fundo e fala baixo:

-         Você sabe que aquela não é minha casa. Você sabia o que podia encontrar lá.

Natasha, por que você não me chamou? O que aconteceu na festa?

Estou falando com você! Por que chamou Mikail?!

-         Ao diabo, você Igor! Ao diabo, toda aquela gente! Acho que chamei Mikail porque ele é o único que não faz parte daquele lugar.

-         Eu não faço parte, Natasha... Espere, estou falando com você.

Responda-me onde você estava?

Puxo meu braço e entro no quarto, ele volta-se para pegar o candelabro, aproveito e fecho a porta do quarto.

-         Abra a porta Natasha! Abra a porta!

Natasha, abra esta maldita porta!

Caio na cama e choro.

Ouço Igor gritar, bater na porta, por muito tempo.

Até que se calou.

O sono vem chegando, o quarto está escuro, escuro...