Taças
Badacsony

Abril 1813 – Hungria – Lago Balaton.

 

Eis o lago! Enfim estou aqui.
Majestoso e extenso, até onde vai à vista. Paraíso encantado!

Não era imaginação, não era febre; é real, tão real. Exala pelo meu ser, a vontade é gritar alto: - Estou feliz, por que aqui estou!

É primavera, a terra está verde. E em cima deste monte, sentada, há o mundo a meus pés. Desfruto cada detalhe. Vejo as flores, seus perfumes me entorpecem.

Badacsony, mesmo vendo-a um pouco distante, é uma cidadezinha tão encantadora. Estende-se pelo monte, com algumas casas espalhadas, uma ali, mais duas adiante, fora da cidade.

Descendo para o lago, um enorme e amplo vinhedo. Belo! E o lugar em que estamos acampados, um vale, com bosques a sua volta!

Sabe o que fiz?
Fugi, do acampamento, para contemplar o tão esperado lugar. Tomei um banho no lago, ele tem uma praia como o mar. Sua água é transparente e cristalina, como este dia de sol; tem uma tonalidade azul esverdeada que se inteira com a cor da primavera.

E subi até aqui. A brisa toca meu corpo, seca meus cabelos.

Suspiro como um gemido de pura satisfação. Minha alma e meu coração, unidos por esta beleza natural, tão natural a mim.
Todos estão alegres, anya está solta. Deve ser a emanação do lugar.

Ouço um cavalo, deve ser alguém de passagem.

Nem me viro para ver quem é. O lugar toma-me toda a atenção.
Eu gostaria de saber pintar para, assim, retratar o que vejo. Tenho certeza de que foi o próprio Artista Divino quem fez toda esta maravilha.

O cavalo parou, será que alguém veio buscar-me?

Viro-me, dando as costas para o lago. Não consigo enxergar quem é.  A luz do sol ofusca.
A pessoa está de costa para o sol.

É um homem, está parado a observa-me, olhar-me.
Salta do cavalo e vem se aproximando.

Sinto algo estranho, coloco a mão na testa para ver melhor, a luz não me deixa vê-lo.
Vem o vento fazendo meus cabelos encobrirem meu rosto, prendo-os com a mão.
Levanto-me e vem leve uma tontura.
Ele vem se aproximando com as rédeas nas mãos.

Consigo vê-lo enfim!

Seu olhar detém os meus.
Vem se aproximando, cada passo dentro dos meus olhos, dentro de mim.
Eu o conheço... Conheço esse homem.

Homem, de onde eu o conheço?

Minha respiração se acelera.Seus cabelos negros.
Ela solta as rédeas; seu olhar penetra-me. O olhar, seus olhos negros. Eu o conheço.

Está a um passo de mim, frente a frente - olhar mantido, mantém os meus.

- É você?! Você voltou!

Sua voz grave e forte leva-me no tempo e me dá a certeza de que o conheço.

- Sim, voltei...

Ouço-me responder, uma onda de emoção toma conta de mim. Só consigo olhá-lo, olhá-lo estarrecida. Cabelos negros, na altura da nuca, cabelos negros grossos e lisos. Pele morena...
Sua boca é grande e bem feita... Os olhos, olhos negros, olhos que brilham. Sua voz:

- Natasha!

Meu coração vem à boca e respondo: - Sim!

Seus olhos fixos nos meus; olhar intenso, profundo. Olhar que sai a percorrer-me vagarosamente.

- Você não mudou muito. Está mais bonita, mais mulher.

O sangue sobe ao rosto. A brisa levanta meus cabelos; seguro-os. Ele não tira os olhos dos meus, nem eu consigo tirar dos dele. Como é bonito! Mas não é sua beleza que me toca, excede a tudo que senti, mas, mesmo assim, já está em mim.

- Faz, exatamente três anos, era Maio. O cabelo está quase do mesmo tamanho, você não mudou... Sabe quantas vezes passei por aqui pensando encontrá-la, como agora? Tinha a certeza que você voltaria. Quando chegaram?

A pergunta pega-me de surpresa, o tempo, é como um confronto.

- Ontem à tarde... Tenho que ir embora. Minha gente deve estar preocupada comigo, saí sem avisar logo depois do almoço. Eu tenho que ir.

Mas não me mexi. O magnetismo dele me deixa sem ar! Pior, sem raciocínio ou razão! Mas existe razão para o que estou sentindo? Meu bom senso pede para eu sair, correr.

Minha alma, entretanto, ordena-me ficar. Existe uma paralisação no meu corpo, meu corpo, nem ele estou sentindo. Todos os meus sentidos estão voltados a ele, este homem mágico, um mago.

Que parece já existir na minha vida e em mim. Teu olhar me é conhecido, tão conhecido como tua voz: - Você não casou, não é?! - Ele praticamente não pergunta, afirma.

Nego com um gesto.
Ele sorri. Um sorriso sereno e a voz grave e forte:

- Por que você tem que ir? Todos sabem que você está nas redondezas. Fique mais um pouco.

Não chego a responder, ele segura minha mão e me faz sentir... Sentir sua mão segurando a minha, foi o mesmo como se tivesse colocado no calor do fogo.

Sento-me na relva; à frente, o lago e desvio o olhar. Ele se senta ao meu lado.

- Foi você quem me ajudou, quando estive aqui doente?

Sei que ele olha para mim, mas continuo a olhar o lago.

- Sim.

- Obrigada!  - que coisa mais tola de se dizer, penso.

- Por que partiram tão rápido? Cheguei numa manhã ao vale onde estavam e nada, tinham partido. Tentei achá-los, saí a cavalo, perguntei e ninguém sabia, sumiram, por quê?

- Não sei. Também perguntei o porquê de sairmos daqui, mas ninguém me deu uma resposta concreta.

- Como está seu pai?

Virei meu rosto e ao olhar para ele, vem à emoção que me toma por completo. Busco o ar em mim, e sinto que esta em ti. Pergunto:

- Qual o seu nome?

Olha-me intrigado, franzindo a sobrancelha, aperta os olhos. Como fica difícil sustentar seu olhar, ele parece ir dentro da minha alma.

- Ninguém lhe falou meu nome? Chamo-me Igor.

Igor! Claro que seu nome é Igor. Existe a certeza do nome, mas de onde?!!!

- Igor, vai bem em você.

- Por quê?

- É um nome pequeno, contudo imponente.

Aí ele sorri, sorri só não, ele dá uma sonora risada. Um riso solto e aberto. O lugar enche-se do seu riso. Desvio-me do olhar dele.

A noite começa a chegar, um tom avermelhado se espalha no céu, os pássaros cantam mais forte, vejo-os voarem.

- Bonito, não? Gosta daqui?

Respiro fundo e continuo a olhar o cenário.

- Gostar é pouco para o que sinto. Amo este lugar, amo. Não me pergunte por quê. Estive aqui doente, inconsciente. E todo esse, em todo esse tempo sonhava em voltar para cá. É algo tão forte que não sei explicar. Tudo aqui parece encantado, é mais que bonito... O céu, não existe outro igual. Os bosques são lindos. A minha alma emerge, sinto-me feliz. Veja a cor do lago, existe algo tão lindo?

Volto o olhar para ele, mas ele não olha o lago, olha-me.
Paro de falar, não é necessário, ele sabe exatamente o que sinto.
Dentro de mim, há como uma certeza de que ele sente algo assim.

Aonde teus olhos me levam? O que eles me falam? A emoção é tanta!

Meu coração dispara.

A vontade é tocar teu rosto, tocar-te os olhos, sentir tua pele.

Igor, como você se sentiria se tocasse você?
Desvio o olhar e abaixo o rosto. Seja sensata, Natasha!

- O que você está sentindo, Natasha?

Sua voz grave e pausada. Respondo:

- Não sei, eu não sei, nunca senti isso antes. Por favor, eu tenho que ir embora, é quase noite, saí do acampamento sem ninguém ter-me visto. Minha gente deve estar preocupada.

- De que você tem medo?

Seus olhos se perdem nos meus, levam-me.

Lentamente ergue a mão e toca meu rosto, fecho os olhos...

Teu tocar suave, um calor envolve-me. Seu dedo percorre minha testa, retira uma mecha de cabelo do meu rosto, o calor toma-me.

Seu dedo percorre minha face, toca meus olhos...

Teu tocar leva-me, o calor presente. Toca meus lábios, segue seu contorno...
Teu tocar é levar-me ao paraíso.

- Não tenha medo de mim, por favor, jamais te faria algum mal.

Abro os olhos e minha voz sai baixa.

- Não tenho medo. Só que preciso, realmente, ir.

Ele retira a mão do meu rosto, respira fundo e olha o lago.

- Está bem.

Meu Deus queria que ele continuasse a me tocar, estou embevecida.
Levanta-se e pega minha mão.

- Levo você ao acampamento.

- Não é preciso.

Ele não responde, dirige-se para o cavalo. Observo-o: ombros largos, calça preta, camisa branca, botas. Retorno a olhar o lago, está mais bonito agora, ao anoitecer. Em Badacsony, já se acendem as lamparinas nas casas: são como pontos luminosos. Um bando de pássaros dá uma revoada, eles parecem em festa.

Sinto a mão de Igor no meu ombro; e um sorriso terno lhe cai nos lábios. Você é um mago, com certeza o é. Nossos olhos estão perdidos, novamente, em mim: ti conheço. Deus, essa é a maior emoção que já senti.

Pega-me pela cintura, e me põe no cavalo, em seguida monta. Estou a menos de um palmo de suas costas, a vontade é tocá-las, seguro a cela para me conter.

Ele fala, como adivinhando: - Segure-se em mim.

Incerta, passo os braços na sua cintura, um arrepio percorre meu corpo e tremo. Ele dirige o cavalo para o lago. Por alguns instantes, ficamos a ver a noite chegar. Ele se volta para mim e fala:

- Não fuga mais de mim.

Não lhe respondo. Começamos a cavalgar, acho que, por pura necessidade, chego-me mais a ele e encosto o rosto nas suas costas... Ele treme, também!! Uma das suas mãos tocam as minhas, entrelaça seus dedos nos meus. Fecho os olhos. Sinto seu perfume, meu corpo junto ao dele, sua mão aperta a minha.

Cavalgo nas nuvens, tenho certeza; por mim, ficaria o resto da vida assim. Igor é mágico estar com você, sentir você. Você sente o mesmo? Sente esta imensa vontade de ficar assim por não sei quanto tempo?

O tempo! Dou-me conta de que paramos, abro os olhos situando-me: chegamos. O acampamento a pouca distância, à nossa frente. E sua mão aperta por entre meus dedos, tiro a cabeça das suas costas, ele está voltado para mim: - Não fuja mais.

Será necessário falar?   - Não fugirei. Respondi.

Volto a mim com anya falando alto. Igor continua a olhar-me, a segurar minha mão.

- Igor, minha anya está acenado.

- Claro. Vamos lá.

Uns poucos passos mais a cavalo e chegamos ao acampamento. Ele pula do cavalo e pega-me, e lhe vem um olhar e um sorriso e a doce emoção se apodera de mim, ha o partilhar, sorrio.

- Conde Igor! Que prazer enorme em revê-lo.

É o pai dando um abraço caloroso em Igor... Conde? Um Conde?!!!

Essa descoberta me constrange, não me faz ficar bem.
Chega Andrei, e fala animado com Igor.

- Onde você andava, Nat, lhe procuramos?
Volto-me a anya, que está a  meu lado e respondo: - Estive no lago.

- Esse tempo todo? – já fala em tom de preocupação.

- Sim, fui ver o que por tanto tempo esperei. Já no final da tarde encontrei Igor, conversamos um pouco e ele me trouxe aqui.

- Conde Igor, Natasha, ele é um Conde e seu titulo é usado.

Abaixo a cabeça, afasto-me de anya e vou à carroça, vejo o olhar de Igor seguindo-me, estou confusa.
Dentro da carroça, pego uma escova e penteio os cabelos.

Encontrei um homem que mexeu totalmente comigo, um mago que fez com que, pela primeira vez na vida, me rendesse por completo. Como numa entrega, onde não há resistência.

Olhando para seus olhos, encontrei algo...Olhando em seus olhos me achei. E esse homem é um Conde! Um Conde!!! Abre-se uma enorme distância agora entre mim e ele.

- Natasha! Venha nos ajudar no jantar, o Conde ficará para jantar conosco.

- Já vou, anya.

Inferno! Quero pensar. Por que ele não me falou que era um Conde, que é um Conde. Com certeza deve achar que sou uma cigana tola, ou pior, que sou uma qualquer. Olhá-lo como o olhei, encostar-me nele sem ao menos conhecê-lo, ser tocada –  porém, foi a vontade que senti, e como negar, a melhor sensação do mundo!

Um Conde! Por que não é um homem comum, sem titulo, sem nobreza? Conde Igor!

Belle chama-me para ajudá-las, e respondo que estou indo.

Sou uma tonta, deve ser a magia do lugar, que esperei por tanto tempo, e me fez sentir tudo que senti, só pode ser isso. Claro que deve ser exatamente isso.

Saio da carroça, percorro a vista e vejo-o sentado junto à fogueira com os homens. De repente, ele inclina a cabeça para trás e dá aquele riso que enche a noite, parece fazer parte do grupo de tão inteirado que está. Deixa de besteira Natasha, o homem é um Conde, não esqueça.

- Aqui, Nat, venha pegar os pratos.

- Já vou, Belle.

Então ele olha-me, meu sangue sobe, fico corada. O que diabo esse homem tem de tão especial? Que basta olhar-me e deixa-me assim.

Vou para junto de Belle, que mexe o caldeirão.

- Então, Nat, o que achou?

- Achou o quê?

- Dele, é claro!

- Nada demais. Belle, por que não me contou que ele é um Conde?

- Não sei. O que achou dele?

Não lhe respondo, tomo a colher de sua mão e mexo o caldeirão.

- Veja só, Nat, ele conversa, conversa, mas não tira os olhos de você.

Ergo os olhos, ele parece saber o que se passa comigo, sorri e ergue a caneca, como um brinde!

- Ei, chega! Você colocou tanta comida neste prato, que transbordou.

- Desculpe-me, Belle. Leve a comida para os homens, eu vou levar para as crianças.

- Elas já comeram.

- Então, vou ver se elas querem alguma coisa ou se estão com sono.

- Natasha! Venha cá, filha.

É o pai. Belle ri; dirijo-me ao grupo, sinto o olhar de Igor, do Conde.

- Sim, pai?

- Pegue mais vinho e junte-se a nós.

Vou à carroça, pego dois botijões de vinho e volto. Todos estão sentados; Igor, ao lado do pai, ouve o som dos violinos. A noite está linda. Hungria, que céu você tem!

- Sente-se aqui, filha. O Conde me falou que a encontrou estarrecida vendo o lago.

Ainda em pé, respondo sem olhar para ele, o Conde: - Foi sim.

Nunca vira meu pai com tanta familiaridade com um estranho, muito menos com um nobre ostentando um titulo. Até anya é só simpatia. O pai afasta-se para junto de anya, e indica o lugar para me sentar. Sento-me e fico a olhar a fogueira; a conversa é sobre a plantação de uvas e a fabricação de vinhos. Ele tem o dom de tudo ser muito natural; o da plantação de suas uvas à sua fábrica de vinhos.

Olho em volta, ninguém parece afetado com a condição do titulo dele, que aí está sentado no chão a tomar vinho, bem à vontade e solto. Observo-o pelos cantos dos olhos.

- Soube que você, Natasha, sabe dançar muitíssimo bem.

É ele quem fala comigo, acho para me provocar. Viro-me a ele.

- Quem lhe falou superestimou-me, senhor Conde.

Arrependo-me da minha ironia ao ver seu olhar admirado, mas logo eles voltam a brilhar.

- Como posso avaliar, sem ver. Istvan, você permite que sua filha nos prestigie dançando?

- Claro, ela dança muito bem. Andrei dance com Nat.

Caí na minha própria ironia, se existisse um buraco eu me enterraria nele.

Andrei estende sua mão e levanto-me, não ouso olhar para Igor. Os violinos recomeçam a tocar.

Respiro fundo. Tenha calma, Natasha, você já dançou na frente de tanta gente, e não vai ser agora, na frente dele, que irá se intimidar. Vamos lá, deixe a magia cigana chegar a você.

Bato palma, Andrei se aproxima, meu irmão sabe exatamente o que fazer quanto estou tensa. Envolvo-me no ritual de nossa dança. Andrei está solto e leve pelo vinho, ri ora e meia, entrego-me a seus encantos, e seguimos a música. Ouço palmas e só quando Andrei levanta-me nos braços, olho para Igor... O mundo pára!

É ele, somente ele, com os olhos repleta de carinho e de calor que me deixa tonta. Mordo meus lábios, para abrandar essa explosão que ele me faz sentir. Ele – observo – também morde seus próprios lábios. O sangue sobe ao meu rosto, abaixo a cabeça.

Homem, o que estais fazendo comigo?

Sento-me mais distante dele, olho a fogueira; ouço-o falar da guerra, de Napoleão; o pai relata o que vimos e vivemos na Rússia; acende as cenas que trago em mim - uma guerra não entendida.

Ergo o olhar para o céu, noite estrelada, as estrelas cintilam. Volto o olhar para ele, nossos olhos se encontram, olhos que brilham, um brilho tão intenso e partilhado! Não, não é a magia do lugar, é ele.

- ... Bem, já é tarde, e tenho que ir embora. Amanhã, mandarei trazer vinhos. Foi uma noite inesquecível. Espero que tenhamos outras.

Não vá, fique mais, eu diria. Gostaria que você ficasse até o dia raiar, gostaria de ficar a vê-lo, de estar a seu lado, senhor Conde. São esses meus pensamentos, vindos do que sinto, mas ele levanta-se e o pai fala:

- Claro, desde já esperamos o senhor amanhã, Conde Igor.

- Igor. Chame-me de Igor.

Ele não olha o pai ao dizer isso, e sim a mim.

- Foi um prazer estar com vocês, façam daqui sua Casa.

Despede-se de todos e sorrindo chega a mim:

-- Seu xale está no cavalo.

Fico sem jeito, e acompanho-o.

- Por que não me falou que é um Conde?  - falo tão rápido que repito.

Ele pára de andar e olha-me.

- Isso importa?

- Claro!

- Não sabia que gostava de títulos, se soubesse teria dito.

Ia responder, quando percebi que brincava comigo.

- Você tem esposa esperando-o?  - Santo Deus! Como estou sendo indiscreta, mas tenho que saber. Ele franze as sobrancelhas, seu olhar travesso.

- Por quê?  - Sua voz grave e forte. - Por quê, Natasha?

Abaixo a vista e continuo a andar.

- Por nada. Curiosidade, apenas.

Chegamos ao cavalo, ele pega meu xale e entrega-me. Ao pegá-lo, ele segura minhas mãos. Vem o entorpecer; ao apertá-las:

- Você é casado, Conde Igor?

- Ao diabo o Conde.

Leva minhas mãos a seus lábios. Beija meus dedos. Prende o anular com os dentes. O contato de sua boca em minhas mãos... Vôo como os pássaros.

- Ouça-me. Existe Igor, que por casualidade ou destino tem um titulo de Conde. Igor, chame-me de Igor, entende-me?

Como posso pensar ou entender, sentindo o que estou a sentir?

- Não existe esposa. Existe uma cigana, uma mulher que mexeu comigo há três anos. Ela, sim, existe. Só ela povoa meu coração e mente. Só existe você, só você, apenas você.

Meu coração dispara, aperto suas mãos, levo uma delas a seu rosto. Sentir-lhe é necessário. Lentamente toco sua pele morena...

Ele fecha os olhos. Desço a mão a seu pescoço... Subo a seu cabelo.

Tocar-lhe é um convite, sentir-lhe é uma pura necessidade. Toco-lhe os lábios macios, quentes.

Ele abre-os os olhos negros, parecem o sol quente que me aquece.

Estou no céu ou no inferno? Que importância teria onde estou, se estou com ele.

- Natasha!!! Está tarde, venha!

Oh! Anya, esta é a primeira vez que não a queria ouvir.
Retiro a mão do seu rosto, mas ele rapidamente a segura.

- Tenho que ir, Igor. Boa noite.

Ele respira profundamente, e a contragosto solta minha mão e sorri.

- Venho vê-la amanhã, não fuja.

Sorrio serena.

- Não fugirei, esteja certo, disso. Boa noite!

Ele monta o cavalo, e fica a olhar-me.

- Hoje vou dormir tranqüilo, pois você voltou, está aqui. Boa noite, vida minha!

Dizendo isso saiu, fiquei olhando até ele desaparecer. Que noite! Abençoado lugar, seu encanto estende-se a seus moradores, ou um morador tem tamanho encanto, que transborda de si e atinge todo o lugar.

- Natasha! Venha, já é muito tarde.

Volto para o acampamento, acho que não ando, flutuo.
Minha gente se ajeita para dormir.

- Lorna, com esse céu, vou dormir aqui fora.

Passo pelo pai, que contempla as estrelas, desejo-lhe uma boa noite.

- Istvan, você não é mais tão novo, aliás, não tem mais idade para se expor assim.

- Deixa de bobagem Lorna! Por que não vem, você, também apreciar esta maravilha?

Já na carroça, troco de roupa, lavo-me, deito, e fico vendo a lua pela janela.

Igor!...

Só em pronunciar seu nome, meu coração dispara.
É uma emoção enorme, enorme e transbordante. É enorme e nova...
Nova? Estar com Igor é como se já o conhecesse, faz parte de mim. Como compreender isso!

Tenho um sentimento por um homem que acabo de conhecer; é como se eu o estivesse esperando.
Parece bobagem ou sonho, mas é verdade. Parece justificativa, mas é verdade.

Estive três anos a esperá-lo. Não sei como isso é possível, nem sei explicar - mas é verdade. Não posso negar isso a mim.
Estive aqui doente e não me lembro dele, por mais que me esforce, não lr
embo.

Porém, quando o vi, senti: o conheço. Minha alma o conhece. É uma sensação tão forte que perdura até agora.

Igor...Quantos anos tem?...Parece um homem que trabalha no campo, suas mãos são grandes, fortes e ásperas. Tem a pele queimada do sol, veste-se despojadamente.

Igor... Cabelos negros, grossos e lisos. Voz grave e forte, que me é conhecida! Um mago que, com os olhos, olhos negros brilhantes, levam-me. Falam-me tantas coisas. E por mim ficaria a olhá-lo, olhá-lo.

Esse homem, que é um Conde, sente o que sinto?

O meu sentir - como é maravilhoso sentir o que sinto. A sensação é nova, mas a intensa emoção, não. Eu o conheço!

Já não vejo a lua. É noite alta.
Logo, estarei com ele novamente, suspiro.