Taças

Ao Sentimento não há Distancia nem Tempo

O tempo... Tempo... Tempo.

-- Igor! Onde você está?!!! Igor!

Abro os olhos.

Olho em volta. Onde estou?

- Ela acordou! Veja mamãe ela acordou.

Olho para quem fala... Quem fala é minha irmã! Vejo minha mãe e meu pai.

Ouço meu grito ecoar no quarto:

- Igor! Onde você está? Venha buscar-me! Igor!

Mamãe fala, meu pai também.

Estou em 1988! Eu estou em 1988... E ele? E ele?

É noite... 1988.

Olho de lado. Numa cama, a meu lado, minha irmã dorme.

Olho o teto do quarto do hospital.

Pneumonia, febre e delírio.

 

Amanhã terei alta.

O médico perguntou por que eu não queria reagir. Sim, por que?

O porquê eu não sei dizer, nem explicar!

Fecho os olhos. As lágrimas escorrem pelo meu rosto. O que aconteceu comigo?

A vida não faz sentido...

O mundo é preto-e-branco...

 

Final de julho.

O que se passa comigo?

Sempre achei a vida a maior maravilha e agora estou a fazer as coisas mecanicamente.

Ouço, por diversas vezes: Ei! Estou falando com você.

Desculpo-me, a verdade é que estou longe. Tão longe!

 

Agosto.

Nunca tive depressão. Lógico, que vivi momentos deprimida. Porém, não isso que sinto. Corrói-me por dentro.

Penso, tento analisar. Não consigo, vem uma pressão nas têmporas.

Minha amiga esteve aqui. Disse que revi minha ultima encarnação.

Rever quer dizer reviver? E o que vem a ser isso que existe dentro do meu peito?

Amo os que aqui estão comigo!

Mas o sentido da vida se perde.

Decidi: vou fazer análise, terapia de apoio. Seja o que for. Preciso ser quem sempre fui, ser levada para casa. Casa? Levar-me para casa... Hungria? Hungria.

Por mais que aja, no meu dia-a-dia é tudo forçado.

Levar-me para casa; meu coração está fechado, fechado e ferido.

Voltei ao médico e ele disse ser stress. Quem dera isso me convencer. Como seria bom se existisse o efeito físico e eu desconhecesse a causa. Como lidar com essa absurda causa?

É tanta dor e a olhos vistos não existem motivos.

 

Tarde de agosto.

Estou na praia, olho o mar.

Hoje - agora, não tenho medo da vida, pois ela está ali e eu aqui...

Uma barreira grossa e alta nos separa.

Se me perguntarem: O que você mais queria?

Sem dúvida responderia: Achar-me.

Achar uma mulher que cultuava um deus lindo, que morava no seu interior.

Achava a vida um reflexo do arco-íris. Que absorvia do silêncio, o mundo surdo, era o mundo onde mora a paz, a harmonia e a compreensão. Que se deslumbrava ao olhar o céu, numa contemplação que a levaria aos limites do infinito!

Essa mulher deve existir ainda.

Hoje olho em volta, vejo escombros e ruínas. Chega a dúvida e a incerteza: vale a pena recomeçar?

Onde posso me segurar? No fundo, uma voz: em mim mesma.

Por mais portas que possa bater, por mais amigos que queiram me ajudar. É dentro de mim que está a solução.

Meu ser sutil morre?

Olho o mar, sinto o tempo... O mago.

A tempestade de anos cai como um raio.

Destruí meu castelo. A ponte que lhe dava acesso ruiu.

Olho o céu - entardece.

Tenho preso em mim um grito: quero você, quero estar com você. A essência da vida está sem alimento.

Acabo de chegar do médico, ainda com os resultados dos exames nas mãos. Pois ontem a pressão nas têmporas fez com que caísse no chão do supermercado.

Os exames não mostram nada. Nada! Ou seja, volta-se a pensar em stress. O médico passou-me um relaxante. Sinto muito, não quero paliativo.

 

Início de Setembro.

Amanhã irei a uma terapeuta. Dizem ser ela uma pessoa que acredita na sensibilidade sensitiva. Vamos ver no que dá.

Sorrio sozinha em pensar o que irei disser-lhe: olha tive uma febre e fui parar em 1813.

Ontem houve um jantar aqui em casa. E um amigo nosso perguntou-me: o que sentia com a depressão?

Falei que ao estar no delírio da pneumonia, tive um sonho.

Ao falar do sonho, o sentimento me tomou.

E ele então fez uma pergunta: - O que é mais forte: a depressão ou o sentimento?

Fiquei o olhá-lo, não soube como lhe responder.

Aqui agora, a pergunta do caro amigo ressoa em mim.

Meu coração dispara! Sinto o sentimento, sinto o sentimento que tenho por ele.

Respiro esse absurdo sentimento... Suspiro... Sinto-me leve. Muito leve, como se retirasse uma roupa pesada. Leve, muito leve, como a voar. Voando rumo ao alimento...

Que é isso?

Que coisa mais tola!

É impossível - acorda!

Foi um sonho...

- Deixe-me sonhar!

Por que deixaram-me viver?!!! Não consigo viver assim. Eu não consigo! É o nada, é o preto-e-branco. O colorido está longe como a vida.

 

Fui à terapeuta.

Ouvindo-me falar, vejo que da minha pessoa anterior restou muito pouco. A mulher que sempre estava de bem com a vida, que sentia uma força interior enorme e inesgotável, que trazia um bom humor constante. Como gostava de rir! Não sorrio mais... Ficou tudo naquela casa de praia.

Ela falou: - Desde que você chegou aqui, fala em lógica. E quando não a encontra, o que faz?

Aqui sentada, vendo esta chuva cair, chuva fininha, penso no que ela falou.

Cai a chuva nesta noite estranha, noite bela. “Quando não encontro o lógico o que faço?”.

Antes, bem antes eu jogava no tempo. O que eu não entendia, eu jogava no tempo.

Agora me angustia. Mentalmente tento comandar o que sinto. Porém, o que sinto é algo enorme, a mente não responde. E por vezes não controla.

A chuva cai sutilmente.

Lentamente exponho minha mão para sentir a chuva...

Fecho os olhos e sinto os leves pingos da chuva. Sinto o contato suave.

Sinto o envolvimento desta estranha noite. Sinto e respiro conscientemente: o contato e o envolvimento suave...

Retiro a não da chuva - não quero ter consciência deste sentir.

Manhã com sol.

A terapeuta: - Você acha que teve um sonho. Um sonho tão registrado e nítido, que a deixa assim, como você fala: sem vida. Um mero sonho?

Dentro de mim uma tempestade: há uma quase incontrolável agitação.

Tentei, ontem à noite, lavar meu cérebro, erradicar dele todo o irreal. Como se fizesse uma lavagem com muita água, sabão e desinfetante.

Lavei figuras e imagens que teimam em se fixar. Fui dormir, na certeza de ter conseguido...

Mas, ele resistiu. Sobreviveu!

Por que essa teimosia em sobreviver? Por quê?

Seria a glória ter um vislumbre, a clareza de vê-lo. Um segundo, por um segundo, apenas.

Uma única visão. Assim, quem sabe, eu me acalmaria, eu me acharia.

Vê-lo, como para comprovação da sanidade.

Vê-lo, como para ter a certeza que existe um sentimento, uma real grandeza de sentimento.

E o irônico é que embora não vendo, o sentimento sobrevive.

 

A terapeuta:

- A sua pressão nas têmporas é o grito de seu eu interior. Por que você não se permite.

Eu: - permite o quê?

Estou no jardim, é noite.

Olho o céu estrelado, estrelas cintilam, brilho, luz.

Um homem acima dos homens. Meu coração dispara.

- Não permito meu sentimento!

É exatamente isso. Embora não consiga sufocá-lo.

Dá para compreender?

Ter uma vida normal.

Amo e como amo os que estão ao meu lado. E ter um sentimento enorme por um homem que em sonho ou passado ensinou-me, excede... Que tinha uma luz ampla e abrangente. Que emergiu do meu arquivo interior tão vivo.

Olho as estrelas no céu. Elas estão ali, bem ali. O brilho delas as faz notadas.

O brilho dele permanece em mim.

 

A terapeuta:

- Qual o nome dele?

Olho para ela. Reluto, mas falo: - Igor! Seu nome é Igor.

Ela: - Muito bem, o que você sente por Igor?

Um grito preso na garganta. Olhei para ela. Peguei minha bolsa e sai.

Um grito preso na garganta. Peguei um táxi e pedi ao motorista para rodar sem rumo.

Na minha cabeça a voz dela: - O que você sente por Igor?

As lágrimas escorreram e não conseguia controlá-las.

Por que Lu, você me fez essa pergunta? Sem ao menos me preparar!

Creio que passei um bom tempo rodando, até que parei na praia, paguei o motorista, que, delicadamente, perguntou se eu ficaria bem. Respondi que sim.

- O que você sente por Igor?

O grito preso na garganta: Eu o amo!

Por mais loucura que seja, eu o amo... Mas que sentido tem!

 

Noite - Linda!

Penso em você, Igor!

Várias frases se soltam: “A essência da vida está no sentido a que atribuímos nosso sentimento”. “Mesmo que me cale, que fique mudo, mesmo que morra; ecoará em você meu sentimento, pois a amo”.

Deus! Como queria vê-lo!

Destruí meu castelo, e a ponte que dava acesso ruiu. O castelo... Lembro-me, recordo-me de que você, Igor, construiu um castelo para nós, nele está a chama de nosso sentimento... Eu me lembro.

- Era assim, não era, Igor?

Escuta-me: Mesmo assim sei andar, e terei força para reconstruir. Vou reconstruir. Você o construiu, ele ruiu, agora irei reconstruí-lo.

Sabendo, desde de já, que a antiga pedra angular continua firme e intacta. Esculpida por um artista: tão antigo quanto o tempo. Ela pode estar empoeirada diante dos escombros, porém, ainda tem luz e sua luz me chama.

Perdoe-me, o juiz mais algoz: sou eu mesma.

Vem a brisa morna. Estou me achando.

 

Outubro.

A terapeuta: - Se foi um passado? Sua lógica não irá responder.

Amanhece. Não foi sonho.

Sua voz, levantei a ouvi-la. Não o via, só a forte e grave voz:

- A vida é de harmonia, desde que estejamos a trilhar o caminho que nos dispusemos a seguir. Conscientemente seguir.

- Qual o meu caminho Igor?

- Eu sou o seu caminho; você, o meu. Seu sentimento aponta conscientemente. Assimile para sua mente entender, pois seu coração compreende fatos e verdade que excede ao tempo.

O sol nasceu lindo, forte e imperativo.

Assimilar, absorver, entender o sentido. Compreendo o que você falou.

Mergulharei novamente, conscientemente.

É desnudar-se para o intenso mergulho.

O mergulho pode me dar asas para o vôo.

O mergulho não é um ato de coragem, é necessidade.

Como você disse, o sentimento aponta. A trilha: o sentimento

Dou acesso ao que sinto.

A terapeuta ajuda-me, guia-me. E solto-me no que sinto.

É tão forte!

Revejo cena por cena... Por vezes fico igual a um animal ferido, sem saber, ao certo, o que fazer. Em alguns momentos vou ao banheiro, sento-me no chão e sai um choro que abafo com a toalha. É um choro de desespero, sofrido. E essa realidade é dor que ninguém entenderia.

Onde está você? Onde?

Vive em outra dimensão? É isso? Onde?!!!

Por mais que pergunte, minha mente não consegue responder. Mas o meu sentimento apontara.

Sr. Ernesto telefona-me.

- Tenho noticias sobre suas taças. Elas são, realmente, ciganas e usadas em cerimônia de casamento. Vieram da Hungria, de um lago que tem lá... Deixe-me ler: Lago Balaton. Chegou ao Brasil na segunda guerra.

 

A terapeuta.

- Você abriu-se a outra dimensão.

Que dimensão?

Não perguntei a ela. Um leve sorriso, começo a conhecê-la.

Uma forte e determinada mulher que tanto me ajuda.

Meu sentimento leva-me conscientemente a 1813. Leva-me consciente, sem pneumonia ou febre. Dou-me conta que solto-me e vivencio. A verdade, é que a realidade está onde está minha consciência, meu sentimento apontou.

Sinto medo, um medo enorme. Pois foge a qualquer parâmetro!

E a mente racional quer parâmetros.

Não sei onde me segurar, exceto na intensa experiência.

Aqui não neva, Igor. O sol é forte.

Vez por outra sinto a brisa morna. É como você a rondar-me.

Corro os olhos em busca de um olhar antigo.

Sonho com ele.

Tão bonito, cabelos negros ao vento, olhar no horizonte.

Estava todo de branco, calça e camisa.

Os olhos negros, testa franzida, olhando o horizonte.

Igor? Que dimensão é está?

E, mesmo num sonho, vê-lo é sentir a vida.

Final de outubro

Ontem na praia, entardecia. Brincava com as crianças.

E eu a pensar: Quem sou eu?

Consciente: Quem sou eu?

Sou uma mulher.

Era a única coisa que eu sabia.

Pensava na vida, vida passageira. Vida de ilusões?

Sim, até dar-me conta de que ela pulsa no meu ser. Vidas em vida, o sentir dentro de mim.

Rasgo o véu oculto, oculto em um ponto: o sentir de um ser.

O que trago dentro de mim é o que me torna o que sou?

Sim. Não se pode fugir ao sentir. Fui campeã nessa modalidade.

Fizemos um enorme castelo, as crianças e eu. O castelo de areia, que o mar pouco tempo depois destruiu. Ficamos a olhar. Eu, compadecida. E alguém falou: - Amanhã vamos voltar e fazer outro?

Interiormente, eu pensei: vale a pena?

Ele abriu os braços e continuou: - É tanta areia. Ela é infinita, veja!

Sorri para ele e o abracei pensando: é infinito. O que pensei que o tempo calaria, continua.

A terapeuta:

- Por que tanto luta? Vida passada? Em que dimensão? Eu lhe pergunto, quem poderá lhe responder?

Eu:

- Eu. Se me solto, fico bem.

Muitas vezes, acho que tive um belo sonho.

Muitas vezes eu sinto este sonho.

Muitas vezes minha mente diz que criei algo platônico.

Muitas vezes, por não respirar o platônico, eu mínguo.

A terapeuta:

- Quer um rótulo?

Eu:

- Não. Por mais estranha que seja esta realidade, é minha realidade.

Ela sorri.

Rendo-lhe graça. Sem sua vital ajuda, com minha mente racional reinado, pensei estar insana. Com profundo respeito e carinho, sou-lhe imensamente grata Lusiana!

 

3:20 madrugada.

Igor. E ele fala bem junto a mim. Conseguia sentir sua respiração.

- Sua lógica traz a fragilidade. Como lhe parece que sinto suas crises. Afirmo: eu sinto.

Por que você não aceita? Seja receptiva e aceite: somos quem somos.

Sabe por que não aceita? Porque não tem lógica; e tudo converge para este ponto: lógica racional. Você não aceita, embora sua alma grite. Sua lógica dita que não faz sentido, principalmente, quando o sentido não está presente.

Existe lógica para um sentimento?

Sente o sentimento, sua mente dá acesso, pois é um processo consciente, mas seu racional não permite.

Ao soltar-se você sente. E vem sua racional impondo: é impossível!

E eu afirmo: ao amor, tudo é possível.

Então surge sonho ou criação. A mente fértil diz que você me criou. Você rende-me homenagem como um herói que já nasceu morto.

Sinto muito, eu vivo. Sou vivo, não sou herói nem tampouco morto.

Então surge outra possibilidade: eu ser seu eu superior. Sinto muito, não sou. É nesta dimensão que estamos tendo contato. E se são dois: você e eu, então você é fantástica! Tem mais que um eu superior!

Posso perguntar a seu racional, por que você se desespera?

Eu afirmo: É porque sente; porque ama e sentimento vai além, muito além da lógica.

E vem o desespero: o racional querendo provas e o sentimento querendo estar, partilhar.

E vem você a dizer: estou louca. A mente racional não consegue enxergar o além, e eu sou o além. Com isso fica presa.

É evidente que a lógica tem uma grande importância. Mas não esqueça que são os sentimentos que fazem o homem um ser.

Sem o sentimento, ficando só a lógica, nada mais fica que um poço escuro, onde só existe o preestabelecido. A mente é um aliado do homem, o restante são os sentimentos rumando para a compreensão, dicernimento.

Sabe o que ocorre?

Seu coração pulsa o sentimento consciente. Há o alerta: é algo sem sentido; surge o medo, que é válido. Mas é válido ao sentimento consciente?

E surgem barreiras impostas pela mente. Sua alma grita, e eu vou de encontro a todas elas.

Solte-se e sinta. Se porventura hoje é nostalgia, que ela traga a saudade. Pois a saudade é mais sadia que sua lógica racional.

Olhe o brilho das estrelas. Quem as fez não pensou em lógica. Se assim o fosse, tudo estaria contido num pedaço de papel. Fizeram para o ser contemplar tamanha beleza que é o universo. Fez para homens e outros homens; que, por amor, comungar com o eterno.

Solte-se mais... Você não chegou no nosso trato.

Solte-se; e bendita seja tua saudade, pois ela é tão profunda e tão antiga, que tua mente não responde.

E aí, pelo sentimento do amor, que é vivo, eu chegarei e tocarei tua alma.

O que me garante? A única Lei que conheço, o Amor.

O dia amanhece.

Tomo consciência: o amor precede a vida.

Energia

Estás presente como um presente para os homens, para a vida e para além desta vida.

Energia, que cai, brota, emerge como um instrumento, consciente ou inconsciente. És a harpa pacifica e serena, como também és um vulcão em erupção, és uma arma, és amor. És tudo, tudo que quisermos, és um nada – mudo. Vagas ao leu, barco sem rumo?

Não. Estás em tudo: Nós é que estamos inconscientes ou conscientes, a ti.

Deleitar-me nas tuas correntes é vida, é só questão de consciência, pois és a harpa ou a arma.

E em meio ao acordar que te indaguei: o mundo te conhece?

Claro que sim. Eu é que não te conhecia consciente.

Leva-me nas correntezas: luz. Deparo-me: luz.

Agacho-me em profunda e sentida humildade qual fruta que leva a semente de sua origem.

São meus pensamentos e emoções que irão fazer esse fruto ser doce ou amargo, nutritivo ou destrutivo.

Energia.

Não nego, existiram momentos que melhor seria não te conhecer. Dormias tranqüila qual criança no leito da minha vida. Teu acordar foi outrora suave, como um bebê, embora fosse imprevisível. Agora é diferente, geras uma força que excede a tudo que já senti. Deparo-me com uma verdade se acaso pára a energia no racional, no ser pensante, a força fica qual redemoinho a gerar emoções.

O que exiges, energia?

Não é mais consciência do foi, é como um pulsar à frente.

- Meu ser pensante é tão difícil dizer-te, fazer-te entender... Não há como deter, se deténs ou reténs a energia é o mesmo que enlouquecer. Entendes? Ficar com a energia em ti tece tantos pensamentos e esses pensamentos trazem tantas emoções: é o redemoinho... E tenho que seguir.

És um aliado, ser pensante, um magnífico aliado, pois tudo corre contigo acordado, consciente. Renda-se à energia que nos leva, ainda não sei onde.

Indaga-me, ser pensante, o tempo inteiro e puxas as emoções. Ah ser pensante, renda-se e deixe que o sentimento inundado de energia siga a trilha, e que sintamo-nos conscientes. Queres um exemplo: ao acordar, se existe o indagar, tece-se a rede, as emoções contraditórias. Ao acordar, se simplesmente sentimos a vida, tudo é vida. É neste ponto em que excede-se a energia, como uma expansão, dando-nos força que leva-nos à trilha como para um reino. E ao meu ver, no reino não existe o impossível, existe vida que pulsa e chama.

E lembro-me: quando energia não te conhecia, agia como criança sem muito raciocinar, me levaste e relutei em acreditar. Fugi como adolescente querendo ser auto-suficiente negando o sentir e a usar fórmulas, a lógica reinou e levou-me ao profundo abismo, ao fundo do poço e que só vi a claridade da luz acima, quando permiti o sentimento soltar-se, que sedento buscava nutrir-se. Que me fez ver consciente que o sentimento é eterno.

Nivelada simplesmente sou. Vejo que as emoções vão e voltam, e o sentimento permanece. Meu ser e sentimento permanecem, pois são eternos.

Hoje depois do stress, sete quilos perdidos e paranóias passadas, vejo que tenho que seguir a trilha, pois existe o pulsar à frente. Teimar, reter-me ao ser pensante racional, prendo o sentimento.

E todo fica o aprendizado, que em meio à terrível guerra, surgiu, renasceu meu sentimento que dá-me luz. Estar de acordo com essa sinfonia é sentir o perpetuar, onde o colorido emanado é sutil, é vida, e vida não é para ser entendida e sim ser sentida, simplesmente vida.

A terapeuta:

- Fale-me da morte dele.

Eu:

- É necessário, agora?

A terapeuta:

- Não, mas toda vez que chegamos neste ponto, você muda de assunto. Está aí dentro, quando quiser falar. Acho que está pronta.

 

Noite de lua cheia.

O perfume de jasmim. Estou no jardim. Olho a lua, as estrelas.

Lua e sol, Sol e lua: vida!

Separar um do outro é refazer o dia. Existe o interesse em refazer o dia?!!!

Aprendi viver sem estar ali. Mas minha mente pergunta para que saber dali?

Para que recordar?

Reviver. Para quê?

Provou-me que o que sinto, permanece. Para quê?

Homem, para que reviver?

Praia.

Estou suada de tanto brincar com meus filhos.

Sinto-me solta e leve, sorrindo à toa, sentindo a vida em harmonia.

Sento-me na areia para descansar.

Mar sereno, vejo uma jangada de pescadores chegando.

Na minha pesca interior retornei com o sentimento vivo e transbordante.

Difícil a minha mente racional de hoje, desta vida, entender o que ela não viveu.

Difícil para ela decodificar o sentir: como querer tocar o que ela não conhece?

O que importa é o que sinto. O que sinto tornou-me harmonia: um amor vivo com os que convivo.

Da jangada dois pescadores pulam para puxá-la. Vejo os cestos de pesca. Não sei o que eles pescaram. Sei o que eu pesquei.

O sentimento no meu coração, sentindo-o.

Da jangada, um pescador entrega o cesto.

Meu coração batendo rápido, sentimento palpável.

Não há como dizer em palavras. Um gesto, um ato.

O ato, talvez, deva-se à anterior aceitação.

O gesto - com a mão no peito, a sede do sentimento: envio.

Segue a vontade do meu sentimento, energia, que gera a força: envio.

Abre-se o tempo. Quem impera é o sentimento. Entrego meu sentimento.

Meu coração pulsa alimentado.

Pulsa vida no meu peito.

O gesto: com a mão no coração a estendo ao infinito, esteja onde estiver sentirá.

O gesto é: sentimento entregue.

Sorrio.

Sorrio das minhas lutas que travei comigo mesma, e as armas que usei. Elas, as armas, ficaram atrás. O sentimento impera e imperou. E mesmo diante das teimas e dores, apontou o marco. A ponta, o marco. E sei, pois sinto que de alguma forma ele sente.

O gesto é sentimento entregue.

A terapeuta:

- Como você lida com esta realidade?

Eu:

- Antes tinha uma vida tão “normal”. Aprendi a viver com está estanha realidade, demorei até administrar isso no dia-a-dia. É uma realidade onde cabem todos e tudo. Mas, o que eu sou, sou quando sinto. Não há como negar: estou no que eu sou quando sinto.

No stress, depressão até sair tudo o foi, eu não queria sair dali, dali 1813. Acordei, estou aqui, mas o aqui só é inteiro e pleno se sinto esta minha realidade.

Sonho.

Um senhor de cabelos brancos, olhos amendoados, magro.

Falava-me: - Em tudo existe um propósito. O sentimento a levou ao passado.

Entenda-me: consciência é vida – sentimento traz a vontade.

O homem vem à vida, muitas vezes, sem vida. Os sentidos leva-o a ter desejos. Desejos surgidos da emoção que é o ter. Emoções = ter, “experimentar”. Em alguns a vontade traz a vida. Sentimento e consciência = Ser.

Perguntei-lhe: - Estou morrendo?

Ele: - Não, se o fosse, para que ter consciência?

Eu: - Uma morte consciente.

Ele: - Já não o foi? No passado. E o que aprendeu, que o sentimento é eterno, e o que mais? Aonde o sentimento a leva?

Eu: - Ao passado, e a algum lugar... Outra dimensão.

Ele: - Você aceita um passado, claro é imutável, e o hoje?

Eu: - Eu não estou me sentindo bem...

Ele: - Isso passa, pois é emoção. Seu sentimento permanece. Por quê? Quando se recorda “algo” é para uma utilidade no presente. Você via Igor sincero, aberto, receptivo. Estando ele ali, consciente, ele “usaria” sua pessoa? Sejamos razoáveis! Uso, nesse sentido, é manipulação, quem age consciente, não manipula. Ele ensina como operar a “força”, que é a vontade. Ele poderia ensinar-lhe sem o sentimento? Não! Ele poderia ter o sentimento e não lhe ensinar? Sim!

Ele deu o ensinamento para continuar.

Então e o vi!

O olhar mais belo do universo, o meio sorriso, ele falou:

- Rendo minha verdade a tua vontade.

Acordei.

 

A terapeuta:

- Qual a sua vontade?

A vontade vinda do sentimento se fortalece. Cria asas, voa.

A trilha, a mesma.

Devido ao sentimento, o pensamento é: quero aterrissar onde estais.

Lua cheia, prestes a nascer.

Queria arrancar de mim amarras e ser simplesmente mulher.

Queria arrancar de mim os vínculos e simplesmente ser.

Uma mulher solta, uma mulher...

Chegar à frente da lua e sentir simplesmente uma mulher.

Solta, por um único e antigo motivo.

Chegar à frente da lua, que nasce no mar, em noite estrelada, e ser simplesmente mulher.

Solta a você.

Ver a noite chegar e partir.

Mulher simplesmente mulher, que acima da ética, dos vínculos, obrigações e responsabilidade é mulher.

Que optou, não de hoje, em estar com você.

Como mulher solta, olhá-lo frente a frente. Acima da vida e do tempo: estar com você.

Correr livremente, correr sentido o vento, correr a você.

Mergulhar, solta na água, mergulhar e emergir a você.

Voar céu afora, voar ao infinito e chegar a você.

A origem do porquê está acima, foge à razão. A razão longe da vista, longe do tato.

Porém, ao sentir a chama antiga, chama, entoa, apela: você.

O sentido percorre o ambiente, o sentido foge dos cinco e ruma ao infinito, até você.

Qual luz que não se apaga: vida, morte, vida, a luz na memória não limita, transborda.

E não há grades ou algemas, não há vida, nem tempo que cale o sentimento.

Podem passar mil anos, pois a vida e o tempo encontram sentido quando sinto o que sinto por você. Aí emerge a força, e vejo:

Olhos que brilham;

Cabelo ao vento.

Meio sorriso, você.

Meu grito vindo da alma, com uma força acima da humana, ecoa ao infinito: Quero estar com você.

E isso é tão vivo, e é vida, que tenho a certeza é sentido por você.

E essa força foge a qualquer padrão quando chega ao olhar, elimina os obstáculos e as barreiras; quando é emitida, sua nota está acima dos ouvidos mortais.

Aí a ferida não dói mais. O sangue que escorre não impressiona mais.

Só existe a vontade do meu sentimento: estar com você.

E ao afirmar, não há prisão, nem algemas, nem tempo, nem vida ao que sinto.

Não há pedra, alicerce que empurre para dentro o que teima em voar.

Embora venha o desespero que traz a agonia de não conseguir chegar.

E por vezes é a bendita paz que traz a esperança do “logo mais”.

E por vezes é um sonho que faz com que veja você. E por vezes é um enorme agradecer: estou conseguindo.

Como vê ou sente, isto é tudo que sinto. Porém, o que realmente importa, afora a impotência e limitação, é o que sinto por você. Afora todas, todas as palavras, o que importa, o que realmente importa é chegar-me, mais e mais a você.

Se para isso é necessário operar a força, ter responsabilidade. Tenha a certeza que o farei pelo antigo e óbvio motivo: você.

E boquiaberta vejo, sinto a imensidão que trago comigo: é eterno, exigente, profundo...

Mesmo assim: Amor.

 

A terapeuta:

- Um trato. Como você compreende?

Eu:

- Compreendo que tenho que sempre e sempre estar com a luz do sentimento acessa, como se fosse precisar. Tenho consciência disso. Assim nos dispusemos a estar, estar dentro do que somos. Assim eu estou, realizando minha parte. O trato com ele, e no que sinto, ele tem um trato para com muitos. Ali foi fincando palavras, ali houve a vivencia comunitária dentro de um ideal: a escola. Dentro da produtividade construtiva. Ali houve a expressão e ação de como se pode viver dentro da liberdade e do amor, expresso a todos que comungavam. A nossa história não acabou.

 

Ando na praia. O mar está sereno.

Respiro o sentimento.

Quantas vezes vim até aqui, chamado por você.

Creio que o mar nos aproxima ou a energia: aproxima um povo de uma época, que acreditou numa comunidade produtiva, na conscientização do potencial humano. E principalmente no sentimento!

Um sentimento livre e solto.

Não sei o será. Pois o “será” será o que tem que ser.

Desde que eu esteja no que sou.

Antes eu não tinha palavras para explicar o que sentia, o que se passou comigo.

É interessante como complico todo.

A verdade é: eu vivi tudo isso. E rendo-me a isso.

Sem meias palavras: eu vivi.

Convivi com um homem que era puro sentimento.

Ele tinha e tem consciência do pleno.

Mostrou-me que ao render-me ao sentimento, o amor e a vida, são unos.

E só há sentido, quando estou a sentir.

O entregar-me seu coração deu-me acesso ao infinito.

Se este homem está em terra adormecido, inconsciente.

Eu não sei.

Se este homem está acordado, sem estar na terra.

Eu não sei.

Eu estou acordada, consciente em terra, referente ao que vivemos.

Trago em mim o sentimento. E nele não há o tempo e a distância.

Porém em terra, o tempo e a distância existem.

Aqui o tempo passa, porém comprova que o que sinto permanece.

Aqui há distância, porem, ao sentir meu sentimento, entro numa sintonia única e sinto que de alguma maneira chego a ele.

Por vezes, ouço longe: Vem!

E de tão longe, eu não sei qual a estrada que devo tomar.

Mesmo sabendo que meu caminho é ele.

E que cedo ou tarde, vou estar.

Sei que posso voar.

Ontem, eram 19:40.

Cavalgando, como na Hungria.

Cavalgando na luz do sentimento.

Eu vi um belo lugar.

Hoje, agora, não me importa se é física ou não.

Dentro de mim eu afirmava o sentir:

- Não importa o tempo, pois tenho a certeza do que trago.

Seja na vida ou na morte; eu irei estar.

Seja quem for, esteja onde estiver; eu irei estar.

Céu ou terra, tudo se converge no coração.

Há um trato feito dentro da lei maior: Amor.

O que me garante? O que sinto.

Ouvi longe, ouvi a forte e grave voz:

- Eu estou entoando por você. Que fique claro: eu estarei com você.

Permita-me...

E a historia continuará...