Taças

 

Tenger hullamáinak moroja

- Avô, onde o senhor está deve estar vendo melhor que eu. A visão dos imortais deve ser tão ampla! Não é o mar, é um lago. Um lago lindo e enorme, que mais parece o mar. Lembra, avô?
Estou encantada! É difícil ver num só local tanta beleza mágica.

Este lugar toca todos os meus sentidos, minha sensibilidade aflora à pele.

A cor das águas do Balaton em junção com o sol parece deixar as árvores translúcidas.

E os pássaros? São uma quantidade e uma variedade que nunca tinha visto. Eles cantam, e meu coração também, parece festa.

Sabe avô, creio que o Balaton enfeitiçou o próprio demônio para não entrar aqui, pois a paz que invade a alma é uma bênção.

Queria que o senhor estivesse aqui para partilhar comigo esta beleza, esta felicidade e principalmente esta paz. Estou num dos pontos altos da colina de Badacsony. À minha direita fica a cidade. Vejo os telhados das casas. À esquerda está o nosso acampamento, num vale, entre bosques. Sinto-me no céu!

Só mesmo aqui posso refazer a vista, livrar-me da angústia, adoçar a garganta, aguçar os ouvidos e afastar os gritos e gemidos de dor.

O que leva os homens à loucura da guerra?

Olhando toda essa maravilhosa natureza, tudo ela nos dá; o que leva os homens à guerra?

Se o senhor estivesse aqui, teria uma resposta certa, uma resposta certa para mim.

(Hungria, Abril 1813, lago Balaton).


Verão 1812.

“O exército francês de Napoleão, no verão de 1812, com 600.000 homens, ruma para Moscou.

Os russos, sem oferecer resistência, atraíam os franceses cada vez mais para o interior do seu território. Somente quando o inimigo estava nas cercanias de Moscou foi que ofereceram batalha em Borodine. Derrotados nesse encontro, permitiram que Napoleão ocupasse a capital. Na mesma noite da entrada dos franceses, a cidade é incendiada. Quando as chamas finalmente declinaram, pouco restava mais do que paredes tisnadas do Kremlin para abrigar as tropas invasoras. Na esperança de que o Czar acabasse por se render, Napoleão deixou-se ficar durante mais de um mês, e só em 22 de outubro resolveu iniciar a marcha de regresso. Essa demora foi um erro de conseqüências fatais. Muito antes de ter alcançado as fronteiras, o terrível inverno russo caiu sobre os franceses. Rios engrossados, montanhas de neve e lamentação sem fundo retardaram e quase detiveram a retirada. Além das calamidades de um frio insuportável, das doenças e da fome, guerrilhas de cossacos surgiam dentre nevascas para atacar as tropas já exaustas. Cada manhã, o miserável remanescente a se arrastar na fuga deixava para trás círculo de cadáveres à volta da fogueira da noite anterior.

300.000 franceses morreram feridos de fome ou frio.”


1812. Abertura oficial da feira de Nijmí Novgorod – Rússia.


1812. Nas imediações campestres de Dantzig – Prússia.

A fogueira está acessa no acampamento de Istvan. A temperatura está fria, mas agradável, o tempo estável. Isso dá certa tranqüilidade. Seus olhos percorrem as carroças, dentro delas sua gente dormia. Uns poucos homens arrumavam mais lenha para as fogueiras. A seu lado, também sentado no chão, sobre uma colcha, está Andrei. Vez por outra Istvan olha para o filho.

- Preocupado, pai?

- Não, só pensando na feira.

Ambos são claros, puxaram ao velho Andrei, pai de Istvan, austríaco de nascimento, cigano por opção.

- Penso na longa caminhada que teremos até Nijmí, é bem distante. Lá, está a nossa chance de vender todo o nosso trabalho.

O inverno passado tinha mudado um pouco seus planos; a neve castigou as estradas e uma das carroças ficara bastante danificada, o que atrasou a viagem. Provavelmente não daria tempo para verem a abertura da feira, mas em Nijmí a feira é permanente.

Às vezes é difícil ter a decisão final para com o grupo.

Os pensamentos de Istvan são interrompidos com a chegada de Lorna, sua esposa.

- Istvan, andei pensando, será prudente entrarmos na Rússia agora? Temos ouvido tantas coisas.

- Mãe, os russos são hospitaleiros, sempre nos receberam bem. Somos ciganos, não fazemos parte desta guerra.

Istvan admirava a objetividade de seu filho.

- Em Nijmí Novgorod existe de tudo. Você vai gostar, Lorna, é uma cidade de mercado, tem lojas, igrejas, teatros. Não estaremos na abertura oficial da feira, o que é uma pena, pois será uma bela festa, mas a feira perdura o ano todo. A cidade é cortada pelo rio Volga. Era um porto protegido por um castelo. Apesar de não conhecer, dizem que é um bonito lugar.

Lorna ainda se admirava com o marido. É culto. Somente ele e Natasha liam, no grupo.

- Não sei, sinto algo no ar. Você me conhece.

- Lorna, vamos entrar na Rússia. Caso venhamos a sentir que as coisas não estão bem, sairemos. Andrei falou certo, não fazemos parte desta guerra.

Lorna concordou com a cabeça, acariciou o filho e levantou-se falando:

- Andrei, não demore a deitar-se, Belle está indisposta, vá ajudá-la com as crianças, pois com Gaspar, só mesmo você. Onde está Nat? Não estava com Belle.

- Deve estar sonhando. Falei-lhe que ao voltar da feira iremos ao lago Balaton. Acalme-se Lorna, não me olhe assim.

- Você deve estar brincando, Istvan, irmos ao lago?!

- Lorna, sente-se e escute-me, o destino, como você diz, é traçado. Onde podemos interferir? Ela, agora, já é uma moça. Da última vez concordei, pois ela era uma menina. Talvez aos nossos olhos continua a ser, mas agora, Lorna, ela está com vinte anos! Além de tudo, é o local ideal para um bom descanso e recomeço de trabalho. Sei como se sente, sinto o mesmo. Mas esse medo pode ser fruto da nossa imaginação, e não vamos passar o resto da vida a evitar um lugar. Às vezes vemos fantasmas onde não existe. Vá deitar e tente se acalmar.

- Muito bem, Istvan, você pode estar certo!

Lorna beija o filho, faz um afago no marido e vai para carroça. Eles ficam a olhá-la. Ela ainda é uma bela mulher, seus cabelos continuam negros, seus olhos ninguém sabe decifrar o que dizem: tem estatura baixa. Sempre está bem disposta, parece reter uma força incomum no falar, no andar, no agir. Seu todo é um tanto orgulhoso como todo húngaro. Jamais poderia esconder sua nacionalidade e sua alma cigana.

Lorna entra na carroça, senta-se num banco perto da janela. Não há necessidade em acender a lamparina, a noite está linda, estrelada. Quase igual a vinte anos atrás. As lembranças voltam, lembranças de 1791.


Julho 1791, imediações do Lago Balaton.

O som do violino do velho Andrei é ouvido em todo acampamento. Um som mágico, que só o cigano sabe tirar.

Lorna, com 35 anos, tinha acabado de ajeitar a cabeça do filho no seu colo, e ouvia o sogro tocar. Música que toca o coração, onde dizem residir a razão cigana.

O barulho de uma charrete é ouvido, Andrei pára de tocar. Lorna pensa em quem poderia ser, seu marido não seria, pois não daria tempo de ele ter ido à cidade e já estar de volta.

A charrete parou a poucos metros das fogueiras. Nela, estava uma moça e uma senhora que guiava os cavalos. Andrei levantou-se e dá as boas-vindas. Lorna, sentada, observava a moça que falava com seu sogro.

- Boa noite, senhor. Soube, por um empregado, que vocês chegaram e resolvi vir até aqui.

Trouxe-lhes algumas galinhas.

- Ah! A senhorita é filha do proprietário das terras, claro! Desculpe não tê-la reconhecido. É a idade, já não tenho bons olhos. Lorna, venha cá. Lorna é minha nora.

Ela ajeita o filho, que dorme, acomodando sua cabeça numa almofada. Vai à charrete, dá as boas-vindas e, por formalidade de educação, oferece um chá. A jovem, para surpresa de Lorna, aceita. Pede a sua ama para pegar o cesto com as galinhas. Lorna se encaminha para a fogueira. A jovem olha para o menino adormecido, pergunta se é filho de Lorna, ela afirma, e ela pergunta a idade do menino, Lorna responde que ele fará dez anos na próxima lua nova, pede licença para pegar canecas na carroça. A jovem pergunta se pode acompanhá-la e segue Lorna. Lá dentro, Lorna ofereceu-lhe um banco, a moça sentou-se, mas, antes, foi a janela, deu uma olhada lá fora. Seu nervosismo era notado.

- Meu nome é Elizabeth. Aqui é tudo tão alegre, tão cheio de vida.

Lorna sabia que ela rodeava a conversa sem saber como começar. Ofereceu o chá. Elizabeth acenou com a cabeça, aceitando. O violino de Andrei novamente enche a noite. Lorna serviu a caneca de chá, as mãos de Elizabeth tremiam. Lorna a observava: seus cabelos eram da mesma cor que seus olhos, cor de mel. Tão bonita, uma beleza fina, delicada, e tão angustiada!

- A senhora tem quantos filhos?

- Só a criança que dorme lá fora.

- É tão difícil falar-lhe. Mas vou direto ao assunto. Passei a noite anterior acordada, como falei, meu empregado viu vocês chegarem ontem. E pensei, quem sabe, aí não está a solução dos meus problemas.

Elizabeth fez uma pausa, bebeu o chá e colocou a caneca na mesinha e continuou.

- Estou aqui na casa de campo dos meus pais, por uma razão bastante óbvia.

Lorna já, evidentemente, notara a gravidez da moça, porém permaneceu calada.

- Meus pais não sabem, ou fingem não saber, não sei ao certo.

Aleguei estar adoentada e pedi para ficar uns tempos no campo. Às vezes acho que eles sabem, mas também sabem a seqüência lógica de tudo isso. Entende-me, senhora? Não posso ficar com a criança. Tenho uma vida na corte, e, mais que isso, tenho um casamento marcado.

Meu plano era dar a criança a algum casal de camponês, mas existe um grande risco, pelo fato de morarem por aqui. Quando soube que vocês estavam aqui.

Elizabeth parou um instante para medir as palavras.

- Não sei como à senhora vê tudo isso. É tão difícil. Meus pais nunca aceitariam essa criança por perto. Entenda, senhora, meu pedido é para a senhora ficar com essa criança.

Lorna levantou-se e foi ao bule para pegar mais chá, olhou de lado para ver melhor. A jovem deveria ter uns dezoito anos. Jovem e insegura. Sentiu compaixão da moça, devia ser uma situação difícil. Mas, também, era difícil Lorna aceitar o fato de uma mãe recusar um filho.

Na vida cigana as coisas são bem mais simples.

Isso chega a ser constrangedor. Lorna tinha um filho, um único filho e só ela e Deus sabiam como ela queria outra criança. E, ali à sua frente, uma jovem oferecendo uma criança; mais parecia um mercado, pensou Lorna. Ofereceu-lhe mais chá e falou:

- Senhorita, essa decisão não pertence somente a mim. Terei que conversar com meu marido, e como sabe, ele não está... Mas céus! Santa Sofia abençoou-lhe com um filho.

- O que eu posso fazer? Minha vida, meus pais. Nunca me passou na cabeça ficar com essa criança, estou sendo honesta com a senhora. No início da gravidez tomei algumas ervas, mais não adiantou. Como a senhora acha que me sinto? Não é fácil, nada é fácil nem o fato de estar aqui agora conversando com a senhora. Tem horas que digo que estou sonhando, isso não está acontecendo. Mas está! Essa barriga a cada dia pesa mais, como também aumenta minha angústia. Se não forem vocês a ficar com a criança serão outras pessoas. A vantagem é que, com vocês, não a terei perto. Sei que passam anos sem visitarem o mesmo lugar.

Lorna observa, pensativa. Olha pela janela, vê o sogro com o pequeno Andrei, sente o orgulho de sua gente e principalmente dele. Um homem que veio do meio igual ao da jovem Elizabeth, aderindo à cultura cigana,seus princípios e sempre segue isso como lei. Seus princípios, suas verdades são passadas para todos aceitarem o destino. Lorna acreditava no destino como a única força existente, e foi Andrei que ensinou a todos que dentro de cada um existe uma outra força, tão forte quanto o destino, que é a escolha. Uma escolha de caráter e de moral.

Sim, somos ciganos, pensa Lorna, temos orgulho do sangue em nossas veias; mas também temos um homem culto que nos deu inúmeras lições de vida.

Volta a olhar para a jovem e afirma que irá conversar com o marido.

Elizabeth agradeceu-lhe, levantou-se e saiu da carroça. Andrei já não tocava mais, estava sentado junto ao neto.

Essa foi a primeira e última conversa que Elizabeth teve com Lorna.

Dias depois, chegou ao acampamento a senhora que acompanhara Elizabeth. Chegou com pressa, à procura de Lorna, a criança estava para nascer.
Lorna olhou incerta para Istvan, e este lhe deu um leve aperto no braço como um consentimento.

Lorna foi à casa da moça. No enorme quarto estava Elizabeth, meio torcida pela dor e, ao seu lado, uma senhora de meia idade que lhe passava água no rosto suado. Ao vê-la, Elizabeth tentou sorrir e agradeceu sua chegada.

Os minutos se arrastam para horas. O primeiro parto é sempre imprevisível, pensava Lorna, enquanto olhava pela janela. Qual a sensação de uma moça tão bonita, rica, ter seu primeiro filho e dá-lo.

Quase três horas depois nascia a criança e foi Lorna quem a pegou. Se existia alguma dúvida em Lorna, esta se dissipou ao olhar a pequena menina. Enquanto a limpava, ela sentia uma doce emoção. Pairou um encantamento. Ouviu Elizabeth pedir alguma coisa, mas ela só tinha olhos para a criança, uma menina! Istvan iria ficar feliz, o velho Andrei também. E para ela era a realização de um sonho.

Os pensamentos de Lorna foram interrompidos pela ama de Elizabeth, que pedia para ver a criança. Ela pegou a menina no colo e parecia emocionada ao devolvê-la a Lorna. Pegou um bauzinho e o estendeu a Lorna, dizendo: - Isso é da criança, eu mesma fiz.

Lorna enrolou a menina com uma manta, foi junto de Elizabeth e perguntou:

- Como sabia que eu viria?

- Simplesmente, sabia. Você será uma boa mãe, Lorna, eu sei. Deixe-me vê-la.

Lorna não conseguiu decifrar o que se passava no íntimo de Elizabeth, se tristeza ou alívio. Elizabeth entregou a menina a Lorna, que ao dirigir-se à porta ouviu Elizabeth perguntar-lhe:

- Qual o nome que você dará a ela?

Lorna virou-se: - Natasha.

No acampamento, Istvan estava ansioso e ao ver a charrete chegar foi em sua direção. Lá estava Lorna com o bebê nos braços. Istvan a olhava com expressão de candura. E sua expressão aumentou quando soube que era uma menina e falou: - Bem-vinda à vida. Que Santa Sofia lhe dê saúde e felicidade, Natasha.

Tuthy, que acompanhara Lorna até o acampamento, olhava a menina. Lorna pediu para o marido pegar o baú.

- Cuide bem dela, - disse Tuthy despedindo-se.

- Não tema, sempre quis ter outro filho, só uma coisa me preocupa: diga a sua senhora que não procure ou queira saber sobre a criança. Hoje eu estou assumindo a menina e a partir de agora eu sou sua anya. Honramos e amamos nosso povo. Ela agora faz parte de tudo isso.

- A senhora não tem com o que se preocupar, não há motivo para isso. A senhorita está de casamento marcado para outubro próximo e irá morar na corte austríaca. Agradeço-lhe por tudo, cuide bem da menina Natasha. Adeus!

- Nós ciganos nunca dizemos adeus. – falou Lorna acenando.

As lembranças viajaram no tempo. Relembrava os primeiros anos de Natasha. Desde pequena encantava a todos, embora não tivesse o tipo cigano. Seus cabelos claros, sua pele alva e seu sorriso eram por demais leves.

Mas Lorna passava muita coisa para a filha, era a magia dos ciganos húngaros, que Lorna trazia em si, como também uma determinação maior. E os grandes olhos amendoados da menina observavam a mãe, e aprendiam.

O amor era dado por igual a Andrei e a Natasha por todos. O pequeno Andrei cuidava da menina como a um pássaro, e a chamava de Madar (pássaro em húngaro).

O velho Andrei tinha um carinho especial pela pequena e delicada Madar, ficava horas contando-lhe histórias, lendo ou conversando com ela, e nelas ele sempre contava como Natasha chegara ao acampamento, como um pássaro.


Um leve barulho faz Lorna voltar a si: - Natasha?

- Desculpe-me, tentei não fazer barulho. Vi-a tão pensativa, tão distante, olhando o céu.

O que a senhora vê nas estrelas, anya?

Lorna volta-se para a filha: - Sente-se, quero vê-la.

Natasha beijou-a na testa. A claridade da carroça vem de fora, da lua e das fogueiras.

Os olhos de Lorna se fixaram no rosto de Natasha. O que Lorna poderia dizer-lhe! Nela própria existe um medo surdo, mas em Natasha existe alegria, alegria diz tudo. Seus olhos amendoados e grandes brilhavam, sua boca bem feita trazia um sorriso, o nariz afilado e meio arrebitado, a pele branca e lisa.

Natasha tem uma beleza serena e notada. Seus cabelos vão até a cintura, parecem uma cascata cor de mel. Seu corpo é mais para magro, mas bem-feito. Ela tem uma graça natural.

- Anya! Em que pensa?

- Em você. Por que é tão importante o lago Balaton?

- Não vou conseguir falar bem o que sinto, pois simplesmente sinto. Admiro-a tanto, anya. A senhora é sempre tão prática, tem o raciocínio rápido, sua mente parece ter a resposta para tudo, seus olhos enxergam além, e ninguém consegue mentir para a senhora. Tento analisar que felicidade é essa que me cerca toda vez que penso no Balaton, só que ela me excede. Deve ser curiosidade.

- De que?!!! Você estava tão doente quando esteve lá, com uma febre tão alta que, ou estava delirando, ou dormindo.

- Anya, uma tarde acordei, olhei pela janela da carroça, o mundo parecia encantado, ouvi os pássaros cantarem tão alto, o verde do bosque era diferente. Existiu algo que não consigo atinar... Eu sei que existiu, eu sinto que existiu.

Anya, a senhora contou-me tudo que se passou lá?

- Claro que sim!

Você chegou ao lago já doente, sarampo brabo, desses que só dá por dentro. Ficamos loucos de preocupação. O dono das terras levou um médico para vê-la, e assim que você melhorou um pouco, viajamos. Isso é tudo!

- Como é esse homem?

- Ah! Já não lembro mais. Por quê?

- Nada... Só curiosidade, apenas isso.

- Nat, você esteve doente, bastante doente, foram dias de cama, febre e delírios. Nada mais lógico que quando você melhorou ou voltou a si, o que viu primeiro a encantou. Isso é natural.

Natasha levantou-se e foi à porta, olhou o céu estrelado: - Pode ser.

Acho que tenho muito do avô, ser afetada por acontecimentos tão sutis, mas de uma grandeza que invade a alma.

Durante todo esse tempo, sempre sonhei em voltar ao lago, são mais que dois anos. Não sou mais criança que fica criando fantasias. Devo ter realmente ficado impressionada com o local. Sempre que penso nele, meu coração dispara, invade-me algo desconhecido. É como se ele chamasse por mim... Sinto isso anya, por mais imaginação que possa parecer, por mais sensibilidade que traga em mim, isso é real e está em mim. Só não sei por quê, e não quero evitar sentir.

- Vá dormir, Nat, amanhã cedo partiremos, é uma longa viagem.

- Anya, Belle está preocupada com esse clima de guerra. Vi-a tão aflita conversando com Andrei.

- Tenho que dizer que essa preocupação não é só da sua cunhada. Mas seu pai sabe o que faz. Vá dormir, vou chamar seu pai.

A chuva fina começou no momento em que as carroças começaram a sair. Natasha acomodava as crianças junto com sua cunhada Belle. Ao todo, na carroça, estavam sete crianças; duas eram de Andrei e Belle: Erno e Gaspar, um com cinco anos e o outro com quase três.

Estavam a cantar, assim parecia que o tempo corria mais rápido, Lorna seguia em outra carroça com outras senhoras do grupo, geralmente fazendo colchas de retalhos ou roupas. Todo serviço é dividido. Em outras duas carroças vai o material de trabalho, como as peças de bronze. Ao todo são doze carroças. Natasha vê, pela janela, Andrei e dois homens passarem a cavalo, eles devem ir à frente, guiando.

Ela e Belle falam sobre a feira, como também da preocupação em entrarem na Rússia. E Belle completa:

- Falei com Lorna, ela também está preocupada em entrar na Rússia.

- Anya supera tudo, sua preocupação é voltarmos para o lago Balaton. Não me pergunte porque eu não sei.

- Todos esses anos, que convivo com Lorna, nunca a vi ter uma preocupação sem motivo.

-Natasha concorda e fala que talvez deva ser recordações ao voltar para Hungria. Pois ate pouco tempo, os ciganos da Hungria podiam ser escravos e que sua anya saiu de lá e perdeu pessoas queridas. Lorna não contara esta historia a ela e sim seu avó. Em 1782 os ciganos foram libertados. Continua a contar a Belle:

- - Nasci nove anos mais tarde. Acho que, para ela, que perdeu gente sua com essa escravidão, por mais amor que tenha à terra, as recordações doem.

-Seu grupo cigano ficou quase todo lá, ela e uns poucos conseguiram fugir e se juntaram ao grupo do meu avô na fronteira da Áustria. Assim ela conheceu meu pai, assim se juntaram os grupos. Meu avô contava que esses poucos fugiram e seguiram anya. Quando eles chegaram ao acampamento, estavam mortos de fome e cansaço, mas anya, com seu orgulho danado, deu comida a todos e os acomodou. Só depois de ajeitar sua gente, foi a meu avô e agradeceu, sentou-se e comeu. Ela nunca tinha saído da Hungria, os ciganos húngaros sempre se fixam, tem raízes e amor à terra.

- Mas seu avô adorava viajar, afirmou Belle.

- Sim, adorava, e esse é o motivo de ele ter se tornado um cigano, percorrendo novos horizontes. Ele falava que teve que fugir de sua cidade. Seria ficar e morrer ou sair e descobrir o mundo. Mas tenho certeza que não foi algo tão dramático assim, meu avô teve uma boa educação, teve estudo, pois seus pais tinham uma boa situação financeira, eram comerciantes. Mas ficar na cidade, a meu ver, era dar adeus ao mundo que tanto ele queria conhecer. Seria a morte no sentido de vivência, de conhecimento.

Anya, quando chegou ao acampamento, meu avô já era viúvo, ela e meu pai se apaixonaram e logo casaram. Foi ela quem deu ordem ao grupo. Ela diz que meu avô tinha as rédeas soltas, brigavam bastante. Ele dizia que sempre ganhava nas brigas, mas tenho minhas dúvidas. Ele a adotou como filha, e ela, a ele, como pai. Sabe Belle, o avô foi o homem mais notável que conheci, sinto por você não o ter conhecido.

- Seu irmão diz que ele tinha muito conhecimento e um coração enorme como o do seu pai.

- Meu pai tem muito do meu avô, uma ingenuidade que nada tem dos ciganos. Já Andrei é um equilíbrio, fisicamente parece com o pai, mas tem a esperteza cigana.

- E você?

As crianças adormecem, Natasha acomoda Gaspar.

- Quando nasci, Andrei já tinha dez anos, o amor dos meus pais sempre foi bem distribuído. Um amor manso e sentido. Mas, às vezes, umas poucas vezes eu me sentia como estivesse fora daqui ou não fosse daqui. Não sei se você me entende, eu nunca falei isso a ninguém, só ao avô. Era algo em mim, não que me passassem isso. Aí, então, meu avô pegava-me pela mão e falava: - Madar, olha o céu, veja as estrelas, olhe dentro de você, o mundo é imenso, grandioso e, às vezes, nos sentimos estranhos diante de coisas tão grandes, sentimo-nos pequeninos, mas o mundo é como o vemos, se quisermos fazê-lo feliz o faremos. Eu ficava feliz.

- Você, às vezes, fala coisas que eu não entendo; acho que é porque você é letrada. Você fala estranho e meio difícil, mas a admiro muito, Nat.

- Ah Belle, deixa de bobagem, o que vale é o que trazemos dentro do coração. Você e Andrei se dão tão bem sem saber o que tem nos livros, simplesmente vivendo. Veja anya, seu poder de observação vale mais que uma leitura.

Belle, tenho algo a lhe perguntar: no lago Balaton, assim que chegamos nasceu Gaspar, mas o que achou de lá?

- Ah Natasha, é um lugar muito bonito, se fosse por mim, eu ficaria sempre lá.

- O que ocorreu, mal lembro de como chegamos.

- Sei muito pouco, Nat, estava de resguardo. Além do mais era sarampo e você ficava isolada, por causa das crianças.

- Você chegou a ver o dono da propriedade onde estávamos acampados?

Belle acena.

- Fale-me dele.

- Sei que ele apareceu logo depois que chegamos. Nesse mesmo dia trouxe um médico. Daí, todo dia, ele vinha ao acampamento. Às vezes, mais de duas vezes ao dia, passava um bom tempo na sua carroça.

- E como ele é?

- Como ele é, como? O que você quer saber?

- Belle! Se é velho ou torto, sei lá! Como ele lhe pareceu?

- Quer saber mesmo? Que fique entre nós, pois você me conhece, nunca fui leviana.

- Eu sei Belle! Fale-me como ele é.

- Vi-o de perto só uma vez. Ele foi com o médico à minha carroça, ver as crianças. Natasha, é um homem de virar a cabeça de qualquer mulher. Ele deveria ter uns vinte oito anos, mais ou menos, cabelos negros como os olhos. Muito sério, mas o ouvi diversas vezes rindo com seu pai. Tem aquela risada solta, sincera... Que homem!

Por que essa pergunta?

- Por nada. Às vezes penso por que saímos tão repentinamente do lago Balaton, se esse homem não teria gostado de nossa presença lá. Mas como você e todos falam, ele me ajudou, não tem sentido.

As carroças estão parando, devemos cuidar da comida.

Avô, se existe uma ocasião em que agradeço o senhor não está aqui entre nós, este é o momento. O senhor, com toda sua sensibilidade, não gostaria de ver o que vimos, não gostaria de estar onde estivemos.

A guerra é a coisa mais desumana que existe na terra. O que leva os homens a isso? Eu jamais vou entender. É pelo poder? Pela soberania? O homem, às vezes, se torna uma besta por demais poderosa, cruel demais.

Ao entrarmos na Rússia, encontramos os franceses de Napoleão, eles destruíam tudo, acabavam com tudo. E por quê? Por um homem louco que quer ter o mundo como seu! É loucura. Vi tantas cenas tão amargas, tanta crueldade. Onde estaria a humanidade, o ser humano, a natureza humana. Vi gente morrer de fome. De fome, avô. Soldados famintos, e por um ideal de grandeza territorial. Naquelas terras não tinham o que comer. Vi mulheres chorando, buscando os seus maridos ou filhos que deveriam ter retornado com as tropas. Avô, quero apagar isso da memória. É terrível, e não há razão que explique e convença o motivo da guerra.

Queimaram Moscou, a Rússia está vazia, chegamos lá e já estavam os franceses e vimos sua retirada.

Acampamos uma noite e tudo parecia quieto, o mundo parado. A noite estava linda, uma noite como o senhor falava: para sentir-se dono da vida, do universo.

Sentei-me perto do pai. Tremia de frio e já não tínhamos mais certeza se deveríamos seguir viagem. Não víamos ninguém. Muitas vezes ouvíamos movimentos na folhagem, perto de nós, pareciam esquilos assustados, escondidos. Nos primeiros dias cheguei a pensar que era por nossa causa. O medo, que alguns sentem dos ciganos, que ingenuidade! Era um medo de algo maior, centenas de vezes maior.

Sentada junto ao pai, na escadinha da carroça, juntinhos tomávamos chá.

- Pai, o que está se passado aqui?

- Esta terra está na expectativa, filha. Os russos estão esperando não sei o quê. Escondem-se, distanciam-se, isso não é deles. Deixaram os franceses entrar em seu território, os próprios russos queimaram Moscou. Existe algo muito sério, algo no ar. Ontem, eu, Andrei, Friggs e Pal avistamos Moscou. Não entramos na cidade, chegamos perto. As estradas estão vazias e a cidade também.

- Não sabia que vocês tinham ido à cidade.

- Não quisemos causar preocupação.

A Rússia está quieta, está tudo parado. Onde estaria aquele contingente francês que vimos passar ao longe? Onde estão os russos? Está tudo deserto e Moscou destruída.

Pensei encontrar alguém para explicar-me como está a situação em Nijmí.

Não vimos ninguém, não existe a quem perguntar. Ficamos num monte, olhando a cidade queimada e vazia. Quando montamos os cavalos e saímos, alguns soldados franceses nos detiveram, eles não nos entendiam, nem nós a eles, só quando viram nossos trajes, entenderam que éramos ciganos, apontaram seus fuzis nos mandando embora.

Por tudo isso, acho que é mais prudente voltarmos. Amanhã reúno todos e falarei.

Não sei se existirá a feira ou não. Se formos em frente, além de imprudência, não sei como estarão às estradas. A cidade parece uma cidade fantasma. Russos, não vimos um; só alguns franceses, e o que eles esperam?

Se formos em frente é penetrar no escuro, pura imprudência.

Moça, creio que vamos estar no Balaton antes do previsto.


Neste momento não penso mais em nada, somente na emoção de logo estar no Balaton.

Desfrutei ali uma paz, o lago Balaton. Dormi naquela noite com os anjos, tenho certeza. Ao acordarmos, o pai conversou com todos e foram unânimes em sair o quanto antes da Rússia.

Ainda acho engraçado ver essas decisões finais, com os mais velhos sentados em círculo, as mulheres atentas. Anya é uma que pergunta tudo, mostrando que está presente, opinando.

O vento forte fez com que a reunião acabasse mais rapidamente. Voltamos às carroças para nos preparar para viagem.

O frio insuportável, a neve começa a cair. Seguimos estrada afora.
O mundo estava todo branco, terra e céu se uniam com o vento frio. E que frio! Até os ossos doíam. Os cavalos deveriam gostar de cavalgar, assim se esquentavam.

Vez por outra olhava pela janela, tudo branco, o vento gemia. Andrei passou a cavalo para acompanhar e verificar as carroças. Pal seguia à frente para dar rumo à caravana. A neve era tanta que as rodas, ao passar, deixavam sulco como um marco.

As peles eram poucas para tanto frio, as crianças dormiam bastante, o que era uma sorte, Por muitas vezes paramos, mas não podíamos descer, o vento cortante nos impedia e quanta neve! O pai ou Andrei eram os que traziam a comida, sempre sopa e pão. Ficávamos, Belle e eu, a pensar como o pessoal estaria se virando para cozinhar com os movimentos das carroças.

Tentei, uma das vezes, chegar à carroça de anya. A neve batia no joelho.

A marcha era lenta, o cenário de um branco infinito. E em meio àquela paisagem silenciosa, ouvimos, todos ouvimos, tiros, tiros de canhão!

Não sei por quanto tempo reinou aos ouvidos aquele som infernal. Os cavalos assustados, as crianças chorando.

Num ímpeto abri a porta. Vi Andrei acalmando os cavalos, que, assustados, queriam erguer as patas. Ouvi seu grito: - Natasha! Feche a porta da carroça! Não saia. Ouviu? Não saia!

O mundo parecia desabar e eu olhando.

- Feche a porta, Natasha!

Tranquei a porta. Senti meu coração bater rápido. Erno e Gaspar abraçaram-me. Belle encolhida num canto, acalmando as crianças. Os dois meninos escondiam suas cabecinhas no meu ombro. Minhas mãos suavam apesar do frio. Juntamo-nos. Existia calor, não pelo fogareiro, não pelas peles. Os tiros de canhão pareciam atingir minha cabeça. De fato, estavam muito próximos. Seriam os franceses atacando os russos, ou os russos atacando os franceses?

Que importância teria, era um monte de homens se matando.

Aí caiu um silêncio mortal.
As crianças levantaram suas cabecinhas.

Foi, então, que ouvimos o pior, eram gritos desesperados, gritos de dor.

- Por quanto tempo isso vai durar? – perguntava Belle, com desespero.

- Não sei Belle.

Não sei por quanto tempo ficamos parados só ouvindo os gritos. Passavam-me tantas coisas na cabeça. Vinha a vontade de ver se todos estavam bem; vinha a vontade de ajudar e vinha a maior vontade de sair desse pesadelo.

Os gritos se distanciavam mais e mais.

As crianças gritaram aterrorizadas quando a porta se abriu. Era Andrei. Os meninos correram em sua direção.

Depois de acalmar a todos nós, ele chamou-me com Belle para irmos lá fora e incumbiu as crianças da limpeza da carroça.

- Fica aqui, pai!

- Estou aqui fora com sua mãe e sua tia, é só olhar pela janela. Mas varram e arrumem toda essa bagunça.

Fora, o sol brilhava, mas o frio, apesar da trégua da neve, era intenso. Belle abraçou Andrei e eu perguntei o que estava acontecendo.

- Uma batalha. É a guerra. Não podemos ficar parados, estamos expostos. Há uma aldeia a mais ou menos 20 Km daqui. Temos que chegar lá.

- Existe alguém nessa aldeia?

- Sim, vimos luzes nas casas. Chegamos perto, porém ouvimos os tiros e voltamos o mais rápido possível. Quando você me viu, Nat, tínhamos acabado de chegar.

Sei que foi um ataque de surpresa. E quem foi surpreendido bateu em retirada para aqui perto. Como, também, não deve haver mais ninguém por aqui.

- Como você sabe? – perguntei.

- Estamos numa planície, e quem foi pego deve ter ido até aqueles montes em busca de maior proteção. Com certeza foram os franceses, pois os tiros foram se distanciando da aldeia. De qualquer maneira, não podemos ficar parados por mais tempo, expostos num campo aberto. E os cavalos têm que se movimentar.

Tinha perdido a noção do tempo e perguntei: - Andrei, há quanto tempo estamos parados?

Sua resposta: - Há quase cinco horas.

Certifiquei-me de que meus pais estavam bem e fui para a carroça. As crianças tinham arrumado tudo. Logo chegou mais sopa, seus rostinhos ficaram desanimados: – Mais sopa!

Meus pensamentos estavam na conversa de Andrei. Tínhamos visto muitos franceses a pé: olhei a janela e vi os montes, a essas alturas eles devem estar lá. Deus permita!

Seguimos viagem, qualquer barulho maior assustava a todos.
Não fazia muito tempo que estávamos viajando, quando paramos.
Agradeci a Deus, pois devíamos estar chegando à aldeia.

Fui à janela, e o que vi até agora está em mim: eram dezenas de corpos pelo chão, a neve ficara vermelha de sangue, muito sangue.

Fiquei petrificada. Quantos homens? Parecia uma infinidade.
Senti a mão de Belle no meu ombro, com a outra mão ela cobria o rosto horrorizada.
Vi o pai e Andrei, correrem para onde estavam os corpos.
Vi anya e mais pessoas correrem para lá.

Que cena horrível!

- O que está acontecendo, Nat?

A inocência das crianças se chocava com a brutalidade da cena. Empurrei Belle contra a janela e falei: - Tome conta deles, está me ouvindo, Belle?! – ela, estática, encobria a janela com o próprio corpo.

Saí, eu não andava, corria, como se correndo pudesse trazer vida.

Via o pai e anya debruçados em alguém. Via nossa gente estarrecida.
Eram tantos cadáveres ao chão! Era tanto sangue!

Foi quando ouvi um gemido do meu lado direito. Passei os olhos, angustiada, por entre os corpos sem vida. Meu coração batia forte; foi então que vi, junto de dois corpos mutilados, um rapaz.

Aproximei-me dele. Ele gemia deitado na neve; sua barriga era só sangue.
Agachei-me. Meu Deus! Quantos anos teria? Parecia um garoto.

Toquei sua testa, ele olhou-me.
Seus olhos estavam desesperados. Ele falava baixo, e eu não o entendia.

Segurei sua mão, era só sangue. Desesperada, passava a mão em sua testa e falava-lhe: - Você vai viver... Está me entendendo, você vai viver, estamos aqui. Você vai ficar bom, cuidaremos de você.

O que ele falava eu não entendia, só via que seus olhos se acalmavam.

Alisava sua testa fria, segurava sua mão. Sua expressão se suavizava, sua mão apertava tanto a minha que chegava a doer, e eu só repetia:

- Você vai viver, cuidaremos de você, entende-me!

Sua voz era baixa. Eu não o entendia. Sua mão apertou-me mais e depois a largou.
Olhei em seus olhos, seus olhos estavam parados. Não tinham mais vida.
Alisei sua testa: - ele vive, pensei.

Peguei novamente sua mão apertando-a e pensei: - ele vive...

Nada! Ele estava morto.

Debrucei-me nele e chorei, chorei com tamanha dor. Chorei pela vida de um garoto, que morrera de tanto sangrar. Um garoto que deveria ter uma família, um lar, e estava naquele chão gelado. Morreu só, tendo apenas eu por perto, sem entender o que ele falava. Morreu cercado de cadáveres mutilados. Meu Deus! Morto por uma guerra imbecil, onde não há motivos que justifiquem uma morte assim. Quem é capaz de ferir um menino e o deixar sangrando até morrer!

Senti alguém puxando-me, era Andrei.

- Ele está morto. É só um garoto, veja! Ele morreu de tanto sangrar. Um menino ainda. Ele estava vivo, falou comigo e agora está morto! Que gente é essa, Andrei? Matar um garoto!

- Ouça, Natasha, ouça-me! Não é ele. Olhe em volta. São, no mínimo, uns duzentos!

Venha comigo. Vamos sair daqui.

Ele abraçou-me e saímos. Olhei em volta, só corpos espalhados, sangue e neve. Anya juntou-se a nós e Andrei perguntou: - Alguém vivo?

Ela negou com a cabeça.

Meu estômago embrulhou.

Fui para a carroça de anya. O silêncio imperava, não se tinha o que falar, cada um ruminava o que tinha visto: atrás ficavam trezentos homens, trezentos cadáveres!

Lembrei-me daquele dia que vimos, o avô e eu, uma raposa morta. Ela também sangrara até morrer: com a pata presa na armadilha, ela, em seu desespero, mordeu a própria pata.

O avô ajoelhou-se perto dela e falou: - Pobre raposa, não teve a menor chance. Antes, livre e viva, e, agora, presa e morta.
Assim, foram aqueles homens, não tiveram a menor chance.

Anoitecia, já via luzes na aldeia. Da janela ela parecia um lugar morto, sem vida.
Em mim existia uma hostilidade àquela gente. Uma hostilidade pelo que fizeram aos franceses.

As carroças pararam. O pai e Frigys partiram a cavalo até a aldeia. Anya deu-me um chá, mas recusei: - Não tenho fome. Só consigo pensar no que vi, na brutalidade dessa gente.

- Natasha, olhe bem para mim. Estamos na Rússia, estamos para entrar em uma aldeia russa. Não esqueça que os franceses invadiram a Rússia. Deixe seus julgamentos para depois. Não seja precipitada, sabemos que nada justifica a morte e o homem é o único animal que mata um de sua espécie sem maiores motivos. Porém, trate de engolir seco e prepare-se para estar com os russo logo mais. Eles estão mais assustados que nos.

Logo chegou o pai e dois homens, eles abriram uma a uma as carroças e seguimos para a aldeia.

A aldeia era pequenina. Com a chegada das carroças, saíram das casas mulheres e crianças, que pareciam assustados e vinham ao nosso encontro. Algumas mulheres levaram nossas crianças para uma das casas. Os dois homens ajudavam com nossos cavalos.

Nosso povo estava se espalhando, sendo levado por essas pessoas a suas casas. Na porta de uma das casas uma jovem sorria para mim: Com um bebê nos braços, chamava-me com a mão.

Fui ao seu encontro: ela abriu a porta da casa, um lugar modesto e limpo.

- Seja bem-vinda!

- Você fala húngaro.

- Meus pais eram húngaros. O que você quer primeiro, lavar-se ou comer?

- Não se preocupe comigo. Quero dar uma olhada na minha gente, eles...

- Eles estão, todos, bem amparados. Comer ou tomar banho?

Optei por um banho, e por mais que insistisse que eu mesma faria, ela foi esquentar a água. Fiquei com o lindo e rechonchudo bebê nos braços.

A noite chegou fria, mas caía menos neve que na noite anterior. Comemos e fomos para um grande celeiro. As crianças brincavam, os adultos tentavam disfarçar suas ansiedades, Pal toca violino numa tonalidade suave. Pairava uma homogenia entre nossa gente e aquele povo.

Larissa aproximou-se de mim com o bebê dormindo, tranqüilamente em seus braços.

- Está com sono, Natasha?

- Não, mas caso queira ir deitar-se, não se incomode comigo.

- Não, depois da invasão dos franceses ninguém dorme cedo. Ademais, quem sabe, pode chegar alguma noticia de nossos homens.

- Seu marido está lá?

- Está. Estão todos lá. Só ficaram Leon e seu irmão para nos dar assistência. Faz mais de uma semana que ele partiu. Era noite, quando nosso exercito chegou, recrutando mais homens.

Preparavam um ataque aqui por perto. Todos quiseram ir, até vovô Ivo, mas é claro que os mais velhos ficaram.

A cena dos franceses mortos vieram à minha mente. Não queria falar sobre o ataque e mudei o rumo da conversa: - Larissa, pode parecer uma pergunta tola, mas por que eles foram?

Ela olhou-me curiosa e falou: - Não procuramos a guerra, estávamos aqui quietos. Não é fácil você ver sua terra invadida. É nossa terra, é nosso lar, isso é nossa vida. Não só a aldeia, a Rússia é nossa. Temos uma unidade. Nas nossas lavouras usamos nossas sementes e não sementes francesas. Foi a custo de muito suor que construímos tudo isso, onde vivemos e amamos. Como pode vir alguém de fora, de outra terra, querer tomar o que é nosso. É como se alguém chegasse a sua casa e falasse: Vá embora que isso é meu; se não for, eu tomo e, se resistir, eu mato.

- Com que direito? – continuou Larissa:

- Foram eles que jogaram a semente na terra, que suaram como condenados, enquanto aravam? Foram eles que fizeram a Rússia? Nós temos uma longa historia, ela foi erguida com muito sacrifício. Não pedimos esta guerra, não fomos a terras francesas insultar ninguém, estávamos aqui, e aqui estamos a defender o que é nosso, o que nos é de direito, e amamos.

Era estranho ver alguém falar da terra como sendo sua, falar de sua Pátria com tanto amor. É difícil entender que se pode dar a vida por um pedaço de terra. Que sentimento é esse?

Fomos dormir tarde naquela noite, mas não apareceu ninguém para trazer notícias. As notícias vieram trazidas pelo vento: ouvimos tiros. Era o pesadelo novamente, só que, para nós ciganos, um pesadelo distante, e para o povo que nos acolheu: uma tortura lenta.

O dia amanheceu com sol, ainda deitada refletia sobre a guerra. Ao levantar, Larissa já estava no fogão e o lindo bebê Vladimir brincava com os próprios pés. Experimentei algo delicioso: kasha, isto é, trigo sarraceno, leite e passas, como também o pão negro de farinha de centeio, de sabor forte.

Percorrendo a aldeia, via a interação do nosso povo com os moradores. Na aldeia só ficaram os mais velhos. Vi Andrei com o rapaz russo, Leon. Consertavam o pavimento superior de uma casa. É lá onde se guardam os mantimentos, em todas as casas a que fui, observei a mesma coisa. Era uma visão bonita, uma união silenciosa e partilhada. Apesar da dificuldade de nos expressarmos em idiomas diferentes – só o pai sabia comunicar-se em russo –, a compreensão era à base da comunicação, as crianças brincavam com igualdade. Os adultos trabalhavam em harmonia.

Vi costumes tão interessantes. No chá, eles usam calda de doce para adoçar. Vi a “troika”, são três cavalos: o do centro marcha entre dois varais, enquanto os outros dois galopam com as cabeças voltadas para fora. O arco de madeira sobre o cavalo do meio era pintado de azul e enfeitado de estrelas de prata, dos arreios pendem sonoros guizos.

À noite, ouvíamos, além dos violinos, Marusia tocar a balalaica. Dentro do grande celeiro – nas noites existia trégua entre o medo e a ansiedade –, riamos e brincávamos. Andrei e Belle mostraram nossa dança, e Marusia tentou ensinar Pal a dança russa.

E nesta noite, quando todos estavam mais descontraídos, observava Larissa, que sorria; mas, vez por outra, olhava a estrada que dava para a aldeia. Afirmei, preocupada:

- Acho que a espera é por demais demorada.

- Ele vai voltar, Larissa.

- É sua intuição cigana que diz?

- Acho que sim. Apeguei-me a vocês e rezo, com toda minha fé, para Vladimir voltar.

- Que o Senhor Deus a ouça.

Fomos dormir tarde.

Já estava amanhecendo, quando ouvimos barulho de cavalos. Larissa pulou da cama e abriu a janela. Seu grito foi ouvido: - Eles estão voltando! Acordem, eles estão voltando!

Essa cena marcou-me muito.

O sol estava nascendo, fui à janela. As pessoas saíam correndo de suas casas – idosos, mulheres e crianças –, chamando o nome dos maridos, pais, irmãos ou filhos. Chegaram primeiro os homens a cavalo, outros vinham a pé, e outros em macas arrastadas por cavalos.

Nossa gente estava toda parada nas janelas e portas. O momento era deles e o que fazíamos era olhar. Torcia minhas mãos, nervosa. Dentro de mim, um pedido: Fazei, Deus, que todos tenham voltado.

Acompanhava Larissa. Assustada, ela olhou os homens a cavalo. Parou alguns segundos, ele não estava a cavalo, ela correu para um homem que vinha a pé, que apontou para trás. Ela correu para ver os que chegavam nas macas.

Os cavalos pararam. Perdi-a de vista por um instante. Quando a reencontrei com os olhos, ela estava debruçada sobre uma das macas, sorrindo e chorando. Fechei os olhos e agradeci a Deus, ele estava vivo. Abri-os com um grito, era Marusia, vi Pal ir a seu encontro e abraçá-la.

Depois foi uma loucura, alguns riam outros choravam. Os homens terrivelmente cansados, alguns de farda, se misturavam ao povo da aldeia. Os feridos foram levados para o celeiro.

O que é a guerra senão dor?

Marusia perdeu seu irmão, a única família que ela tinha. Vladimir ferira sua perna direita, uma ferida feia. O filho mais novo do casal que hospedou o pai e anya não resistiu aos ferimentos. Como ele, mais cinco soldados.

Qual o resultado da guerra senão seqüelas para o resto da vida? Como Vladimir, que ficará curado, mas usará muleta.

E os tantos que morreram.

Se tentasse julgar pelo que vi, aqueles franceses mortos e o garoto, seria injusta para com essa gente boa e hospitaleira. Que falam de um sentimento que até então desconhecia: o amor ao lugar em que se vive; a terra que se tem como sendo nossa.

Com quem estaria a verdade?

Lembro-me do rapaz morrendo, eu segurando sua mão, a lhe falar de vida, que ele ia viver, e ele sentindo a morte. Vi Marusia chorar a morte de seu irmão, que lutou e morreu para, segundo ela, garantir-lhe a liberdade.

Onde estaria a verdade? Julgar seria insensatez.

Os dias que se seguiram foram de mais tranqüilidade. A recuperação dos doentes corria bem, a vida tentava seguir seu rumo. A tranqüilidade aumentou quando chegou um mensageiro trazendo a notícia de que os franceses já estavam muito distantes. O alivio foi geral, a aldeia acalmou-se: o perigo se distanciara.

Ao cair da tarde o pai comunicou que partiríamos no dia seguinte. O jantar foi por nossa conta.

Foi uma noite bonita, não digo que tenha sido alegre, era impossível, foi uma noite de comemoração. Comemorou-se a saída dos franceses, comemorou-se uma amizade, comemorou-se uma decisão difícil, Pal decidira ficar com Marusia. Sentimo-nos felizes pela felicidade deles, mas já sentimos a saudade dele. Já esperava por isso, os olhos de quem está apaixonado não dão para esconder.

Há quase dois anos ele dissera estar apaixonado por mim. Foi uma situação meio constrangedora, vendo-me obrigada a falar-lhe que gostava dele como amigo, como um irmão. Ele passou uns dias triste. Mas não era amor e sim carinho, o que ele sentia por mim.

Estava tão entretida vendo Marusia e Pal, que nem percebera Larissa chegar.

- Está feliz em partir, Natasha?

- Por um lado, vou sentir saudades de todos vocês, nosso amigo e irmão vai ficar. E, por outro lado, fico feliz porque vamos para o lago Balaton.

- E esse lago, é um lugar tão especial assim?

- Deve ser, com certeza deve ser...

Não tive tempo de responder a Larissa, Andrei puxou-me para dançar.

Fomos dormir muito tarde e, ao amanhecer, já estávamos prontos para partir. Foram tantos abraços. Pal e Marusia, além do abraço amoroso, ficou o desejo de eles terem toda a felicidade do mundo.

Parti com a certeza de que a dor une as pessoas. A única coisa que aprendi com a guerra.

Foi ali que comecei a entender o amor a uma terra.

Que sentimento tenho referente ao Balaton? Um amor ao lago, àquela terra tão distante e tão presente em meus pensamentos? Amar um lugar onde só estive uma vez, ter sempre a lembrança, e no coração um pedido enorme, de voltar, de estar nele. Foge à minha razão. É um encantamento que me chama e que, logo, me dará a resposta.