Taças

Índice de Artigos

Sexta-feira.
9:45 manhã nublada.

Não fui à ginástica, andava na praia, o mar lindo e sereno. É sempre assim quando chove.

O pensamento corria solto, sem forma, abstrato, aí senti:

- A tenger hullamáinak moroja. Abril 1813.

Estamos no final de julho.

Liguei para a Embaixada da Hungria. No íntimo, sabia exatamente a tradução. A secretária da
Embaixada riu ao ouvir meu pedido: - Por favor, gostaria de falar com alguém que fale húngaro.
Logo ouvi a voz de um homem que traduziu: - O murmúrio das ondas do mar.

A decisão foi tomada, vou para casa de praia da minha amiga.

Como também, na volta, já marquei a terapeuta.

Noite.

Tudo organizado. Terça-feira vou para a casa de praia. Minha previsão de estada é pouco tempo, mas isso é modulável de acordo com minha tentativa de compreensão, parece-me mais um retiro onde eu possa chegar à razão. E o tempo será um grande fator.

Divinizo tempo.O tempo numérico, etário, contado aos dias, meses e anos.O tempo do sol ou chuva.O tempo pessoal, indeterminado.Ele é tão fictício. Hoje choveu e, agora, a noite está linda.

Quando estamos bem não contamos, o tempo voa, nem é percebido. Se existe ansiedade ou angústia, ele se arrasta como um prisioneiro que leva ao pé uma corrente com bola de ferro.

Muitas vezes, em fração de segundo, obtemos respostas que valem horas ou dias de reflexão. E muitas vezes, o próprio tempo nos poupa; noutras, é como um inquisidor que nos leva a alto grau de questionamento. Esse tempo pessoal parece seguir uma cronologia encantada de pessoa a pessoa. Ele é o elo do impossível ao possível? E ele que nos gera a esperança do logo mais...


S
egunda-feira
Anoitece.

Como um mergulho.Mergulho solitário, busca-se compreensão...Excede, busca-se consciência.Mergulho solitário no tempo. É a esse tempo que vou recorrer? O tempo pessoal – indeterminado?

O tempo do não tempo. Não sei, e jogo no tempo a pergunta.

No mergulho, de antemão sei que existem surpresas; algumas agradáveis, outras não.
O mergulho, rasgar o véu: 1813. E um pedido mágico:

- Volte o tempo, solte-se.

Esse processo me faz acionar a vontade. A vontade de quem sabe tocar o impossível.

O céu está belo, um tom avermelhado se espalha junto ao azul Royal, parece que o Grande
Pintor faz mistura em sua tela.Uma alegria invade meu ser, o espírito torna-se crescido, sinto-me como se pudesse tocar o infinito. Sorrio, lembro-me do que Igor falou: - Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros, posso tocar sua alma, o seu ser.

Esse mago pode mesmo!

Noite passada eu falava com ele: - Estou indo passar esses dias nessa casa de praia, soltar-me.

Sinto aqui dentro de mim, algo quente, é o teu chamado.Real ou irreal, você já existe. Ajude-me, pois estou no limiar. Ouça-me mago, começo a respirar você, começo a ter consciência de que tenho um sentimento por você.Que loucura!

Sonhei com ele, o que já é natural.

Vi-o numa colina, seu cabelo negro elevava-se ao vento.

Pude observá-lo melhor, sua altura é mediana, porém sua presença é forte, sua pele tem um tom moreno de sol. Seu rosto é de formato forte, com queixo quadrado. Tem as sobrancelhas grossas, quase são unidas, seu nariz é bem feito, sua boca um tanto grande e seus olhos são negros. Eles me fascinam, existe neles um comungar comigo, algo mudo e selado.

Não existe como verbalizar isso.

Interessante é que eu o via, mas não me via no sonho, só em alguns momentos ouvi minha própria voz.Ele falou: - Estou esperando.

Perguntei: - Esperando o quê?

Ele ficou sério, franziu as sobrancelhas, demorou um pouco e falou, com sua voz grave e pausada: - Espero você, e você sabe disso.

Fiquei atordoada, lembro-me que nesse momento tive a sensação que ia acordar. Mas o sono, o sonho ou sei lá o quê foi mais forte, pois continuei a sonhar, e perguntei:- Por que você espera?

Ele abriu um sorriso.


- Isso você também sabe, mas vou repetir, porque amo.

Meu corpo tremeu, entrei num sono confuso, vi Natasha e ele, e era ele que falava:

- Mesmo que me cale, que fique mudo; mesmo que morra, você ouvirá sempre minha voz. Sabe por quê? Porque você está em mim e eu em você, onde existe um, existe o outro.

O sol nascia quando acordei, a casa era de total silêncio. As palavras de Igor repercutem até agora. O sentido delas eu não entendo, ou não quero pensar agora, o que me assola é o sentir, é tão grande quanto a tela do Grande Pintor.

 

Terça bela.
Enfim aqui estou!

É uma casa gostosa. Estou na sala e daqui vejo o mar. Ela tem três quartos, uma pequena cozinha, sala de estar, e de jantar, e um grande terraço na frente. É cheia de altos e baixos, sobem-se dois degraus para sala de estar, em qualquer posição vê-se o mar à frente. Os móveis são de alvenaria, tudo simples e bonito.

Trouxe pouca bagagem, na verdade, a bagagem está em mim.

Ainda há pouco minha mãe telefonou-me, e perguntou o que estaria a fazer no inverno numa praia de veraneio.


O que vou responder?

- Olha mãe, estou vendo um homem extremamente atraente que pede para eu voltar o tempo e encontrá-lo lá pelos anos de 1813.

Se eu assim respondesse à minha mãe, ela me levaria ao médico, com certeza. Mas ainda acredito na minha sanidade. A resposta é: preciso de um tempo sozinha.

Terça-feira.
Fim de tarde.

 

Respiro este bem estar!!!


Quarta-feira.
Manhã dourada.

Andei muito na praia.
Existe um sentimento real pelo irreal.Igor toma o espaço qual a vastidão do mar.
Por mais que minha mente resista, ele rompe a resistência ou o que sinto referente a ele.

Essa noite sonhei com uma caravana cigana, eu estava nela.
Ouvi tiros, tiros de canhões e via tudo branco pela neve.

Fiquei até tarde tentando ler os dados de Badacsony. Ver as fotos me faz bem, é como se estivesse vendo um lugar muito conhecido. Essa estadia está me fazendo bem.
Depois de um mergulho no mar, estou aqui na varanda.
A natureza abençoada à minha frente, uma brisa suave e o pensamento longe.

11:40

Sinto-me levada...

Ouvi Natasha gritar:

-Ouço, Mikail, Igor gritando por mim! Existe desespero em sua voz, eu ouço, ouço!

Quem é Mikail?

Andei muito na praia.

Existe um sentimento real pelo irreal.

Igor toma o espaço qual a vastidão do mar.

Por mais que minha mente resista, ele rompe a resistência ou o que sinto referente a ele.

Essa noite sonhei com uma caravana cigana, eu estava nela.

Ouvi tiros, tiros de canhões e via tudo branco pela neve.

Fiquei até tarde tentando ler os dados de Badacsony. Ver as fotos me faz bem, é como se estivesse vendo um lugar muito conhecido. Essa estada está me fazendo bem.

Depois de um mergulho no mar, estou aqui na varanda.

A natureza abençoada à minha frente, uma brisa suave e o pensamento longe.

15:20

Como num estalo, tomo consciência.

É isso! Tiro de canhão. Em 1812 Napoleão invade a Rússia.


17:12

Que explicação teria uma promessa,

um voto na convicção de duas pessoas,

duas almas tão ávidas de amor, amando-se tanto!

A permanência afetiva é a convicção da alma quanto ao amor, ele ama, ele permanece e espera, é isso? Por isso você permanece e espera?

- É com você Igor, que estou falando!

Você permanece onde? Em 1813?

Droga! Não consigo afastar isso da minha mente.

Onde anda a razão?


18:50

Novamente andei na praia, tinha que sentir meus próprios pés.

A vontade é correr, correr...

E assim, quem sabe, varar o próprio tempo e chegar a 1813.

Mesmo sabendo do impossível, corri. Corri até não agüentar mais.

Existe uma profunda nostalgia. Existe saudade.

Estou em busca da razão!

2:20

Só pode ser loucura!

Chorei como criança, chorei até dormir.

Ouço a voz dele:

- Aproxime-se mais. A busca é a razão, e a razão é o nosso amor. Tão eterno quanto o tempo. Ter consciência do seu significado é ter a certeza da nossa realidade: onde existe um, existe o outro. Amo você, amada.


Quinta-feira.

9:45.

Acordei tarde.

Tento, às vezes, diluir toda essa vivência, mas o mais forte é a lembrança dele, é como um marco.

Fechos os olhos e retrato-o, tateio tentando alcançá-lo mais e mais, mas às vezes vem o vazio...

A vontade de entender é mais forte, ou mais forte é a saudade, assim como a vontade de estar, de ir.

E o que mantém tudo isso é a busca até você. Você falou que a busca e a razão estão em 1813, foi isso?

Por isso quis varar o tempo. Meu ato de buscar a razão é ir ao encontro. Estar com você é a razão. É tudo que mais quero. Aí você afirma que a razão é o amor, eterno como o tempo, 1813 - 1988. Ter consciência do significado do amor é ter a certeza da nossa realidade. Essa nossa realidade.

Sinto-me como um balão, mas para que lado sopra o vento?


21:30

À distância do tempo.

À distância de um tempo.

A lua quase cheia ilumina o mar, o mar está baixo. Lá em frente um ponto luminoso, algum pescador sem dúvida. Falo a outro pescador: - Lanças-te a rede e estou nela, vem me buscar!

O horizonte enorme, a imensidão do céu, mil estrelas brilham.

E eu aqui, em meio à natureza revestida de uma linda noite. Uma noite linda!

Onde tudo é tão vasto, sem limites: é o mar, é o céu.

Mas, apesar de toda essa visão ilimitada, sinto-me presa.

E onde está minha prisão? Que grades me prendem?

Meu corpo é minha prisão. Sem essa prisão, meu ser voaria e alcançaria o impossível.


Sexta-feira.

Amanhece.

Dou-me conta de que meu vôo é muito alto, alto demais para um simples mortal.

Ele elevou meu sentimento e pensamentos ao inatingível.

Levou-me a terras distantes, e estou lá. Nada atual povoa meus pensamentos.

Estou no topo de uma montanha, numa profunda solidão.

Olho para baixo, e dá vontade de descer, ser normal, sou humana, não é?

Olho o céu, o abstrato, talvez as respostas. A morada dos imortais.

O grito de extrema angústia está preso na garganta.

-Aonde vou chegar?

Queria ser acalentada, queria um colo. Tenho medo de perder os pontos referenciais.


Segunda-feira.

Amanhece.

Cheguei a querer ir embora, fiz as malas

A minha realidade: é o hoje.

A minha luta interna de uma realidade sem tato, sem corrimão.

Só que é tão forte, tão viva e tão sentida que ao anoitecer, senti que não poderia voltar. Estaria fugindo.

Meu interior acalmou-se numa paz tão visível.

 

(Continuação no site ao lado esquerdo em: Taças)

 


Deprecated: Directive 'track_errors' is deprecated in Unknown on line 0