Taças

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O que posso falar, o que tenho a dizer?!!!
Saí de casa e vim ver o mar. Andei, tentando pensar melhor. Sou uma pessoa equilibrada, ou fui.

Folheei diversas vezes os livros. O mar que vi em sonho é o lago Balaton, que é o maior da

Europa Central. O monte onde fica Badacsony, a casa branca... A emoção é mais forte que eu, exala na pele. Tento ser analítica, e de repente, vem uma nostalgia, uma saudade. Uma vontade de correr até lá. Não a Hungria de hoje e sim a Badacsony de 1813.

Molhei meus pés na água do mar, sentindo a água do lago e ando já nesse quase anoitecer, vago na verdade, como são vagos meus pensamentos:

- O que ocorre comigo? Estaria ficando louca?

Nostalgia e saudade de quê?

No íntimo, eu sei. O que não quero e não posso é admitir, pois admitir é assumir essa insanidade, essa emoção louca que me assola.

Estou numa corda bamba, numa divisória: de um lado existe a real existência e do outro um fantasma me pede: - Volte o tempo.

Voltar para quê? Voltar por quê?

Essas palavras ressoam em todo meu ser, são como um eco.

O que você está fazendo comigo, Igor? Eu não posso viver assim. Você me escuta? Se você é uma fantasia da minha mente fértil, o que faço com as cenas, sonhos que se tornaram fato.

Tenho que colocar meus pés no chão, estou em 1988, moro no Brasil.

Porém, o tempo é um Deus mágico, e o pedido é contínuo:

- Volte o tempo...


Sábado. Julho.
Noite.

A minha amiga espiritualista veio conversar comigo: perguntou-me o que tinha, achava-me distante.
Contei-lhe, superficialmente, o que se passava comigo. Ela falou: - Por que você não se dá um tempo para ver o que é isso.

É, poderia ser, se isso não estivesse me atormentando. De qualquer maneira, é um fato a pensar.

Apenas pensar, pois se deixo o sentimento chegar, ele leva-me e chego à frente dele, Igor.


Segunda-feira.
Amanhece com chuva.

Refleti que seria muito bom sentir, realmente, o que se passa comigo. Como uma maneira de compreender. Tentar soltar-me.

Ouço palavras, surgem cenas. Cria-se um mundo distante mais palpável, absurdamente palpável.

Estava no banho quando ouvi a voz que já me é conhecida. Para explicar o que aconteceu, ficou-me a impressão de que o mundo havia parado, o tempo parou.

- Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros... Posso tocar tua alma, teu ser; pois o amor pode com tudo. Amor sem limite, sem tempo e distância. Que irá perdurar para sempre e sempre.

Embeveci-me e entrei em cada palavra, senti o seu sentido e perguntei: - Você é algum mago?

A voz ecoou forte e quente: - Um mago? Talvez. Um mago e um sentimento.

Queria ir além, mas voltei a sentir os pingos de água no meu corpo.

Sendo sincera, não importa se faz sentido ou não, pois realmente não faz.
Importa sim, o que sinto quando ouço a voz dele.

É algo tão grandioso, tão conhecido; não posso negar a mim mesma!
Meu coração acelera, pulsa. E a mim parece que uma parte minha vai ou está com ele.

Terça-feira.
5:10 da manhã.

Sonhei com ele.

Ele estava sentado num banco de pedra.

- Volte o tempo.

Levantou-se e estendeu sua mão.

- Venha, volte o tempo. Não tenha medo, estou com você.

Neste instante ele deu um leve sorriso. Mas muito além do sorriso foram seus olhos.
Eles brilham e sorriem sozinhos. Um brilho intenso e forte.

Acordei. O dia nascia, os pássaros cantavam, um suspiro saiu de mim.

Existe uma guerra travada com a lógica, com a coerência.

E nesta altura o sentido se perde, e o que fica é o sentimento.

Noite.
Céu estrelado.

Fui à casa da minha amiga espiritualista. Ela falou ser Igor uma pessoa ligada a mim numa vida passada, termos uma ligação. Começo a desatar o nó que se formou na minha cabeça.

O marido dela, um grande amigo também, me ofereceu a casa de praia deles, que fica à uma hora daqui. É um lugar de veraneio, e agora, como é inverno, está vazia. Isso me daria, além de um excelente cenário relaxante, tempo para refletir, de achar-me. É uma proposta tentadora.


Quinta-feira.
Noite com chuva.

Como os pingos da chuva, daqui da janela vendo, caindo no jardim, no jasmim, o perfume doce presenteia toda a casa. Como os pingos da suave chuva, cai em mim a história, ela toma forma.

Estou feliz, feliz como esse doce perfume que penetra em mim.

A realidade é dual: solto-me e sinto uma historia, tão distante e eu tão dentro dela. As cenas são fortes, e geralmente me perco em tentar ter coerência com o que está me acontecendo.

Nesse momento vou ver as taças, mas o que impera é Igor.


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