Taças

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Sábado.
Tarde bela, sol.

Hoje pela manhã, o dia nascia. Acordada na cama com os olhos fechados me espreguiçava... Aconteceu!

Vi Igor, ele andava só, de costas para mim.

Assustei-me, abri os olhos com o corpo trêmulo. Como e por que alguém que viveu em 1812 vem até aqui? Com que direito! Já estou ficando sem a menor coerência e confusa: sonhos, visões, afinal o que é isso?

Estou levando longe demais o efeito dessas taças. Acho melhor devolvê-las. Devolvê-las me traz a razão racional.

Segunda-feira.
Noite, é quase madrugada.

Não consigo dormir. O motivo é o mesmo: as taças e o homem. Não devolvi as taças, não sei o por quê. Cheguei a pegá-las e ir até perto da loja de antiguidade. No caminho parei o carro em frente ao mar e perguntei a mim mesma o motivo de querer devolvê-las.

Tenho sonhado e tenho visões com um fantasma. Honestamente, isso não me assusta, o que me intriga é o motivo.

Da noite de domingo para segunda, sonhei com ele novamente. Estava sério e seu olhar refletia uma tristeza profunda. Ouvi sua voz: - Por que você parou?

Deus meu, a quem cabe essa pergunta, a Natasha ou a mim? Onde está a resposta? Quanta dualidade, não sou do tipo sonhador nem alimento desilusões para ficar pensando ou fantasiando um homem em minha vida. Existe uma frustração no lado profissional, mas não emocional. Toda essa história envolve discernimento, que não tenho – um homem que viveu ou suponho que viveu em 1812 – surge acompanhado de uma mulher, Natasha, em sonhos e visões, e lança esta pergunta, não sei se a ela ou a mim.

- Por que você parou?

O que significa isso? Onde anda a coerência?

Olhei o mar, sereno e tranqüilo. As taças, no banco do carro a meu lado.

Posso mergulhar, dentro de mim; um meio sorriso veio-me aos lábios: Acho que esta você ganhou, Igor!

Tenho uma amiga espiritualista e sensitiva que talvez possa ajudar-me. Esta nova perspectiva fez meu meio sorriso aumentar e uma grande alegria se apoderou de mim, e voltei para casa.

Só não consigo dormir, existe algo no ar que não consigo discernir.

Até o fato de descrever o sonho me perturba... Não, não e não, o que me perturba, desnorteia-me é ele.

Descrevo-o de forma impessoal, seca.

E o que sinto não é isso. Ao ouvi-lo: - Por que parou?

Do mesmo modo ou meio que surgiu, emergiu seu nome, sei que está dentro de mim a resposta a sua pergunta, feita a Natasha ou a mim. Há uma resposta, embora, como afirmei, não consigo discernir.

Comecei a procurar um terapeuta.


Quarta-feira.
Noite estrelada.

Conversei com minha amiga. Ela disse-me que tentasse falar com ele. Não lhe falei muito, pois até falar sobre o assunto me é estranho; constrange-me.

Mas, agora, talvez faça sentido; existe a sensibilidade. E não nego esse fato. Ela, a sensibilidade, está em mim, está em todos.

Porém, tentar falar com Igor talvez implique mexer em casa de abelha.
Isso gera expectativa, e se há coisa que não gosto é ter de ficar na expectativa. Senti-la é bloquear os sentidos e ficar tensa quanto ao não esperado. Isso gera emoções confusas.

A expectativa gera o imediatismo, atos impensados. Creio que existem dois tipos de expectativa: uma, basicamente física, deixa antever o que vai acontecer; a outra é mais difícil e a gente só sente algo no ar. Trabalhar a primeira é fácil: basta seguir a regra da eliminação, juntando-se à razão. A outra não: tenta-se aguçar a sensibilidade, isso excede aos cinco sentidos e nos dá amplitude; leva-nos a tomadas de consciência.

Quinta-feira.Chegou um pacote da embaixada da Hungria. Senti-me como uma criança abrindo-o. Veio um livro sobre o lago Balaton, com muitas fotos, quatro folhetos ilustrados, além de um livro sobre a história da Hungria, outro sobre economia e alguns folhetos turísticos.

Ao folhear o primeiro, minhas mãos tremiam. Esse, como os outros, são escritos em espanhol e inglês. E, apenas folheando todo material, distingui exatamente qual fotografia era de Badacsony.

Olhava e sentia. Incrível ver que a Hungria é uma grande planície, tendo como uma das elevações o monte de Badacsony. O mesmo que vi Igor e Natasha subirem! E, mais adiante, fiquei perplexa: um casarão, que aparece numa foto de hoje.

Era dia, quando abri o pacote, mas só voltei a mim quando bateram na porta do quarto de estudos. Já era noite!

- Volte o tempo...

Ouvi dezenas de vezes.

- Volte o tempo...

Emoções confusas: Hungria, Badacsony, 1812, que agora pula um ano, Badacsony 1813.

- Volte o tempo...

É a voz forte e grave de Igor, ouço-a distintamente:

- Volte o tempo.

Ecoa no meu ser por inteiro, e surgem cenas...


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