Taças

Índice de Artigos


Terça-feira.
Manhã nublada, 9:40.

Voltei a sonhar com aquele casal. O homem e a mulher estavam molhando os pés na água que parecia o mar. Vestiam roupas antigas. Depois subiram correndo um grande morro e chegaram a uma enorme casa branca meio barroca. Entraram rindo na casa, ela à frente e ele logo atrás, chamando-a :

- Natasha!

Acordei assustada, ainda ouvindo-o a chamá-la. Meu corpo tremia, fiquei quieta na cama por um longo tempo, tive vontade de ir ver as taças, mas não fui. Deitada pensei em devolvê-las. Mas agora não mais; existe algo selado, mudo.

Dentro de mim, o som grave da voz dele,

Dentro de mim, eu sei o nome dele. Que veio no momento em que ouvi sua forte voz chamando:- Natasha!

Peguei meu travesseiro, apertei-o contra meu rosto e falei num sussurro seu nome.

Seu nome; a enorme emoção toma-me, envolve-me, leva-me além.

O que é isso?!

O que é, vai além, há um nome.

Tarde 17:50.

Acabo de chegar da loja de Sr. Ernesto. Graças a Deus o encontrei. Levei as taças comigo, ele pegou sua lupa e um objeto que me pareceu um bisturi. Levou uns bons minutos, depois foi à prateleira de livros, pegou dois e os folheou. Fiquei inquieta, não conseguia ficar sentada, vaguei pela loja impaciente. Aí ele ajeitou seus óculos e falou pausadamente o quanto o fascinava desvendar uma peça, etc... etc...

As taças são de fabricação cigana datada de 1812. Foram usadas, provavelmente, num casamento, pois têm dois nomes escritos: Igor – Natasha.

Senti um alívio. Esta é a palavra: alívio.

O sonho tinha sentido. Perguntei-lhe de onde elas vieram, mas ele não soube responder. Poderia investigar. Só sabia que tinham sido trazidas da Europa, mas me garantiu que não era difícil descobrir o lugar e que me telefonaria assim que conseguisse mais informação.

Senti alívio de que?!

Como falei, o sonho tinha sentido.

Alívio, pois é seu nome?

Eu senti seu nome. E minha mente pergunta: como saber seu nome? Eu não estava mais sonhando, já estava acordada, ecoava em mim a grave voz:

- Natasha. E sentindo a forte voz, eu senti que sabia seu nome.

E num gesto coloquei o travesseiro no rosto e falei sussurrando: Igor...

Como escondendo de mim mesma, que sabia seu nome.
Como não querendo ter consciência de que sabia seu nome.
A imagem tão conhecida, como o nome.


Quinta-feira.

Consegui nesse dia olhar as taças mais naturalmente.

Vem-me uma sensação agradável ao vê-las. Porém, ao lembrar-me dele, é tão forte o que sinto ou o que sua imagem me faz sentir. Não quero pensar, nem muito menos sentir.

Acho que irei procurar um terapeuta.

Tarde.

Entardece, a terra parece acalmar-se para adormecer o sol.

O mundo toma um rumo silencioso, fica mudo.

Existe um mundo surdo e mudo onde mora a compreensão, onde o som encantado do silêncio nos leva a parar e olhar dentro de nós mesmos.

O mundo surdo-mudo leva-nos a uma dimensão maior e mais simples. E quantos param para observar a natureza ou a nos mesmos? Não existe tempo para isso. Falta de tempo é a maior e melhor desculpa que criamos.

Nesta dimensão maior e mais simples, eu sinto como um chamado deste “sentir” que vez por outra me assola.

Que me dá uma sensação viva de vida. E vem minha mente racional falando: - Vida? Numa sensação emocional, desconhecida?

E rebato a minha mente. Há anos faço meditação. Procuro trabalhar sempre em harmonia e com consciência meus processos emocionais e mentais.

Não há como negar: há algo “novo” que vem através deste sentir, algo dentro de mim.

Como este chamado, não seguir é perder o rumo da própria vida.

Lembro Jung: “Toda neurose vem de não se escutar o eu interior”.


Deprecated: Directive 'track_errors' is deprecated in Unknown on line 0