Taças

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Quarta-feira.
Manhã com sol – 8:30.

Um sonho, um nome: Badacsony.

Quinta-feira.
Noite estrelada.

Hoje, na biblioteca da Faculdade, procurei e encontrei: Badacsony, cidade húngara às margens do lago Balaton, onde se fazem excelentes vinhos.

Quase três horas pesquisando e tudo que achei foi isso.

Sonhar com um nome que nunca tinha ouvido. Ficar um tempão refletindo de onde surgira, a ponto de me deslocar a uma biblioteca, e tudo que consegui foram duas frases na enciclopédia!

E afinal, o que mais queria eu achar? Que significado tem essa cidade?

Sinto, no entanto, que isso tem relação com as taças.
Elas são como um convite, ainda não sei para quê.

As taças e uma cidade a milhares de quilômetros de distância se intrometem na minha vida, a ponto de ligar para a Embaixada da Hungria, em Brasília, pedindo dados; pois a cidade é tão pequena que não consta no mapa da Hungria na enciclopédia, a única que achei que fala da cidade. Falei com uma moça delicada chamada Jussara, que ficou de mandar-me alguns folhetos sobre a tal cidade. Pena que não haja consulado aqui na cidade.

Noite alta.

A casa está silenciosa; ouve-se, apenas, a música de Paganini.
Passei um bom tempo olhando as taças, elas chegam a incomodar-me. Parecem-me tão conhecidas!

Estou com trinta anos, existem algumas realizações, algumas frustrações, mas o saldo é positivo, pois procuro tirar lições de tudo que me ocorre. Passei anos trabalhando com uma loja que, ante crises econômicas, pelos “planos econômicos” deste nosso País, fechou. É esse meu lado profissional. Tenho uma família equilibrada emocionalmente.

Ao fechar a loja, é claro que me abalei; mas, na verdade, o meu interior não era realizado com ela.

O movimento profissional me faz falta; juntam-se a idade e a pergunta concreta: o que irei fazer?
Sou fruto de uma safra onde trabalhar e ter resultados são uma imposição, se não social, pessoal.

Tarde ensolarada.

Noite passada sonhei com um homem e uma mulher. Eles tinham as taças nas mãos, estavam sorrindo um para o outro, uma cena familiar, tão familiar. Como? Se nunca os vi. Até agora fecho os olhos e consigo revê-los. Ela deve ter uns vinte e poucos anos, cabelos cor de mel até a cintura. Seus olhos têm a mesma cor do cabelo: uma mulher bonita, boca bem torneada. Usava um vestido antigo, parecendo que ia para uma festa de fantasia do tipo cigano. Ele, como descrevê-lo? Pois assalta-me uma forte emoção ou um sentir tão Grande, quando me lembro dele. Cabelos negros, queixo quadrado, boca grande e sensual. Mas seus olhos, olhos negros que falam sozinhos... Sua pele tem o tom dourado: é o tipo da pessoa que é notada, imponente.

Ele é mais atraente que bonito. Meu Deus! Aqui estou a descrever um homem e uma mulher que vi em sonhos, e hoje passei parte do dia a lembrar-me deles. Principalmente dele.

Fui pela manhã à loja de Sr. Ernesto. Mas estava fechada. Senti-me frustrada, pois queria ouvir dele alguma coisa sobre as taças.


Segunda-feira.
Entardece, o sol se põe.

Como vou parecer sensata e coerente diante do que vivi e vi?

- Vamos lá.

Sábado passado num um jantar com amigos.

Creio que o vinho fez um efeito estranho em mim, por mais que saiba que só tomei uma taça e meia. Não sei bem a hora em que saímos da sala de jantar para o jardim. Lembro-me, no entanto, que na sala de estar vi o homem. O homem com quem sonhei. Fiquei parada, estática.

Ele tomou uma das taças de bronze na mão e, elevando-a como num brinde, se dirigisse a mim.
Seus olhos estavam presos nos meus. Meu sangue sumiu!

Sei descrevê-lo nitidamente: calça preta, camisa branca com mangas, seu cabelo é comprido, na altura da nuca, cabelo negro, grosso e liso. Não consegui me mexer um centímetro. Não era medo. Meu ser inundou-se novamente da mesma emoção estranha, não conseguindo retirar meus olhos dele.

Quando senti meu sangue voltar, meu coração batendo loucamente, pensei:

- Vou morrer e não consigo nem gritar! Quando voltei a sentir meus pés, bati-os no chão procurando a reação do meu corpo, mas ao voltar o olhar, ele não estava mais lá. Corri ao banheiro, lavei meu rosto, respirei fundo por diversas vezes e só então saí para o jardim. Tentei contar o que vira, as palavras saíram atropeladas. Pensaram ser o vinho. Quando todos saíram refleti: Pode ter sido fruto da minha imaginação, em conseqüência do vinho. Mas eu sonhei com ele e, sendo assim, ele pode estar registrado na minha memória e aí pensei tê-lo visto. Deve, realmente, ser isso.

Fui novamente ao antiquário, mas estava fechado. Acho que Sr. Ernesto está doente.


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