Taças

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Julho – 1988.

Noite estrelada.

Fui à loja de antiguidade do Sr. Ernesto. Lá, parece que o tempo parou. A sensação começa com o sininho da porta de entrada: ele nos leva no tempo. À primeira vista a impressão que se tem é de uma grande desorganização: objetos e móveis amontoados, mas o todo é bonito.

O próprio Sr. Ernesto parece tão antigo quanto suas antiguidades. Usa óculos minúsculos na ponta do nariz e seu cabelo é de branco amarelado; até seu andar é arrastado, como se o andar o trouxesse ao presente quando o seu mundo é o passado. Acho-o um velhinho carismático.

Seus olhos vivos brilham ao contar uma história ou estória de peças antigas.

Lembro-me que diariamente passava em frente à sua loja, sem ter tempo para entrar. Minha loja de roupas femininas ficava na mesma galeria, e só depois de alguns meses ali instalada é que passei a ir lá. Até então, nunca comprara objetos antigos, apesar de achá-los bonitos ou interessantes, principalmente ao ver um objeto que traz em si um significado e uma história distantes. Sorria ao ouvir minha sócia perguntar o que é que eu via de tão atraente.

No final da tarde, quando eu tinha tempo e disposição, ouvia as histórias de um velhinho, que mais parecia fora do tempo. Era até paradoxo ter uma loja de roupa feminina de vanguarda, com néon colorido e uma clientela adolescente e, algumas lojas depois, um senhor, como dizia minha sócia, e seu museu.

Ao entrar na loja tinha esperança de encontrar meu candelabro restaurado, pois há mais de um mês o deixara ali. Somente hoje fui pegá-lo.

Mas, em vez dele, o que tenho à minha frente são duas taças de bronze.

Conversava com Sr. Ernesto que, em sua grande mesa de madeira, limpava algumas peças e explicava o motivo de o candelabro não estar pronto.

Não sei bem a explicação que ele me deu.

Vagando os olhos pela loja, vi as taças, que pareciam me atrair como um ímã. Não conseguia desviar os olhos delas. Levantei-me e fui para perto daquelas taças, e uma estranha emoção tomou-me quando as toquei. Veio-me a sensação de propriedade... Existe isso?

Nunca me senti assim em relação a um objeto, apesar de já ter ouvido algumas pessoas falarem sobre isso, como sendo uma espécie de fascínio. E confesso que sempre achei ridículo e falta de criatividade um objeto exercer tamanha influência.

Ridículo, falta de criatividade ou fascínio, nada tinha importância, só as taças.

Primeiro, toquei-as nas bordas. Meu coração disparou, assustei-me e retirei a mão. Olhei em volta. O Sr. Ernesto continuava a falar. Pensei na bobagem que sentira e peguei uma delas...Mas que emoção estranha: a sensação de propriedade voltou a assolar-me.

-Quanto custam essas taças, Sr. Ernesto?

Não podia tê-las comprado, mas passei o cheque rápido com medo que a sensatez voltasse.

Não perguntei nada referente a elas, ou ele pode até ter falado sobre o assunto e eu não ter escutado, pois naquele momento todo referencial era dirigido àquelas taças.

E agora, elas estão aqui na minha frente. No suporte está escrita uma data: 1812, e algumas palavras que não dão para ler. Mas elas estão aqui, e isso é tudo. Logo terão um lugar definitivo em casa, farão parte do ambiente, e talvez deixem de ter esse atrativo.



Quarta-feira.
Manhã com sol – 8:30.

Um sonho, um nome: Badacsony.

Quinta-feira.
Noite estrelada.

Hoje, na biblioteca da Faculdade, procurei e encontrei: Badacsony, cidade húngara às margens do lago Balaton, onde se fazem excelentes vinhos.

Quase três horas pesquisando e tudo que achei foi isso.

Sonhar com um nome que nunca tinha ouvido. Ficar um tempão refletindo de onde surgira, a ponto de me deslocar a uma biblioteca, e tudo que consegui foram duas frases na enciclopédia!

E afinal, o que mais queria eu achar? Que significado tem essa cidade?

Sinto, no entanto, que isso tem relação com as taças.
Elas são como um convite, ainda não sei para quê.

As taças e uma cidade a milhares de quilômetros de distância se intrometem na minha vida, a ponto de ligar para a Embaixada da Hungria, em Brasília, pedindo dados; pois a cidade é tão pequena que não consta no mapa da Hungria na enciclopédia, a única que achei que fala da cidade. Falei com uma moça delicada chamada Jussara, que ficou de mandar-me alguns folhetos sobre a tal cidade. Pena que não haja consulado aqui na cidade.

Noite alta.

A casa está silenciosa; ouve-se, apenas, a música de Paganini.
Passei um bom tempo olhando as taças, elas chegam a incomodar-me. Parecem-me tão conhecidas!

Estou com trinta anos, existem algumas realizações, algumas frustrações, mas o saldo é positivo, pois procuro tirar lições de tudo que me ocorre. Passei anos trabalhando com uma loja que, ante crises econômicas, pelos “planos econômicos” deste nosso País, fechou. É esse meu lado profissional. Tenho uma família equilibrada emocionalmente.

Ao fechar a loja, é claro que me abalei; mas, na verdade, o meu interior não era realizado com ela.

O movimento profissional me faz falta; juntam-se a idade e a pergunta concreta: o que irei fazer?
Sou fruto de uma safra onde trabalhar e ter resultados são uma imposição, se não social, pessoal.

Tarde ensolarada.

Noite passada sonhei com um homem e uma mulher. Eles tinham as taças nas mãos, estavam sorrindo um para o outro, uma cena familiar, tão familiar. Como? Se nunca os vi. Até agora fecho os olhos e consigo revê-los. Ela deve ter uns vinte e poucos anos, cabelos cor de mel até a cintura. Seus olhos têm a mesma cor do cabelo: uma mulher bonita, boca bem torneada. Usava um vestido antigo, parecendo que ia para uma festa de fantasia do tipo cigano. Ele, como descrevê-lo? Pois assalta-me uma forte emoção ou um sentir tão Grande, quando me lembro dele. Cabelos negros, queixo quadrado, boca grande e sensual. Mas seus olhos, olhos negros que falam sozinhos... Sua pele tem o tom dourado: é o tipo da pessoa que é notada, imponente.

Ele é mais atraente que bonito. Meu Deus! Aqui estou a descrever um homem e uma mulher que vi em sonhos, e hoje passei parte do dia a lembrar-me deles. Principalmente dele.

Fui pela manhã à loja de Sr. Ernesto. Mas estava fechada. Senti-me frustrada, pois queria ouvir dele alguma coisa sobre as taças.


Segunda-feira.
Entardece, o sol se põe.

Como vou parecer sensata e coerente diante do que vivi e vi?

- Vamos lá.

Sábado passado num um jantar com amigos.

Creio que o vinho fez um efeito estranho em mim, por mais que saiba que só tomei uma taça e meia. Não sei bem a hora em que saímos da sala de jantar para o jardim. Lembro-me, no entanto, que na sala de estar vi o homem. O homem com quem sonhei. Fiquei parada, estática.

Ele tomou uma das taças de bronze na mão e, elevando-a como num brinde, se dirigisse a mim.
Seus olhos estavam presos nos meus. Meu sangue sumiu!

Sei descrevê-lo nitidamente: calça preta, camisa branca com mangas, seu cabelo é comprido, na altura da nuca, cabelo negro, grosso e liso. Não consegui me mexer um centímetro. Não era medo. Meu ser inundou-se novamente da mesma emoção estranha, não conseguindo retirar meus olhos dele.

Quando senti meu sangue voltar, meu coração batendo loucamente, pensei:

- Vou morrer e não consigo nem gritar! Quando voltei a sentir meus pés, bati-os no chão procurando a reação do meu corpo, mas ao voltar o olhar, ele não estava mais lá. Corri ao banheiro, lavei meu rosto, respirei fundo por diversas vezes e só então saí para o jardim. Tentei contar o que vira, as palavras saíram atropeladas. Pensaram ser o vinho. Quando todos saíram refleti: Pode ter sido fruto da minha imaginação, em conseqüência do vinho. Mas eu sonhei com ele e, sendo assim, ele pode estar registrado na minha memória e aí pensei tê-lo visto. Deve, realmente, ser isso.

Fui novamente ao antiquário, mas estava fechado. Acho que Sr. Ernesto está doente.



Terça-feira.
Manhã nublada, 9:40.

Voltei a sonhar com aquele casal. O homem e a mulher estavam molhando os pés na água que parecia o mar. Vestiam roupas antigas. Depois subiram correndo um grande morro e chegaram a uma enorme casa branca meio barroca. Entraram rindo na casa, ela à frente e ele logo atrás, chamando-a :

- Natasha!

Acordei assustada, ainda ouvindo-o a chamá-la. Meu corpo tremia, fiquei quieta na cama por um longo tempo, tive vontade de ir ver as taças, mas não fui. Deitada pensei em devolvê-las. Mas agora não mais; existe algo selado, mudo.

Dentro de mim, o som grave da voz dele,

Dentro de mim, eu sei o nome dele. Que veio no momento em que ouvi sua forte voz chamando:- Natasha!

Peguei meu travesseiro, apertei-o contra meu rosto e falei num sussurro seu nome.

Seu nome; a enorme emoção toma-me, envolve-me, leva-me além.

O que é isso?!

O que é, vai além, há um nome.

Tarde 17:50.

Acabo de chegar da loja de Sr. Ernesto. Graças a Deus o encontrei. Levei as taças comigo, ele pegou sua lupa e um objeto que me pareceu um bisturi. Levou uns bons minutos, depois foi à prateleira de livros, pegou dois e os folheou. Fiquei inquieta, não conseguia ficar sentada, vaguei pela loja impaciente. Aí ele ajeitou seus óculos e falou pausadamente o quanto o fascinava desvendar uma peça, etc... etc...

As taças são de fabricação cigana datada de 1812. Foram usadas, provavelmente, num casamento, pois têm dois nomes escritos: Igor – Natasha.

Senti um alívio. Esta é a palavra: alívio.

O sonho tinha sentido. Perguntei-lhe de onde elas vieram, mas ele não soube responder. Poderia investigar. Só sabia que tinham sido trazidas da Europa, mas me garantiu que não era difícil descobrir o lugar e que me telefonaria assim que conseguisse mais informação.

Senti alívio de que?!

Como falei, o sonho tinha sentido.

Alívio, pois é seu nome?

Eu senti seu nome. E minha mente pergunta: como saber seu nome? Eu não estava mais sonhando, já estava acordada, ecoava em mim a grave voz:

- Natasha. E sentindo a forte voz, eu senti que sabia seu nome.

E num gesto coloquei o travesseiro no rosto e falei sussurrando: Igor...

Como escondendo de mim mesma, que sabia seu nome.
Como não querendo ter consciência de que sabia seu nome.
A imagem tão conhecida, como o nome.


Quinta-feira.

Consegui nesse dia olhar as taças mais naturalmente.

Vem-me uma sensação agradável ao vê-las. Porém, ao lembrar-me dele, é tão forte o que sinto ou o que sua imagem me faz sentir. Não quero pensar, nem muito menos sentir.

Acho que irei procurar um terapeuta.

Tarde.

Entardece, a terra parece acalmar-se para adormecer o sol.

O mundo toma um rumo silencioso, fica mudo.

Existe um mundo surdo e mudo onde mora a compreensão, onde o som encantado do silêncio nos leva a parar e olhar dentro de nós mesmos.

O mundo surdo-mudo leva-nos a uma dimensão maior e mais simples. E quantos param para observar a natureza ou a nos mesmos? Não existe tempo para isso. Falta de tempo é a maior e melhor desculpa que criamos.

Nesta dimensão maior e mais simples, eu sinto como um chamado deste “sentir” que vez por outra me assola.

Que me dá uma sensação viva de vida. E vem minha mente racional falando: - Vida? Numa sensação emocional, desconhecida?

E rebato a minha mente. Há anos faço meditação. Procuro trabalhar sempre em harmonia e com consciência meus processos emocionais e mentais.

Não há como negar: há algo “novo” que vem através deste sentir, algo dentro de mim.

Como este chamado, não seguir é perder o rumo da própria vida.

Lembro Jung: “Toda neurose vem de não se escutar o eu interior”.


 

 

Sábado.
Tarde bela, sol.

Hoje pela manhã, o dia nascia. Acordada na cama com os olhos fechados me espreguiçava... Aconteceu!

Vi Igor, ele andava só, de costas para mim.

Assustei-me, abri os olhos com o corpo trêmulo. Como e por que alguém que viveu em 1812 vem até aqui? Com que direito! Já estou ficando sem a menor coerência e confusa: sonhos, visões, afinal o que é isso?

Estou levando longe demais o efeito dessas taças. Acho melhor devolvê-las. Devolvê-las me traz a razão racional.

Segunda-feira.
Noite, é quase madrugada.

Não consigo dormir. O motivo é o mesmo: as taças e o homem. Não devolvi as taças, não sei o por quê. Cheguei a pegá-las e ir até perto da loja de antiguidade. No caminho parei o carro em frente ao mar e perguntei a mim mesma o motivo de querer devolvê-las.

Tenho sonhado e tenho visões com um fantasma. Honestamente, isso não me assusta, o que me intriga é o motivo.

Da noite de domingo para segunda, sonhei com ele novamente. Estava sério e seu olhar refletia uma tristeza profunda. Ouvi sua voz: - Por que você parou?

Deus meu, a quem cabe essa pergunta, a Natasha ou a mim? Onde está a resposta? Quanta dualidade, não sou do tipo sonhador nem alimento desilusões para ficar pensando ou fantasiando um homem em minha vida. Existe uma frustração no lado profissional, mas não emocional. Toda essa história envolve discernimento, que não tenho – um homem que viveu ou suponho que viveu em 1812 – surge acompanhado de uma mulher, Natasha, em sonhos e visões, e lança esta pergunta, não sei se a ela ou a mim.

- Por que você parou?

O que significa isso? Onde anda a coerência?

Olhei o mar, sereno e tranqüilo. As taças, no banco do carro a meu lado.

Posso mergulhar, dentro de mim; um meio sorriso veio-me aos lábios: Acho que esta você ganhou, Igor!

Tenho uma amiga espiritualista e sensitiva que talvez possa ajudar-me. Esta nova perspectiva fez meu meio sorriso aumentar e uma grande alegria se apoderou de mim, e voltei para casa.

Só não consigo dormir, existe algo no ar que não consigo discernir.

Até o fato de descrever o sonho me perturba... Não, não e não, o que me perturba, desnorteia-me é ele.

Descrevo-o de forma impessoal, seca.

E o que sinto não é isso. Ao ouvi-lo: - Por que parou?

Do mesmo modo ou meio que surgiu, emergiu seu nome, sei que está dentro de mim a resposta a sua pergunta, feita a Natasha ou a mim. Há uma resposta, embora, como afirmei, não consigo discernir.

Comecei a procurar um terapeuta.


Quarta-feira.
Noite estrelada.

Conversei com minha amiga. Ela disse-me que tentasse falar com ele. Não lhe falei muito, pois até falar sobre o assunto me é estranho; constrange-me.

Mas, agora, talvez faça sentido; existe a sensibilidade. E não nego esse fato. Ela, a sensibilidade, está em mim, está em todos.

Porém, tentar falar com Igor talvez implique mexer em casa de abelha.
Isso gera expectativa, e se há coisa que não gosto é ter de ficar na expectativa. Senti-la é bloquear os sentidos e ficar tensa quanto ao não esperado. Isso gera emoções confusas.

A expectativa gera o imediatismo, atos impensados. Creio que existem dois tipos de expectativa: uma, basicamente física, deixa antever o que vai acontecer; a outra é mais difícil e a gente só sente algo no ar. Trabalhar a primeira é fácil: basta seguir a regra da eliminação, juntando-se à razão. A outra não: tenta-se aguçar a sensibilidade, isso excede aos cinco sentidos e nos dá amplitude; leva-nos a tomadas de consciência.

Quinta-feira.Chegou um pacote da embaixada da Hungria. Senti-me como uma criança abrindo-o. Veio um livro sobre o lago Balaton, com muitas fotos, quatro folhetos ilustrados, além de um livro sobre a história da Hungria, outro sobre economia e alguns folhetos turísticos.

Ao folhear o primeiro, minhas mãos tremiam. Esse, como os outros, são escritos em espanhol e inglês. E, apenas folheando todo material, distingui exatamente qual fotografia era de Badacsony.

Olhava e sentia. Incrível ver que a Hungria é uma grande planície, tendo como uma das elevações o monte de Badacsony. O mesmo que vi Igor e Natasha subirem! E, mais adiante, fiquei perplexa: um casarão, que aparece numa foto de hoje.

Era dia, quando abri o pacote, mas só voltei a mim quando bateram na porta do quarto de estudos. Já era noite!

- Volte o tempo...

Ouvi dezenas de vezes.

- Volte o tempo...

Emoções confusas: Hungria, Badacsony, 1812, que agora pula um ano, Badacsony 1813.

- Volte o tempo...

É a voz forte e grave de Igor, ouço-a distintamente:

- Volte o tempo.

Ecoa no meu ser por inteiro, e surgem cenas...


 

O que posso falar, o que tenho a dizer?!!!
Saí de casa e vim ver o mar. Andei, tentando pensar melhor. Sou uma pessoa equilibrada, ou fui.

Folheei diversas vezes os livros. O mar que vi em sonho é o lago Balaton, que é o maior da

Europa Central. O monte onde fica Badacsony, a casa branca... A emoção é mais forte que eu, exala na pele. Tento ser analítica, e de repente, vem uma nostalgia, uma saudade. Uma vontade de correr até lá. Não a Hungria de hoje e sim a Badacsony de 1813.

Molhei meus pés na água do mar, sentindo a água do lago e ando já nesse quase anoitecer, vago na verdade, como são vagos meus pensamentos:

- O que ocorre comigo? Estaria ficando louca?

Nostalgia e saudade de quê?

No íntimo, eu sei. O que não quero e não posso é admitir, pois admitir é assumir essa insanidade, essa emoção louca que me assola.

Estou numa corda bamba, numa divisória: de um lado existe a real existência e do outro um fantasma me pede: - Volte o tempo.

Voltar para quê? Voltar por quê?

Essas palavras ressoam em todo meu ser, são como um eco.

O que você está fazendo comigo, Igor? Eu não posso viver assim. Você me escuta? Se você é uma fantasia da minha mente fértil, o que faço com as cenas, sonhos que se tornaram fato.

Tenho que colocar meus pés no chão, estou em 1988, moro no Brasil.

Porém, o tempo é um Deus mágico, e o pedido é contínuo:

- Volte o tempo...


Sábado. Julho.
Noite.

A minha amiga espiritualista veio conversar comigo: perguntou-me o que tinha, achava-me distante.
Contei-lhe, superficialmente, o que se passava comigo. Ela falou: - Por que você não se dá um tempo para ver o que é isso.

É, poderia ser, se isso não estivesse me atormentando. De qualquer maneira, é um fato a pensar.

Apenas pensar, pois se deixo o sentimento chegar, ele leva-me e chego à frente dele, Igor.


Segunda-feira.
Amanhece com chuva.

Refleti que seria muito bom sentir, realmente, o que se passa comigo. Como uma maneira de compreender. Tentar soltar-me.

Ouço palavras, surgem cenas. Cria-se um mundo distante mais palpável, absurdamente palpável.

Estava no banho quando ouvi a voz que já me é conhecida. Para explicar o que aconteceu, ficou-me a impressão de que o mundo havia parado, o tempo parou.

- Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros... Posso tocar tua alma, teu ser; pois o amor pode com tudo. Amor sem limite, sem tempo e distância. Que irá perdurar para sempre e sempre.

Embeveci-me e entrei em cada palavra, senti o seu sentido e perguntei: - Você é algum mago?

A voz ecoou forte e quente: - Um mago? Talvez. Um mago e um sentimento.

Queria ir além, mas voltei a sentir os pingos de água no meu corpo.

Sendo sincera, não importa se faz sentido ou não, pois realmente não faz.
Importa sim, o que sinto quando ouço a voz dele.

É algo tão grandioso, tão conhecido; não posso negar a mim mesma!
Meu coração acelera, pulsa. E a mim parece que uma parte minha vai ou está com ele.

Terça-feira.
5:10 da manhã.

Sonhei com ele.

Ele estava sentado num banco de pedra.

- Volte o tempo.

Levantou-se e estendeu sua mão.

- Venha, volte o tempo. Não tenha medo, estou com você.

Neste instante ele deu um leve sorriso. Mas muito além do sorriso foram seus olhos.
Eles brilham e sorriem sozinhos. Um brilho intenso e forte.

Acordei. O dia nascia, os pássaros cantavam, um suspiro saiu de mim.

Existe uma guerra travada com a lógica, com a coerência.

E nesta altura o sentido se perde, e o que fica é o sentimento.

Noite.
Céu estrelado.

Fui à casa da minha amiga espiritualista. Ela falou ser Igor uma pessoa ligada a mim numa vida passada, termos uma ligação. Começo a desatar o nó que se formou na minha cabeça.

O marido dela, um grande amigo também, me ofereceu a casa de praia deles, que fica à uma hora daqui. É um lugar de veraneio, e agora, como é inverno, está vazia. Isso me daria, além de um excelente cenário relaxante, tempo para refletir, de achar-me. É uma proposta tentadora.


Quinta-feira.
Noite com chuva.

Como os pingos da chuva, daqui da janela vendo, caindo no jardim, no jasmim, o perfume doce presenteia toda a casa. Como os pingos da suave chuva, cai em mim a história, ela toma forma.

Estou feliz, feliz como esse doce perfume que penetra em mim.

A realidade é dual: solto-me e sinto uma historia, tão distante e eu tão dentro dela. As cenas são fortes, e geralmente me perco em tentar ter coerência com o que está me acontecendo.

Nesse momento vou ver as taças, mas o que impera é Igor.


Sexta-feira.
9:45 manhã nublada.

Não fui à ginástica, andava na praia, o mar lindo e sereno. É sempre assim quando chove.

O pensamento corria solto, sem forma, abstrato, aí senti:

- A tenger hullamáinak moroja. Abril 1813.

Estamos no final de julho.

Liguei para a Embaixada da Hungria. No íntimo, sabia exatamente a tradução. A secretária da
Embaixada riu ao ouvir meu pedido: - Por favor, gostaria de falar com alguém que fale húngaro.
Logo ouvi a voz de um homem que traduziu: - O murmúrio das ondas do mar.

A decisão foi tomada, vou para casa de praia da minha amiga.

Como também, na volta, já marquei a terapeuta.

Noite.

Tudo organizado. Terça-feira vou para a casa de praia. Minha previsão de estada é pouco tempo, mas isso é modulável de acordo com minha tentativa de compreensão, parece-me mais um retiro onde eu possa chegar à razão. E o tempo será um grande fator.

Divinizo tempo.O tempo numérico, etário, contado aos dias, meses e anos.O tempo do sol ou chuva.O tempo pessoal, indeterminado.Ele é tão fictício. Hoje choveu e, agora, a noite está linda.

Quando estamos bem não contamos, o tempo voa, nem é percebido. Se existe ansiedade ou angústia, ele se arrasta como um prisioneiro que leva ao pé uma corrente com bola de ferro.

Muitas vezes, em fração de segundo, obtemos respostas que valem horas ou dias de reflexão. E muitas vezes, o próprio tempo nos poupa; noutras, é como um inquisidor que nos leva a alto grau de questionamento. Esse tempo pessoal parece seguir uma cronologia encantada de pessoa a pessoa. Ele é o elo do impossível ao possível? E ele que nos gera a esperança do logo mais...


S
egunda-feira
Anoitece.

Como um mergulho.Mergulho solitário, busca-se compreensão...Excede, busca-se consciência.Mergulho solitário no tempo. É a esse tempo que vou recorrer? O tempo pessoal – indeterminado?

O tempo do não tempo. Não sei, e jogo no tempo a pergunta.

No mergulho, de antemão sei que existem surpresas; algumas agradáveis, outras não.
O mergulho, rasgar o véu: 1813. E um pedido mágico:

- Volte o tempo, solte-se.

Esse processo me faz acionar a vontade. A vontade de quem sabe tocar o impossível.

O céu está belo, um tom avermelhado se espalha junto ao azul Royal, parece que o Grande
Pintor faz mistura em sua tela.Uma alegria invade meu ser, o espírito torna-se crescido, sinto-me como se pudesse tocar o infinito. Sorrio, lembro-me do que Igor falou: - Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros, posso tocar sua alma, o seu ser.

Esse mago pode mesmo!

Noite passada eu falava com ele: - Estou indo passar esses dias nessa casa de praia, soltar-me.

Sinto aqui dentro de mim, algo quente, é o teu chamado.Real ou irreal, você já existe. Ajude-me, pois estou no limiar. Ouça-me mago, começo a respirar você, começo a ter consciência de que tenho um sentimento por você.Que loucura!

Sonhei com ele, o que já é natural.

Vi-o numa colina, seu cabelo negro elevava-se ao vento.

Pude observá-lo melhor, sua altura é mediana, porém sua presença é forte, sua pele tem um tom moreno de sol. Seu rosto é de formato forte, com queixo quadrado. Tem as sobrancelhas grossas, quase são unidas, seu nariz é bem feito, sua boca um tanto grande e seus olhos são negros. Eles me fascinam, existe neles um comungar comigo, algo mudo e selado.

Não existe como verbalizar isso.

Interessante é que eu o via, mas não me via no sonho, só em alguns momentos ouvi minha própria voz.Ele falou: - Estou esperando.

Perguntei: - Esperando o quê?

Ele ficou sério, franziu as sobrancelhas, demorou um pouco e falou, com sua voz grave e pausada: - Espero você, e você sabe disso.

Fiquei atordoada, lembro-me que nesse momento tive a sensação que ia acordar. Mas o sono, o sonho ou sei lá o quê foi mais forte, pois continuei a sonhar, e perguntei:- Por que você espera?

Ele abriu um sorriso.


- Isso você também sabe, mas vou repetir, porque amo.

Meu corpo tremeu, entrei num sono confuso, vi Natasha e ele, e era ele que falava:

- Mesmo que me cale, que fique mudo; mesmo que morra, você ouvirá sempre minha voz. Sabe por quê? Porque você está em mim e eu em você, onde existe um, existe o outro.

O sol nascia quando acordei, a casa era de total silêncio. As palavras de Igor repercutem até agora. O sentido delas eu não entendo, ou não quero pensar agora, o que me assola é o sentir, é tão grande quanto a tela do Grande Pintor.

 

Terça bela.
Enfim aqui estou!

É uma casa gostosa. Estou na sala e daqui vejo o mar. Ela tem três quartos, uma pequena cozinha, sala de estar, e de jantar, e um grande terraço na frente. É cheia de altos e baixos, sobem-se dois degraus para sala de estar, em qualquer posição vê-se o mar à frente. Os móveis são de alvenaria, tudo simples e bonito.

Trouxe pouca bagagem, na verdade, a bagagem está em mim.

Ainda há pouco minha mãe telefonou-me, e perguntou o que estaria a fazer no inverno numa praia de veraneio.


O que vou responder?

- Olha mãe, estou vendo um homem extremamente atraente que pede para eu voltar o tempo e encontrá-lo lá pelos anos de 1813.

Se eu assim respondesse à minha mãe, ela me levaria ao médico, com certeza. Mas ainda acredito na minha sanidade. A resposta é: preciso de um tempo sozinha.

Terça-feira.
Fim de tarde.

 

Respiro este bem estar!!!


Quarta-feira.
Manhã dourada.

Andei muito na praia.
Existe um sentimento real pelo irreal.Igor toma o espaço qual a vastidão do mar.
Por mais que minha mente resista, ele rompe a resistência ou o que sinto referente a ele.

Essa noite sonhei com uma caravana cigana, eu estava nela.
Ouvi tiros, tiros de canhões e via tudo branco pela neve.

Fiquei até tarde tentando ler os dados de Badacsony. Ver as fotos me faz bem, é como se estivesse vendo um lugar muito conhecido. Essa estadia está me fazendo bem.
Depois de um mergulho no mar, estou aqui na varanda.
A natureza abençoada à minha frente, uma brisa suave e o pensamento longe.

11:40

Sinto-me levada...

Ouvi Natasha gritar:

-Ouço, Mikail, Igor gritando por mim! Existe desespero em sua voz, eu ouço, ouço!

Quem é Mikail?

Andei muito na praia.

Existe um sentimento real pelo irreal.

Igor toma o espaço qual a vastidão do mar.

Por mais que minha mente resista, ele rompe a resistência ou o que sinto referente a ele.

Essa noite sonhei com uma caravana cigana, eu estava nela.

Ouvi tiros, tiros de canhões e via tudo branco pela neve.

Fiquei até tarde tentando ler os dados de Badacsony. Ver as fotos me faz bem, é como se estivesse vendo um lugar muito conhecido. Essa estada está me fazendo bem.

Depois de um mergulho no mar, estou aqui na varanda.

A natureza abençoada à minha frente, uma brisa suave e o pensamento longe.

15:20

Como num estalo, tomo consciência.

É isso! Tiro de canhão. Em 1812 Napoleão invade a Rússia.


17:12

Que explicação teria uma promessa,

um voto na convicção de duas pessoas,

duas almas tão ávidas de amor, amando-se tanto!

A permanência afetiva é a convicção da alma quanto ao amor, ele ama, ele permanece e espera, é isso? Por isso você permanece e espera?

- É com você Igor, que estou falando!

Você permanece onde? Em 1813?

Droga! Não consigo afastar isso da minha mente.

Onde anda a razão?


18:50

Novamente andei na praia, tinha que sentir meus próprios pés.

A vontade é correr, correr...

E assim, quem sabe, varar o próprio tempo e chegar a 1813.

Mesmo sabendo do impossível, corri. Corri até não agüentar mais.

Existe uma profunda nostalgia. Existe saudade.

Estou em busca da razão!

2:20

Só pode ser loucura!

Chorei como criança, chorei até dormir.

Ouço a voz dele:

- Aproxime-se mais. A busca é a razão, e a razão é o nosso amor. Tão eterno quanto o tempo. Ter consciência do seu significado é ter a certeza da nossa realidade: onde existe um, existe o outro. Amo você, amada.


Quinta-feira.

9:45.

Acordei tarde.

Tento, às vezes, diluir toda essa vivência, mas o mais forte é a lembrança dele, é como um marco.

Fechos os olhos e retrato-o, tateio tentando alcançá-lo mais e mais, mas às vezes vem o vazio...

A vontade de entender é mais forte, ou mais forte é a saudade, assim como a vontade de estar, de ir.

E o que mantém tudo isso é a busca até você. Você falou que a busca e a razão estão em 1813, foi isso?

Por isso quis varar o tempo. Meu ato de buscar a razão é ir ao encontro. Estar com você é a razão. É tudo que mais quero. Aí você afirma que a razão é o amor, eterno como o tempo, 1813 - 1988. Ter consciência do significado do amor é ter a certeza da nossa realidade. Essa nossa realidade.

Sinto-me como um balão, mas para que lado sopra o vento?


21:30

À distância do tempo.

À distância de um tempo.

A lua quase cheia ilumina o mar, o mar está baixo. Lá em frente um ponto luminoso, algum pescador sem dúvida. Falo a outro pescador: - Lanças-te a rede e estou nela, vem me buscar!

O horizonte enorme, a imensidão do céu, mil estrelas brilham.

E eu aqui, em meio à natureza revestida de uma linda noite. Uma noite linda!

Onde tudo é tão vasto, sem limites: é o mar, é o céu.

Mas, apesar de toda essa visão ilimitada, sinto-me presa.

E onde está minha prisão? Que grades me prendem?

Meu corpo é minha prisão. Sem essa prisão, meu ser voaria e alcançaria o impossível.


Sexta-feira.

Amanhece.

Dou-me conta de que meu vôo é muito alto, alto demais para um simples mortal.

Ele elevou meu sentimento e pensamentos ao inatingível.

Levou-me a terras distantes, e estou lá. Nada atual povoa meus pensamentos.

Estou no topo de uma montanha, numa profunda solidão.

Olho para baixo, e dá vontade de descer, ser normal, sou humana, não é?

Olho o céu, o abstrato, talvez as respostas. A morada dos imortais.

O grito de extrema angústia está preso na garganta.

-Aonde vou chegar?

Queria ser acalentada, queria um colo. Tenho medo de perder os pontos referenciais.


Segunda-feira.

Amanhece.

Cheguei a querer ir embora, fiz as malas

A minha realidade: é o hoje.

A minha luta interna de uma realidade sem tato, sem corrimão.

Só que é tão forte, tão viva e tão sentida que ao anoitecer, senti que não poderia voltar. Estaria fugindo.

Meu interior acalmou-se numa paz tão visível.

 

(Continuação no site ao lado esquerdo em: Taças)

 


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