História Encantada

Irmãos Índios continuação

 

 

Ao amanhecer o Senhor chama-me e manda-me colocar os sapatos, coloco-os, eles vão além do tornozelo, não gosto.

Segui com quatro homens, eles tinham os arcos às costas, qual os arqueiros!

Ver a caça. Seguia os cabelos negros de Raio de Trovão.

Não pareciam satisfeitos comigo ali.

Seguiam à frente, eu ainda sentindo o olhar da bonita Milho Amarelo.

Entrávamos no lugar das altas árvores, sentia dentro de mim satisfação, ali: floresta.

Lindas árvores, de formas diversas; maravilhada acompanhava, querendo parar para sentir. Eles não paravam e impacientes se voltavam. E foi, em meio às grandes árvores, que de repente, caiu água do céu!

Parei! Não era orvalho, água, bastante água.

Ergui o rosto, fechando os olhos, que sentir tão belo e bom. Toquei as folhas molhadas.

Senhora, Grande Senhora, que Terra abençoada tens!

Que a benção da Luz e da Graça caia em Tudo.

- Filha da Estrela. Vem!

Saí do que sentia ao perceber a “irritação” de Cavalo Bravo, respirei fundo guardando aquele momento, e, por um momento, vi em Raio de Trovão que ele compactuava o que eu sentia. Cavalo Bravo pôs-se a andar rápido e todos o seguiram.

A minha frente Raio de Trovão andando veloz, era ele e a natureza.

De repente, paramos, silêncio: gesto algum, gesto algum.

Não me movi, vi um bonito ser animal.

Olhei para os homens que retiraram os arcos das costas e miravam. A água caia com menos intensidade.

Perdoem-me, virei para uma árvore ouvindo o som dos arcos e o som do ser animal caindo.

Morte? Virei-me... Sim, sangue saia dele.

Por que o Senhor mandara-me?

Eles se debruçaram sobre o ser animal e ouvi, ouvi-os pedirem perdão à família do ser animal e darem graças por poderem alimentar a família-tribo.

Compreendera, eles pediam permissão para o alimento, pediam perdão pela morte.

A Senhora Mãe compreenderia?

Na volta à tribo, a água parou de cair do céu. Ao chegarmos, fui para perto do rio. Não sei o tempo que fiquei ali, até que o Senhor chegou perguntando-me como fora.

Não olhei para ele, só respondi: Morte.

- Sim, e não entendeu? Aqui, você deveria saber, é necessário ter peso, densidade, para muitos permanecerem. Antes, pedimos à Mãe Terra permissão para a caça.

Inquieta, não me parece...

- Oh! Estais julgando? Aqui, estais para aprender.

Olhei-o; então o Senhor alcança o que sinto! Não me surpreende, pois conheço seu olhar, é de Lá.

- Cá estamos, e aqui há a Lei da natureza, com a qual compactuamos e a respeitamos, é isto que nos torna diferentes de alguns homens.

- Perdoa-me Senhor, me é desconhecido.

Naquela noite, Milho Amarelo, parecia antever, pegou um pedaço do ser e deu-me, seria uma ofensa eu rejeitar. Saberei agir.

Agradeci, peguei um pequeno pedaço colocando-o à boca, ele ia de um lado a outro.

A água transparente, o vento soprava.

O Sol estava para se “pôr” nas montanhas, um gesto do Senhor e o segui. Caminhamos, seguíamos para um lugar que parece um vale.

É um vale, o vento soprava e toda vegetação, quase da minha altura, se inclinava com ele como que dançando. Belo!

Milho!

Eles, num campo enorme dançavam ao vento.

A paisagem, o sol com sua tonalidade de final de tarde.

O Senhor sentou-se, e eu maravilhada olhando.

Abençoada Terra, natureza tão bela, plena de amor que tua Senhora dá, é visto a olhos vistos. Não te enxergam?!

Impossível, ficar imune à tua beleza! O vento inclina o milharal.

Sorrindo, me movo como eles, as crianças sabem?

Ele aponta e vejo seres-animais saltarem alto, em sincronia perfeita com o som do vento, as folhas e flores.

Inclino-me rodando, sentindo o vento, sentindo o perfume.

- Filha da Estrela, ouves o vento?

- Sinto o vento, Senhor... Ele move as flores.

- Tens que ouvir o vento, ele trás mensagem.

Paro olhando para ele... Trás mensagem, como o Som nas teclas? Como a Pedra? Pelo vento, posso ver o povo?

Ele dá um riso alto, é a primeira vez que o vejo assim. Neste instante chega, correndo como o vento, Olhos de Águia.

Atrás dele, a cavalo, Raio de Trovão. Que à distância nos observa, faz saudação e se vai. Gosto de vê-lo. Ele é como a natureza, e sai cavalgando em disparada, com o longo cabelo ao vento.

E meu coração pulsa lembrando do tempo em que o Arqueiro foi me buscar.

O Senhor continua:

- Não podes ver o povo. E sim, ouvir as mensagens, é o ar da Mãe Terra, Ela deixa passar mensagem: se vem chuva, se os brancos estão perto; e bem mais.

Para ouvi-lo, tens que estar sem sintonia com ele. Coloque a mão no coração, isto, agora dê toques leves e ritmados nele, isto sempre farás. Fique com o ouvido em sua direção... Isto! incline a cabeça para ouvir, assim com o ouvido esquerdo. Bata levemente no coração, assim, agora ouça.

Sentia a vibração, minha visão está na beleza do que o vento faz.

- Para passar mensagem, vire-se na direção que corre o vento e passe, em palavras, tua mensagem. O vento sempre retorna à origem. Entende-me? Não pare de dar toques ritmado no coração. Você verá e sentirá que o vento como a chuva, respondem.

- Sim, Senhor. O que ele diz? Ele atento, fala:

- Que o tempo quente esta chegando e, com ele, os brancos também. Passe mensagem, Filha da Estrela.

Viro para onde o vento corre.

- Mãe Terra! te agradeço estar aqui, num belo lugar. De estar com os irmãos índios, que tudo seja abençoado por Ti. Vento, com a permissão da Mãe, leva ao Arqueiro o meu sentimento!

Te saúdo, posso?

- Sim!

Naquela noite ficou decidido que rumaríamos para outro lugar.

A Senhora Anciã me disse que os homens brancos já tinham matado várias tribos. Por que, perguntei.

Ela respondeu que não sabia.

E, ao amanhecer, rumamos.

Foram desfeitas as moradias, colocadas nos cavalos.

E rumamos, seguia junto às crianças, pois, para elas como para mim, tudo ou quase tudo era novidade.

Fazia calor, muito calor. Seguíamos beirando o rio, vez por outra as crianças e eu caíamos na água.

Observava a hierarquia, são calados e vigilantes, como o Senhor que nos observava com seu sério olhar, como também de alguma forma, Raio, Ele observava tudo.

Os sapatos faziam meus pés doerem.

E quando a Lua redonda chegou, ainda não tínhamos feito as moradias. Ao redor da fogueira comíamos. Sentados nas peles, este era o nome da relva macia na qual sentávamos ou deitávamos, ao ar livre, as crianças cansadas, dormiam.

Retirei os sapatos e assustei-me, de um dos meus pés saia sangue, estava ferida. Fui para o rio.

O coração batia: sangrava, morreria?

Coloquei a mão no coração e passei no pé: Luz em energia, recomposição!

- Não, Filha da Estrela, não é assim. Falou o Senhor.

Pegou uma folha de uma arvore, antes pedindo permissão e espremeu a seiva em cima do pé.

- Éis a pura seiva da Mãe Terra, curai-a.

- É sangue, Senhor.

- Sim, feriu-se, só isto. E a pura seiva te cura.

- De qualquer arvore?

- Não, só daquelas que dão os frutos que tanto gostas. A Mãe Terra sabe, como teu corpo, o que ingeres gostando. A seiva, com a permissão e a palavra verdadeira, cumpre o propósito. Enrole o pé com a folha, ao calçar o sapato.

- Senhor, podes me responder: há algum tempo quero saber, por que tememos o homem branco? Ele é “mau”?

- Filha da Estrela, atenta às palavras! Você ouviu isto de alguém daqui, porém, atenta ao usá-las. O homem branco ainda não aprendeu a respeitar a natureza. Não tememos o homem branco, porém, eles não aprenderam as Leis da Natureza, de sua própria natureza. Acham-se donos dela, com isto trazem a doença: o medo. Temem o inevitável, as leis que ferem. E, por temor, querem a posse do que não lhes pertence, como as terras, os rebanhos.

Querem ser donos do que não tem dono, por medo. Entenda, eles ainda não aprenderam... Só isto.

- Matam as tribos? O povo-tribo?

- Sim, por que desconhecem as Leis, por que somos uma ameaça a eles. Aceitamos e agradecemos o que a Mãe Terra nos envia, nos dá. Eles ainda lutam! Chegará o tempo em que aprenderão.

- E se matarem toda tribo?

- Se for, será. Não compreendes que não adianta lutar? Há Leis.

Nos temem por vivermos dentro das leis naturais, vivemos na terra da qual eles se sentem donos.

Olho a noite... Ele continua.

- Medo, sabes o que é realmente? É a falta de amor, é a ausência do amor.

Terra tenho amor por ti?

Em natureza, como não amá-la?

Impossível não achá-la bela. Ela nos dá tudo. Tenho um imenso respeito. Ela é livre, sem dono... Nosso povo-tribo sabe disto.

A mim parece que é como foi no Reino Cristal, saíram Alguns para não se misturar, a Tribo sai para não se misturar.

- Filha da Estrela, olha o fogo.

Viro-me para o fogo.

- Olhe para ele, e sinta a sua finalidade. O usamos para clarear a noite, para nos aquecer, para cozinhar os alimentos. Olhe para ele, ele é um elemento que segue o propósito de quem o acendeu. Ele segue o motivo pelo qual foi aceso. Olhe para ele, e pergunte sua finalidade. Olhe a fogueira e pergunte.

- Clarear.

- Este é seu intuito, só que aqui sentados estavam muitos. Eu disse, olhe para Ele e pergunte seu intuito.

Olhando o fogo, olhando. Sua beleza, seu colorido, não está com o tom azul. Qual teu intuito?

Vejo, vejo pelo sentir, Ele foi aceso para iluminar, porém, não foi mantido só este propósito, Ele captou as historias. Existe nele, forma distorcida, estranhamente distorcida; como a guerra!

Relatei ao Senhor observando o fogo.

- Agora, disse o Senhor, é lembrá-lo o propósito para o qual foi aceso, para Ele, como elemento que é, queimar o que captou. Ele foi aceso para iluminar.

Ele repetiu e repetiu, olhando o fogo.

- Para afugentar animais? Assim ouvi.

Aí o fogo ganhou uma coloração alaranjado, formando labaredas.

Estava num tom azulado e mudou de cor!

- Estais vendo? Quem o acendeu com receio dos animais?!!! Ele foi aceso para iluminar. Ao iluminar, Ele, por si, cumpre. Pegar uma fração do que Ele cumpre e enaltecê-la foge do puro propósito. Ele foi aceso para iluminar. Repita.

Repetimos, Ele acalmou-se.

- Aqui, Filha, sentimos e nos apegamos muito com as frações do puro Propósito. É sempre necessário, em tudo, lembrar o puro propósito. Aí, tudo se torna simples, pois a natureza colabora.

Olhei o fogo por um longo tempo, mantendo Propósito: Iluminar.

Pensei que tínhamos chegado ao lugar, engano meu, andamos por dias.

Aprendia a ouvir o vento, senti-lo, geralmente tinha que fechar os olhos, pois a natureza é tão bela que ficava a admirá-la.

Num dia de calor, Punho Forte saltou do cavalo e apontou-o para mim. Senti, no gesto, que fazia parte da tribo.

- Eu não sei montar.

Num movimento rápido, colocou-me em cima do cavalo branco.

Eu não sei montar, em seguida, pulou à minha frente. Segurei-me nele, que deu um grito e disparamos, corríamos para o leste. Segurava-o com força. Porém, liguei-me ao branco cavalo, senti seus movimentos perfeitos, e me entreguei aos perfeitos movimentos.

A velocidade magnífica, sentindo o vento.

Descíamos e subíamos montes, meu riso era levado pelo vento.

E para nós ficou como um trato, por vezes os meus pés doíam, olhava para Punho Forte e ele cedia Branco.

Enfim chegamos a um lugar onde as moradias foram armadas.

Um vale, entre os montes e a floresta.

Muitas vezes, com permissão, pegava Branco e já sozinha corria, corria sentindo o vento.

Pedia à Mãe Terra para nos mostrar algum rebanho, pois era necessário ao nosso povo, já, ha bastantes noites, falavam nisto, que naquela mesma época, tinham encontrado.

Era tempo disto.

Falava ao amigo vento. Sentia, muitas vezes, a energia do Arqueiro, o vento a bater em mim, sentia a energia conhecida: sentimento, o vivo sentimento.

Um dia a Senhora Anciã chamou-me para tecer.

Sem jeito, peguei um objeto de arvore madeira, por longo tempo, eu não conseguia.

A Senhora colocou-me, então, para segurar “linhas” entre as mãos, e com muita paciência me ensinou.

Aprendi: paciência - numa espera se faz algo que beneficie à todos.

O tempo mudava, fazia frio, leve, mas, era sentido.

Cavalgava com Branco; sentir o vento era para mim uma benção, afora tudo que ele trazia e a mensagem que levava, de alguma forma, ele me aproximava do Arqueiro, talvez por sua sutileza tão pessoal e tão presente como um presente.

Cavalgava abrindo os braços para senti-lo por inteira.

Qual tua mensagem, amigo vento?

Não ouvia, só corria com Branco.

De repente a terra parecia tremer: desconheço.

Fui parando... E vi na colina, pareciam cavalos enormes!

Enormes, vindo na minha direção.

Não escutara o vento!

E agora ?!

Fiz a volta com Branco, mas, os outros eram velozes.

Um rebanho enorme, a terra tremia.

E agora? Correr, correr para junto do povo!

O coração acelerado, estrondoso como os trovões: é o barulho, bem próximo.

Olhando para trás, eram tantos, corria.

Eles logo me alcançariam, corria.

Iriam me alcançar, corria gritando a Branco: rápido, por nós!

Mãe Terra ajuda-nos! Não ouvi a tua mensagem, ajuda-nos, a Branco e a mim.

Minha boca está seca, o coração parece que vai sair, olho para trás, não falta muito para nos alcançar.

Corríamos... Vi na colina, chegava alguém, que veloz como o vento vinha em minha direção. Veloz como o raio, chegava.

Atrás, o rebanho estrondoso, já à minha frente, Raio.

E, num movimento preciso, puxou-me rápido para as grandes árvores.

Ficamos em meio às elas, eu respirava tão rápido. Vendo os enormes animais passarem, o som forte.

Ele segurava as rédeas de Branco, até que passaram.

- Obrigada.

Ele me olhou e deu um leve sorriso, e como o vento rápido, tocou meu rosto.

- Manada de búfalos.

Voltamos para a Tribo, pelas grandes arvores.

Era quase noite quando chegamos, já se reuniam para se alimentar. Raio, ainda no cavalo, gritou:

- Filha da Estrela encontrou a manada de búfalos!

Gritos de festa.

Desci de Branco e o levei para o rio. O Senhor me acompanhou.

- Eu não encontrei, Senhor, estava correndo, sentindo o vento e não o ouvi. Foi Raio de Trovão que me tirou dali! A manada iria me pegar.

O Senhor, sério, me ouvia e por fim falou.

- Eu senti. Se ele tivesse dito que a tinha salvado, você deveria algo a ele. Digno foi.

- Ele não falou a verdade para que eu não lhe deva nada?!!! Porém, se assim for, eu devo.

- Quando as palavras estão dentro do motivo positivo, como ele as usou, quebram regras criadas por nós. Digo, por nós, não pelas Leis. Ele usou as palavras de forma positiva, pois sabe que você não está presa às regras e nem quer te prender. Entenda, Filha, quando não se tem muito a dizer, que se pronuncie o positivo, a beleza, a liberdade.

Entrei na água, senti a água salgada, lágrimas, não eram de dor.

Era novo para mim, a Graça caia sobre mim, um sentimento extenso.

Na Terra, Grandes Homens como Raio. Que são: a pura liberdade.

Mãe Terra que tua benção caia sobre este Grande Homem.

Que a pena de ave, que ele usa no cabelo, por sua bravura, seja a Graça de atos extensivos a todos, tão conscientes, como os que ele tem.

Ali, aprendi, vivendo as Leis da natureza, de forma às vezes sutis, como o vento ou a chuva. Por vezes, de forma forte como algumas ações dos guerreiros.

A convivência com a grande família, eles trazem um amor tão grande, zelam por todos... Como Lá. O Conselho, como Lá, decidia pela sapiência da “idade”.

A Senhora, Mãe de todos, dá a todos, todos os meios de viver. Seguir as Leis naturais da natureza harmoniza.

Ir de encontro a elas é violar a nossa própria natureza.

Pode-se viver dentro delas de forma tão simples quanto à tribo.

O inverno chegou, sentir a neve e o frio: estranho.

Pois ela parecia com as flores flocos, porém, ao tocar a pele por um tempo, ardia.

A família tribo era forte e não “adoecia” como o homem branco, pois seguiam as Leis da natureza. Que por serem tão simples, tornam-se complexas.

Quando o inverno estava indo embora, o Senhor chamou-me.

Me sentei à sua frente, seu olhar já me era totalmente conhecido.

Sou grata! Grata! Grata por tudo que o Senhor me ensinou.

Aprendi as Leis da natureza: o vento, o fogo, como chamar à chuva.

Ele sorriu indagando, pois sabia como me sentia referente a ela.

- Um assobio forte, o olhar no céu, tocar com ritmo o coração, ligar-se e bater o pé no compasso, é simples...Para o Senhor!

A lei do homem, que por ainda temer, dando poder ao externo: o ser dono, o ter. Delimitaram, limitaram as terras para nosso povo. Houve mortes, muitas mortes, este meu povo que tanto tem a ensinar, pois aprendeu da forma mais bonita e sábia, foi tão esquecido.

Lembro um dia em que vimos uma família branca, passávamos pela margem do rio, rumo à tribo.

E, ao sairmos das grandes arvores, lá estavam.

Raio parou, tirou-me as rédeas, continuou a cavalgar mais lentamente.

Os olhares surpresos, mas existiu respeito de todos nós.

Logo estas famílias cresceriam e dariam à natureza seu respeito. Talvez, não mais as famílias tribos...

Aqui na Terra, é necessário ter paciência, dentro da positividade. E não preencher com o negativo.

Compreendi que o sentimento não traz expectativas, permanece, independente de tudo. A supremacia dele permanece.

Senti que alguns guerreiros colocaram e geraram expectativas, como para dar à tribo “melhor” condição.

Como para estar em “melhor” condição. Sem ter a sabedoria dos Anciões, em chegar-entrar para assim estar.

Chegar-entrar como as leis naturais, estando de acordo com elas.

Elas, as leis naturais, sempre nos mostram a beleza, a harmonia. Vendo este estado natural, o que o ambiente nos oferece de positivo, o pensamento é o justo pensamento, que vê a essência em tudo.

Assim, mesmo que aja a negatividade, ou seja, se negue a atividade, não se detém, ver-se o positivo e vai-se além.

Vê-se a essência.

E foi num dia, não sei bem quando, pois o quando, como tempo, se perde pelo forte teor da experiência-sentimento.

O Senhor, com o olhar, me passou que logo partiria.

Abriu minha mão e colocou uma pedrinha transparente, como os cristais de Cristal.

Lembrei-me da pedrinha.

Fora um dia em que estávamos do outro lado da margem do rio. E ele perguntou o que eu, lhe traria se me mandasse atravessar o rio.

- Traria, Senhor, aquilo que de pura vontade, tens vontade.

Ele olhou para o outro lado da margem: nosso povo.

- Temos que trazer nosso povo.

Foi ali que ele pegou a pedrinha.

Segurei a pedra como a essência que está em cada um de nos.

Nem sempre lapidada, por vezes, pelas duras experiências, mesmo assim, integral: nossa essência viva.

Ele pedia-me: - Temos que trazer nosso povo.

Nas águas limpas do sentimento, não no redemoinho turbulento das emoções.

- Trazer o povo.

Vendo em cada um, a pedrinha transparente, suas essências.

Sentindo a água limpa do sentimento, cantando a canção do vento.

As cenas seguiam por nossos olhar, um momentum contendo todos os momentos.

Saí da tenda sentindo tristeza, não estaria muito tempo com ele.

O inverno passava e passávamos muito tempo juntos.

Ele me avaliava, eu o contemplava.

Aprendia, em vivência, os diversos padrões de consciência.

Porém, o que vale é ver a Luz em cada um, como a pedrinha que cada um tem. Ela pode estar empoeirada diante das circunstancias.

Ancião garimpeiro, que enxerga a Luz em tudo e sempre vê a pedra angular-luz.

Nosso povo se comunica muito mais em gestos e olhares.

Um dia ele pediu-me para ir pegar flores, já não andava tão bem, eu passava quase todo tempo a seu lado. Saí da tenda sem Olhos de Águia. Sentia um aperto no peito, no coração.

Colher flores? Só perto das grandes arvores, pois só agora elas começavam a aparecer.

Não sei bem por que, ao colhe-las fiz como Lá.

Fiz a coroa de flores, colocando-a na cabeça, como sempre usávamos.

A chuva caiu, sentei-me na relva.

A água se misturava com a água salgada no meu rosto.

Senti, dentro de mim, ele partia. Senhor Ancião, por mais razões que existam, minha razão sempre é o coração.

Sentir que partes, parte algo aqui dentro. Rápido veio o pensamento: fazê-lo ficar!

Abaixei o rosto, perdoa-me Mãe Terra, perdoa-me Senhor.

E em ritmo, batia no meu coração.

Não sei o tempo que fiquei ali sentada, sentindo as duas águas, sentindo que ele partia... O vento o levava.

Até que Raio chegou, ele fazia parte dali como a corça que acabara de pular perto de nós, estendeu a mão.

E vi, pela primeira vez, nos seus olhos a água salgada escorrendo. Um colar do Senhor estava no seu pescoço.

Levantei-me, calados ficamos sentindo a chuva.

Das grandes arvores escorria água, entre elas, a luminosidade sutil do sol.

Chuva! Assobio, bato o pé. Coloco a mão no coração. Que leves o espírito sábio e amado ao lugar certo.

Não queria sair dali, chegar na aldeia e não mais encontrá-lo.

Raio pegou-me pelo pulso e puxou-me.

Compartilhávamos.

A água se foi, levando o Senhor Ancião.

E no topo da montanha, seu corpo foi queimado. Coloquei as flores, e as vi queimarem com ele.

Seu perfume, como ele, iriam nascer no lugar certo.

É Tempo, senti. Quando o fogo queimou as madeiras onde estava o corpo do Senhor, o vento soprou: é tempo.

E a partir daquele dia, subia a montanha na espera do sinal.

Fazendo o ritual da távola, onde tudo que está no universo está no aqui-agora.

Sentava-me, fazia um círculo ao meu redor, acendia o puro fogo do lado direito, à esquerda, a pura água, fechava os olhos, sentindo o vento, tocando a terra, fazendo o sinal, trazendo para ali o “desenho” da origem... Esperava a resposta.

Quando chegou a lua cheia, senti. Vinha com o vento, tocando meu corpo, senti.

Desci à aldeia.

Não havia palavras, só gratidão e amor.

Que fiz em gestos mudos, a Senhora Anciã notou. Porém, foi Raio quem captou por inteiro.

Quando a lua estava alta, troquei de roupa. Acariciei Olhos de Águia e saí.

Todos dormiam.

Do meu coração explodia: amor e gratidão. Sentindo o silêncio abençoado, pedindo benção ao meu povo.

Saía de mim tanta energia quente a tudo e a todos. O amor é caloroso.

Segui com a pedrinha na mão.

A visão da família-tribo, amada, está em mim.

No rio, saudei a água, que é vital para todos. E sentado na margem, sobre uma pedra, Raio.

Grande Homem, um dia não longe do hoje, serás o líder de todo nosso povo. Que teus passos continuem fortes, como a natureza.

Com determinação, e que tua ação seja sempre abençoada pela Mãe Terra. Cheguei a ele saudando-o.

Ele ergueu-se e falei em saudação.

- Aprendi tanto contigo, sou grata e rendo Graça...

Num gesto delicado, com a mão, calou-me. Mesmo que não saiam palavras, eu sinto a força e o amor de um Homem pelo povo, respeitando silenciosamente a natureza.

Um risco luminoso cruzou o céu.

- É tempo... Te agradeço. Ele acenou, e eu segui.

Atrás de mim ouvi o latido de Olhos de Águia, sei que me seguia.

Subia a montanha, e a Luz cruzou novamente o céu.

Num dado ponto, parou.

Já a pouca distância da caixa de Luz, que planava sobre a terra; me virei.

E lá estavam eles, Raio e Olhos de Águia.

Sim, tinham permissão. E com a naturalidade do sentir, fui até eles.

Olhos de Águia correu em minha direção, agachei-me, acariciando-o. Tens um grande amigo, Olhos de Águia, zela por ele. O maior guerreiro que conheço.

Ao erguer-me, Raio tocou meu rosto.

Assim é a família-tribo: fortes e sensíveis.

Toco tambem seu belo rosto e sigo para a caixa. Do lado de fora o Grande Homem da Constelação esperava.

Como seu cabelo crescera.

Sorri, sorrimos... Virei - me e fiz o gesto a Raio.

Detenho um tempo, como para registrar tudo aquilo.

O Grande Homem da Constelação o viu e fez o gesto.

Subimos à caixa de luz... Da janela a imagem ficou na memória, o bonito Homem e, ao seu lado Olhos de Águia.

Ali, também vivi, aprendendo e amando.

Ali, com o meu povo-tribo, muitas coisas me pareciam fugir da harmonia que vivia no Lugar-Sagrado. Engano meu, as Leis da Natureza mostram, o tempo inteiro, o equilíbrio, mostram, em si mesmas, o que a inconsciência é capaz de fazer.

Como a própria pele, ela mostra a perfeição, e que os homens por não observá-la, lhe ferem, e, em conseqüência, se ferem.

Violam o que é dado e se violam.

Quem pára para escutar o vento ou, simplesmente, senti-lo.

O zelo ao colher os frutos, pedindo permissão e dando Graças

Com a pedra na mão, um trato: Trazermos o nosso povo.

Não deixá-los à margem da vida.

Não é um trato só meu, claro que não, é um trato de todos nós, referente àqueles que tanto e tanto respeitaram a natureza, que se comprometerem para com o amor e luz da própria essência: o retorno ao Lar. Onde estão aqui em terra na gelada inconsciência, mas o coração aquece...